quinta-feira, 26 de março de 2009

O operário - Peripécias da Insônia


Pedi indicação de filme para sair um pouco da lista de desejos cinematográficos pessoal. O atendente da locadora disse que era bom, que não tinha a ver com o Batman. Eu, particularmente, lembro-me dele, com certa nostalgia e admiração, como o garoto Jim Graham do belíssimo Império do Sol (Empire of the Sun – 1987), dirigido por Steven Spielberg. Christian Bale, naquela época, já tinha esse olhar de quem enxerga além e, vez ou outra, vira a gente do avesso.



Obviamente, sua biografia – assim como a nossa - vem sendo construída com o tempo. Porém, apesar do que é divulgado sobre sua vida pessoal, não há como revogar o mérito que lhe cabe por ser um ator capaz de encarar desafios, vide o inefável Patrick Bateman de Psicopata Americano (American Psycho – 2000) .



O filme que o atendente da locadora me indicou me reservaria outras surpresas. Eu gosto do Christian Bale, mas nunca acompanhei atentamente sua carreira, o que me levou a assistir O Operário (The Machinist – 2004) somente anos depois de seu lançamento.

O Operário foi o primeiro projeto que Brad Anderson apenas dirigiu. Dos filmes que escreveu e dirigiu, Feliz Coincidência (Happy Accidents – 2000) com Marisa Tomei e Vincent D’Onofrio está entre os meus preferidos.

Se o garoto de Império do Sol me encanta ainda hoje pela forma como lida com a realidade da guerra, Trevor Resnik, personagem do filme O Operário, me fez desviar o olhar da tela, algumas vezes, antes de me concentrar no filme e me deixar levar por ele.

A história de um homem que não dorme há um ano e que no seu trabalho opera um maquinário pesado, foi escrita por Scott Kosar, que estava ciente da dificuldade de transformá-la em filme. A peculiaridade do personagem Resnik, que pontuava a trama, era a magreza... Na verdade, Kasar o descrevia como esqueleto ambulante. Bale se identificou tanto com o roteiro que perdeu 28 quilos para viver Trevor Risnik, misturando aos ingredientes da trama o aspecto visual tão requisitado no roteiro. É impressionante quão cadavérico Bale ficou para se transformar em Risnik.



Mas O Operário não depende exclusivamente da façanha física de Bale para ser surpreendente. Certamente, isso colaborou, e muito, para que compreendêssemos a dimensão do filme. Porém, o roteiro bem elaborado e a direção de Brad Anderson ofereceram um ambiente ideal para que Bale interpretasse Risnik com toda gama de problemas causados pela insônia, convidando-nos para entrar na realidade distorcida de um personagem que se revela extremamente interessante ao lidar com suas culpas.


segunda-feira, 23 de março de 2009

Amigos de Copo

Pessoas!

O Jander Minesso, um amigo muito querido, criou um Blog com suas tirinhas.
Vale a visita: http://amigos-de-copo.blogspot.com.

terça-feira, 10 de março de 2009

Querido Mundo

Lembro-me bem da primeira vez em que assisti ao espetáculo Querido Mundo. Foi num sábado, na companhia e a convite de um casal de amigos, no Teatro Gazeta, em São Paulo. Dia 08 de abril de 2006.

Até esse dia, eu assistira apenas a dois espetáculos teatrais na minha vida. Um deles foi na época ginásio, para um trabalho de escola. Era uma peça com o Antonio Fagundes, mas não me lembro do conteúdo, tampouco do título. Acho que, nesse dia, eu estava distraída demais para as revelações. O outro foi Oeste , com Fábio Assunção e Otávio Muller. Enfim, eu era uma analfabeta no assunto.

Fato é que esse primeiro passeio meu pelo Querido Mundo de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, tão belamente construído por Maximiliana Reis e Jarbas Homem de Mello, e dirigido por Rubens Ewald Filho, foi o meu despertar para a arte de se contar histórias no teatro. Desde então, minha atenção a essa linguagem artística é outra, muito mais aguçada, assanhada até, assim como a curiosidade sobre a arquitetura dos espetáculos, onde nascem os temas, quando, com que roupas, quais adaptações, quais olhares, os tons, os silêncios. Palavras, pessoas, palco, cenografia, figurino, e por aí vai.



Querido Mundo conta a história do encontro entre Elza (Maximiliana Reis) e Osvaldo (Jarbas Homem de Mello), vizinhos que acabam confinados um à presença do outro, por conta de um acidente provocado por Gilberto, marido de Elza.

A sala da casa de Elza se torna o cenário dessa comédia sobre pessoas que, apesar de viverem tragédias pessoais das mais diversas, ainda olham a vida com bons olhos. É justamente essa tenacidade - senão teimosia - em sobreviver aos descasos e desafetos, que tornam esses personagens tão profundos na simplicidade de suas biografias.

