terça-feira, 29 de outubro de 2013

A esperada estreia da série Dracula



The Blood Is The Life é o episódio de estreia da série Dracula, que foi ao ar na última sexta-feira, dia 25/10, nos Estados Unidos. Estrelada por Jonathan Rhys Meyers, é baseada na obra de Bram Stocker, e a única série no ar sobre vampiros que não se passa na atualidade.

No final do século dezenove, Drácula/Alexander Grayson/Vlad Tepes chega a Londres como um empresário americano visionário, que tem como meta apresentar a ciência moderna à sociedade vitoriana, enquanto planeja se vingar dos responsáveis pela morte de sua esposa. Seu principal interesse é na iluminação, ou seja, não precisar mais evitar o sol. Tudo parecia estar muito bem planejado e decidido, até que ele conhece uma mulher que pode ser a reencarnação de sua esposa a ser vingada.


Os produtores da série buscam trazer o Drácula sedutor da história de Bram Stocker ao cenário. Acredito que acertaram ao escolher Meyers para interpretá-lo. Ator de grande talento, habituado a interpretar personagens complexos, deixou os espectadores em polvorosa ao estrear a premiadíssima The Tudors. Porém, não basta um ator como este se o roteiro é confuso, o cenário, idem, e o episódio de estreia, aquele esperado pelos fãs do gênero, aquele que deveria seduzir os espectadores, falha na missão. Faltou em The Blood Is The Life a coerência, a promessa de que os próximos episódios desvelarão grandes tramas. A única questão apresentada neste episódio foi a da parceria – puramente focada na vingança - entre Drácula e Van Helsing, o famoso caçador de monstros, especializado em vampiros. Talvez daí possa sair algo que fortaleça a série.

Obviamente, não é o caso de desistir de Dracula. Na verdade, habituada que sou a escrever somente sobre o que gosto, eu declaro que sim, gostei da ideia da serie, acredito em Meyers como um ator que pode criar um Drácula tão interessante quanto Gary Oldman no filme de  Francis Ford Coppola. Só que para isso, produtores e roteiristas terão de trabalhar duro, porque Drácula é um personagem que reina absoluto no cenário dos vampiros. Há ótimas séries sobre vampiros, mas ainda não há uma realmente sedutora sobre o Conde Drácula, e mais, que se passa em outra época, não às malhas dos telefones celulares e da internet.

Dracula ainda não tem previsão de estreia no Brasil.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

James Spader e a sua Blacklist

Um anti-herói pode ser muito mais interessante, justamente pelas características que os diferem dos heróis clássicos. Um anti-herói é um personagem que costuma fazer quase sem querer, como se fosse o efeito colateral de escolhas egoístas, que sempre visam o benefício próprio, ou aguçam o seu interesse. 

No mundo das séries, por exemplo, temos House, Dexter e aquele que tinha tudo para ser herói, mas escolheu ser anti-herói, Mr. White, de Breaking Bad. As séries desses protagonistas acabaram, mas jamais os esqueceremos, porque eles fizeram bom uso do título de anti-herói.

The Blacklist
The Blacklist gira em torno de um ex-agente do governo que acaba como um dos fugitivos mais procurados pelo FBI, por ter se tornado um facilitador para os negócios de criminosos de todo o mundo. James Spader interpreta Raymond “Red” Reddington, que se oferece ao FBI para ajudar a capturar alguns dos criminosos para os quais presta serviços. A princípio, os agentes do FBI acreditam que tenham somente ticado um dos nomes da lista dos mais procurados. Porém, o acordo entre Reddington e o FBI se mostra muito mais complexo, tem de ser ao gosto do criminoso.

Reddington prova poder ajudar o FBI com a sua própria lista. Para tanto, ele precisa continuar a levar a vida de sempre, exercendo a sua função criminosa. Porém, o mistério se apresenta com outra exigência, a de que ele falará somente com a novata Elizabeth Keen, uma profiler (que traça o perfil dos criminosos) que não o conhece.

The Blacklist
Foram exibidos quatro episódios da primeira temporada. The Blacklist ganhou a temporada completa, de vinte e dois episódios, o que tem sido raro para as novas produções. O mistério em relação ao motivo de Reddington exigir trabalhar com Keen, e a forma como ele a conduz até que o FBI consiga capturar o criminoso da vez, mostra que esse é um mais anti-herói pronto para cair no gosto dos espectadores. James Spader, que emplacou um ótimo Alan Shore em Justiça Sem Limites (Boston Legal), traz o mesmo tom irônico para Reddington. 

Boston  Legal: Alan Shore (James Spader) e Denny Crane (William Shatner)
O que posso dizer, neste momento, é que The Blacklist é uma das estreias que mais me agradaram, das que me faz esperar ansiosamente pelo próximo episódio. Apesar de acompanhar a carreira de James Spader desde sempre, é a primeira vez que o vejo encarar um criminoso com potencial para se tornar um anti-herói dois mais apaixonantes. 

James Spader como Raymond "Red" Reddington


The Blacklist
Terça, às 21h
Canal Sony

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Trama interessante, belas canções e ótimas interpretações em Nashville


Eu adoro música, isso é fato que, se você já deu uma passadinha pelo Talhe, antes de agora, deve ter percebido. Por isso, além dos discos e DVDs, eu também busco a música em filmes e séries de televisão. Ainda assim, deixei passar a primeira temporada de Nashville, simplesmente porque não conheço muito sobre country music, que é, definitivamente, um dos personagens principais da série.

Porém, não posso reclamar. Confesso que assistir Nashville, os 21 episódios, de uma tacada só, foi muito mais bacana do que se tivesse de esperar pela semana seguinte, pelo próximo episódio. E essa jornada foi dura... Dormir apenas duas horas por noite, já que as outras estavam tomadas pela série.

