terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Colocando preço na vida

Repo Men – O Resgate de Orgãos, dirigido por Miguel Sapochnik, faz-me insistir no fato de que não há, no Brasil, o cuidado necessário ao se dar um título em português a um filme estrangeiro. Um dos que mais me incomoda é o filme The Fall, batizado, em terras tupiniquins, Dublê de Anjo. O filme é fantástico, mas como a própria atendente da locadora me disse, ela não se interessou, porque achou que fosse um drama daqueles tão água-com-açúcar, que a faria dormir. Enganou-se profundamente.

Clique AQUI e leia a crônica sobre o filme The Fall.

Portanto, se não há como traduzir o título original, o mínimo a se fazer é colocar um título em português que não remeta a outra trama que não a do filme em questão. Afinal, nem todos gostam de ler sinopses, e nem todas as sinopses descrevem realmente o filme.

Repo Men me interessou antes de ser lançado no Brasil. Fã assumida de Jude Law, um amigo me mandou o link do trailer, e a partir daí, fiz a contagem regressiva, até o filme chegar ao Brasil. Mais do que a presença de Jude Law no filme, também me interessou a presença de outro grande ator, Forest Whitaker, assim como a participação da brasileira Alice Braga.

Voltando ao meu problema com o título, Repo Men trata sim de órgãos humanos, mas ao incluir o subtítulo O Resgate de Orgãos, imaginamos logo um filme sobre tráfico de órgãos, e não é bem assim...

A história se passa em um futuro próximo, quando uma empresa, especializada na criação de sofisticados órgãos mecânicos, domina o cenário dos transplantes em humanos. O que poderia ser considerado um milagre, acaba se tornando um negócio muito lucrativo. Os órgãos são considerados produtos. Assim como, se você não pagar o financiamento da sua casa ou do seu carro, o credor tem o direito de reaver esses produtos, a The Union, a empresa fabricante, tem o direito de reaver os órgãos, após determinado prazo sem pagamento da parcela.

O que mais me intrigou neste filme foi justamente a parte comercial. Não é um filme fácil de digerir, afinal, os Repo Men são coletores de órgãos. Eles têm um equipamento que lhes permite tirar órgãos das pessoas que não efetuaram os devidos pagamentos, independente se elas conseguirão sobreviver ou não, se se trata de um rim ou de um coração, ou seja, tem muito sangue.

Remy (Law) e Jack (Whitaker) são amigos de infância e dos melhores coletores de órgãos da The Union. Eles mantêm uma relação de amor e ódio, desde o início dessa amizade. Jack insiste que Remy não deve deixar a sua esposa definir o que ele deve fazer, principalmente acatar ao pedido dela de ele se tornar vendedor, trabalhando nos escritórios da The Union.

Durante os trabalhos de coleta, Remy e Jack se divertem com a má sorte dos compradores, assim como costumam pregar peças entre si. Para eles, o que fazem é apenas um trabalho, não há nada de errado em reaver um produto que não foi pago.

Em um de seus trabalhos solo, Remy tem de coletar o coração de um músico do qual é fã. Esta é uma das cenas em que percebemos como a lapidação dos conceitos do que é certo e do que é errado pode nos levar a lugares onde não deveríamos estar. Remy ajuda seu ídolo a pilotar a mesa de som, deleita-se com a sua música, e então, anuncia que é hora de reaver o órgão, pergunta se ele quer que ele chame uma ambulância, assim, como um bom funcionário declama as regras para executar o seu trabalho. Porém, as coisas não saem como ele previu, e Remy sofre um ataque cardíaco. Ele passa por um transplante e recebe um coração da The Union.

Passando para o outro lado da questão, Remy percebe o quanto o seu trabalho se equiparava às mortes de autoria de um seria killer, por exemplo. A diferença era que ele tinha o respaldo da justiça, o que ele fazia era legal, e dispensando completamente a necessidade de reflexão. E como qualquer outro comprador, ele tem uma dívida com a The Union, pelo seu novo coração. E como a maioria deles, não tem como pagar essa dívida, passando de caçador à caça.

Baseado no livro de Eric Garcia, com roteiro do próprio e co-autoria de Garett Lerner, Repo Men leva capitalização da ciência ao máximo, colocando preço nas pessoas, nas que jamais terão o poder de guiar essa máquina de fazer dinheiro ou a frieza para participar dessa engrenagem, e estarão sempre nas listas dos coletores, restando apenas as suas próprias vidas para efetuar o pagamento.

