terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Um serial killer em minha vida


Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  07/11/12




Dexter é um serial killer. Dexter é um serial killer pelo qual as mocinhas se apaixonam. Os mocinhos, esses queriam ter a visão direta de psicopata do Dexter, mas sem a coisa do serial killer de série de televisão pelo qual as mocinhas suspiram ou o emprego de especialista forense em amostras de sangue do departamento de polícia de Miami. Eles querem apenas aprender a aplicar a objetividade de Dexter, o serial killer com código de honra incutido nele pelo pai adotivo que percebeu, logo cedo, quem o filho era, e o ensinou que já que não havia como evitar o desenrolar da história, melhor que Dexter aprendesse a matar somente assassinos que a polícia não consegue prender.

Entendido? Dexter é um serial killer.

A primeira vez que tentei assistir à série Dexter, não consegui passar de meia hora do episódio. Fiquei extremamente incomodada com a simpatia imediata que senti pelo personagem interpretado por Michael C. Hall, ótimo ator que eu já conhecia de outra série bem peculiar, a Six Feet Under. Achei o cúmulo a possibilidade de torcer por ele, de alguma forma, afinal, serial killer é serial killer, certo?

Quando a série já estava na sua quarta temporada – atualmente, ela está na sétima -, um amigo insistiu para que eu desse uma chance ao Dexter Morgan. Ele panfletou tão bem que foi inevitável. Aluguei a temporada e, como acontece quando a série me pega de jeito, dormi pouquíssimo nos dias seguintes.

Foi assim que um serial killer entrou na minha vida.


Dexter é uma série muito elogiada por mérito. A forma como os roteiristas conduzem a trama é das mais ousadas. Não há limites sobre aonde o serial killer será levado, mas há coerência, e isso é o que a torna tão sedutora. Os temas da temporada levam o personagem central a encarar conflitos cada vez mais complicados, fazendo com que ele tenha de se esforçar, e muito, para equilibrar a realidade do homem que as pessoas enxergam e daquele que somente ele conhece.

Os personagens que colaboram com a história são muito bem construídos, como Debra Morgan (Jennifer Carpenter), irmã de Dexter que, eventualmente, se torna a chefe dele no departamento de polícia. Além de ser das personagens femininas mais boca suja que a tevê já teve, a relação deles é muito complexa e curiosa, e se tornou um tanto insana na temporada atual, o que só melhorou a cadência da série.


Frequentemente, Dexter, por ser um psicopata, consegue ser extremamente lógico a respeito de assuntos que tratamos com a emoção no talo, e alguns desses momentos são brilhantes. Isso também se deve ao fato de escutarmos a voz interior do serial killer o tempo todo, quando ele não está de papo com o pai morto, maneira que Dexter encontrou para analisar as ganas de seu passageiro sombrio, que divide a existência do moço com o profissional, o pai, o irmão, o filho, o amigo...

O próprio marketing da série é feito sobre a dúvida se Dexter é uma boa pessoa ou não. O código de honra e o esforço que ele faz para não dar pistas sobre a existência do seu lado B, ou melhor, do seu passageiro sombrio, ajudam a mantê-lo no hall dos mocinhos. Porém, quando se trata de localizar e executar suas vítimas, bom, o serial killer dá as caras. Sendo assim, não consigo dar fim à dúvida marqueteira: “eu sou uma pessoa fazendo coisas ruins ou sou uma má pessoa fazendo coisas boas?”.

Dexter é baseada no livro de Darkly Dreaming Dexter, de Lindsay Jeff. A sétima temporada de série está prevista para estrear no Brasil em 2013, no canal FX.

Não estou mentindo


Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  15/02/12



Todos por aqui sabem que sou apaixonada por séries... Também. Entram no pacote das telinhas e dos telões as minisséries e os filmes. Porém, ser fã de série de televisão é muito mais do que ser noveleiro, como muitos dizem por aí, porque a novela passa de segunda a sábado, e conseguimos ficar bem sem ela aos domingos, e nem sempre são realmente boas, mas somente uma distração após um dia de trabalho. Porém, as séries contam com um episódio por semana e ainda são por temporadas, ou seja, passamos meses esperando o próximo capítulo, quer dizer, episódio. 