A essa altura, vocês já devem ter percebido que eu me apaixonei pela série. E não haveria como ser diferente. Como amante da música, que vive cercada por ela, Nashville traz belas composições, muito bem executadas, intérpretes de primeira linha e, de quebra, a trama é muito bem amarrada.

A história da rainha do country, Rayna James (Connie Britton), se entrelaça à da celebridade Julliet Barnes (Hayden Panettiere), e a partir daí, uma série de artistas se encontram, não apenas com sua música, mas com seus dramas pessoais.


Nashville também passeia pelo backstage da fama, onde artistas talentosos fazem escolhas duvidosas em nome do sucesso que almejam, assim como outros se mantêm firmes na sua busca profissional, o que lhes faz passar por problemas financeiros e profissionais. E a série também aborda, por meio de suas protagonistas, o que é talento e o que é puro marketing.


Sem dúvida, a música é muito importante em Nashville. Neste momento, por exemplo, estou escutando a trilha sonora da série, que é ótima. As performances musicais, que são muitas, costumam ser impecáveis. Interessante também é que aborda a profissão de compositor, de como as gravadoras trabalham para que seus artistas tenham material para seus discos.


Não vou dar detalhes sobre a série, até porque essa nasceu para ser e assistida e escutada, com direito a trilha sonora original. Mas posso garantir que Connie em nada lembra a mãe apavorada de American Horror Story, ou Hayden a inquebrável de Heroes. São ótimas atrizes fazendo um grande trabalho como cantoras e compositoras de música country. Aliás, só assistindo para conferir a quantidade de gente talentosa que há em Nashville... Na série e na cidade americana.

A segunda temporada de Nashville estreará no dia 25 de setembro, nos Estados Unidos. No Brasil, o canal Sony reprisa a primeira temporada, às quartas, às 21h.

Saiba mais sobre a trama e escute as músicas:
abc.go.com/shows/nashville.


IF DIDN'T KNOW BETTER
(Arum Rae Valkonen/John Paul White)
Com Sam Palladio e Clare Bowen


segunda-feira, 29 de julho de 2013

"Faroeste Caboclo" é cinema de primeira


Eu não fui fã de carteirinha da banda Legião Urbana.  O pouco que conheço, é pelo sucesso das músicas, nos anos oitenta, e com a releitura de certas canções por diversos artistas brasileiros.

Sim, eu achava o Renato Russo interessante, e muito. Fui uma das pessoas que admirou a sua coragem em ir além, de não ter pudores artísticos.

Por esse motivo, pela minha distância musical da Legião Urbana, assistir ao Faroeste Caboclo foi uma experiência quase que exclusivamente cinematográfica. Obviamente, lembrei-me de alguns trechos da canção. Só que,durante o filme, isso realmente não fez diferença.

Faroeste Caboclo é um filme digno de levar grandes prêmios. Claro que a genialidade de Renato Russo em criar uma história-canção como a de João de Santo Cristo e Maria Lúcia, uma história-canção de amor nascida para um final nada feliz, está lá. Porém, os roteiristas Marcos Bernstein (O Outro Lado da Rua) e Victor Atherino criaram uma história para cinema, transpondo para a tela, para usufruto também do olhar, toda a complexidade de uma época sob a batuta da ditadura, em que uma geração lutava para transpor as prisões sociais, existenciais e oriundas das drogas. E de uma geração criativa, que se descobriu, aos poucos, capaz de virar o disco.


A direção também colaborou para que o filme se tornasse uma grata surpresa. A estreia do publicitário René Sampaio na direção de um longa-metragem não poderia ter sido mais feliz. Soma-se a isso a interpretação impecável do trio Fabrício Boliveira (João de Santo Cristo), Ísis Valverde (Maria Lúcia) e Felipe Abib (Jeremias). Depois de assistir ao filme, não consigo imaginar outros atores que pudessem interpretar esses papeis. É provocando esse tipo de sensação, que um filme se coloca pela sua qualidade.

Faroeste Caboclo também traz um quê de despedida. Foi o último trabalho de Marcos Paulo, falecido em 2012. Ele interpreta Ney, senador e pai de Maria Lúcia.


Fabrício Boliveira criou um João de Santo Cristo para frequentar a lista dos grandes personagens. O ator emprestou ao personagem de Faroeste Caboclo um olhar necessariamente agridoce, de uma profundeza capaz de tornar uma cena impecavelmente dramática, sem dizer uma palavra. João de Santo Cristo é bandido, já matou, rouba mesmo. É filho de uma terra árida, de pai morto e vingado, um ser que não tem nada a perder. Deixou tudo para trás e foi recomeçar em Brasília, mas lá encontrou a mesma aridez, só mudou o cenário. Continuou bandido, então conheceu Maria Lúcia. Tentou mudar, “desbandidar”, mas então o amor, que se mostra para nós como apaziguador e positivamente transformador, selou o destino de ambos, e não de uma forma palatável.

Fato é que, mesmo bandido, não há como não querer bem ao João de Santo Cristo.


Ísis Valverde, com uma carreira marcada pelas novelas, estreante no cinema, construiu uma Maria Lúcia que me fez admirá-la profundamente como atriz. Despida dos apetrechos que sempre envolvem seus tradicionais papéis na televisão, tornou Maria Lúcia uma personagem interessante, mergulhada na depressão coletiva, e também na pessoal. Filha de senador, ela usa drogas, namora bandido, e por amor, acaba mulher de traficante. O desolamento da personagem remete ao desolamento de uma geração, assim como seu entusiasmo, seu amor por João de Santo Cristo metaforiza a busca pela mudança, pela conquista da liberdade de ser.



Ver o seu objeto de desejo morrendo de amores por um rival, ainda mais quando ele é um pobre mortal, é de endoidecer qualquer endinheirado sem rumo. Não se trata de amor, mas sim de poder. E o Jeremias de Felipe Abib não deixa por menos. É jovem, é traficante, é chefe de turma que não está nem aí se tem de vender drogas, bater ou matar. Felipe deu a Jeremias a credibilidade necessária para que seu desejo por Maria Lúcia se mostrasse ainda mais feroz quando combinado ao desejo de desbancar o seu rival.