Repo Men é um ótimo filme, no qual o espectador tem de estar atento ao que está por trás da violência cometida legalmente.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O amor e o cinema

Eu aprecio muito um bom romance no cinema. Basta ter uma história que me convença e atuações compatíveis com a qualidade da trama. Acredito que contar uma história de amor – trágica ou não – requer talento do escritor ao descrever os acontecimentos, assim como a habilidade do diretor em fazer com que seus atores sigam tal roteiro com uma cadência que lhes permita não passar por tolos. Porque, assim como na vida, falar de amor no cinema pode parecer bobo ao não se acertar o tom ao dizê-lo.

As obras de Jane Austen, romancista inglesa de grande sucesso, têm sido a fonte para ótimos filmes que tratam das relações humanas, e o amor romântico tem seu destaque. Se na imaginação das leitoras de Austen os homens que desfilam em seus livros chamam a atenção pela sua complexidade, o que dizer sobre o Mr. Darcy interpretado por Matthew Macfadyen no ótimo filme de Joe Wright, “Orgulho e Preconceito” (Pride and Prejudice/2005)?

Ainda contando com Kira Knightley como protagonista, como em “Orgulho e Preconceito”, há o belíssimo - em todos os quesitos – “Desejo e Reparação”. Joe Wright tem o olhar certo para romances de época. Sob a sua batuta, eles não se tornam banais. Em “Desejo e Reparação” (Atonement/2007), ele repete a protagonista, Kira Knightley, mas não a cadência. Tendo a Inglaterra e suas complicações políticas, assim como a 2ª Guerra Mundial como pano de fundo, o drama conta a história de um amor arrebatador e repleto de ciladas. Baseado no livro de Ian McEwan, “Desejo e Reparação” é um belíssimo filme, com direção impecável e um ótimo roteiro de Christopher Hampton.

Filmes com o romance como protagonista não são, como dizem boa parte dos mocinhos de plantão, apenas para mocinhas. Aliás, os mocinhos sabem muito bem como contar uma bela história de amor, e às vezes ela é tão inusitada, tão peculiar, que nos deixam sem fôlego. Bom exemplo é o filme francês Betty Blue (37°2 le matin), dirigido por Jean-Jacques Beineix e baseado no livro homônimo de Philippe Djian. Apesar das sandices apresentadas na trama, é incontestável que se trata de uma história de amor, ainda que um tanto torta.

Os brasileiros também sabem muito bem dizer o amor, e quase sempre o fazem com um quê de melancolia que cai bem na nossa versão do sentimento. “Os desafinados” (2008), de Walter Lima Júnior, tem a música como cenário, mas é o amor entre Joaquim (Rodrigo Santoro) e Glória (Claudia Abreu) que dá o tom ao filme. O mesmo acontece com “Não por acaso” (2007) de Philippe Barcinski, que também conta com Rodrigo Santoro como protagonista, interpretando Pedro, que trabalha em uma fábrica de mesas de sinuca. Ele perde a namorada em um acidente e tem de reaprender a se relacionar com uma nova mulher.

Alguns filmes tratam delicadamente o amor, mas justamente porque esse já foi tripudiado, e de tantas formas, que a sutileza é necessária e a profundidade adquirida pelas dificuldades. Em “Assédio” (Besieged/1998), Bernardo Bertolucci desarranja a alma de um europeu que mora em uma mansão herdada por sua tia, e recebe uma africana refugiada, casada, mas com o marido preso, em seu país, para trabalhar para ele. Nesta mansão, ele compõe em seu piano, restringindo seu universo à música. Ao se apaixonar por Shandurai (Thandie Newton), o Sr. Kinsky (David Thewlis) embarca em uma jornada emocional, na qual o amor está presente, assim como a beleza que sempre cabe nos filmes de Bertolucci.

Recentemente, assisti pela quarta vez um dos filmes que fala sobre o amor e suas rusgas, com a dolência e as descobertas que lhe cabem. Para mim, “O despertar de uma paixão” (The painted veil/2007), é um dos filmes mais bonitos e bem feitos ao tratar de um amor unilateral que renasce, tendo a paisagem de uma remota vila da China, completamente tomada pela cólera e pelo atrito entre China e Inglaterra, como cenário do nascimento de um amor correspondido. As atuações de Edward Norton e Naomi Watts são exímias, e o diretor John Curran conduz a trama com maestria. O filme é baseado no livro de W. Somerset Maugham. O roteiro foi escrito por Ron Nyswaner.