No ano passado, descobri que algumas séries, que não me atraíam em nada, eram ótimas pedidas. Isso porque em período de middle season (quando não há episódio inédito da série, durante algumas semanas) e festas de final de ano, não há o que assistir que não seja de repeteco. Foi assim que incluí na minha extensa, porém seleta lista de favoritas, as séries The Tudors, Justified, The Vampire Diaries e Mad Men.


The Tudors teve quatro temporadas, e para quem não assistiu, vale alugar a série e conferir. Ela aborda os dez primeiros anos do reinado de Henrique VIII da Inglaterra. É uma produção impecável, que mostra um homem capaz de desafiar a então soberana Igreja Católica Romana, criando um cenário propício para que suas ações fossem perdoadas aos olhos de Deus. E a sua vida amorosa é tão trágica quanto a situação em que ele deixava muitos dos seus amigos e súditos. Entre Catarina de Aragão e Ana Bolena, o sedutor rei visitou o inferno. Jonathan Rhys Meyers interpreta Henrique VIII com competência, seduzindo a todos com a forma como conduz o personagem.


Justified chegou à terceira temporada, e assumo, pública e cronicamente, que não há como não cair de amores por esta série. A princípio, como não sou fã de faroeste, e era o que eu via nas imagens de divulgação, um cowboy, relutei em começar essa jornada. Mas então li que o ator que interpreta o personagem principal era o Timothy Olyphant, que eu adoro. Lá fui eu... E de lá não mais saí. Raylan Givens é um delegado vintage, por isso o quê de cowboy. Olyphant dá muito crédito ao personagem, e se não fosse isso, os tiros que pipocam de montão durante a série, os amigos improváveis do Kentucky (EUA), não seriam tão interessantes.


The Vampire Diaries eu repeli, antes mesmo de assistir a um episódio, mas porque estava passando pelo período de luto pelo cancelamento da série vampiresca mais bacana que já havia assistido, a Moonlight, protagonizada por Alex O’Loughlin, o atual Steve McGarret de Hawaii Five-O (que eu também adoro!). Porém, depois de dar uma chance a ela, mas sem muita animação, e me propor a assistir ao primeiro episódio, oficializei a minha carteirinha de fã. A história dos irmãos Damon e Stephan Salvatore –vampiros que se apaixonaram, ainda humanos, pela mesma mulher, a vampira Elizabeth, e que reencontram uma cópia dela nos dias atuais, pela qual ambos se apaixonam, uma humana, Elena, ambas interpretadas por Nina Dobrev – faz a tensão entre eles ser extremamente interessante. A ironia de Damon Salvatore (Ian Somerhalder ) é de se tirar o chapéu, sendo até mais apreciada do que o desejo de Stephan Salvatore (Paul Wesley) em preservar o pouco de humanidade que lhe resta.


Mad Men é uma vitrine comportamental não apenas dos transeuntes do cenário publicitário dos anos 60, mas de toda uma geração, conduzida pelo publicitário Don Draper (Jon Hamm) e seus companheiros da Madison Avenue. A forma como a sociedade é definida, através das campanhas publicitárias, é de nos fazer pensar como consumidores e seres humanos. Além do mais, a série trata de como os publicitários driblavam as restrições sobre a divulgação do fumo, assim como lidavam com o romance com suas secretárias, as suas “garotas”, sob a sombra da política contra o assédio sexual. A série mostra bem a posição do homem e da mulher na época, enquanto vende o sonho americano, sem se importarem com o custo disso. Uma época em que beber e fumar muito era essencial aos homens de negócio, o que faz com que o telespectador se sinta deveras incomodado com tanta fumaça e pileques. Uma ótima série sobre pessoas dispostas a tudo para vender um produto.

Na verdade, comecei essa crônica pensando em falar sobre uma série que chegou à sua última temporada, causando pânico nos dependentes dela. Mas assim como as séries que citei antes, essa eu comecei a assistir por outro motivo, e acabei me tornando, ao lado de milhares e milhares de pessoas, uma fã de primeira dela.