Faroeste Caboclo é um filme e tanto. Engana-se quem pensa que é um filme feito exclusivamente para os fãs de Renato Russo e da Legião Urbana. Ele é baseado na canção homônima, mas é filme feito para quem gosta de bom cinema.



terça-feira, 23 de julho de 2013

TOC com um toque de comédia



No texto que escrevi sobre o espetáculo Conexão Marilyn Monroe, manifestei meu desejo profundo por continuar a conhecer o trabalho de Alexandre Reinecke. Por esse motivo, recebi um gentil convite do João Bourbonnais para assistir ao TOC TOC, do qual ele faz parte do elenco. 

Com texto do francês Laurent Baffie, TOC TOC é o espetáculo com direção de Reinecke que está há mais tempo em cartaz. São cinco anos no circuito.

Claro que aceitei o convite, e a prova de que vou continuar me embrenhando no universo de Alexandre Reinecke é esse post. Mais que isso, fiquei muito feliz em conhecer o trabalho de atores que ainda não conhecia. O teatro tem sido tão gentil comigo quanto o João foi ao me fazer o convite.

ANTES DAS GARGALHADAS VEM O PAPO SÉRIO

Os transtornos mentais são tratados com certo receio fora do ambiente médico. Ter um transtorno mental, na popularização do entendimento, é ser louco. E neste caso, ainda que a pessoa também seja um gênio – quem não se lembra do gênio da matemática retratado no filme “Uma Mente Brilhante” (A Beautiful Mind/2002), que sofria de esquizofrenia? -, não evita o reflexo do outro de ser indiferente para não se sentir incomodado. Obviamente, isso não impede que os nomes de alguns transtornos sejam adaptados ao vocabulário popular, com pitadas de metáfora. Há quem use a palavra bipolar para descrever, com certo charme, a si mesmo. Chamar a si de bipolar, quando não se sofre do transtorno, tornou-se praticamente licença poética, adjetivo requintado. E não me levem a mal, pois adoro uma metáfora. A grande questão é saber que existe a metáfora e a realidade, porque na realidade, transtornos mentais não tem charme.

O ESPETÁCULO


TOC TOC
  fala sobre o encontro de seis portadores de transtorno obsessivo-compulsivo na sala de espera do consultório de um famoso especialista no assunto, o Dr. Stein. Mas antes de falar sobre o espetáculo, falemos sobre nós mesmos.

Nós que certamente já pensamos ter algum problema por conta de algumas manias, como sair de casa e ter de voltar porque tem certeza de que deixou a luz acesa, a porta destrancada, a torneira jorrando água, o ferro ligado, o gás aberto e por aí vai. Para nós eu vou citar o que minha amiga disse no final do espetáculo: se eu pensava que tinha TOC, agora não penso mais. Isso porque, por mais que TOC TOC seja um espetáculo de comédia, que rir dos problemas faça parte do cardápio, é impossível não pensar em como é difícil conviver com um transtorno obsessivo-compulsivo. 

O espetáculo começa com Fred (João Bourbonnais) no palco, quer dizer, na sala de espera. Ele sofre de uma síndrome que faz com que diga palavras e faça gestos obscenos frequentemente, sem qualquer controle. Em seguida, chega o taxista Vicente (Ithamar Lembo), que é incapaz de parar de fazer contas. A elegância de Fred e a sagacidade de Vicente são muito bem combinadas, de forma a somente acrescentar ao espetáculo. Vicente é o atiçador da ansiedade alheia, e sem verniz, leva os outros personagens ao ápice da ansiedade. Fred tenta ser o conciliador, mas as suas tentativas acabam frustradas, já que sempre descamba a dizer indecências em vez do que realmente gostaria. A empatia entre ambos é o que dá o ritmo ao espetáculo.


Completam o elenco: Branca (Andréa Mattar), que tem mania de limpeza, Maria (Sandra Pêra), a religiosa que acha que esqueceu água, gás e tudo mais aberto, Lili (Laura Carvalho), que repete tudo o que diz e Bob (Dídio Perini) um fanático por simetria. Adriana Fonseca é a secretária do consultório. O elenco está afinado, e não raro arrancam aplausos da plateia. Para cada um deles, há uma diversidade de situações engraçadas, e ao se entrelaçarem os transtornos de cada um, melhor, a peculiaridade de cada um, fica impossível não render às gargalhadas.

Mais uma vez, afirmo aqui a minha admiração a quem consegue dar vida a uma comédia que respeita o espectador, e em todos os sentidos. Fazer graça com a seriedade não é o mesmo que delegar a ela a anulação da sua importância. É preciso cuidado para não se usar o humor de forma que ofenda até mesmo ao próprio. E nesse ponto, podemos qualificar TOC TOC como um espetáculo, apesar do tema que aborda, dos requintados, porque diverte, não ofende e ainda leva o espectador a contemplar o transtorno obsessivo-compulsivo com um pouco mais de gentileza, o que é mérito da combinação de um ótimo texto - recheado com referências locais de forma muito perspicaz -, uma direção competente e atores pra lá de talentosos.

Sendo assim, fica aqui meu agradecimento ao João Bourbonnais pelo convite, e o meu convite para que vocês - os vocês que acreditam ter TOC ou não -, apareçam para conferir TOC TOC. O que posso garantir é que as gargalhadas acontecem do começo ao fim do espetáculo. 


TOC TOC

De 8 de fevereiro a 30 de março de 2014
Curta temporada!
Teatro APCD
Rua Voluntários da Pátria, 547 - Santana | SP

Sábado: 21h
Domingo: 19h

Informações e vendas: 
De quarta-feira a sábado: das 15h às 22h.
Domingo: das 15h às 20h.
Fone: 11.2223 2424 e 11.3105 3129      

Ingressos: clique para conferir.

