quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Sol entre noites

Fui ao lançamento do livro de Whisner Fraga, o Sol entre noites.

Tive o grande prazer de escrever o texto de orelha do livro, convite que me deixou feliz e um pouco temerosa, já que o Whisner é um autor que admiro muito, e um grande amigo.

Abaixo, segue o texto e aqui o link direto para o livro no site da Ficções:
www.ficcoes.com.br/livros/noites.html


Whisner Fraga lança um tema em Sol entre noites, mas cabe ao leitor decidir se irá encará-lo como proposto, ou se, diante de tal jornada, escolherá dividir-se para encarar as – e trafegar pelas – bifurcações que encontrar pelo caminho. Porque esta trama – emaranhada em uma pontuação que indica o ritmo, como se fosse a batuta do maestro cadenciando o silêncio ao ar – requer a entrega de quem não apenas abre o livro e coloca os olhos nas palavras, mas também daquele que mergulha nas páginas a ponto de se misturar a elas. O tema, a imigração libanesa no Brasil, já foi abordado pelo autor em seu emblemático Abismo poente, também publicado pela Ficções Editora, em 2009. Porém Sol entre noites não é apenas a continuação. Há na sua identidade o peso que o ser humano carrega ao ser alvejado pelo sentimento de não pertencer, e não apenas a um país. Este livro não é continuação... Deleita-se na continuidade.

Sol entre noites é uma coletânea de olhares imigrantes. Também são olhares dos que se descobrem estrangeiros às suas origens, a si mesmos, aos seus afetos e às suas vitórias.

Helena, personagem a quem o autor permite transitar por vários dos seus escritos, leva-nos pela mão, enquanto a trama é desenvolvida. Porém não há como determiná-la mulher de corpo presente na história de outros personagens. Para mim, Helena poderia muito bem ser cria da imaginação dos personagens agoniados com as próprias inquietações, tornando-se aquela que tudo observa, escuta, mas que jamais interfere nas decisões ou altera desfechos. Um misto de céu e inferno, o silêncio aos berros, o reflexo no reverso da verdade.

Neste livro, às vezes o que parece certo, determinado, mostra-se uma variação de um sonho, de um apego. Mostra-se plural, e em tantos aspectos que o leitor se perde na poesia que embala a prosa. Porém ele se perde com gosto, para encontrar-se logo adiante.

A realidade é detalhada por meio de metáforas, o que salienta o que dói e o que regozija. A busca é por reconstruir a origem, reconhecer-se nela e, mediante o insucesso, reencontrar-se com a origem adotada, engoli-la, visto que outra opção já não existe. Há uma urgência ferina em decidir quem se é no mundo.

Enquanto discorre sobre os costumes, sobre a forma como os libaneses enxergam, encaram a religião, as ligações familiares, as tradições, o sexo, a lógica, o autor aprimora a sua capacidade de envolver o leitor com a fragilidade eminente em cada certeza. Neste livro, como na vida, nem sempre amor é amor, justiça é justiça, desejo é desejo. Nem sempre o que o autor nos conta é definitivo, cravado no fato. Em alguns momentos, tudo se mistura, e de tal forma que o que sempre nos foi apresentado como intocável deita a cabeça nos nossos ombros.

Whisner Fraga resume a inquietação que permeia Sol entre noites: [eu queria me nutrir com algo que viesse a um só tempo de mim e da terra, algo que fosse cooperativo e mundano, coletivo e imperscrutável.] A inquietação – que também é desejo cravejado de urgências – de caber, de pertencer, de se identificar. De não estar só na sua condição de imigrante da vida.

Carla Dias

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