Eu soube que o Dave Matthews participou de um episódio de House MD. Como era o episódio 15 da terceira temporada, e eu nunca começo a assistir uma série pelo meio, aluguei desde a primeira temporada. Passei uma semana chegando à minha casa às nove da noite e assistindo episódios da série até as três da madrugada.

House chegará ao fim em maio, e com o saldo mais do que positivo. Hugh Laurie conseguiu construir um personagem complexo, e ainda ser o inglês mais americano que já vi. Mas o ator tem outros talentos, é músico – lançou o CD Let Them Talk –, escritor – publicou o romance O Vendedor de Armas –, e deseja trabalhar escrevendo, produzindo e dirigindo. Televisão? Cinema? Quem sabe ambos.

House vai fazer falta...


E eu não estou mentindo...


Realidade na telinha


Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  03/10/12




Sim, eu assisto a alguns reality shows, principalmente os que envolvem música e o Chef Gordon Ramsay. 

Atualmente, ando meio viciada em um sobre pessoas que vão comprar o primeiro imóvel, Property Virgins. Já percebi que nem todos os episódios são recentes, mas isso realmente não importa, porque é muito, mas muito interessante saber o que as pessoas procuram no seu primeiro lar oficial. Mais interessante ainda é ver a apresentadora do programa, a corretora de imóveis Sandra Rinomato - que infelizmente deixou o programa neste ano, mas em breve voltará com um novo em folha - tentando explicar aos futuros proprietários que a casa dos sonhos nem sempre é a primeira casa que o dinheiro deles pode comprar.


Um bom reality show tem de tratar do que se propõe: a realidade. Não me agrada simplesmente observar pessoas confinadas em uma mesma casa, tentando parecer descolados, até não aguentarem a pressão. É muito mais interessante quando há um tema e nem sempre é necessário que haja uma disputa. Extreme Makeover Home Edition, liderado pelo elétrico Ty Pennington, é um exemplo clássico de se fazer um reality show no qual os patrocinadores ganham seu espaço sem roubar o dos beneficiados pelo programa, porque não há nada mais chato do que logomarcas tendo mais destaque que a história sendo contada.


Os programas culinários muito me agradam e em nada beneficiam minhas habilidades na cozinha. Não é a comida que me fascina, mas o formato dos programas. Dinner Impossible se molda com um quê de missão impossível. O Chef Robert Irvine recebe a missão de cozinhar de acordo com o local onde deverá servir o jantar. Há de tudo... Criar pratos que enganem aos olhos, com formato de um e gosto de outro, surpreendendo os convidados e por aí vai. A grande sacada é o tempo que ele tem para fazer isso e as limitações impostas pelo ambiente no qual se encontra. É tenso e divertido vê-lo derrubar os obstáculos e servir um bom jantar. 


Em Kitchen Nightmares, o Chef Gordon Ramsay se propõe a levantar restaurantes que estão à beira da falência. Mais uma vez, a comida é o de menos para o espectador, apesar de ser essencial ao restaurante. O Chef Ramsay não é nada delicado ao abordar os problemas, e isso é bom de se ver, porque é verdade que nem sempre a pessoa que vai lhe ajudar tem de ser cuidadosa ao dizer a verdade. às vezes, é preciso escancarar com ela para que se enxergue o problema. Neste programa, aprende-se a gerir um restaurante, mas no processo, o Chef Ramsay acaba cutucando o chefe da tribo. É muito complicado para um dono de um restaurante compreender que está fazendo tudo errado. E na maioria das vezes, isso é fato.  E não posso deixar de mencionar o espetacular documentário que foi ao ar entre 2010 e 2011, o Gordon’s Great Escape, que mostra o Chef em diversos países em busca da verdadeira comida local. Ele deseja aprender a cozinhá-la, conhecer os seus temperos e acaba em uma verdadeira jornada cultural.