Texto: Laurent Baffie
Tradução: Clara Carvalho
Direção: Alexandre Reinecke

Com:
Adriana Fonseca
Andréa Mattar
Dídio Perini
Ithamar Lembo
João Bourbonnais
Laura Carvalho
Sandra Pêra

Ficha Técnica
Produtores Associados: Andréa Mattar, Dídio Perini, Gerardo Franco E Sandra Pêra
Produção Executiva: Paula Tonolli
Cenário: Marcia Moon
Luz: Ricardo Silva
Trilha Sonora: Cleuber Rufino
Figurino: Carol Badra
Camareira: Rose Aragão
Contra Regra: Diego De Lima

No Facebook
toc.tocpeca.3


AINDA SOBRE TRANSTORNOS MENTAIS

É impossível não pensar em filmes e séries de televisão que abordam o tema. A série Monk foi a que mais lidou com o humor. O detetive Adrian Monk usava seu transtorno obsessivo-compulsivo para resolver os seus casos. Atualmente, a série Perception vem ganhando espaço, e com todo o direito. Ela aborda a vida do neurocientista e professor Dr. Daniel Pierce (Eric McCormack), que é esquizofrênico e consultor do FBI. No cinema, um dos filmes que mais gosto é o Mr. Jones (1993). E meu gosto não é pelo romance que permeia a trama, mas pelas cenas incríveis criadas quando o bipolar Mr. Jones, interpretado por Richard Gere, está em crise.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

TAP de Gregory Hines


Na minha lista de preferidos, há uma série dedicada somente aos filmes que têm a música como tema, às vezes até mesmo como personagem. 

TAP (1989) é um filme escrito e dirigido por Nick Castle, roteirista de outro filme com música do qual gosto muito, O Som do Coração (August Rush/2007). Ele conta a história de Max Washington (Gregory Hines), que acaba de sair da prisão e tem de decidir qual das suas profissões irá assumir: a de ladrão ou a de sapateador.

Antes de me aprofundar na história de Max, devo dizer que me apaixonei por Gregory Hines já na primeira cena do filme. Depois de TAP, esse sapateador talentosíssimo e ator de grandes filmes como The Cotton Club (1984), de Francis Ford Coppola e O Sol da Meia-Noite (1985), de Taylor Hackford, passou a fazer parte da leva de atores das quais assisto tudo o que aparece.  E dos filmes às séries de televisão, ele nunca me desapontou.

Quem conhece Clayton Cameron, sabe que ele foi baterista do grande Sammy Davis, Jr. durante muito tempo. Foi tocando em cassinos com ele que começou a sua jornada pelo universo das brushes, das vassourinhas, e não à toa hoje ele é considerado mestre no assunto. The Brushes Master

Clayton Cameron se apresentando no Batuka! Brasil, em São Paulo (2009).
Em 1993, o IBVF produziu um workshop de Clayton Cameron, aqui em São Paulo. Hoje, com o acesso fácil a material didático e vídeos, certamente muitos já conferiram os feitos desse músico. Só que lá, de volta a 1993, eu ainda não tinha visto algo igual. E não que hoje em dia eu saiba da existência de alguém com tamanha habilidade com as vassourinhas. Além de uma performance impressionante, tocando com vassourinhas, Clayton Cameron reproduziu a cadência do sapateado de grandes dançarinos, entre eles Sammy Davis Jr. e Gregory Hines. Perfeito.

Cena de TAP
Logo na primeira cena de TAP, Gregory Hines mostra a que veio. Max faz uma brilhante performance dançando em um tablado, na sua cela. O filme conta com coreografias inspiradas e com a participação de uma leva de sapateadores que inspiraram a nova geração. Além de Sammy Davis Jr., Arthur Duncan e Howard “Sandman” Sims faziam parte do elenco. Na época, Sammy já estava doente, ainda assim, fez um ótimo trabalho como ator e sapateador. Ele faleceu em 1990.

Sammy Davis, Jr. e Gregory Hines
TAP é uma celebração ao sapateado, aos ícones do sapateado, assim como um flerte com a contemporaneidade do cenário da tap dance. Gregory Hines representava o futuro, e não apenas no filme. São inúmeras as cenas em TAP capazes de emocionar pela beleza da dança, a influência da música.


Gregory Hines era capaz de mexer com a alma do espectador com uma frase rítmica. A beleza de sua postura ao sapatear, a sua elegante presença, a modernidade de sua arte, um conjunto de qualidades estampado em TAP e em seus trabalhos não apenas no cinema ou na televisão, mas também no teatro. Ele faleceu em 2003, aos 57 anos de idade. Uma partida prematura que deixou um hiato no cenário do sapateado. 

CENA DE TAP

terça-feira, 16 de julho de 2013

A arte de vender o invendável


Imagine você atendendo a porta, dando de cara com uma pessoa que, nos moldes dos mais bem qualificados vendedores de porta em porta, apresenta-lhe um produto inovador, que dá de dez, de mil, de cem mil em produtos de beleza, assinaturas de revista ou tevê a cabo, em monólogo religioso com direito a panfletinho, de oportunidade de fazer faculdade online. Um produto tão especial, mas tão especial que nem mesmo você imaginava o quanto necessitava dele, até esse momento, quando um vendedor bate a sua porta para lhe vender uma raridade: ilusões.

Ludomar Orni, sujeito amargurado, mas agarrado à possibilidade de uma vida menos ferrada, personagem do romance Exercícios Ilusórios, de Osvaldo Rodrigues, não bate literalmente à porta das pessoas, mas vai logo se embrenhando na realidade delas, retocando suas biografias, sem atentar para as consequências do seu intrometimento.  Trata-se de um vendedor peculiar, que se deu por satisfeito de andar ao ritmo de uma realidade rasa, e que tenta se reinventar ao reinventar o outro. Em seu catálogo de produtos disponíveis: ilusões, sonhos e utopias, além de uns e outros badulaques emocionais. Seus clientes – ou alvos – nem sempre estão cientes do que necessitam. Alguns, eu ouso dizer, como reles leitora das ilusões de Ludo, levariam uma vida muito mais simples não tivessem comprado, quase que inconscientemente, os produtos do vendedor em questão.

