segunda-feira, 25 de junho de 2012

Se você me der a mão

Para mim, o teatro tem se tornado cada vez mais fascinante. A cada espetáculo que assisto, percebo a grandiosidade de se tomar conta de um palco, sem direito a refazer cena ou edição, como no cinema e na televisão.

No teatro, as coisas acontecem, o público responde, os atores se inspiram nessa resposta e as atuações acontecem espontâneas. Sabe quando escutamos alguém contar bem uma boa história, e enquanto isso acontece, nós inventamos as cenas nas nossas cabeças?

Teatro é mágico assim. Vem da imaginação do autor do texto, da entrega do ator, da forma como o cenário se encaixa na história e por aí vai.

Ontem eu fui ao teatro Gazeta, aqui em São Paulo, assistir ao espetáculo Se você me der a mão. A história gira em torno da relação da mãe, Dulce (Tássia Camargo), com a filha, Denise Maria (Priscilla Squeff). Durante um determinado período - que envolve o encontro após anos, já que Denise Maria mora fora do Brasil, a reconciliação entre elas, apesar da mágoa da filha por determinado acontecimento, assim como a surpresa de um diagnóstico de câncer de mama -, a mãe aprende a se fortalecer com a filha, assim como a filha aprende a cuidar da mãe como fora cuidada quando criança.

Dulce e Denise Maria viajam ao passado para aprenderem a lidar com os acontecimentos do presente. Com boas tiradas de humor, a autora Regiani Antonini oferece leveza durante diálogos que tratam de mágoas, da separação, da solidão e da morte. Tássia Camargo tece uma Dulce como muitas mulheres que, se não somos, conhecemos, o que nos leva à identificação imediata com seu humor agridoce. Priscilla Squeff equilibra o espetáculo como a doce, porém pés no chão, Denise Maria.

A iluminação do espetáculo me chamou bastante a atenção, porque ajudou a contar essa história emocional, repleta de nuances. Minha única ressalva é para a trilha sonora, que poderia ter sido explorada melhor, de forma a colaborar com as viradas do espetáculo, como acontece com a iluminação.

Há também a gratificação por ver uma atriz como Tássia Camargo no palco. Priscilla Squeff também me surpreendeu. Trata-se de alguém para se acompanhar a carreira. E a sintonia entre essas atrizes faz com que a viagem pelo espetáculo Se você me der a mão seja graciosa como as lembranças da filha e afinada como o humor da mãe.

Se você me der a mão é baseado na história real da mãe da atriz e idealizadora do projeto, Priscilla Squeff. E mais do que entreter, o espetáculo tem como meta apoiar a FEMAMA na campanha pelo diagnóstico precoce do câncer de mama, enquanto celebra a relação entre mãe e filha.

SE VOCÊ ME DER A MÃO
com TÁSSIA CAMARGO e PRISCILLA SQUEFF


Texto: Regiana Antonini
Direção: Ernesto Piccolo

Sexta às 23h
Sábados e domingos às 20h

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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Mavis Gary indigesta, mas interessante



Esse é o típico caso em que sinopse e trailer não conseguem transmitir realmente o assunto abordado em um filme. Na verdade, é o caso em que se tenta vender gato por lebre, o que se mostra completamente desnecessário, já que Jovens Adultos (Young Adult/2011) conta com Charlize Theron, uma atriz de talento inquestionável; Diablo Cody, roteirista que levou o Oscar já no primeiro trabalho com o celebrado Juno (2007) e com Jason Reitman, um diretor que, além de dirigir, foi roteirista e produtor do impecável Amor Sem Escalas (Up in the Air/2009).

Apenas com tais referências, muitos de nós arriscaríamos assistir ao filme. Entretanto, como sucesso em bilheteria é determinante na indústria cinematográfica, e não há tempo a se perder com o “talvez”, o marketing às vezes acaba engolindo o filme.

Compreendo que bons profissionais nem sempre garantem bilheteria e constatamos isso com frequência ao vermos grandes filmes saírem de cartaz por falta de quem os assista. E que nessa hora o marketing é decisivo. Também entendo que tudo o que Diablo Cody escreve tem uma pitada de humor ácido, mas nem sempre é comédia. Apesar de o espectador dar boas risadas com algumas tiradas de Mavis Gary (Charlize Theron), uma ghost writer (escritora fantasma) de literatura juvenil em crise, Jovens Adultos é um filme sério, que trata de temas sérios. Não é a comédia colorida vendida no material de divulgação, apesar de ter ingredientes para isso: a paixão da época da escola, os desafetos da época, o nerd Matt Freehauf (Patton Oswalt).


Aliás, os melhores momentos do filme acontecem justamente entre Mavis e Matt, que tenta convencê-la de que não há como ela reconquistar seu ex-namorado, Buddy Slade (Patrick Wilson), porque ele está casado e tem um filho que acabou de nascer. Mas não pensem que ele tenta fazê-lo sendo o amigo afetuoso. O sarcasmo do qual os personagens compartilham é o que os tornam interessantes. E o mérito disso é de Diablo Cody, que escreveu um roteiro sem saídas de emergência, tampouco desculpas para amenizar o horror que é para Mavis voltar a sua cidade natal, encarar os pais e tudo porque precisa, não quer, ela precisa ter o ex-namorado de volta. E ela faz isso com a arrogância em alta.


Charlize Theron construiu uma ótima Mavis. Já sabemos que a atriz não tem medo de arriscar a sua beleza quando se trata de um papel, vide o fantástico Monster – Desejo Assassino (Monster/2003). Em Jovens Adultos ela não precisou de transformação. Às vezes, o espectador se envergonha pelas ações de May.

Jovens Adultos é um excelente filme que mergulha no universo obscuro de uma mulher adulta presa aos sentimentos da adolescência. Não é comédia, mas faz rir. E espero que aqueles que ainda não o assistiram, por acreditarem ser uma comédia rasgada com pitadas de drama, o façam para compreender que se trata de um drama com pitadas, não, sem pitadas... Com momentos que nos fazem rir e querer chorar, ao mesmo tempo.