Um bom reality show de música se faz com grandes artistas. American Idol sempre esteve no top da lista de programa com ótimos intérpretes nos finais de temporadas. Ano passado, mais um programa com o mesmo perfil estreou nos Estados Unidos, o The X Factor. Ambos os programas buscam por um intérprete capaz de impressionar o público e emplacar hits, mas uma boa performance, habilidades como instrumentista e como compositor também pesam na balança. Já o também estreante em 2011 The Voice busca, como o nome já diz, pela voz. Recentemente, o Brasil estreou com a versão nacional de The Voice. Ídolos, versão brasileira de American Idol, estreou em 2006.

Para mim, o principal fator para não me encher com reality show mambembe é saber o que realmente nele não me interessa. E não me interessa assistir a programas que promovam indivíduos que nada têm a dizer, que não respeitem os participantes. Obviamente que sei que eles giram em torno de seus patrocinadores, mas como eu já disse, há como promover marcas sem desabonar o participante.

Ok... Vou ali ver o Gordon Ramsay botar ordem na cozinha.

Pina: poesia na tela


Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  02/05/12





Sim, eu sou fã de carteirinha de Wim Wenders, desde que assisti o belo Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin/1987) e descobri que o roteirista e diretor tinha uma visão deveras interessante sobre anjos. Para quem não assistiu a esse filme, saiba que ele não é a versão alemã de Cidade dos Anjos (City of Angels/1998). Na verdade, o americano foi adaptado a partir do alemão, e por mais que eu ache lindo o filme com Nicolas Cage e Meg Ryan, tendo o próprio Wim Wenders como coroteirista, Asas do Desejo é imbatível com a sua poesia e o ritmo que, em determinado momento, é definido pela participação de Nick Cave.

Sim, eu sou apaixonada por Wim Wenders, mas ainda assim, não esperava a viagem que fiz ao assistir o seu filme, ainda em cartaz aqui no Brasil. Na verdade, por se tratar de um documentário, eu esperava um filme bem diferente. O que eu não esperava era um poema na tela.

Pina (2011) é um filme sobre a dançarina e coreógrafa alemã Pina Bausch, também amiga de longa data de Wenders. Ela faleceu em 2009, pouco antes do início do documentário. Ele pensou em parar o projeto, mas decidiu dar continuidade, utilizando, além de imagens dos espetáculos Le Sacre du Printemps (1975), Kontakthof (1978), Café Muller (1978), eVollmond (2006), declarações dos bailarinos da companhia Tanztheater Wuppertal Pina Bausch sobre a coreógrafa.


Wenders, como foi divulgado, inaugurou a era do filme de arte em 3D com Pina. Particularmente, 3D não me agrada, porém não consigo imaginar não se ter essa experiência com este filme, porque é justamente a proximidade que essa linguagem cinematográfica oferece que nos permite mergulhar no que o diretor/roteirista quer nos mostrar, como se quisesse que alcançássemos certa intimidade com a pessoa por detrás da coreógrafa.

As coreografias de Pina são impactantes, parecem palavras ditas e com a poesia na ponta da língua. Os movimentos dos bailarinos nos remetem a cenários imaginários, mas também ganham as ruas de Wuppertal, cidade belíssima onde Pina viveu e desenvolveu seu trabalho por 35 anos.


Pina é um filme sedutor, faz com que o espectador deslize nas matizes das coreografias, na energia dos bailarinos, na melancolia do que eles têm a dizer sobre a coreógrafa. Para ela, mais importante do que a dança era qual sentimento levava o bailarino a dar o tom a ela.

Wenders conseguiu homenagear essa talentosa mulher de uma forma como poucos conseguiriam. Ele fez a dança virar cinema, o que não é fácil, mas não parou por aí. Wenders fez, mais uma vez, o cinema virar poesia.