Exercícios Ilusórios traz um personagem em processo de catarse, que deseja abraçar a felicidade, mas não sabe como ou onde encontrá-la. Engana-se, por mero hábito humano de acreditar que benfeitoria é sempre para o outro, ao acreditar que sua habilidade em vender um produto que não pode ser visto ou tocado seja mais do que a busca pelo proveito próprio. Tudo o que o vendedor pensa vender aos clientes, na verdade vende a si mesmo.

Osvaldo Rodrigues presenteia o leitor com uma história que brinca de leveza, apesar das prepotentes asperezas. Na verdade, o escritor mostra habilidade indiscutível em oferecer metáforas sem que elas sejam apenas citações de antônimos, combinações de sim e não. São metáforas construídas com esmero, com apreço.

Em Exercícios Ilusórios, Osvaldo Rodrigues nos vende, com a maior competência, uma aventura com cenário simples, cotidiano, com o qual nos identificamos de imediato, mas com personagens que se despem, sob a batuta do complexo Ludoman Orni, de suas defesas, e embarcam na viagem de um vendedor que deseja mesmo é comprar seu espaço no mundo.

Saiba mais e compre o livro: ficcoes.com.br/livros/exercicios.html

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Conexão Marilyn Monroe: para assistir, rir e pensar


A MINHA CONEXÃO COM O ESPETÁCULO




Acredito que a comédia é uma ferramenta poderosa para uma crítica social, política, comportamental, enfim, uma boa crítica. Quem consegue arrancar gargalhadas do outro sem tirar do enredo o significado e a importância do que é abordado, certamente merece que lhe tirem o chapéu. E digo isso como quem morre de inveja de quem consegue fazer isso. Meus personagens mais cômicos parecem nascidos do humor negro emburrado.

Infelizmente, não são todos os que se apossam da comédia que sabem fazê-la funcionar decentemente. E infelizmente – parte II, muitos se acham mestres da comédia, alimentando mais o ego do que a própria arte. Para os espectadores, resta o bom senso de escolher uma obra que não lhes trate como idiotas. Porque apesar de nos fazer rir como doidos, quando sob a batuta de um bom criador, ela pode nos tornar mais sábios a respeito de temas que, em conversas cotidianas, jamais poderíamos abordar com a crueza que a comédia permite.

Antes de me atrever a escrever sobre o espetáculo, assisti o Conexão Marilyn Monroe duas vezes, finais de semana seguidos, o que foi a melhor coisa que poderia ter feito. Eu sempre escrevo sobre o que gosto, e adorei o espetáculo quando o assisti pela primeira vez, na semana da sua estreia. Porém, assim como não tenho mão para escrever comédias, fiquei com receio de não saber me expressar decentemente sobre o espetáculo, e não queria deixar por menos. E o mais bacana foi perceber como, de um sábado para o outro, o espetáculo evoluiu. Se na primeira vez que assisti o Conexão... gargalhei muito, e fiquei impressionada com o texto e com os atores, a segunda vez me levou a concluir que o espetáculo precisa ser assistido por muitos, principalmente nesse momento em que se encontra o Brasil – e os seus brasileiros. Nós.

O ESPETÁCULO

Foto © João Caldas Filho


Conexão Marilyn Monroe é uma comédia sobre corrupção, mal-entendidos e arquétipos. Estão lá os clichês do nosso diariamente, muito bem temperados com ironia, uma quase vedete do cenário político brasileiro.

O Dr. Pacheco (Paulo Ivo) é um senador da república visto com bons olhos, mas é corrupto e trabalha com tráfico de drogas e contrabando. Homossexual nada assumido, seu discurso, a princípio, é honesto, suas ações, não. Ricardinho (Thiago Adorno) é o novo namorado de Pacheco, uma criatura fofa e histriônica, que insiste com seu parceiro que um dinheirinho por fora não machucaria ninguém. Paulo (Alexandre Barros) é o bonitão machista, nada gentil e parceiro de Pacheco nas suas contravenções. Dom Pepino (Riba Carlovich) é um criminoso com dor de cotovelo, porque está perdendo espaço para Pacheco. Sendo assim, decide se vingar do senador. Otávio (Romis Ferreira) é funcionário de Dom Pepino, bem atrapalhado, e que, por falta de pessoal, tem de trabalhar em campo. Silvia (Maximiliana Reis) é esposa de Paulo e amiga de Pacheco. Ela guarda um segredo que vem à tona e atrapalha a vida de todos.

Durante o espetáculo, os atores nos entregam situações com as quais estávamos acostumados, mas que já não contam mais com a nossa indiferença cidadã. A corrupção aparece em vários matizes, do grande político e seus golpes elaborados, ao funcionário que tem um emprego que não escolheu, mas do qual precisa. Aquele que justifica seu roubo por considerá-lo menor, porque o país está em uma situação difícil. Mas a grande questão em Conexão... é que todos os personagens são criminosos. Cada um deles tem uma justificativa que soa justa. E com essa máscara, sobrevivem às intempéries e à distração da lei, melhor, de quem deveria aplicá-la.

Pode-se pensar que este é assunto batido, que a corrupção é tema que não dá mais em samba. Aos adeptos de tal pensamento, só posso dizer que esse samba nunca esteve em ritmo tão acertado. Nada mais interessante que um olhar apurado e divertido – que é para não mergulharmos de vez na sensação de impotência predominante – para nos fazer olhar além e desarrumar o universo pessoal dos que sacaneiam o povo sem pestanejar, como se fossem dignos de eterna indulgência. E dignidade é o que falta nessa roda.

