segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

SEM RETORNO | Quantas pessoas você quer ser para viver para sempre?




Ele não passou pelas salas de cinema do Brasil, o que podemos lamentar. No começo de dezembro, foi incluído no catálogo do Netflix. 

Entre tantos filmes dispensáveis que estreiam todo ano, Sem Retorno (Self/less - 2015) merecia as salas de cinema. Melhor... Aqueles que ainda vivem sem o Netflix poderiam conhecê-lo.

O filme conta com uma boa trama, cenas de ação, o mocinho e o bandido que acredita que é mocinho. Ainda assim, nada disso seria suficiente sem a competência dos atores, da direção e um bom roteiro para contar uma história que muitos já contaram, mas de outra forma.

Sem Retorno | Ben Kingsley (Damian)

Ben Kingsley é dos meus atores preferidos. Ele participa apenas de uma parte do filme, ainda assim, sua presença é marcante. Ryan Reynolds já provou que é talentoso e competente, não importa o estilo de filme. O britânico Matthew Goode vem participando de algumas séries que das quais eu gosto muito, interpretando Stanley Mitchell em Dancing on the Edge, Finn Polmar em The Good Wife e Henry Talbot em Downton Abbey.

Sem Retorno | Matthew Goode (Dr. Albright)


Damian (Ben Kingsley) sofre de câncer terminal. Homem poderoso, que passou a vida ignorando as realizações da filha, sempre centrado nas conquistas e no poder. Ao encarar a morte, decide optar por um tratamento médico que lhe tiraria o direito à identidade, mas lhe daria muitos anos de vida, como outra pessoa... Em outro corpo. O Dr. Albright (Matthew Goode) é o cientista que lhe oferece o milagre. Ele garante que os corpos para os quais os pacientes são transferidos foram cultivados em laboratório. Após a “migração” de Damian para seu novo corpo, ele descobre que, na verdade, seu novo e saudável corpo pertencia a um militar, pai de família, que o vendeu para pagar o tratamento da filha.


Sem Retorno | Ryan Reynolds (Damian)

Ryan Reynolds está ótimo como o jovem Damian habitando o corpo do militar.

A grande questão do filme é que não sabemos até onde uma pessoa pode chegar para provar que está certa ou para ganhar dinheiro e conquistar um poder inacessível à maioria de nós. No caso do cientista, seu corpo já não correspondia mais a sua mente. O corpo estava doente e então ele colocou suas pesquisas para funcionarem. Dr. Albright foi um corpo e uma identidade que ele roubou por acreditar que mentes como a dele, geniais, mereciam viver o máximo. Esse descarte do outro é o que pesa no filme. É possível compreender que, a partir do momento que nossas escolhas ultrapassam a lógica, é preciso pensar em quem  mais estamos levando junto.

A direção de Sem Retorno me ganhou. Até então, não sabia quem era o diretor, tampouco que ele havia dirigido dois dos filmes que mais me encantaram nesse quesito e no de fotografia: Dublê de Anjo (The Fall/2006) – e vou sempre mencionar que não gosto nada desse título em português – e A Cela (The Cell/2000). Mais um de Tarsem Singh para o hall dos meus preferidos.

O roteiro de Sem Retorno é assinado pelos irmãos espanhóis David e Àlex Pastor.

Sem Retorno é um bom filme, com interpretações competentes e uma trama que fisga o espectador. Vale a pena assistir ao filme, o que certamente o levará a refletir sobre como somos frágeis diante do que gênios e poderosos podem fazer quando desfalcados de qualquer consideração a outro ser humano. Essa não é uma combinação que traz bons frutos.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Filipe Catto | Voz, palco, música e poesia



Feito uma droga lenta
Uma ressaca imensa
Tua boca me arrebenta, amor
Me leva por um fio, me despe no vazio
Da canção “Adorador”, de Filipe Catto e Pedro Luís, do disco Tomada


Sábado passado, estive no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, para assistir, ao lado de grandes amigos, ao show de lançamento do disco Tomada, de Filipe Catto. Eu já havia escrito a respeito do impacto desse artista e desse disco na minha pessoa – o espírito agradece profundamente –, em uma crônica publicado no Crônica do Dia, e que você pode ler clicando aqui.

Escrevo sobre o que me alimenta a alma. E esse show, meus caros... 

Filipe Catto é recente na minha lista de afetos. Fisgou-me a atenção com a canção Adoração, de sua autoria, ano passado. A partir daquele momento, de ter escutado tal canção, tornei-me apreciadora de sua obra, da interpretação poderosa que ele oferece à música. 

Porém, havia esse espaço não preenchido nessa benquerença toda. Vê-lo no palco, escutá-lo cantando ao vivo, ainda era desejo que urgia. Sábado passado, saciei esse desejo.

Eu sei... O mundo está de cabeça para baixo. O ser humano, eu sei... Alguns muitos deles andam cometendo insanidades em nome de crenças tortas, em busca de poder e dinheiro, sem se importarem com quantas vidas são ceifadas pelo caminho na conta das escolhas que fizeram. Como falar sobre arte, a sua beleza e o prazer que oferece aos seus apreciadores, quando o mundo assiste a acontecimentos tão tristes?

Como não falar sobre ela?

Quando a vida - orquestrada pelas ações das pessoas – amarga, momentos como os que aconteceram naquele palco do Auditório Ibirapuera são inspiradores, rejuvenescem nossa esperança de conquistarmos levezas e sabedoria. O que Filipe Catto deixou naquele palco foi um coração que se compadece das mazelas humanas, mas que, acima de tudo, compreende a força da arte para desenvergar o espírito de quem se vê cercado por tantas tragédias.

