sábado, 19 de maio de 2012

A poesia em Assédio





Publicado originalmente no site Crônica do Dia em 04/11/2001


A imagem de um poema. Uma fotografia do cotidiano por detrás das portas que não abrimos. Música, paixão, libido. Não quero falar sobre o filme de Bernardo Bertolucci como se fosse candidata à crítica de cinema. É "mais além", como canta Lenine. E nesta área reservada aos atrevidos, deposito a minha gana por explicar os nós da minha alma provocados pela trama, pela música, pelas imagens de Assédio (Besieged/1998).

Shandurai (Thandie Newton) é a esposa de um professor que foi preso na África por ter sido acusado de incitar ideias subversivas em seus alunos. Depois da prisão, ela se muda para uma vila em Roma, Itália, e começa a trabalhar como faxineira na casa de um pianista inglês, Mr. Kinsky (David Thewlis). Ela estuda medicina e ele vive confinado à música.

O que este filme faz é unir em um mesmo momento as feridas abertas de uma África opressora e politicamente histérica, e as marcas que isso deixa em Shandurai, com a beleza de uma vila em Roma e o gosto italiano por obras de arte que fazem parte da melancolia provocante de Mr. Kinsky. São dois personagens muito diferentes, e ambos atraentes de uma maneira até dolorida para quem os observa.


Mr. Kinsky apaixona-se liricamente por ela. O que ele não sabe ao declarar-se à Shandurai é que ela é casada, o que ela revela em um momento de desespero, pedindo para que, já que ele diz fazer de tudo por ela, tire seu marido da prisão.

O que parece não passar de um pedido desesperado e uma declaração do tipo "infelizmente não dá para ficarmos juntos", transforma-se na mola propulsora de uma declaração de amor silenciosa, porém explícita. Há pessoas que fazem de tudo para provarem o amor delas por alguém e há aqueles que amam porque amam e não dependem de sim ou não para continuarem sentindo isso. Mr. Kinsky faz mais por Shandurai do que ela poderia esperar de qualquer pessoa.

A música é um terceiro personagem. Ela é a ponte para a comunicação entre um homem e uma mulher tentando sobreviver cada qual ao próprio destino. Ouvir Shandurai dizer que não entende a música de Mr. Kinsky e depois vê-lo adicionando às suas composições citações da música africana; ver Shandurai escutando música africana no seu quarto e ao abrir a porta a música clássica invadir o cenário, tudo isso pode comprovar que o que buscamos no outro é a sintonia através da assimetria. Não pretender mudar uma pessoa - da cultura às emoções - é uma das mais sinceras formas de exercer o amor. E também uma das mais difíceis.

Assédio é muito mais do que eu poderia tentar descrever nesta crônica. Como eu disse, tenho a meu favor o fato de não estar criticando um filme, mas sim flertando com uma série de sensações que ele provocou em mim. A cada um cabe a própria interpretação, mas o que é do filme e ninguém tira é a beleza e, sem dúvida, a maestria de Bernardo Bertolucci ao contar uma história com a poesia que nos é oferecida diariamente, mesmo quando a dor existe e o assédio é emocional.

terça-feira, 15 de maio de 2012

A sagacidade de Daydream Nation



Daydream Nation (2010)
é um filme primoroso. Michael Goldbach fez um excelente trabalho, tanto na direção quanto como roteirista.  

Caroline Wexler é uma jovem inteligente e peculiar que se muda para uma pacata cidade com o pai, após a morte da mãe. O filme conta a história dela, entrelaçada com as histórias de outros jovens da escola, como Thurston (Reece Thompson), um rapaz que, no dia em que se apaixona por Caroline, perde um grande amigo em um acidente de carro.

Kat Dennings é uma atriz talentosa, que sempre me faz pensar no agradabilíssimo Uma noite de amor e música (Nick and Norah’s Infinite Playlist/2008) e que vem se destacando na série 2 Broke Girls. Ela interpreta Caroline, dando à personagem um tom dramático que não sai do ponto, que humaniza essa jovem considerada uma vadia pelas colegas de escola. E a forma como ela lida com isso é realmente interessante.

Goldbach acertou em tudo em Daydream Nation. Abordou a solidão que assola jovens de cidades pequenas, a melancolia que acaba se abatendo sobre os que, assim como Caroline, querem mais do que a vida oferece. Ele mostra jovens sem rumo, mas bacanas, que vêm de boas famílias, tendo como fonte de diversão as drogas. Não são vagabundos, viciados vivendo pelas beiras da sociedade. São os jovens que, futuramente, serão mães e pais dos filhos depressivos e dependentes de drogas.

Caroline narra o filme e o roteiro de Goldbach é impecável. Ele não tira a sagacidade dos personagens por se tratar de jovens, aqueles que ainda não viveram o suficiente para se dizerem experientes nas coisas da vida. Não os trata como um projeto em andamento. Ele realmente consegue, como roteirista e diretor, fazer um filme honesto sobre o vazio que alguns experimentam. E com cenas belíssimas. 

Os jovens podem ser o tema do filme, mas os adultos também têm destaque. Como o professor Barry Anderson (Josh Lucas), com o qual Caroline tem um caso. Ele volta para sua cidade natal para lecionar, tenta escrever um romance e tem uma história por detrás da personificação do professor bonitão e apaixonante que se mostra muito reveladora. Aliás, não há o que dizer de ruim sobre as atuações. Os atores foram muito bem dirigidos, e além de Josh Lucas, participam do filme também os veteranos Andie MacDowell e Ted Whitall.

Daydream Nation é um dos melhores filmes independentes dos últimos tempos.