segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Como se fosse história em quadrinhos

Sábado passado, acompanhei uma amiga no seu fazer de produtora cultural. A Drika Bourquim trabalhava em uma programação paralela à da Bienal do Livro, realizada pelo SESC, que promoveu uma série de encontros entre autores em suas unidades. A do dia 30 de agosto aconteceu no SESC Pompéia, com dois autores que eu não conhecia e tive muita sorte de conhecer: David Mairowitz e Marcello Quintanilha.

Mairowitz e Quintanilha são autores do cenário dos quadrinhos, do qual, não vou enganá-los, pouco sei, não por desgostar do segmento, apenas por não conhecê-lo. 

Marcello Quintanilha e David Mairowitz
Foto 
© Drika Bourquim
Encontros como estes são muito importantes, independente do segmento. Na minha função no Batuka! Brasil, festival no qual atuo como diretora de produção, os workshops com bate-papo entre os artistas e o público não somente sanam as dúvidas dos interessados no assunto, mas também inspiram muitos a fazerem escolhas que melhoram a sua própria relação com o fazer artístico. Isso porque, além da obra do artista, as pessoas têm acesso aos bastidores das suas criações: como nasceu a ideia, qual o tipo de técnica utilizada, a personalidade do artista impressa em sua obra.

Kafka de Crumb
Reconheço que tenho certo apreço por me aprofundar na intimidade de uma obra, o que me leva a sempre querer saber como ela nasceu, qual foi o primeiro sopro que deu vida a ela.

Talvez vocês esperassem um texto mais específico sobre os autores. Eu poderia ler o currículo deles e incluir aqui as informações adequadas. Mas vocês podem matar a curiosidade sobre quem eles são com uma simples busca no Google, que cada qual tem seu valor e vasta contribuição no meio. Esse texto não é especificamente sobre a carreira dos autores. Esse texto é sobre como Marcello Quintanilha e David Mairowitz fizeram com que eu me interessasse pelo universo dos quadrinhos. 

Tungstênio
Em duas horas, os autores responderam perguntas feitas pelo moderador André Conti, falando sobre suas carreiras e obras. Em seguida, o bate-papo foi aberto às perguntas do público presente.

Mairowitz é americano e vive entre a Alemanha e a França. Ele falou sobre a série de livros que já publicou como roteirista, entre eles Kafka de Crumb, a biografia de Franz Kafka e alguns contos, ilustrada por Robert Crumb. Foi interessante ver as características dos ilustradores com os quais o autor vem trabalhando. Fiquei bastante curiosa para conferir a adaptação de Mairowitz para os quadrinhos do livro O Coração das Trevas (Heart of Darkness/1902), do escritor Joseph Conrad, com ilustração de Catherine Anyango. Ele insistiu para que os presentes não deixassem de conferir a publicação, que deve ganhar sua versão em português em breve. Ele fez o mesmo comigo, após o evento, quando conversamos. O entusiasmo dele a respeito da obra despertou o desejo em mim de conhecê-la.

Para os cinéfilos de plantão, o filme Apocalypse Now (1989), de Francis Ford Coppola, foi inspirado no livro O Coração das Trevas

Quintanilha é quadrinista brasileiro que, apesar de viver em Barcelona há anos, e além dos trabalhos publicados no exterior, continua a criar para os brasileiros. Recentemente, lançou Tungstênio, HQ da qual ele apresentou algumas ilustrações durante o evento no SESC. Aliás, as ilustrações são das que captam o olhar, faz com que desejemos enxergar os detalhes.

O que me conquistou a respeito de Quintanilha foi o fato de ele ser completamente a favor da liberdade necessária para que o personagem, mais do que ser criado, possa acontecer. Essa intimidade com o desejo do personagem em seguir por direções diferentes das possivelmente imaginadas, faz com que eu me interesse, de cara, por conhecer a obra do autor. Também gostei de ele ter lançado uma história em quadrinhos na linguagem do cordel, na qual foi baseado o curta Disputa entre o Diabo e o Padre pela Posse do Cênte-for na Festa do Santo Mendigo, de Eduardo Duval e Francisco Tadeu, do qual assistimos um trecho, durante o evento. E eu tive de bancar a fascinada de plantão, confessando a ele que não conhecia o cenário dos quadrinhos, mas depois de escutar o que ele tinha a dizer, o faria. 

Sábado foi um dia muito especial, e eu gosto dos que me pegam de surpresa. Nada do que eu esperava aconteceu, e minha pessoa bancou o personagem libertário que escolheu aceitar o que viria. E aceitando o oferecido, acabou completamente seduzido pelo desejo de mergulhar no universo dos quadrinhos. Sendo assim, na pobreza de conhecimento atual, meu personagem se desculpa pelos possíveis erros de aplicação de certas palavras (quadrinhos, HQ, quadrinista, desenhista, ilustrador, roteirista, escritor), enquanto a minha pessoa agradece à Drika, ao David Mairowitz e ao Marcello Quintanilha, para então ir até ali, escolher o que ler... E ver.

Após evento no SESC, na 88º Festa de Nossa Senhora Achiropita

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