Sam escolheu suas armas


Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  06/06/12

"C'mon get up, get dressed
The world is spinning
Full of kindly beings
The one you love will love you back
And no-one's spoiling anything
Everything's just right
It makes you want to fill your lungs and sing
And ooh ...You silly pretty little thing"
Bob Geldof, da canção Silly Pretty Thing




Acordei pensando sobre esse filme que assisti semana passada. Acordei pensando como se o tivesse sonhado, sabe?  Ele tratava da história de um homem que chegou ao fundo poço, aos cafundós do abismo, ao fim do fim da linha por causa das drogas. Então, um dia ele pensou ter matado um homem e decidiu aderir à religião da esposa, que enquanto o marido estava na cadeia, deixou de ser stripper e foi cuidar da vida e da filha. 

O mais interessante é que, em determinado momento dessa aceitação de Deus, ele resolveu construir uma igreja que recebesse a todos os que as outras não aceitavam. Porque se Deus deu uma chance a ele, como não daria às prostitutas e aos drogados, aos bandidos em busca de salvação? Deus pode sim ser o aceitador de tudo e todos, mas não os homens. É diferente converter bandidos, enquanto eles estão na cadeia, de aceitá-los, ainda em processo de compreensão da sua expiação espiritual, ou seja, ainda detentores do cargo de marginais. 

A igreja vingou, mas nenhum pastor quis participar dela. Foi assim que o criminoso se apossou da palavra.

Mas não é a religiosidade desse homem que me inquieta. O que ele fez, depois de se estabelecer e se tornar dono de uma empreiteira, é que me fez repensar alguns causos. E isso acabou no continente africano, no Sudão, para ser mais exata.

Agora, talvez seja o ponto em que você está pensando que será muito chato ouvir falar, mais uma vez, sobre as necessidades da África. E que não tem mais paciência para ver aquela foto da criança sendo observada pelo abutre, nem mesmo ouvir falar em mais um Live Aid by Bob Geldof. Eu adoro o Bob Geldof... Ótimo músico e, principalmente, um verdadeiro humanitário.

Redenção (Machine Gun Preacher/2011), que é estrelado por Gerard Butler e baseado na história de Sam Childers. Sim, ele existe, e ao ouvir falar, na igreja que frequentava, sobre a situação da África, decidiu se voluntariar para um programa de reconstrução de casas em Yei, no Sudão do Sul, em 1998, em plena guerra. A partir daí, não houve quem tirasse a África de Sam. Ele voltou ao Sudão, construiu uma clínica e depois um orfanato em área de risco, mas que somente ali atenderia quem realmente precisava dele. A milícia rebelde estava matando e sequestrando as crianças. 

 Sam Childers

Houve um momento em que Sam se sentiu muito perturbado com a história que assistia no Sudão. Ele chegou a hipotecar a casa e a vender a sua empresa para conseguir dinheiro para o trabalho voluntário, criando uma situação difícil para a esposa e a filha. Ele era diferente de um pastor convencional, porque amante que era das armas, ele as empunhava para defender as pessoas, e principalmente para reaver as crianças órfãs sequestradas. E são essas crianças, a forma como elas são agradecidas a ele e compreender a dor, que ele retomou o seu caminho. Sem abandonar as armas, claro. 

É verdade... A miséria não ronda somente a África. No Brasil, há pessoas que não têm o básico para viver, crianças que necessitam lidar com a fome e com o descaso. Mas a questão que me faz pensar que pessoas como Sam Childers e Bob Geldof sejam necessárias, pessoas que olham para além das fronteiras de seus países de origem, é que há lugares, como o Sudão e a Etiópia, em que somente a política bem aplicada e os projetos sociais efetivos não podem resolver o problema. Onde a bondade, o humanitarismo e a coragem de estrangeiros de trafegar por lugares em guerra fazem toda a diferença.

A foto do abutre e a criança foi registrada pelo fotógrafo sul-africano Kevin Carter, em 1993. Foi publicada pelo jornal New York Times e  ganhou o Pulitzer, em 1994. A menina sudanesa estava tentando chegar a um posto de alimentação. É uma das imagens que mais tocaram as pessoas sobre a situação da África. Bob Geldof continua a sua batalha humanitária e não se esqueceu da África, assim como Sam Childers. O orfanato que ele construiu continua na ativa.  

