terça-feira, 23 de outubro de 2012

E se a vida é um cabaré...



Palco é coisa séria, meus caros. Não interessa que seja aquele improvisado no quintal de um apaixonado por arte, na praça principal, nas casas de show ou nos mais importantes teatros da cidade. 

O palco da música eu entendo, ainda que seja como quem observa de longe ou apenas ajuda o espetáculo a acontecer, como a pessoa do backstage. Nos palcos improvisados pipocam a diversidade e tantos talentos que melhor mesmo não tomá-los por menos, porque de lá sempre sai grandiosidade. Sobre os palcos dos teatros da cidade, vocês sabem se andam acompanhando meus escritos. Sobre eles eu ando - humilde, porém apaixonadamente – aprendendo.

No domingo, fui ao Teatro Procópio Ferreira, aqui em São Paulo, para assistir ao espetáculo Cabaret, a produção brasileira do musical da Broadway. Fui sabendo do que se tratava, porque assisti ao filme que consagrou Liza Minelli. Ainda assim, isso aconteceu há tantos anos que meu olhar para o espetáculo estava desatrelado de expectativas. Fui ao teatro para ser surpreendida. Foi exatamente o que aconteceu.

Sally Bowles é uma daquelas personagens que inspiram a criação. Ela nasceu com o livro de Christopher Isherwood, Goodbye to Berlin (1939). Sally também se tornou o personagem central do espetáculo teatral I Am a Camera (1951), de John Van Druten. Porém, foi por meio do musical Cabaret (1966), com texto de Joe Masteroff, que a cantora e dançarina foi consagrada um dos personagens mais marcantes do cenário artístico, caindo nas graças da Broadway. 


Talvez por isso Claudia Raia tenha batalhado tanto até conseguir os direitos do espetáculo. Sally Bowles é um daqueles personagens que trafegam sobre a corda bamba do gosto de sucesso falseado, enquanto se embrenha é na miséria. Uma artista inglesa, vivendo e trabalhando em um clube decadente de Berlim, no período de ascensão do nazismo, lidando com o vício, o amor e todas as mudanças pelas quais a Alemanha passava. 

Em cartaz há quase um ano, e já tendo circulado por outras cidades do país, a versão brasileira de Cabaret é de Miguel Falabella. Com direção de José Possi Neto, o espetáculo surpreende pela produção. O cenário e a iluminação são ingredientes muito bem aplicados no espetáculo, assim como a música, executada por uma orquestra de 14 músicos e conduzida pela maestrina Beatriz de Luca. Aliás, às vezes a orquestra faz a vez de sonoplasta, destacando cenas e ornamentando gestos, além de executar o repertório do espetáculo com canções de John Kander e letras de Fred Ebb. É um trabalho de sincronismo muito bem feito entre músicos e elenco.


Claudia Raia ganha no quê de humor autoinfligido, do qual Sally se vale para sobreviver, talvez, a si mesma. A atriz tem um ótimo timing para revezar drama e comédia, e essa cadência se reflete no desfecho da personagem. Mesmo seu amor nasce da conveniência de quem não tem onde morar e encosta-se ao outro, neste caso, o americano recém-chegado em Berlim, Clifford Bradshaw, muito bem interpretado por Guilherme Magon, um escritor em busca de inspiração para escrever um romance. 


Porém, a trajetória de Sally Bowles não seria apresentada de maneira tão interessante não fosse outro personagem.  O mestre de cerimônias, o MC, interpretado por Jarbas Homem de Mello.


Sou apreciadora do trabalho do Jarbas desde a primeira vez que assisti ao Querido Mundo, de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, em que ele dividia o palco com Maximiliana Reis. Foi a partir deste espetáculo que meu interesse pelo teatro foi amplificado. E apesar de saber que surpreender faz parte do vocabulário artístico de Jarbas, fui mais que surpreendida pela sua interpretação no Cabaret. Há no MC de Jarbas Homem de Mello a excentricidade muito bem pontuada, que nos leva a vê-lo, simbolicamente, como o informante do destino, amigo íntimo dos desfechos. Ele conduz o seu papel com a graça e o deboche necessários.

Cabaret é um espetáculo que acertou ao se aliar a tantos artistas talentosos. Para quem ainda não assistiu, recomendo que o faça logo, assim terá a oportunidade de repetir a dose, o que é, sem dúvida, um sintoma que dos espectadores após o espetáculo. Fica o desejo de assistir novamente.

Agradeço à Bruna Barone pelo convite, aproveitando para parabenizá-la pelo trabalho feito junto à orquestra. Também agradeço à Lucy Puzoni Elias pela agradável companhia.









TEXTO: Joe Masteroff
MÚSICAS: John Kander
LETRAS: Fred Ebb
VERSÃO BRASILEIRA: Miguel Falabella
DIREÇÃO: José Possi Neto
DIREÇÃO MUSICAL E VOCAL: Marconi Araújo
COREOGRAFIA: Alonso Barros
PRODUTORES ASSOCIADOS: Claudia Raia E Sandro Chaim
PRODUÇÃO GERAL: Sandro Chaim

ELENCO
Claudia Raia como Sally Bowles
Jarbas Homem De Mello como MC
Guilherme Magon como Clifford Bradshaw

ATORES CONVIDADOS
Liane Maya
Marcos Tumur

PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS
Kátia Barros
Júlio Mancini

KIT KAT GIRLS
Alessandra Dimitriou
Carol Costa
Clara Camargo
Hellen De Castro
Luana Zenun
Luciana Milano
Raquel Quarterone
Renata Bras

KIT KAT BOYS
Alberto Goya
Daniel Monteiro
Mateus Ribeiro
Renato Bellini
Rodrigo Negrini
Rodrigo Vicente
Tomas Quaresma

ORQUESTRA
Maestrina: Beatriz De Luca



Andrei Presser – Teclado
Angela Bianchi – Contra Baixo
Bruna Barone – Bateria
Bruno Garcia Fermiano – Trompete 1
Caroll Ramgél – Trombone
César Vicente – Violino/Viola 1
Chico Macedo – Reed 1
Claudemir Alves – Trompete 2
Elias Borges (Kibe) – Reed 2
Fabio Petrucelli – Violoncelo
Gabriel Oliveira – Violino/Viola 2
Lucas Bojikian – Piano
Marcelo Manfrinato – Reed 3
Thiago Chaves – Banjo

SERVIÇO
Até 16 de dezembro
Teatro Procópio Ferreira - Rua Augusta, 2.823, Jardins - São Paulo/SP

Quinta-feira: às 21h
Sexta-feira: às 21h30
Sábado (duas sessões): às 17h e às 21h
Domingo: às 18h
Ingressos: de R$ 40,00 a R$ 200,00
Ingressos por telefone: 4003-1212 ou pelo site: www.ingressorapido.com.br
Bilheteria: Terça a Sábado das 14h às 19h; domingo das 14 às 18h ou até o início do espetáculo

INFORMAÇÕES: 11.3083-4475

Censura: 14 anos
Capacidade: 600 lugares
Duração: 2h30



facebook.com/cabaretomusical


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