Não escrevo isso na tentativa de adivinhar o que o artista pensava e sentia. Posso até me valer de outras palavras, mas a menção sobre como os acontecimentos devastadores atuais o afeta, do quanto ele acredita na humanidade, foi o próprio que fez, naquele palco, onde ele deixou seu coração.

Dei a mim esse show de presente de aniversário, assim como o Tomada, que adquiri na pré-venda. Não sou de celebrar, mas achei que merecia tal agrado à alma. E eu não estava enganada... Do momento em que Filipe Catto entrou em cena, até quando ele se despediu do público, senti-me como se tivesse embarcado em uma jornada na qual seria impossível sentir menos do que deslumbramento.

Desde que Tomada foi disponibilizado online, ele tem sido tocado no meu player. É um disco do qual todas as faixas me agradam. As parcerias e as escolhas de compositores, as letras e seus significados... Seria possível criar um personagem no qual caberia a maioria das situações descritas ou sugeridas nas canções. Ao vivo, obviamente, muito da sonoridade muda, por conta da formação da banda, e até mesmo do que, no momento, inspira o intérprete. Canções como Dias e Noites (Filipe Catto) e Depois de Amanhã (Filipe Catto/Moska), soaram um pouco mais rock’n’roll, o que foi ótimo de se escutar. Um salve para os músicos da banda: Ana Karina Sebastião (baixo), Fabá Jimenez (guitarra), Lucas Vargas (teclados) e Michelle Abu (bateria).

Filipe Catto trafega tranquilamente por diversos gêneros e pode fazer o que quiser com sua voz. Ele canta com o corpo, o que é raro quando espontâneo, que é o caso, e foi muito bacana de se ver. Foi como ver a música estampada em cada gesto. 


Fôlego, primeiro disco do artista, tem um quê dramático-cativante. As canções que trouxe dele para o palco ajudaram Filipe a tecer um show que tem como base o amor em suas mais complexas e plurais notações. Para mim, escutá-lo e vê-lo cantar Adoração foi arrebatador. Eu estava à espera do feito e me senti feliz que só por ter realizado esse gosto.

Filipe tem uma voz belíssima, que escuto sempre, permito invadir meus sentidos e inspirar devaneios. Definitivamente, suas canções entraram em outra das minhas listas: aquelas que eu escuto, enquanto escrevo minhas histórias, penso meus livros, embarco nos personagens. Ele também é compositor dos bons, dos que sabem colocar som e palavra no lugar mais generoso de si, até surgir aquela canção que vai se tornar uma das preferidas de muitos.

Se você tiver a oportunidade, assista ao show Tomada. É um espetáculo que aborda emoções diversas, de música composta com requinte e interpretada com entrega. 

É tão bonito de se ver e de se escutar...

No final do show, Filipe Catto fez uma sessão de autógrafos. Fila longa, chuva caindo pesada lá fora e calor. Ensaiei mil coisas para dizer na hora que ele fosse autografar o meu disco. Aliás, comprei o Tomada na pré-venda, autografado, por isso estava com o Fôlego para ele autografar. Ensaiei mil coisas para dizer, muitas delas eram sobre o que eu havia sentido durante o show. Queria agradecê-lo por isso. No final, a única palavra que saiu da minha boca foi meu nome para o autógrafo. E ganhei uma foto.


Sendo péssima com as palavras ditas, desde sempre, aprendi a me perdoar por não conseguir verbalizar assim, na lata. Escrevo depois, mas nem por isso com sentimentos requentados. Eles continuam a reverberar no meu dentro, atiçando silêncios a serem quebrados com música e poesia.

Minha estreia assistindo a um show de Filipe Catto foi melhor... Insanamente melhor do que eu esperava. E hoje, no dia do meu aniversário, chegou o Tomada, parte dois do meu presente. 


Eu sei... O mundo está de cabeça para baixo. Amém ao fato de termos a música, a poesia, a arte para nos sustentar.


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

CHAPLIN é espetáculo arrebatador


CHAPLIN, O VAGABUNDO | O que o espetáculo me mostrou


Carlitos | Cena do filme Luzes da Cidade
Falo sobre mim, mas já escutei outros escritores dizerem o mesmo. Às vezes, é difícil e leva tempo para me despedir dos personagens que crio. Às vezes, retardo o final da história, apenas para manter aquele personagem vivo, passível de outras tramas. E ao dizer adeus, mergulho em uma tristeza digna de quem perdeu um ente querido.

Personagens não fazem parte somente do mundo das artes. Todos nós, eventualmente, vestimos personagens ao lidarmos com situações que pedem mais de nós do que usualmente oferecemos. No processo, muitos aprendem um pouco mais sobre a vida e suas mazelas. Outros se rendem aos seus personagens, levando uma vida na corda bamba existencial.

No último sábado, fui ao teatro para assistir a um espetáculo musical sobre uma pessoa que não apenas criou, mas viveu seu personagem e com ele contribuiu amplamente com a história do cinema. Chaplin, O Musical conta a história de Charlie Chaplin, ator e diretor, o criador de Carlitos, o Vagabundo.

Charles Spencer Chaplin nasceu em Londres, em 1889. Faleceu na Suíça, em 1977. Cabe nos anos que separam essas datas, uma história de vida que se debruçou sobre a história de um personagem, e de tal forma, que criador se confundiu com a criatura. 

