sexta-feira, 11 de abril de 2014

Seja paciente, pois Believe merece



No começo, também pensei que Believe tivesse um toque de Touch (não resisti!), série que durou duas temporadas, que eu adorava, mas Kiefer Sutherland tinha de voltar para 24 Horas. Porém, a sensação de “lembra aquela outra” acaba no fato de serem séries em que crianças extraordinárias têm pais problemáticos e mães falecidas, e fazem parte de projetos secretos que estudam suas habilidades fora do comum. Parece muito, mas não é. Aliás, o mercado, os patrocinadores e o espectador precisam ter mais paciência. Believe é uma série que precisa de tempo para contar sua história. Alguns se desapontaram com a estreia, porém eu, particularmente, fiquei super ansiosa pelo episódio seguinte. Depois de cinco episódios, continuo me sentindo da mesma forma, e cada vez mais envolvida com a série.


A diferença se faz na forma de contar a história, assim como no rumo que os personagens tomam. Para mim, Believe tem uma combinação que me apetece: Alfonso Cuarón (ganhador do Oscar por "Gravidade") é cocriador e J. J. Abrams (Fringe/Lost) produtor executivo da série. Além disso, a personagem principal é Johnny Sequoya, uma atriz talentosa, que dá credibilidade à Bo Adams, a menina de dez anos que vive fugindo, com a ajuda de um grupo de pessoas que acredita que as habilidades dela – levitação, telecinesia, capacidade de controlar a natureza e por aí vai –, combinada à bondade que lhe é natural, um dia fará do mundo um lugar melhor, enquanto outros desejam transformá-la em uma poderosa arma.


Este grupo que ajuda Bo, tendo como líder Winter (Delroy Lindo), decide libertar o prisioneiro Tate (Jack McLaughlin) da prisão. Tate está no corredor da morte, quase na hora da execução, ele escapa da prisão com a ajuda de Winter. Mas essa liberdade não vem de graça, pois Tate se torna a pessoa responsável por Bo, que ele não sabe, é sua filha.


Bo, apesar de ser do bem, de oferecer momentos de leveza à série, não é uma personagem construída à base de percepções agradáveis. É geniosa, está descobrindo até onde pode chegar com suas habilidades, e por ser uma delas a capacidade de ler as pessoas e prever o futuro delas, vive se metendo em confusão ao ajudar estranhos, deixando Tate - que detesta a sua função de protetor de Bo e não sabe que se trata de sua filha -, maluco.


A dinâmica entre Johnny Sequoya e Jack McLaughlin é muito boa, o que ajuda na construção de seus personagens. Pode haver muito de tecnologia, de política, de ciência nessa história, mas é a humanidade a grande questão, assim como a escolha de alguns em aceitar que a vida é muito mais do que a maioria de nós se permite enxergar.

A primeira temporada de Believe está sendo veiculada no canal Warner, às quartas às 20h.




quarta-feira, 9 de abril de 2014

Não tenha medo da música instrumental


Conheço pessoas que se negam a escutar música instrumental, porque não aceitam a ideia de música sem letra. Também conheço quem ainda acredita que música instrumental é somente música interpretada por orquestra, e como elas não se interessam pelo segmento, nem ousam escutar o que está por aí.

Nos dias de hoje, quando o acesso à informação é muito mais fácil, devido à internet, acredito que as pessoas optam por não saber do que se trata determinado assunto. No final dos anos 80, eu não conhecia música instrumental. Mas então isso mudou, e foi quando me dei conta de que a música era muito mais abrangente do que eu imaginava. Por sorte, ousei escutar música sem letra.

Na segunda-feira, dia 7 de abril, a baterista Vera Figueiredo apresentou o seu novo show, Brasileira, no projeto Instrumental Sesc Brasil. Não posso deixar de mencionar que trabalho com ela há vinte e um anos, e não me lembro de ter resenhado um show exclusivamente dela, apesar de ter assistido a muitos deles e com diversas formações de banda. Mas isso porque eu não queria que meu gosto soasse como currículo artístico encomendado ou feedback de amizade. Porém, quem acompanha as minhas publicações aqui no Talhe, sabe que eu escrevo somente sobre o que gosto, sobre o que me comove.

