segunda-feira, 19 de março de 2012

O vazio de "Um lugar qualquer"

Desde a sua estreia em longas, com o filme As Virgens Suicidas (The Virgins Suicides/1999), Sofia Coppola vem experimentando, tanto como diretora, quanto roteirista. Particularmente, aprecio a falta de apreço da cineasta pelo lugar seguro. Seus filmes são diferentes, ela se atreve, como o fez ao dirigir Maria Antonieta (Marie Antoinette/2006). E não há como descartar a beleza de Encontros e Desencontros (Lost in Translation/2003), pelo qual ganhou o Oscar na categoria Melhor Roteiro Original.

Um lugar qualquer (Somewhere/2010) não é um filme para o gosto da maioria. Tem um ritmo lento, pode aborrecer os acostumados aos filmes de ação ou à música mais agitada para quebrar as cenas arrastadas. Porém, aos abertos a todo tipo de filme, este pode se mostrar muito interessante.

Um lugar qualquer conta a história de Johnny Marco, um famoso ator de Hollywood que, após um acidente no set de filmagens, fica hospedado em um lendário hotel, vivendo a base de festas e strippers. A realidade de ator bad boy em recuperação de Johnny toma outro curso quando a mãe de sua filha decide que precisa de um tempo e viaja, deixando Cleo, de 11 anos, com o pai. Com a presença da filha, não são apenas as festas e o entra e saí de mulheres que diminuem. A mudança é gradativa, mas faz com que Johnny perceba a sua própria existência de uma maneira muito diferente.

Interessante é ter um ator com um currículo recheado de filmes de ação em um papel tão minimalista. Minimalista, mas nem por isso desinteressante. Stephen Dorff (Blade, O Caçador de Vampiros/Inimigos Públicos) trata Johnny Marco como o personagem merece, e o resultado é positivo.

Cleo é interpretada por Elle Fanning (O curioso caso de Benjamin Button/Traídos pelo destino) com a graça necessária para equilibrar o filme. Nas cenas de Dorff e Fanning eles estão tão naturais um na presença do outro, que realmente levam o espectador a se aprofundar nessa relação entre pai e filha.

Muito do filme tem a ver com a própria infância de Sofia, que já frequentou, assim como a Cleo do filme, eventos estranhos e hotéis suntuosos ao lado do pai, Francis Ford Coppola.

Um lugar qualquer realmente não é para todos. Porém, quando apreciado com o olhar atento e o coração aberto, pode sim ser o poema que Sofia disse buscar compor com este filme.