Chaplin, O Musical é providencial, pois aborda a vida do homem que fez a alegria de tantos e impactou a industria cinematográfica. Nessa biografia há uma riqueza fantástica de emoções, que por meio de uma produção competente, consegue aproximar o espectador dessa pessoa-personagem e suas camadas, seus tons. 

Assistindo ao espetáculo, dei-me conta de que o Vagabundo foi uma ferramenta que Chaplin encontrou para lidar com acontecimentos pessoais difíceis, como a doença de sua mãe. O homem tão peculiar, nem sempre agradável, definitivamente complexo e que viveu muitos romances; o ator e diretor celebrado, sempre cercado de pessoas... Chaplin vivia de e sobrevivia à solidão. Carlitos foi sua companhia presente, sua voz ecoando em tempos de cinema mudo.

CHAPLIN, O MUSICAL

Reprodução
Sabe aquele dia em que você sai de casa e não faz a menor ideia de que será surpreendido mais do que deseja e acredita ser possível? Eu sabia que Chaplin era um ótimo musical, então esperava por algo realmente interessante, que me faria o espírito feliz. Primeiro, porque já assisti a outros musicais com o Jarbas Homem de Mello, que considero um dos artistas mais completos. Depois, o espetáculo tem sido um grande sucesso, de público e crítica. Enfim, não havia como não incluir na minha expectativa o item “aprazimento”.

Acontece que eu não esperava pelo o que assisti. Foi mais, muito mais do que eu poderia imaginar. Foi além do aprazimento, tornando-se uma verdadeira experiência emocional.

Chaplin, O Musical é um espetáculo da Broadway, com texto original de Christopher Curtis e Thomas Meehan. Traz cinco músicas inéditas, sendo que músicas e letras originais são de autoria Christopher Curtis. E não me canso de dizer que Miguel Falabella, mais uma vez, fez uma versão brasileira impecável. Teatro lotado – como tem sido, desde a estreia do espetáculo, que foi em São Paulo, mas já passou pelo Rio de Janeiro -, e a primeira cena nos chega feito um poema. Chaplin pensando sobre sua existência como Chaplin e como o Vagabundo.

Chaplin teve em seu irmão, Sydney Chaplin, o companheiro de vida e de viagem, alguém que desempenhou um importante papel também na sua carreira. No palco do musical, Syd é interpretado por Marcello Antony, que o fez primorosamente. Eu poderia listar adjetivos para tentar dizer a beleza dessa interpretação. Porém, vou me ater ao desejo de que você, quem lê essas palavras, vá ao teatro para conferir por si próprio, e eleja os adjetivos que sentir durante o espetáculo. Para mim, Antony deu vida a Syd de forma crível, transparecendo o amor de um irmão por outro.

Reprodução
Chaplin é um espetáculo sublime, e não estou gastando benquerença com ele, e sim validando um merecimento. Não há o que dizer contra, e aposto que aqueles que adoram ter ao algo sobre o qual reclamar, em qualquer situação, sentiram-se deveras contrariados.

Da música, a orquestra tocando ao vivo, passando pelo cenário impecável - incluindo uma engenhosa coreografia para as mudanças de cenas -, um elenco afinadíssimo – destaque para Paula Capovilla (Hedda Hooper), que voz! -, e o ritmo dinâmico e emocional do espetáculo, tudo me impressionou e emocionou. Todos que passaram por aquele palco, e aqueles que estiveram nos bastidores, cuidando para que tudo estivesse alinhado, trabalharam lindamente... Isso mesmo, lindamente. Não consigo pensar em palavra mais adequada para comentar o resultado do trabalho dessas pessoas.

E, claro, lá estava Chaplin... O Chaplin de Jarbas Homem de Mello.

Reprodução
Aqueles que acompanham meus escritos sabem que adoro o Jarbas. Desde que o vi pela primeira vez no palco, acompanho sua carreira e escrevo sobre os espetáculos que assisto. Quem me conhece, também sabe que não sou dos confetes. Todos os elogios que venho tecendo a ele, desde aquela primeira vez, são meus, são válidos e verdadeiros. 

Sei que a cada espetáculo o artista comprometido com a sua arte aprimora seu talento, eleva seu fazer artístico. Para um artista dedicado e apaixonado pelo o que faz, esperamos sempre aquele passo adiante que nos encherá a alma de contentamento, no próximo espetáculo.  Porém, o que Jarbas fez em Chaplin não foi um passo adiante. Trata-se de um salto, do qual me sinto incapaz de sugerir mensura.

Reprodução
Interpretar um personagem a contento requer talento. Interpretar um homem que se misturou ao seu personagem requer muito mais que talento. É preciso se aproximar da história do homem para mergulhar na do personagem, encontrando aquele lugar onde ambos se misturam, e essa terceira pessoa possa observá-los e conectar-se as suas emoções. Jarbas pesquisou a biografia de Charlie Chaplin, os trejeitos dele e do Vagabundo; leu livros sobre ele e assistiu aos filmes do ator e diretor, fez aulas de circo, patinação e violino. Foi trabalho dedicado que resultou em uma caracterização impressionante, combinada ao talento de Jarbas interpretando o personagem e as canções do musical.

Uma das passagens mais marcantes do espetáculo se refere também a um dos momentos mais desafiadores da carreira do artista, por ter gerado uma grande obra, mas também reforçado a ideia de que ele era comunista. Charlie se considerava um humanista, um cidadão do mundo, e desejava dar voz aos que não tinham. Em uma das suas ações como questionador da humanidade, escreveu, dirigiu e estrelou O Grande Ditador (The Great Dictator/1940), um filme emblemático, do qual o discurso final se tornou inesquecível. E assistir a essa cena no palco, interpretada com tal desenvoltura e comprometimento por Jarbas, foi comovente. 