E este show foi comovente em muitos aspectos.


Comecei a conhecer música instrumental quando trabalhei no Camerati, um centro cultural de Santo André que se tornou também uma gravadora com um selo dedicado ao segmento. Foi lá que eu conheci a Vera, e o show dela foi o primeiro de música instrumental que eu assisti na vida. Isso foi no final dos anos oitenta. Em 1993, comecei a trabalhar com ela, e a partir daí, conheci muitos músicos fantásticos, pessoas que passei a admirar com o passar do tempo.

Para mim, mergulhar no universo da música instrumental apenas somou à importância que a música já tinha em minha vida.

A questão é que já escutei as músicas da Vera tantas vezes que nem dá para contar, mas sempre é possível ativar o replay, porque elas são ótimas criações. Tenho as minhas preferidas, como a Deep Inside, do disco Vera Cruz Island (2001), que, por sorte, fez parte do repertório do show do Instrumental Sesc Brasil. Vera se apresentou com Gê Côrtes, no baixo acústico, e Marcos Romera, no piano acústico. São músicos que conheço há muitos anos, que têm uma rica história de parceria musical com a baterista. Foi bom escutar À Cara Gê, que Vera compôs em homenagem à Gê Côrtes, e faz parte do disco From Brasil (1995), também uma das minhas preferidas. Foi bacana a apresentação de uma obra autoral de Marcos Romera, a Rua Vergueiro, do disco DaGaroa (2012). O repertório trouxe obras de Vera e também de Jacob do Bandolim, Victor Mendoza, Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes, e do convidado da noite, o trombonista Bocato.


Com Bocato, que também conheci na época do Camerati, aprendi a gostar ainda mais de música instrumental. Outro músico que conheço há anos e admiro muito. Ele foi convidado ao palco para tocar À Cara Gê e depois Gatuno, que compôs para Vera, e ela gravou no disco Conserto Para Um Trombone Quebrado (1988).

Obras musicais podem resultar do desejo do músico de compor, assim como nascerem da inspiração pelos acontecimentos da vida desse artista. Para mim, elas também têm biografia.

Este show foi especial em muitos aspectos. O cenário ficou ainda mais suntuoso com a iluminação sob a batuta de Piu Dip. O som estava impecável, graças ao João, da Tukasom, e sua equipe, o que para o músico é motivo de alegria, já que ele não quer somente fazer a sua parte, executando bem as músicas de seu repertório. Ele também quer que o público participe dessa experiência sensorial, e para que isso aconteça, o som tem de se espalhar bonito pelo recinto. No palco, era evidente a alegria com que os músicos tocavam. É o tipo de alegria que vem do reencontro, mas também do frescor que a experiência oferece. O público reagiu vibrando a essa combinação de boa estrutura e talentosos músicos no palco.

O Instrumental Sesc Brasil é um projeto muito especial e importante. Apesar de ter sido adaptado para TV em 1990, já vinha sendo realizado no palco do SESC Paulista, desde o início da década de 80. Participar dele é sempre uma honra para o músico. A apresentação desta semana foi a quarta de Vera Figueiredo no projeto, e, em minha opinião, essa também foi a apresentação mais significativa dela no palco do Instrumental Sesc Brasil.

Vera Figueiredo é uma excelente baterista e compositora que imprime em suas obras força e sutileza. O ritmo pode ser seu guia, mas, definitivamente, é a sua percepção sobre a vida que lhe oferece as ferramentas tanto para tocar quanto para compor. A minha resenha, simples, porém sincera, sobre o show dela, vem da sincera gratidão pela oportunidade de, mais uma vez, ver a música instrumental acontecer tão lindamente em um palco. E com músicos talentosos, pessoas a quem eu quero muito bem.

Quem não assistiu ao show no Teatro Anchieta, no SESC Consolação, ou pela internet, pela transmissão ao vivo, em breve poderá fazê-lo pelo site do Instrumental Sesc Brasil, que também veiculará uma entrevista e um bate-papo com os músicos, conduzidos pela jornalista Patrícia Palumbo.