segunda-feira, 25 de março de 2013

Visível e belo



Algumas obras são catárticas, visto que o tema já foi pra lá de esmiuçado, mas alguém o desfiou de maneira muito mais interessante e certeira na compreensão. Como em As vantagens de ser invisível (The perks of being a wallflower/2012), um filme de Stephen Chbosky que foi muito feliz em adaptar para o cinema o seu livro, cuidando do roteiro e da direção.

Charlie (Logan Lerman) é um jovem às voltas com seus fantasmas. Recentemente, seu único amigo se suicidou. Também traz resquícios da época em que uma das pessoas mais importantes da sua vida, sua tia, morreu em um acidente. Os traumas que sofreu levaram Charlie a se tornar uma pessoa extremamente solitária, e a sua entrada no ensino médio amplifica a sua solidão. Inteligente, com a ideia de se tornar escritor, encontra em seu professor de literatura um ponto de apoio.


Chbosky poderia, facilmente, cair no clichê de apenas narrar as problemáticas de um jovem como Charlie em sua jornada escolar. Poderia ter mergulhado nos aspectos conhecidos do bullying, mostrado como os jovens são capazes de ser cruéis a ponto de prejudicar o outro. Porém, ele decide ir além, observar não somente os percalços, mas também os momentos em que os avariados, os desajustados, as vítimas dos que se consideram mais fortes - mais populares, mais dignos, mais gente - que os outros, encontram-se e se identificam da maneira mais humana. Essa é a parte mais difícil de um relacionamento de qualquer natureza entre as pessoas: a intimidade emocional.

Charlie conhece Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson) e a sua vida muda completamente. Assim como Charlie, os meio-irmãos têm suas questões, suas solidões, seus incômodos, mas decidem encarar a vida com mais leveza, mesmo que, às vezes, eles tenham de inventá-la para seguir adiante. É com eles que Charlie começa a se soltar e a apreciar a vida de uma forma mais ampla. É a partir deles que Charlie revisita o passado e compreende o que realmente o atormenta.


Lerman, Watson e Miller formam um trio impecável. São atores jovens que desempenham seus papéis com muita competência. No caso de Ezra Miller, tenho de dizer que ele me chamou a atenção pela sua atuação em “Precisamos falar sobre o Kevin”. O que Kevin tinha de incômodo, profundamente inquietante, Patrick tem de vivaz, de personalidade sedutora. Miller é um desses atores para acompanharmos a carreira, porque, sendo tão jovem, decidiu dar vida a personagens complexos.

A trilha sonora é muito boa, passando por Smiths, Cocteau Twins e David Bowie.

As vantagens... mostra que os considerados invisíveis nunca o são. Infelizmente, eles são alvo, são vistos de uma forma distorcida, não são apreciados pelas qualidades, são definidos pelo que se julga serem defeitos. Também mostra que solidão é coisa séria, e que não há maneira melhor de tratá-la do que aceitando que as pessoas participem da nossa vida.

E que gentileza é sempre uma ferramenta importante na compreensão sobre o outro.

E que, em determinados momentos, podemos nos sentir infinitos.


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