Definitivamente, um salto.



CHAPLIN, O MUSICAL

Em cartaz até 25 de outubro

TEATRO PROCÓPIO FERREIRA
Rua Augusta, 2.823 | Cerqueira César | São Paulo

INGRESSOS

BILHETERIA
Terça a sábado | das 14h às 19h.
Domingo | das 14h às 18h ou até o início de cada espetáculo.

PELA INTERNET | www.ingressorapido.com.br
Call Center | 11.4003 1212 | Vendas de grupo: 11. 3064 7500

Texto Original: Christopher Curtis e Thomas Meehan | Músicas e letras originais: Christopher Curtis | Versão Brasileira: Miguel Falabella | Direção: Mariano Detry | Produtores Associados: Claudia Raia e Sandro Chaim | Direção Musical e Vocal: Marconi Araújo | Coreografia: Alonso Barros | Cenografia: Matt Kinley | Figurino: Fábio Namatame | Visagismo: Dicko Lorenzo




quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um universo chamado Barfly


Meu início com Charles Bukowski foi um tanto conturbado. Não me afeiçoei a ele - a sua obra - ao ler Cartas na Rua, livro que ganhei de um namorado que era apaixonado pelo escritor.  Passaram-se anos desde a primeira leitura até eu chegar a próxima. Quando aconteceu, quando li alguns poemas de Bukowski, dei-me conta de que seria afeto para a vida.

Então, eu soube desse filme com roteiro de Charles Bukowski, baseado em sua vida. O roteiro foi encomendado ai escritor pelo diretor de Barfly, Barbet Schroeder.

Assisti Barfly pela primeira vez há tantos anos que nem faço ideia de quando poderia ter sido. Posso garantir que também perdi as contas de quantas vezes eu o assisti, depois da primeira. Certamente, muitos acreditaram que se tratava de mais um da leva de 9 ½  Semanas de amor (Nine ½ Weeks/1986 | Adrian Lyne), filme que tornou Mickey Rourke conhecido como o sedutor nos moldes do personagem que interpretava.

Talvez nem todos estivessem preparados para a crueza de Barfly, para a forma contundente com que Rourke fez o seu papel, interpretando um personagem baseado em uma pessoa tão complexa quanto.


Eu já apreciava o trabalho de Mickey Rourke por conta dos filmes O Selvagem da Motocicleta (Rumble Fish/1983 | Francis Ford Coppola) e Coração Satânico (Angel Heart/1987 | Alan Parker), este lançado no mesmo ano de Barfly. Ao assisti-lo interpretar Henry Chinaski, passei do apreciar para o deslumbramento. O que Rourke fez em Barfly foi levar para a tela o personagem de vários livros de Bukowski, se não, muito do próprio autor.


Henry Chinaski é um personagem rico e completamente danificado. Ainda assim, sedutor, mas nãos nos moldes de John, o pseudo-galã do filme de Adrian Lyne. Sedutor por conta de sua complexidade e deboche, da forma como leva sua vida, praticamente morando em um bar, o amor psicodélico e ébrio que sente por Wanda Willcox (Faye Dunaway), assim como forma como lida com o próprio talento de poeta.


Adoro Dunaway como Wanda...


BARFLY | TRAILER

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Bem-vindos à selva da música clássica




Eu não sou conhecedora do universo da música clássica. Nunca conversei com um maestro como já conversei com muitos artistas, querendo saber como, quando... Por quê?

A questão é que eu adoro música. Em todas as áreas da minha vida ela está presente. Sendo assim, acabo lendo livros a respeito, assistindo a filmes nos quais ela também é personagem, e até séries de tevê, como o caso de Nashville, que relutei em conferir, mas ainda bem que o fiz, porque é uma ótima série sobre o cenário da música country.

Em dezembro de 2014, estreou mais uma série com músicos como tema. Ou seria a música? Na verdade, isso não importa, porque em terreno da arte os artistas se misturam às suas obras.

Baseada no livro homônimo da oboísta Blair Tindall, Mozart in the Jungle aborda os bastidores das orquestras e principalmente da vida dos seus maestros. O humor faz parte do tom da trama, mas isso não incute a ela qualquer leveza. O humor, quase sempre é ácido, é ferramenta poderosa para manter o espectador ansioso pelo próximo episódio.

A série também trata do conflito entre gerações, tema recorrente nessa vida da gente, em qualquer área. Um maestro de longa carreira, e reconhecidamente dos mais talentosos, entrega a batuta a um maestro mais jovem, completamente a contragosto. O choque entre a visão musical do mais tradicional com o mais apaixonado rende ótimas cenas entre dois grandes atores: Malcolm McDowell (Thomas) e Gael García Bernal (Rodrigo). Além disso, o efeito dessa mudança no comportamento e na execução musical dos integrantes da orquestra é muito interessante.


Particularmente, entusiasmei-me a assistir Mozart in the Jungle não somente pelo tema, mas também porque aprecio profundamente os atores envolvidos no projeto. McDowell tem participado de várias séries, entre elas The Mentalist e Frank & Bash, além de ser presença constante – e marcante - no cinema. E devo confessar que não consigo deixar de achá-lo fantástico em Laranja Mecânica (A Clockwork Orange/1970). Bernal é ótimo ator, que conheci por meio do filme O Crime do Padre Amaro (El crimen del padre Amaro/2002). Depois disso, venho acompanhando a carreira dele. Gabriel García Bernal permite que seu maestro Rodrigo seja extremamente sedutor, porque para ele a música vem primeiro, e ele a reconhece em todos os lugares.