 Bob Geldof

Hoje eu acordei com esse filme na cabeça, mas talvez eu tenha sonhado sobre o assunto. E o que experimento agora é a sensação de que, apesar de saber que ainda falta muito para a situação da África se acertar, ainda há esperança. Graças a Sams e Bobs e Ghandis e Betinhos e Martins e a mim e a você que, na pequeneza do que podemos fazer, sonhamos o mundo melhor. 




Sam Childers / Machine Gun Preacher - machinegunpreacher.org

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Kleber Albuquerque lança 10 Coisas Que Eu Podia Dizer No Lugar De Eu Te Amo

Clique na imagem e confira o flyer!


Eu quero ser Tim Burton!

Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  30/05/12

“Sabe o que é estranho? É que sempre me achei normal quando era
criança. Depois de um tempo,você começa a pensar que é maluco,
porque todo mundo te chama assim. Aí os anos passam e você
se dá conta de que eles estavam certos, você era louco mesmo.”
Tim Burton


O que você quer ser quando crescer?

Pergunta recorrente na vida de qualquer criança, acaba sempre recebendo respostas sazonais. Há dias em que se quer ser herói, em outros, professor, bombeiro, astronauta, ou colecionador de gibis, filho da mãe e do pai e não de um extraterrestre, porque isso dá medo e afasta os amiguinhos. Não há limites para o que se pode ser quando crescer sendo criança.

Eu quis ser muitas coisas quando criança. Apesar de a minha memória infante depender das minhas irmãs para funcionar, lembro-me de duas coisas que queria ser quando crescesse: freira e aconselhadora para apaziguar alma. Crescendo, percebi que as pessoas não gostam quando nos metemos em seus assuntos com um punhado de conselhos que não pediram, eu não gosto. E que ser freira é um chamado que eu nunca estive realmente a fim de atender.

Então, fui sendo.

Se me perguntassem hoje, mas com a mesma intenção de quando eu era criança, o que eu seria quando crescesse, mesmo aos quase quarenta e dois anos de idade, eu responderia com a paixão da menina: o Tim Burton!


O mundo criado pelo menino que se achava normal, enquanto rotulado louco, que se tornou, depois do sucesso, um rotulado excêntrico, é de uma perspicácia aguçada. Sei que a maioria de nós teve uma infância regada às alegrias de ser criança, às brincadeiras, aos planos do que ser quando crescer e que isso é bom e saudável. Só que também há aquelas crianças que, desde sempre, existem de um jeito diferente. Se houvesse um Tim Burton na minha escola, quando eu era menina, talvez tivéssemos nos tornado grandes amigos com roupas esquisitas, ar taciturno e silêncio imperante, porque ao começarmos a conversar,  ele contando sobre os personagens que lhe inquietavam a alma, eu me deslumbraria de vez, e não haveria quem pudesse me tirar daquele universo que ele me permitiu visitar. Talvez, se eu tivesse conhecido um Tim Burton quando criança, desde lá eu já desejaria ser ele quando crescesse.

O universo de Tim Burton me fascina. Seria incapaz de criar algo tão profundo, melancólico e de uma beleza dissimétrica tão encantadora. O artista dos desenhos, da poesia e dos filmes, de tantos talentos, é uma inspiração para mim. Os personagens que traz à vida, bom, alguns estão mortos, mas tudo certo! Continuam interessantemente construídos e contando histórias envolventes.

Frankenweenie

Na verdade, escrevendo a respeito, percebo que cometi uma gafe existencial. Não é que eu realmente queira ser Tim Burton quando crescesse...

Se inventarem um jeito de se voltar ao passado - e que não tenha nada a ver com o Marty McFly tentando voltar para o futuro -, quando voltasse a ser criança eu gostaria de conhecer um Tim Burton na escola. E que ele me permitisse ser sua amiga independente das nossas esquisitices. E que ao me contar sobre os lúgubres e sublimes personagens que lhe habitassem a alma eu finalmente pudesse exercer a função de aconselhadora para apaziguar alma, mas sem ofender ou ultrapassar limites.

Quando eu crescer quero ser.