segunda-feira, 27 de abril de 2015

Recomeço e música | Mesmo Se Nada Der Certo



John Carney foi um dos integrantes da banda The Frames, liderada por Glen Hansard, músico que atuou em The Commitments (Alan Parker/1998), filme que fala sobre um jovem que deseja se tornar um empresário e levar a soul music para Dublin. Porém, foi com Apenas Uma Vez (Once/2006) que Hansard ganhou destaque internacional.

Semana passada, eu publiquei um artigo no Babel Cultural |clique aqui para ler| sobre dez filmes nos quais a música tem destaque ou chega a ser um dos personagens da trama. Entre eles, Apenas Uma vez. Alguns dias depois, assisti a outro filme do roteirista e diretor, que incluiria nessa lista tranquilamente. Mas como esse trem já passou, decidi falar sobre ele aqui no Talhe.

Ano passado, Carney escreveu e dirigiu Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again), filme que assisti no fim de semana, depois de ter escutado a trilha sonora várias vezes.

A trilha sonora foi indicação de uma amiga, que assistiu ao filme e gostou da música. Eu não sabia do lançamento do filme e me apeguei, primeiramente, à trilha sonora. As canções são muito bacanas, e os falsetes de Adam Levine (Maroon 5) cabem muito bem em algumas delas. Porém, foi bom ter seguido o caminho contrário. Ao assistir ao filme, compreendi a participação e a importância da música, inclusive das canções interpretadas por Keira Knightley.

Sobre o filme, estava ansiosa para conferi-lo, visto que, além do meu apreço por Carney, sou fã de Mark Ruffalo, mas levei um tempo até sair da trilha sonora e embarcar no filme. Entretanto, ao fazê-lo eu descobri uma lindeza de filme com música, sobre música, sobre quem faz música, sobre quem vive de música, sobre quem se entrega à música.


Gretta (Keira Knightley) é uma compositora que se muda para Nova York com seu namorado, Dave (Adam Levine). Ele assina com uma grande gravadora e se torna um astro. O relacionamento desanda e ela se muda para a casa de um amigo, Steve (James Corden), um músico que se apresenta nas ruas da cidade e em pequenos bares. Em uma de suas apresentações, Steve pede a Gretta que suba ao palco e apresente uma de suas canções. A contragosto, Gretta cede à insistência de Steve e sua performance não desperta o interesse do público, mas sim de Dan (Mark Ruffalo).


Dan é um produtor musical, sócio de uma gravadora que já não trabalha com a mesma originalidade do início. Alcoólatra e depressivo, enfrentando uma separação, ele não consegue se adaptar ao cenário da música descartável. Por conta de seu comportamento, ele acaba sendo convidado a se retirar da sociedade na gravadora.

A cena em que Dan assiste à apresentação de Gretta é reveladora. Podemos ver a sua mente trabalhando para escutar aquela canção com o arranjo. Sim, meus caros, o arranjo é muito importante. Independente dos instrumentos utilizados em uma música, o arranjo faz a diferença.


Dan decide apresentar a música de Gretta ao ex-sócio, que ao escutá-la ao vivo, insiste que só poderá considerar uma contratação mediante a uma demo, ou seja, uma amostra gravada das músicas. Então, Dan, o produtor musical, com toda irreverência que lhe cabe, sugere à Gretta que gravem um disco ao vivo, pelas ruas de Nova York.

A sintonia entre Gretta e Dan é o que comanda a trama. Ambos desejam mais da música do que contratos milionários e canções em trilhas sonoras de filmes de sucesso garantido. Não que isso seja ruim, mas sim diferente do que eles desejam. Para eles, a música é uma extensão da alma e as palavras significam muito. Adaptações para atender ao mercado não cabem em seus propósitos. Por isso mesmo a gravação do disco é das partes mais reveladoras do filme. É possível compreender o que eles buscam e como eles se transformam, enquanto lidam com um momento muito difícil de suas vidas e também com o mais desafiador.

Impossível não se encantar com Ruffalo, um talentoso ator interpretando um ótimo personagem.



Se Nada Der Certo é daqueles filmes sobre os quais você continua a pensar, mesmo muito depois de assisti-lo. Há nele muitos matizes, e talvez vocês sejam tocados por ele de forma completamente diferente de mim, que é assim que a arte acontece: sujeita às interpretações.


No meu caso, ele entrou para o hall de filmes para lá de queridos, para se assistir sempre que precisar acessar o motivo de a música ser tão importante na vida das pessoas.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Eu estava lá | Os Monólogos da Vagina
15 anos


Em sete de abril de 2000, estreava no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro, o espetáculo Os Monólogos da Vagina. Estreava depois de anos de tentativa em produzi-lo. Os obstáculos foram muitos, porque empresas não queriam envolver suas marcas em um espetáculo que tivesse a palavra vagina em seu título. Mas a vagina ganhou essa batalha.

No dia sete de abril de 2015, Os Monólogos da Vagina completou 15 anos de apresentações no Brasil. Teve festa – e das animadas – no Teatro Gazeta, em São Paulo, com direito à Vânia Bastos interpretando a clássica Cor de Rosa Choque, de Rita Lee e Roberto de Carvalho, antes de começar o espetáculo. E onde Fafy Siqueira, Adriana Lessa e Maximiliana Reis celebraram o feito no palco. Linda e divertidamente.