O que eu não imaginava era que juntos eles seriam espetaculares.


Mozart in the Jungle é uma daquelas séries que nos levam a rir das mazelas humanas. Das grandes festas para arrecadação de fundos, passando pela disparidade de personalidade entre os maestros, suas guerras particulares e admiração inconfessável, a paixão pela música e a rotina da burocracia que envolve manter uma orquestra, as distrações que afastam do que realmente importa, ou seja, a música, chegando ao slogan da própria série: sexo, drogas e música clássica.

Mozart in the Jungle é uma série original do Amazon, com dez capítulos na primeira temporada. Clique aqui para mais informações.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Luz acesa ou apagada?




As séries mais realistas – principalmente sobre serial killers e psicopatas em geral - são as que mais me assustam. Apesar de serem ficção, essas séries apontam para os monstros que existem por aí, disfarçados de cidadãos exemplares, figuras de bondade incontestável. Em alguns casos, a ficção alardeia a possível realidade.

Pessoalmente, eu morro de medo de livros, filmes e séries sobrenaturais. Mas nem pensem que o gênero me desagrada. Porém, não aprecio o sobrenatural abordado no escancaro do humor rasgado ou do provocar o medo por meio de cenas clichês, mas que sempre dão certo. Para me botar medo, é preciso que a história seja muito bem contada, com interpretação das boas, e havendo clichês (quase impossível evitá-los!), que eles sejam apresentados de uma forma bem convincente.

Hoje eu falo sobre a minha percepção a respeito de duas séries com elementos sobrenaturais, diretamente ligadas à literatura, que me apetecem e me botam medo também.

PENNY DREADFUL


Criada por John Logan - roteirista de filmes como Gladiador (Gladiator/2000), O Aviador (The Aviator/2004) e A Invenção de Hugo Cabret (Hugo/2012), Penny Dreadful é das minhas séries pra lá de preferidas.

Tendo como cenário a Londres da era Vitoriana, a série conta com uma trama inédita para a história de personagens conhecidos da literatura, entre eles Dr. Victor Frankenstein (Harry Treadaway), extraído da obra de Mary Shelley, e Dorian Gray (Reeve Carney), de Oscar Wilde.

Sir Malcom Murray (Timothy Dalton) é um explorador que passou muito tempo na África. De volta à Londres, ele tenta localizar a sua filha, Mina (Olivia Llewellyn), sequestrada por seres sobrenaturais, que remetem à obra de Bram Stoker, Drácula. Ele conta com a ajuda de Vanessa Ives (Eva Green), quem acolhe, após o desaparecimento de Mina. Elas eram amigas inseparáveis, que cresceram juntas, até o dia em que Vanessa, motivada pela inveja, seduz o noivo de Mina, que testemunha a traição. A culpa que Vanessa sente é tanta, que ela acaba sendo internada em um hospício.

A conexão de Vanessa com o sobrenatural serve como fio-condutor da trama. Eva Green desempenha tão bem o seu papel, que as cenas em que Vanessa está sofrendo algum tipo de intervenção sobrenatural, e independe dos efeitos especiais, são de tirar o fôlego.

Também participam da busca por Mina o criado africano de Sir Malcom, Sembene (Danny Sapani), e o americano Ethan Chandler (Josh Hartnett), que viaja pela Europa e se apresenta como o gatilho mais rápido do Oeste.

Logan não se intimida em mergulhar na obscuridade do diabólico tentando arrebanhar a todos, o que resulta em um roteiro que explora cada personagem de forma sedutora e amedrontadora.

Por mais temor que a série provoque, não há como tirar os olhos da cena. O primeiro episódio da segunda temporada de Penny Dreadful estreou na semana passada. Para mim, um dos mais interessantes da série, que mostra que, na nova temporada, Vanessa vai ultrapassar de vez os muros que separam este mundo daquele outro, o dito sobrenatural.

Status: luzes acesas quase sempre, meus caros.



HAVEN



Lembro-me bem de quando uma amiga me emprestou o livro Saco de Ossos, de Stephen King. Acostumada a ler antes de dormir, eu era obrigada a me levantar às seis da manhã, durante um bom período, para ler o livro antes de ir para o trabalho, já que, ao lê-lo à noite, nem a luz acesa me permitia dormir.

Em 2011, Saco de Ossos foi lançado nos estados Unidos como minissérie.

Algumas obras de King também foram adaptadas para o cinema e fizeram muito sucesso. Entre eles: Carrie, A Estranha (Carrie/1977), O Iluminado (The Shinning/1980), À Espera de um Milagre (The Green Mile/2000) e O Apanhador de Sonhos (Dreamcatcher/2002).

Recentemente, comecei a assistir a série Haven, mais projeto baseado na obra de Stephen King.

Baseada no livro The Colorado Kid, e adaptada por Jim Dunn e Sam Ernsta, a série aborda a história de Audrey Parker (Emily Rose), uma agente do FBI que tem a habilidade de desvendar crimes ao observar os casos de uma perspectiva diferente. Ela é enviada para Haven, para prender um fugitivo. Lá, Parker descobre que a cidade está repleta de pessoas sofrem com aflições sobrenaturais, conhecidas como os problemas. Ela também descobre que é imune a essa maldição e que a sua identidade foi forjada, assim como sua memória reescrita. Ao ver uma foto de uma mulher idêntica a ela, em uma antiga matéria de jornal local sobre o assassinato do garoto de colorado, Parker decide ficar na cidade e investigar aquela mulher, que julga ser a sua mãe. Acontece que aquela mulher é mesmo Parker, com a mesma idade de hoje, há vinte sete anos, chamada Lucy.

