segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O amor e o cinema

Eu aprecio muito um bom romance no cinema. Basta ter uma história que me convença e atuações compatíveis com a qualidade da trama. Acredito que contar uma história de amor – trágica ou não – requer talento do escritor ao descrever os acontecimentos, assim como a habilidade do diretor em fazer com que seus atores sigam tal roteiro com uma cadência que lhes permita não passar por tolos. Porque, assim como na vida, falar de amor no cinema pode parecer bobo ao não se acertar o tom ao dizê-lo.

As obras de Jane Austen, romancista inglesa de grande sucesso, têm sido a fonte para ótimos filmes que tratam das relações humanas, e o amor romântico tem seu destaque. Se na imaginação das leitoras de Austen os homens que desfilam em seus livros chamam a atenção pela sua complexidade, o que dizer sobre o Mr. Darcy interpretado por Matthew Macfadyen no ótimo filme de Joe Wright, “Orgulho e Preconceito” (Pride and Prejudice/2005)?

Ainda contando com Kira Knightley como protagonista, como em “Orgulho e Preconceito”, há o belíssimo - em todos os quesitos – “Desejo e Reparação”. Joe Wright tem o olhar certo para romances de época. Sob a sua batuta, eles não se tornam banais. Em “Desejo e Reparação” (Atonement/2007), ele repete a protagonista, Kira Knightley, mas não a cadência. Tendo a Inglaterra e suas complicações políticas, assim como a 2ª Guerra Mundial como pano de fundo, o drama conta a história de um amor arrebatador e repleto de ciladas. Baseado no livro de Ian McEwan, “Desejo e Reparação” é um belíssimo filme, com direção impecável e um ótimo roteiro de Christopher Hampton.

Filmes com o romance como protagonista não são, como dizem boa parte dos mocinhos de plantão, apenas para mocinhas. Aliás, os mocinhos sabem muito bem como contar uma bela história de amor, e às vezes ela é tão inusitada, tão peculiar, que nos deixam sem fôlego. Bom exemplo é o filme francês Betty Blue (37°2 le matin), dirigido por Jean-Jacques Beineix e baseado no livro homônimo de Philippe Djian. Apesar das sandices apresentadas na trama, é incontestável que se trata de uma história de amor, ainda que um tanto torta.

Os brasileiros também sabem muito bem dizer o amor, e quase sempre o fazem com um quê de melancolia que cai bem na nossa versão do sentimento. “Os desafinados” (2008), de Walter Lima Júnior, tem a música como cenário, mas é o amor entre Joaquim (Rodrigo Santoro) e Glória (Claudia Abreu) que dá o tom ao filme. O mesmo acontece com “Não por acaso” (2007) de Philippe Barcinski, que também conta com Rodrigo Santoro como protagonista, interpretando Pedro, que trabalha em uma fábrica de mesas de sinuca. Ele perde a namorada em um acidente e tem de reaprender a se relacionar com uma nova mulher.

Alguns filmes tratam delicadamente o amor, mas justamente porque esse já foi tripudiado, e de tantas formas, que a sutileza é necessária e a profundidade adquirida pelas dificuldades. Em “Assédio” (Besieged/1998), Bernardo Bertolucci desarranja a alma de um europeu que mora em uma mansão herdada por sua tia, e recebe uma africana refugiada, casada, mas com o marido preso, em seu país, para trabalhar para ele. Nesta mansão, ele compõe em seu piano, restringindo seu universo à música. Ao se apaixonar por Shandurai (Thandie Newton), o Sr. Kinsky (David Thewlis) embarca em uma jornada emocional, na qual o amor está presente, assim como a beleza que sempre cabe nos filmes de Bertolucci.

Recentemente, assisti pela quarta vez um dos filmes que fala sobre o amor e suas rusgas, com a dolência e as descobertas que lhe cabem. Para mim, “O despertar de uma paixão” (The painted veil/2007), é um dos filmes mais bonitos e bem feitos ao tratar de um amor unilateral que renasce, tendo a paisagem de uma remota vila da China, completamente tomada pela cólera e pelo atrito entre China e Inglaterra, como cenário do nascimento de um amor correspondido. As atuações de Edward Norton e Naomi Watts são exímias, e o diretor John Curran conduz a trama com maestria. O filme é baseado no livro de W. Somerset Maugham. O roteiro foi escrito por Ron Nyswaner.

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