É possível reconhecer o tom de Miguel Falabella na adaptação da obra de Eve Ensler. Ele não foi somente competente ao transpor o texto para o nosso idioma. Há genialidade no feito, daquelas que fazem a cadência ideal para inspirar gargalhadas, enquanto os presentes também compreendem a seriedade do assunto. Porque, sim, o espetáculo é escancaradamente engraçado, e as atrizes colaboram vorazmente para isso. Escutamos a palavra vagina tantas vezes - e temos de reconhecê-la em tantas situações -, que acabamos por compreender que, se a palavra nos parece incômoda em um primeiro momento, por falta de uso mesmo, logo o que realmente incomoda é a violência – física e emocional – dedicada com tanto esmero às mulheres do mundo, às vezes por indivíduos, em outras pelo peso de uma cultura que baseada na ignorância e na intolerância. 

Os Monólogos da Vagina celebra a própria, que o prazer também cabe nesse balaio. Mais do que tudo, celebra a certeza de que é preciso saber mais sobre a vagina, para não delegar a ela as culpas que não lhe cabem.

FAFY SIQUEIRA | ADRIANA LESSA | MAXIMILIANA REIS
Três atrizes em um palco sem requintes cenográficos. Amparadas por um texto que trafega pela picardia e pelo drama na maior tranquilidade, graças também ao talento daquelas que encenam depoimentos reais por meio de personagens aos quais dão os devidos tons.

Fafy Siqueira é, indiscutivelmente, um dos grandes talentos do nosso país, principalmente quando há humor envolvido. Seu timing é impecável, o que fica claro quando há necessidade de improviso. Adriana Lessa eu conhecia dos trabalhos na televisão. Foi uma grata surpresa vê-la no palco, conhecer mais esse aspecto do seu trabalho como atriz. De Maximiliana Reis eu sou fã e há muito tempo. Porém, desta vez percebi algo que somente por meio de um espetáculo com tal diversidade de papéis é possível se perceber: a facilidade com a qual ela trafega entre personagens tão peculiares e distintos. O figurino ajuda, mas não faz milagre. Neste caso, o milagre fica por conta dela.

SOBRE QUEM E POR QUÊ


Eve Ensler | Foto © Brigitte Lacombe
Muitas histórias precederam a chegada do espetáculo aos palcos brasileiros. De autoria de Eve Ensler, começou tímido, sendo apresentado em um Café de Nova York. Desde então, foi traduzido em mais de quarenta idiomas e apresentado em cerca de cento e quarenta países. A autora deu vida à obra a partir de depoimentos de mais de duzentas mulheres, de várias partes do mundo, sobre sexo, relacionamentos e violência doméstica. A pretensão para o texto era de uma homenagem à feminilidade e, obviamente, à vagina. Porém, sendo o material que Ensler colheu - que não se limitou aos primeiros depoimentos - uma rica fonte de informações, tornou-se algo maior, voltado ao fim da violência contra a mulher.

O produtor Cassio Reis assistiu ao espetáculo quando ele ainda era interpretado pela autora. Foi ele quem adquiriu os direitos para a produção brasileira. Originalmente interpretado somente por uma atriz, Os Monólogos da Vagina ganhou um formato diferente com a adaptação de Miguel Falabella, que também atuou como diretor do espetáculo e moldou o texto para três atrizes. Ensler esteve no Brasil na estreia do espetáculo e se encantou com a adaptação. A concepção, a pedido da autora, foi adotada mundialmente em todas as produções.

A visão primorosa de Falabella nesta adaptação resultou em quinze anos de sucesso absoluto por todo o Brasil. 

Com um elenco tão talentoso, Os Monólogos da Vagina está em cartaz no Teatro Gazeta, em São Paulo. Aconselho aos que ainda não assistiram que não deixem de fazê-lo. É tão divertido que o gargalhar da plateia acaba se tornando trilha sonora do espetáculo. Assim como nas boas canções, há sim momentos em que a dinâmica se apresenta e o gargalhar entra em pausa para os depoimentos que não permitem ao humor fazer o seu papel. São pontuações durante o espetáculo que nos lembram de como tudo começou; do motivo de Eve Ensler ter dado vida a essa obra. Mas fiquem tranquilos que a música volta.

Yes, nós temos vagina.


OS MONÓLOGOS DA VAGINA
Com Fafy Siqueira, Adriana Lessa e Maximiliana Reis

Teatro Gazeta
Avenida Paulista, 900 | São Paulo, capital
Informações | 11.3253 4102 – teatro.gazeta@terra.com.br
Compre online clicando AQUI.

Texto | Eve Ensler
Concepção original e adaptação | Miguel Falabella
Direção de Elenco | Imara Reis
Visagismo | Anderson Bueno
Cenário | Cássio L. Reis
Trilha | Ricardo Severo
Figurinos | Milton Fucci Júnior
Assistentes de Produção | Thiago Torres e Paulo Maisatto
Produção | Cássio L. Reis
Realização | Phenix Produções Artísticas e Entretenimento

osmonologosdavagina.com.br