Trabalhando com a polícia local, Parker conhece dois homens que a acompanham na jornada em busca da sua identidade, assim como a ajudar aqueles que sofrem com os problemas. Nathan Wuornos (Lucas Bryant) é filho do chefe de polícia, onde também trabalha. O problema de Wuornos é não sentir nada, fisicamente. Duke Crocker (Eric Balfour) é um sedutor trapaceiro, e também o menino que aparece na foto do jornal, segurando a mão de Lucy.

Em Haven, os casos policiais têm a ver com os problemas, com crimes cometidos, às vezes, sem mesmo a pessoa saber que o seu foi ativado. Enquanto desvenda crimes e ajuda aos problemáticos, Parker também vai desenrolando a sua própria história. Ela, Wuornos e Crocke se tornam especialistas em ajudar as pessoas acometidas pelos problemas.

Não tão densa quanto Penny Dreadful, permitindo até um toque de humor à base de ironia, Haven aborda os problemas de forma muito interessante. Entre eles, estão o da mulher capaz de mudar as condições climáticas, de acordo com o seu humor; a moça que desenha uma paisagem, depois o desenho não pode ser rasgado, senão o que está nele é destruído, assim como homem que é um imã para balas de tiros disparados perto dele. Bom mesmo é o roteiro, que ainda que o problema em questão seja completamente absurdo, é tão bem escrito que o espectador embarca na trama.

Haven conta com quatro temporadas exibidas, cada uma com treze episódios. A quinta temporada foi anunciada com vinte e seis episódios, sendo que treze deles já foram exibidos. Os outros treze devem ser veiculados ainda em 2015. Obviamente, poderiam ter anunciado a quinta e a sexta temporada, mas uma questão financeira fez com que o canal SyFy fizesse esse pacote.

Status: luzes acesas de vez em quando, meus caros.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O mundo sem ela

O maestro — tomado pelo frenesi que lhe é peculiar — leva a orquestra para as ruas, para um ensaio. Alguns músicos e os dirigentes da orquestra ficam furiosos. Onde já se viu sair de uma sala de acústica perfeita para ensaiar em um estacionamento, ou espaço afim, no meio da cidade e seus barulhos, as buzinas, o falatório, os passos das pessoas rumo ao trabalho? Expostos à curiosidade dos comuns?

Mozart in The Jungle
O produtor sofre com a demanda musical de sua gravadora. A música que antes lhe fascinava, e os artistas com os quais tinha prazer em trabalhar, resumem-se agora a pessoas que caibam em um modelo de sucesso. Ele sabe que retorno comercial é necessário, afinal, todos têm de ganhar a vida. Mas por que não um retorno comercial com boa música? Ele encontra essa compositora e decide que irá produzir o disco dela. Sem a parceria com a gravadora — da qual foi convidado a se retirar pelo seu sócio —, ele vai para as ruas. Grava todas as faixas do disco nas ruas, aproveitando os barulhos da cidade e de seus personagens.

Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again)
Ela queria ser a primeira pianista clássica negra da História. O talento estava lá, a dedicação, idem. Porém, na sua época o preconceito racial não era assim, possível de ser comentado. Não vamos nos enganar, que ele ainda existe e tem força, ainda é bem complicado comentar a respeito, apesar de termos mais liberdade nesse quesito, o que é bem triste ao nos voltarmos ao que muitas pessoas arriscaram e continuam a arriscar — sim, falo da vida delas — para melhorar esse cenário. Ela não se tornou a primeira pianista clássica da História, mas certamente uma das artistas mais importantes dela. Mas a vida pode tirar a pessoa do prumo, não? Mesmo com boas intenções, com a batalha certa a ser encarada, a intimidade com seus demônios traçou outro plano, enquanto o público se encantava com sua música.

Nina Simone
Toda vez que reflito sobre a importância da arte — e eu o faço com frequência, já que, com a mesma frequência encontro quem afirme que é somente entretenimento, então vamos mantê-la consumível, ainda que descartável —, imagino o mundo sem ela. Você consegue?

Vamos nos ater à música, que é o assunto em pauta. Você consegue imaginar um mundo como um longo filme sem trilha sonora? Sem canções de ninar? Sem canções religiosas? Ah, mas sem essas também... Nada de Eleanor Rigby, Insensatez, Stairway to Heaven ou Roda Viva. Sem os musicais, claro. Sem serenata, roda de violão, festivais.

Conheço muitos artistas que dizem que não vieram ao mundo para influenciar a opinião de ninguém, que fazem arte por vários motivos, menos com a intenção de mudar o mundo. Talvez por isso o façam tão graciosamente. Obviamente, seria ótimo se esses artistas, os que têm algo a dizer, tivessem mais espaço na realidade das pessoas; que fosse possível que suas obras chegassem ao grande público com a facilidade — apesar da dificuldade — com a qual um maestro leva músicos e instrumentos para as ruas, e um produtor musical grava canções pela cidade.

Você pode até dizer que estou delirando, afinal, o maestro e o produtor são personagens de série de televisão e cinema. Mas e a pianista? Ela não é personagem. Apesar de ter se tornado uma pessoa difícil de lidar e que, às vezes, tinha ideias radicais, ideias que avançavam enquanto ela lidava com transtorno mental, antes mesmo de doenças como a que tinha fossem diagnosticadas normalmente. Era bipolar, daí veio muito do seu comportamento errático. Arriscou uma carreira de sucesso para cantar sobre direitos civis, falando sobre o orgulho de ser negra em um momento em que sê-lo era muito mais difícil e complicado do que é hoje em dia. Imagine sê-lo com orgulho.

