sexta-feira, 6 de março de 2009

Enquanto Betty não vem...

Há filmes que não saem da nossa cabeça, mesmo com o passar dos anos, até mesmo das décadas. Alguns deles sequer frequentaram as passarelas das salas de cinema, nem mesmo caíram no gosto popular. Alguns os definem Cult, e eles acabam nas seções de Arte das locadoras. Particularmente, eu sempre questionei o que leva um filme a ser de Arte, já que considero arte o fazer cinema. Recebi muitas respostas e nenhuma me convenceu: baixo orçamento, europeu, ninguém entende, com temas pesados, lento demais, esquisito, e por aí vai.

Foi em uma prateleirinha dessas ditas de Arte que conheci muitos dos filmes que tenho como ‘de cabeceira’ e que, acredito completamente, poderiam desfilar em qualquer das prateleiras sem fazer feio. Uma pena que um rótulo mistifique essas obras que, ao contrário do que pregam desinformados atendentes de locadoras, podem apresentar ao cinéfilo em construção um universo de linguagem plural, ao invés de contadores de bilheterias.

No começo dos anos 90, ouvi falar muito de um filme que se tornou, durante alguns anos da minha vida, uma busca sem fim. Ao ouvir um amigo falar sobre Betty Blue (Betty Blue - 37°2 le matin / 1986) fiquei, de cara, com vontade de conferir essa figura que me pareceu, diante do monólogo do meu amigo a respeito dela, uma incógnita interessante de se tentar decifrar. O detalhe ficou por conta de onde ele assistiu o filme. Naquela época, TV a cabo não era para pessoas como eu, poucos tinham acesso a esse serviço. Mas isso não me afetou, a princípio, por isso peguei minha vontade de conferir o filme e fui caçá-lo nas locadoras.

Betty Blue, com roteiro e direção de Jean-Jacques Beineix, fora lançado em vídeo (VHS, meus caros...) nessa época. O pessoal da locadora da qual eu era cliente disse que conhecia o filme, que talvez, quem sabe, logo mais, essa semana não, quem sabe na próxima, e assim os meses foram passando – e eu passando em várias outras locadoras à procura do filme - e minha vontade de assistir ao filme aumentando.

Na falta do vídeo, pesquisei e descobri que se tratava de um filme baseado no livro 37°2 le matin, do escritor Philippe Djian.

Ler o livro foi uma forma de, ao contrário do que eu esperava, assanhar ainda mais a vontade de assistir ao filme. Se Betty já se tornara personagem fixo da minha busca, o que dizer do seu par romântico Zorg, vivido por um ator do qual já admirava muito o trabalho, o Jean-Hughes Anglade?

Muito tempo depois, e eu já ciente do que viria, pois lera o livro, Betty Blue chegou às locadoras. O livro mexera muito comigo, pois a história de Betty e Zorg desfila sem pudores pela solidão inicial do zelador de bangalôs que, ao se tornar amante da bela Betty, também se envolve numa série de loucuras orquestradas pela moça. E nem pense que isso diminui o amor que Zorg cultiva por ela.

Betty oferece a Zorg algo que ele jamais tivera: a sensação de ser realmente bom em algo. Betty decide que um manuscrito de Zorg, já várias vezes rejeitado por editores, é uma obra-prima e deve ser publicado. No mundo dos outros que não o dela, isso geraria reclamações, decepções,, questionamentos. No universo criado por Betty, a coisa fica um tanto ácida.

A fúria crescente de Betty combinada às cenas de sexo com Zorg, e o amor dele confuso e assustado, o dela quase uma tempestade, fazem de Betty Blue um retrato dos relacionamentos onde predominam solidão e loucura. Vale lembrar que a versão lançada em DVD é a do diretor.

Ler o livro me permitiu mergulhar no filme com muito mais liberdade. Betty Blue vale nas duas formas: livro e filme, sendo digno de qualquer prateleira. E da minha cabeceira.


2 comentários:

Anônimo disse...

voçê ficou fascinado por esse filme! até eu fui pesquisar sobre ele na net!a Beatrice Dalle é uma atriz gostosa que tem o dente bem partido no meio! é engraçado quando ela sorri! ela tem uma beleza exotica! vou procurar assistir a esse filme que é um dos seus preferidos!Marcos Punch.

Carla Dias disse...

Fiquei sim fascinada pelo filme. Acho fantástica a forma como a loucura é abordada, assim como o amor entre os personagens principais. Mas se trata de gosto, não? Há quem goste e quem não goste.