Conexão Marilyn Monroe é um espetáculo divertido e inteligente, com atores de primeira encarando o desafio de mostrar ao público aqueles que os representam. Cada ator tem seu momento de nos entregar um tema para ruminar, e todos são merecedores dos aplausos que recebem, assim como das gargalhadas que arrancam do público, durante o espetáculo.

Eu poderia contar sobre o que me encantou em cada ator e com detalhes. Só que eu acho mesmo é que vocês têm de assistir ao espetáculo para conferir pessoalmente o timing, o talento, a capacidade de interpretação de cada um deles. Entre eles, conheço e sou fã de carteirinha - e pôster na mão - da Maximiliana Reis. Agora, meu repertório de conhecimento de talentosos atores está maior e melhor. Obrigada, Maxi, por isso!

ALEXANDRE REINECKE


Muito difícil não botar reparo no ótimo texto de Alexandre Reinecke, também o diretor do espetáculo. Conexão Marilyn Monroe é deleitável graças ao seu dom de tratar o espectador como ser pensante, e não como consumidor de entretenimento descartável. A qualidade de seu texto, a forma como ele apresenta os personagens, e também como dirige os atores, essa combinação de boas escolhas é o que agrega valor ao espetáculo.

Eu sei que Alexandre Reinecke é uma pessoa que vem colaborando muito com o teatro brasileiro. Conexão Marilyn Monroe foi o primeiro espetáculo dele que assisti. Gostaria de ter assistido aos outros. Certamente, assistirei aos próximos.


MARILYN MONROE

Definitivamente, vocês terão de assistir ao espetáculo para saber qual papel ela desempenha nessa história.


Essa não é uma crítica, mas um convite feito por quem ainda está começando a se embrenhar nesse universo    tão interessante que é o teatro. Um convite para que vocês prestigiem o que merece ser prestigiado.


CONEXÃO MARILYN MONROE

Teatro Gazeta
Av. Paulista, 900 - SP

Sexta: 21h
Sábado: 22h
Domingo: 20h

Até 17/11

Informações: 11.3253 4102        Ingressos: clique para conferir.

Texto e direção
Alexandre Reinecke

Com:
Alexandre Barros
Maximiliana Reis
Paulo Ivo 
Riba Carlovich
Romis Ferreira
Thiago Adorno

Ficha Técnica
Direção Geral: Alexandre Reinecke 
Assistente de Direção: Eduardo Leão
Direção de Produção: Marcella Guttmann
Figurinos: Fábio Namatame
Cenários: Fábio Namatame
Iluminação: Lucia Chedieck
Construção de Cenário e Cenotecnia: Ono Zone Studio
Trilha Sonora: Pedro Lobo
Produção Executiva: Adelino Costa
Assistência de Cenários e Figurinos: Julianos Lopes
Adereços: Antonio Ocelio de Sã Alencar
Fotos e Design Gráfico do Cenário: Ronaldo Aguiar
Contra Regra: Nilton Ruiz
Camareira: Beth Ferreira
Camareiro: Niltinho Cavalcante
Operação de Luz: Julio Greghi
Operação de Som: Mattheus Chaves
Fotografia: João Caldas
Identidade Visual: Fernando Lucas
Design Gráfico: Natalia Viviani
Assessoria de Imprensa: Morente & Forte
Assessoria Contábil: Contabs Assessoria
Coordenação Financeira: Juliana Fisco
Formatação e Administração do Projeto: Fixação Marketing Cultural

No Facebook
ConexaoMarilynMonroe

domingo, 31 de março de 2013

Para não estar só no fim do mundo



Eu gosto muito de Steve Carell. Minha preferência são pelos filmes em que ele está com os pés quase no drama.

Compreendi isso ao assistir Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (Dan In Real Life/2007). Carell tem suas tiradas, mas elas são refinadas. É quase possível sentir o peso da questão do momento por meio de suas feições, mas nada é escancarado quando o tema é mais sério. Neste caso, ele ter se apaixonado pela namorada do irmão.

Eu, meu irmão e nossa namorada

Em comédias dramáticas, Carell está sempre acompanhado de atores que o ajudam a manter a bola no alto. Em Eu, Meu Irmão..." seus companheiros de cena são o ator e comediante Dane Cook, que interpreta o irmão, e Juliette Binoche como a namorada do irmão. Ter um ator com experiência em comédia e uma atriz em drama é o que permite a Carell fazer o papel dele sem se preocupar em atender a um dos lados. É o que permite brincar com o humor e o drama. E isso ele faz muito bem.

Assisti ao Procura-se um amigo para o fim do mundo (Seeking a Friend for the End of the World/2012) e me dei conta, mais uma vez, do talento de Steve Carell, de como é bom o trabalho que ele faz.


Procura-se... trata da contagem regressiva para o fim do mundo. Lorene Scafaria escreveu uma história interessante, sem ir direto ao abismo de se estar mediante ao fim do mundo, o fim de si. Foi extremamente inteligente em mostrar as pessoas tentando levar suas vidas normalmente, com apenas 21 dias para o mundo acabar, exercendo o direito à negação. O caos se instala, mas também a necessidade de as pessoas aproveitarem seus últimos dias ao lado de seus afetos.

Mas e quando se está completamente é sozinho?

Dodge (Steve Carell) é um vendedor de seguros que, no dia em que é anunciado o fim do mundo, causado por um asteróide que vem direto para a terra, também perde a esposa, que foge logo após ao anúncio. Sozinho, começa a contemplar seu desfecho, quando recebe uma carta de sua namorada da época da escola, dizendo que se separou e que nunca deixou de pensar nele. O problema é que esta carta passou três meses na casa de sua vizinha, Penny (Keira Knightley), e quando ele a recebe, faltam apenas alguns dias para o fim do mundo. Penny, que perdeu o último avião que poderia levá-la a passar o fim do mundo com a família, decide ajudar Dodge a encontrar sua amada em tempo.