Arte também requer coragem de se expor como a maioria de nós jamais se exporia

Não há como passarmos pela vida sem que a arte nos toque de alguma forma. Quem sabe se, ao ampliarmos o seu alcance, possamos usufruir todos os seus matizes. E trazê-la para a rua como experimentação. Trazê-la sem mutilá-la para que caiba em projetos formatados. Trazê-la na grandiosidade que lhe cabe. Trazê-la para falar sobre tudo, sem censura, mas definitivamente celebrando a liberdade e o respeito pela criação e opinião do outro.

Para que, muito além do prazer que a arte pode nos oferecer, não nos tornemos um mundo mudo e incapaz de enxergar além.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Recomeço e música | Mesmo Se Nada Der Certo



John Carney foi um dos integrantes da banda The Frames, liderada por Glen Hansard, músico que atuou em The Commitments (Alan Parker/1998), filme que fala sobre um jovem que deseja se tornar um empresário e levar a soul music para Dublin. Porém, foi com Apenas Uma Vez (Once/2006) que Hansard ganhou destaque internacional.

Semana passada, eu publiquei um artigo no Babel Cultural |clique aqui para ler| sobre dez filmes nos quais a música tem destaque ou chega a ser um dos personagens da trama. Entre eles, Apenas Uma vez. Alguns dias depois, assisti a outro filme do roteirista e diretor, que incluiria nessa lista tranquilamente. Mas como esse trem já passou, decidi falar sobre ele aqui no Talhe.

Ano passado, Carney escreveu e dirigiu Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again), filme que assisti no fim de semana, depois de ter escutado a trilha sonora várias vezes.

A trilha sonora foi indicação de uma amiga, que assistiu ao filme e gostou da música. Eu não sabia do lançamento do filme e me apeguei, primeiramente, à trilha sonora. As canções são muito bacanas, e os falsetes de Adam Levine (Maroon 5) cabem muito bem em algumas delas. Porém, foi bom ter seguido o caminho contrário. Ao assistir ao filme, compreendi a participação e a importância da música, inclusive das canções interpretadas por Keira Knightley.

Sobre o filme, estava ansiosa para conferi-lo, visto que, além do meu apreço por Carney, sou fã de Mark Ruffalo, mas levei um tempo até sair da trilha sonora e embarcar no filme. Entretanto, ao fazê-lo eu descobri uma lindeza de filme com música, sobre música, sobre quem faz música, sobre quem vive de música, sobre quem se entrega à música.


Gretta (Keira Knightley) é uma compositora que se muda para Nova York com seu namorado, Dave (Adam Levine). Ele assina com uma grande gravadora e se torna um astro. O relacionamento desanda e ela se muda para a casa de um amigo, Steve (James Corden), um músico que se apresenta nas ruas da cidade e em pequenos bares. Em uma de suas apresentações, Steve pede a Gretta que suba ao palco e apresente uma de suas canções. A contragosto, Gretta cede à insistência de Steve e sua performance não desperta o interesse do público, mas sim de Dan (Mark Ruffalo).


Dan é um produtor musical, sócio de uma gravadora que já não trabalha com a mesma originalidade do início. Alcoólatra e depressivo, enfrentando uma separação, ele não consegue se adaptar ao cenário da música descartável. Por conta de seu comportamento, ele acaba sendo convidado a se retirar da sociedade na gravadora.

A cena em que Dan assiste à apresentação de Gretta é reveladora. Podemos ver a sua mente trabalhando para escutar aquela canção com o arranjo. Sim, meus caros, o arranjo é muito importante. Independente dos instrumentos utilizados em uma música, o arranjo faz a diferença.


Dan decide apresentar a música de Gretta ao ex-sócio, que ao escutá-la ao vivo, insiste que só poderá considerar uma contratação mediante a uma demo, ou seja, uma amostra gravada das músicas. Então, Dan, o produtor musical, com toda irreverência que lhe cabe, sugere à Gretta que gravem um disco ao vivo, pelas ruas de Nova York.

A sintonia entre Gretta e Dan é o que comanda a trama. Ambos desejam mais da música do que contratos milionários e canções em trilhas sonoras de filmes de sucesso garantido. Não que isso seja ruim, mas sim diferente do que eles desejam. Para eles, a música é uma extensão da alma e as palavras significam muito. Adaptações para atender ao mercado não cabem em seus propósitos. Por isso mesmo a gravação do disco é das partes mais reveladoras do filme. É possível compreender o que eles buscam e como eles se transformam, enquanto lidam com um momento muito difícil de suas vidas e também com o mais desafiador.

Impossível não se encantar com Ruffalo, um talentoso ator interpretando um ótimo personagem.



Se Nada Der Certo é daqueles filmes sobre os quais você continua a pensar, mesmo muito depois de assisti-lo. Há nele muitos matizes, e talvez vocês sejam tocados por ele de forma completamente diferente de mim, que é assim que a arte acontece: sujeita às interpretações.


No meu caso, ele entrou para o hall de filmes para lá de queridos, para se assistir sempre que precisar acessar o motivo de a música ser tão importante na vida das pessoas.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Eu estava lá | Os Monólogos da Vagina
15 anos


Em sete de abril de 2000, estreava no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro, o espetáculo Os Monólogos da Vagina. Estreava depois de anos de tentativa em produzi-lo. Os obstáculos foram muitos, porque empresas não queriam envolver suas marcas em um espetáculo que tivesse a palavra vagina em seu título. Mas a vagina ganhou essa batalha.