Na verdade, o tom da comédia apenas nos remete ao que o brasileiro faz de melhor: levanta, sacode a poeira e, ainda que demore um pouco, dá a volta por cima. E se público gargalha diante do desajeito de Elza ao desfiar o fim já ancestral de seu casamento, ou observando os tiques de um Osvaldo perdido nos reprises de cenas de um relacionamento falido, não significa que não compreenda o peso dos seus infortúnios. Fica claro que Elza e Osvaldo são sobreviventes de si mesmos, das suas escolhas e das que a vida lhes impôs, em contrapartida. E essa mesma faceta burlesca é que aponta para o que mais emociona na história deles: o reconhecimento de um no outro. O cultivo de um afeto capaz de tirá-los da solidão, até então, assistida pelos seus companheiros.



Querido Mundo é um ótimo espetáculo e inspirador pela combinação de texto muito bem escrito e atuações prestigiosas de Maximiliana e Jarbas. É um convite para que o espectador compreenda que, na dor ou na alegria, a vida anseia por mudanças.

As pessoas anseiam por elas.


Querido Mundo
A partir de 13 de março de 2009
Curta temporada

Teatro Gazeta
Av. Paulista, 900 –Térreo
Próximo ao metrô Trianon-Masp (São Paulo)
www.teatrogazeta.com.br

Sexta: 21h30
Sábados: 20h
Domingos: 18h
50% de desconto para estudantes, aposentados e cliente Porto Seguro.

Maiores informações:11.3253.4102 / 3251.2327


Site oficial: www.queridomundo.com.br

Imagens: reprodução

sexta-feira, 6 de março de 2009

Enquanto Betty não vem...

Há filmes que não saem da nossa cabeça, mesmo com o passar dos anos, até mesmo das décadas. Alguns deles sequer frequentaram as passarelas das salas de cinema, nem mesmo caíram no gosto popular. Alguns os definem Cult, e eles acabam nas seções de Arte das locadoras. Particularmente, eu sempre questionei o que leva um filme a ser de Arte, já que considero arte o fazer cinema. Recebi muitas respostas e nenhuma me convenceu: baixo orçamento, europeu, ninguém entende, com temas pesados, lento demais, esquisito, e por aí vai.

Foi em uma prateleirinha dessas ditas de Arte que conheci muitos dos filmes que tenho como ‘de cabeceira’ e que, acredito completamente, poderiam desfilar em qualquer das prateleiras sem fazer feio. Uma pena que um rótulo mistifique essas obras que, ao contrário do que pregam desinformados atendentes de locadoras, podem apresentar ao cinéfilo em construção um universo de linguagem plural, ao invés de contadores de bilheterias.

No começo dos anos 90, ouvi falar muito de um filme que se tornou, durante alguns anos da minha vida, uma busca sem fim. Ao ouvir um amigo falar sobre Betty Blue (Betty Blue - 37°2 le matin / 1986) fiquei, de cara, com vontade de conferir essa figura que me pareceu, diante do monólogo do meu amigo a respeito dela, uma incógnita interessante de se tentar decifrar. O detalhe ficou por conta de onde ele assistiu o filme. Naquela época, TV a cabo não era para pessoas como eu, poucos tinham acesso a esse serviço. Mas isso não me afetou, a princípio, por isso peguei minha vontade de conferir o filme e fui caçá-lo nas locadoras.

Betty Blue, com roteiro e direção de Jean-Jacques Beineix, fora lançado em vídeo (VHS, meus caros...) nessa época. O pessoal da locadora da qual eu era cliente disse que conhecia o filme, que talvez, quem sabe, logo mais, essa semana não, quem sabe na próxima, e assim os meses foram passando – e eu passando em várias outras locadoras à procura do filme - e minha vontade de assistir ao filme aumentando.

Na falta do vídeo, pesquisei e descobri que se tratava de um filme baseado no livro 37°2 le matin, do escritor Philippe Djian.

Ler o livro foi uma forma de, ao contrário do que eu esperava, assanhar ainda mais a vontade de assistir ao filme. Se Betty já se tornara personagem fixo da minha busca, o que dizer do seu par romântico Zorg, vivido por um ator do qual já admirava muito o trabalho, o Jean-Hughes Anglade?

Muito tempo depois, e eu já ciente do que viria, pois lera o livro, Betty Blue chegou às locadoras. O livro mexera muito comigo, pois a história de Betty e Zorg desfila sem pudores pela solidão inicial do zelador de bangalôs que, ao se tornar amante da bela Betty, também se envolve numa série de loucuras orquestradas pela moça. E nem pense que isso diminui o amor que Zorg cultiva por ela.

Betty oferece a Zorg algo que ele jamais tivera: a sensação de ser realmente bom em algo. Betty decide que um manuscrito de Zorg, já várias vezes rejeitado por editores, é uma obra-prima e deve ser publicado. No mundo dos outros que não o dela, isso geraria reclamações, decepções,, questionamentos. No universo criado por Betty, a coisa fica um tanto ácida.

A fúria crescente de Betty combinada às cenas de sexo com Zorg, e o amor dele confuso e assustado, o dela quase uma tempestade, fazem de Betty Blue um retrato dos relacionamentos onde predominam solidão e loucura. Vale lembrar que a versão lançada em DVD é a do diretor.

Ler o livro me permitiu mergulhar no filme com muito mais liberdade. Betty Blue vale nas duas formas: livro e filme, sendo digno de qualquer prateleira. E da minha cabeceira.