Knightley é uma atriz que aprecio bastante, mas poderia ter dado à Penny - personagem a quem cabe algumas tiradas cômicas - um pouco mais de credibilidade se a interpretasse com a mesma loucura, mas sem tanto melindre. Ainda assim, o filme corre muito bem com a atuação de ambos, passando por momentos hilários, dignos de fim de mundo, aos mais dramáticos.

Procura-se... é um filme e tanto, que se debruça na construção de um relacionamento honesto, com data limite para acabar. Tem suas sutilezas, como quando Penny fala sobre seu amor pelos discos de vinil. Em momentos como este, Scafaria recorre a um tom poético, o que apenas abrilhanta o filme. Mas não me surpreende a forma como ela recorre à música para desfiar sentimento.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Visível e belo



Algumas obras são catárticas, visto que o tema já foi pra lá de esmiuçado, mas alguém o desfiou de maneira muito mais interessante e certeira na compreensão. Como em As vantagens de ser invisível (The perks of being a wallflower/2012), um filme de Stephen Chbosky que foi muito feliz em adaptar para o cinema o seu livro, cuidando do roteiro e da direção.

Charlie (Logan Lerman) é um jovem às voltas com seus fantasmas. Recentemente, seu único amigo se suicidou. Também traz resquícios da época em que uma das pessoas mais importantes da sua vida, sua tia, morreu em um acidente. Os traumas que sofreu levaram Charlie a se tornar uma pessoa extremamente solitária, e a sua entrada no ensino médio amplifica a sua solidão. Inteligente, com a ideia de se tornar escritor, encontra em seu professor de literatura um ponto de apoio.


Chbosky poderia, facilmente, cair no clichê de apenas narrar as problemáticas de um jovem como Charlie em sua jornada escolar. Poderia ter mergulhado nos aspectos conhecidos do bullying, mostrado como os jovens são capazes de ser cruéis a ponto de prejudicar o outro. Porém, ele decide ir além, observar não somente os percalços, mas também os momentos em que os avariados, os desajustados, as vítimas dos que se consideram mais fortes - mais populares, mais dignos, mais gente - que os outros, encontram-se e se identificam da maneira mais humana. Essa é a parte mais difícil de um relacionamento de qualquer natureza entre as pessoas: a intimidade emocional.

Charlie conhece Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson) e a sua vida muda completamente. Assim como Charlie, os meio-irmãos têm suas questões, suas solidões, seus incômodos, mas decidem encarar a vida com mais leveza, mesmo que, às vezes, eles tenham de inventá-la para seguir adiante. É com eles que Charlie começa a se soltar e a apreciar a vida de uma forma mais ampla. É a partir deles que Charlie revisita o passado e compreende o que realmente o atormenta.


Lerman, Watson e Miller formam um trio impecável. São atores jovens que desempenham seus papéis com muita competência. No caso de Ezra Miller, tenho de dizer que ele me chamou a atenção pela sua atuação em “Precisamos falar sobre o Kevin”. O que Kevin tinha de incômodo, profundamente inquietante, Patrick tem de vivaz, de personalidade sedutora. Miller é um desses atores para acompanharmos a carreira, porque, sendo tão jovem, decidiu dar vida a personagens complexos.

A trilha sonora é muito boa, passando por Smiths, Cocteau Twins e David Bowie.

As vantagens... mostra que os considerados invisíveis nunca o são. Infelizmente, eles são alvo, são vistos de uma forma distorcida, não são apreciados pelas qualidades, são definidos pelo que se julga serem defeitos. Também mostra que solidão é coisa séria, e que não há maneira melhor de tratá-la do que aceitando que as pessoas participem da nossa vida.

E que gentileza é sempre uma ferramenta importante na compreensão sobre o outro.

E que, em determinados momentos, podemos nos sentir infinitos.


segunda-feira, 18 de março de 2013

7 filmes de cabeceira


Há muitos anos, mantenho uma listinha de filmes e séries para indicar aos amigos. A listinha, nada curtinha, transformou-se, em parte, em álbuns de fotos no Facebook, porque alguns desses amigos só conseguiam saber se já haviam assistido ou não ao filme, ou se estariam a fim de assistir a série, conferindo as imagens.

Aliás, indicações ficam cada vez mais interessantes de se oferecer com os recursos da internet. Saudosa época em que a gente tinha de confiar somente no pode assistir/ler/escutar que você vai amar!. Hoje, além do pode assistir/ler/escutar que você vai amar!, temos sites específicos sobre autores e suas obras, um banco de imagens soberbo, e por aí vai.

De cara, vamos esclarecer que nem todos amam o que cada um de nós ama. Gosto é uma coisa muito pessoal. Sendo assim, mesmo algumas das indicações que faço com o maior amor do mundo, foram criticadas com o maior desejo de jogar o indicado no lixo. O que realmente torna isso agradável é o respeitar o gosto alheio. A discussão sobre os motivos de um ter amado e o outro detestado pode gerar boas conversas. Defender seu gosto, tudo bem. Ofender o alheio, não mesmo!

Já publiquei aqui no Talhe sobre o amor e o cinema, destacando alguns dos meus filmes de cabeceira mais queridos e dedicados ao tema. Agora, falarei sobre 7 filmes da década de 90 que fizeram minha cabeça.


Delicatessen (Delicatessen/1991) é um filme para se amar ou odiar, sem meio-termo. É uma comédia de humor negro sobre um período em que a comida é tão escassa que se torna moeda de troca. Um ex-palhaço começa a trabalhar em um prédio onde fica o açougue Delicatessen. Ele se apaixona pela filha do dono do açougue, que, para garantir a sua sobrevivência, assassina os inquilinos para vender a carne deles. Para mim, é um dos filmes mais interessantes. Vê-se de tudo, espia-se a humanidade e suas mazelas em momento de escassez. 