No dia sete de abril de 2015, Os Monólogos da Vagina completou 15 anos de apresentações no Brasil. Teve festa – e das animadas – no Teatro Gazeta, em São Paulo, com direito à Vânia Bastos interpretando a clássica Cor de Rosa Choque, de Rita Lee e Roberto de Carvalho, antes de começar o espetáculo. E onde Fafy Siqueira, Adriana Lessa e Maximiliana Reis celebraram o feito no palco. Linda e divertidamente.

É possível reconhecer o tom de Miguel Falabella na adaptação da obra de Eve Ensler. Ele não foi somente competente ao transpor o texto para o nosso idioma. Há genialidade no feito, daquelas que fazem a cadência ideal para inspirar gargalhadas, enquanto os presentes também compreendem a seriedade do assunto. Porque, sim, o espetáculo é escancaradamente engraçado, e as atrizes colaboram vorazmente para isso. Escutamos a palavra vagina tantas vezes - e temos de reconhecê-la em tantas situações -, que acabamos por compreender que, se a palavra nos parece incômoda em um primeiro momento, por falta de uso mesmo, logo o que realmente incomoda é a violência – física e emocional – dedicada com tanto esmero às mulheres do mundo, às vezes por indivíduos, em outras pelo peso de uma cultura que baseada na ignorância e na intolerância. 

Os Monólogos da Vagina celebra a própria, que o prazer também cabe nesse balaio. Mais do que tudo, celebra a certeza de que é preciso saber mais sobre a vagina, para não delegar a ela as culpas que não lhe cabem.

FAFY SIQUEIRA | ADRIANA LESSA | MAXIMILIANA REIS
Três atrizes em um palco sem requintes cenográficos. Amparadas por um texto que trafega pela picardia e pelo drama na maior tranquilidade, graças também ao talento daquelas que encenam depoimentos reais por meio de personagens aos quais dão os devidos tons.

Fafy Siqueira é, indiscutivelmente, um dos grandes talentos do nosso país, principalmente quando há humor envolvido. Seu timing é impecável, o que fica claro quando há necessidade de improviso. Adriana Lessa eu conhecia dos trabalhos na televisão. Foi uma grata surpresa vê-la no palco, conhecer mais esse aspecto do seu trabalho como atriz. De Maximiliana Reis eu sou fã e há muito tempo. Porém, desta vez percebi algo que somente por meio de um espetáculo com tal diversidade de papéis é possível se perceber: a facilidade com a qual ela trafega entre personagens tão peculiares e distintos. O figurino ajuda, mas não faz milagre. Neste caso, o milagre fica por conta dela.

SOBRE QUEM E POR QUÊ


Eve Ensler | Foto © Brigitte Lacombe
Muitas histórias precederam a chegada do espetáculo aos palcos brasileiros. De autoria de Eve Ensler, começou tímido, sendo apresentado em um Café de Nova York. Desde então, foi traduzido em mais de quarenta idiomas e apresentado em cerca de cento e quarenta países. A autora deu vida à obra a partir de depoimentos de mais de duzentas mulheres, de várias partes do mundo, sobre sexo, relacionamentos e violência doméstica. A pretensão para o texto era de uma homenagem à feminilidade e, obviamente, à vagina. Porém, sendo o material que Ensler colheu - que não se limitou aos primeiros depoimentos - uma rica fonte de informações, tornou-se algo maior, voltado ao fim da violência contra a mulher.

O produtor Cassio Reis assistiu ao espetáculo quando ele ainda era interpretado pela autora. Foi ele quem adquiriu os direitos para a produção brasileira. Originalmente interpretado somente por uma atriz, Os Monólogos da Vagina ganhou um formato diferente com a adaptação de Miguel Falabella, que também atuou como diretor do espetáculo e moldou o texto para três atrizes. Ensler esteve no Brasil na estreia do espetáculo e se encantou com a adaptação. A concepção, a pedido da autora, foi adotada mundialmente em todas as produções.

A visão primorosa de Falabella nesta adaptação resultou em quinze anos de sucesso absoluto por todo o Brasil. 

Com um elenco tão talentoso, Os Monólogos da Vagina está em cartaz no Teatro Gazeta, em São Paulo. Aconselho aos que ainda não assistiram que não deixem de fazê-lo. É tão divertido que o gargalhar da plateia acaba se tornando trilha sonora do espetáculo. Assim como nas boas canções, há sim momentos em que a dinâmica se apresenta e o gargalhar entra em pausa para os depoimentos que não permitem ao humor fazer o seu papel. São pontuações durante o espetáculo que nos lembram de como tudo começou; do motivo de Eve Ensler ter dado vida a essa obra. Mas fiquem tranquilos que a música volta.

Yes, nós temos vagina.


OS MONÓLOGOS DA VAGINA
Com Fafy Siqueira, Adriana Lessa e Maximiliana Reis

Teatro Gazeta
Avenida Paulista, 900 | São Paulo, capital
Informações | 11.3253 4102 – teatro.gazeta@terra.com.br
Compre online clicando AQUI.

Texto | Eve Ensler
Concepção original e adaptação | Miguel Falabella
Direção de Elenco | Imara Reis
Visagismo | Anderson Bueno
Cenário | Cássio L. Reis
Trilha | Ricardo Severo
Figurinos | Milton Fucci Júnior
Assistentes de Produção | Thiago Torres e Paulo Maisatto
Produção | Cássio L. Reis
Realização | Phenix Produções Artísticas e Entretenimento

osmonologosdavagina.com.br