Delicatessen foi escrita e dirigida por Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Este foi o primeiro longa-metragem dirigido por Jeunet, que ficou mundialmente conhecido com o filme O fabuloso destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux destin d'Amélie Poulain/2001).

A dupla vida de Véronique (Podwojne zycie Weroniki/1991) foi o primeiro filme de Krzysztof Kieslowski que assisti. Kieslowski é um dos meus preferidos, responsável pela trilogia das cores: A liberdade é Azul (Trois couleurs: Bleu/1993), A Igualdade é Branca (Trois couleurs: Blanc/1994) e A Fraternidade é Vermelha (Trois couleurs: Rouge/1994).


Uma verdadeira obra-prima, o filme fala sobre a sensação de se ter alguém destinado a nós, com a possibilidade de esse alguém ser nós mesmos. 

Weronika é polonesa e tem um grande talento para a música erudita. Com sua voz única, consegue entrar em uma respeitada escola de música. Durante a sua primeira apresentação, ela morre de ataque cardíaco. A partir de então, Véronique, uma francesa com um grande talento para a música, começa a se sentir só, como se não houvesse mais alguém para ela no mundo. Então, abandona a música e começa a se relacionar com um manipulador de marionetes. 


A forma como a ligação entre essas mulheres é contada tem um quê poético, melancólico, o que faz com que o espectador se prenda aos detalhes. Embarque na viagem de Kieslowski.

Frankie & Johnny (1991) é um filme com Al Pacino e Michelle Pfeiffer. Eu poderia dizer que apenas isso bastaria para eu adorá-lo, mas estaria mentindo. Apesar de gostar muito do trabalho de ambos, não pensei que eles dariam uma boa combinação em um filme. 


Frankie & Johnny já começa muito bem com a música tema, homônima, lindamente interpretada por Terence Trent D’Arby, ou melhor, Sananda Maitreya. Johnny (Al Pacino) é um ex-presidiário que começa a trabalhar em uma lanchonete. Frankie (Michelle Pfeiffer) é garçonete nessa lanchonete. A atração entre eles não é o tema central do filme, mas sim um fim que exige um começo e um meio. O filme trata, de uma forma muito singela e bonita, da solidão. Há personagens, no restaurante, que vamos descobrindo aos poucos, assim como a forma como cada um lida com a própria solidão.


Al Pacino está demais, como sempre. Michelle Pfeiffer, idem. O roteiro de Terrence McNally é repleto de sutilezas, e o diretor Garry Marshall conseguiu captar o melhor olhar possível para a história de duas pessoas e a dificuldade em abrirem mão da solidão.

Jogos de ilusão (An Awfully Big Adventure/1995) é um filme sobre atores de teatro e um diretor sem noção e egocêntrico. O filme é sobre uma menina que conversa com a mãe morta pelo telefone. É sobre a menina que se apaixona pelo diretor. Sobre o diretor que odeia o ator principal e joga a menina nos braços dele. E sobre a história complicada que há entre a menina e o ator.


Definitivamente, este não é um filme fácil de digerir. Primeiro porque se trata de um filme focado no elenco de um espetáculo de teatro. E tendo a arte como cenário, não há como faltarem dramas. Às vezes, tem-se a sensação de que haverá mais romance do que tragédias, e então a tragicomédia se apresenta.  Além do mais, Alan Rickman em um papel que lhe apetece é sempre bom demais de se assistir. 


Para o resto de nossas vidas (Peter's friends/1992) é um filme com um ator que eu adoro, e que também é um diretor que muito me agrada: Kenneth Branagh. Neste filme, escrito por Rita Rudner e Martin Bergman, dirigido por Branagh, reúnem-se companheiros de jornada e amigos, entre eles Emma Thompson e a dupla Stephen Fry e Hugh Laurie, o saudoso House.


É um filme sobre amigos da época da faculdade. Um filme sobre amigos, criado, dirigido e interpretado por amigos na vida real. Talvez por isso não tenha aquele tom sonso dos filmes sobre reencontro de amigos que estudaram juntos. O cenário também é outro, não é um baile de escola. Eles são convidados por Peter Norton (Stephen Fry), que além do título de lorde, herdou uma mansão de seu pai. Como todo reencontro, há dramas e trocas de farpas, histórias a serem esclarecidas, temores, sentimentos que se tornarão insignificantes mediante à revelação de um segredo de Peter.


A prova (Proof/1995) tem um quê de humor negro, o que deixa o filme ainda mais interessante. O filme é sobre Martin (Hugo Wearving), um cego que acredita que as pessoas sempre mentem para ele. Quando menino, ele acreditava que a mãe desfiava mentiras ao lhe descrever paisagens e objetos. Adulto, tornou-se fotógrafo, e continuou a se sentir vítima da mentira das pessoas. 


Hugo mantém um relacionamento complicado com Célia (Genevieve Picot), quem cuida de sua casa. Torna-se amigo de Andy (Russel Crowe) que se apaixona por Célia, mas a mulher tem ciúme da amizade entre eles e tenta fazer com que Hugo se desaponte com o amigo.


Um filme muito interessante, escrito e dirigido por Jocelyn Moorhouse.

Cyrano (Cyrano De Bergerac/1990) é um filme de Jean-Paul Rappeneau, com Gérard Depardieu como Cyrano, Anne Brochet como Roxanne e Vincente Perez como Christian de Neuvillette. É considerada a versão mais fiel à peça escrita por Edmond Rostand.


A história do espadachim e poeta apaixonado por sua prima, Roxanne, e que não se declara por ter vergonha do seu nariz descomunal, é mundialmente conhecida. Na verdade, Rostand se inspirou na história do escritor francês Hector Savinien de Cyrano de Bergerac para criar a peça de teatro. Até mesmo Steve Martin viveu sua versão de Cyrano em Roxanne (1987).


No Cyrano de Rappeneau a poesia é belamente desfiada por um Depardieu em sua melhor forma.