segunda-feira, 29 de julho de 2013

"Faroeste Caboclo" é cinema de primeira


Eu não fui fã de carteirinha da banda Legião Urbana.  O pouco que conheço, é pelo sucesso das músicas, nos anos oitenta, e com a releitura de certas canções por diversos artistas brasileiros.

Sim, eu achava o Renato Russo interessante, e muito. Fui uma das pessoas que admirou a sua coragem em ir além, de não ter pudores artísticos.

Por esse motivo, pela minha distância musical da Legião Urbana, assistir ao Faroeste Caboclo foi uma experiência quase que exclusivamente cinematográfica. Obviamente, lembrei-me de alguns trechos da canção. Só que,durante o filme, isso realmente não fez diferença.

Faroeste Caboclo é um filme digno de levar grandes prêmios. Claro que a genialidade de Renato Russo em criar uma história-canção como a de João de Santo Cristo e Maria Lúcia, uma história-canção de amor nascida para um final nada feliz, está lá. Porém, os roteiristas Marcos Bernstein (O Outro Lado da Rua) e Victor Atherino criaram uma história para cinema, transpondo para a tela, para usufruto também do olhar, toda a complexidade de uma época sob a batuta da ditadura, em que uma geração lutava para transpor as prisões sociais, existenciais e oriundas das drogas. E de uma geração criativa, que se descobriu, aos poucos, capaz de virar o disco.


A direção também colaborou para que o filme se tornasse uma grata surpresa. A estreia do publicitário René Sampaio na direção de um longa-metragem não poderia ter sido mais feliz. Soma-se a isso a interpretação impecável do trio Fabrício Boliveira (João de Santo Cristo), Ísis Valverde (Maria Lúcia) e Felipe Abib (Jeremias). Depois de assistir ao filme, não consigo imaginar outros atores que pudessem interpretar esses papeis. É provocando esse tipo de sensação, que um filme se coloca pela sua qualidade.

Faroeste Caboclo também traz um quê de despedida. Foi o último trabalho de Marcos Paulo, falecido em 2012. Ele interpreta Ney, senador e pai de Maria Lúcia.


Fabrício Boliveira criou um João de Santo Cristo para frequentar a lista dos grandes personagens. O ator emprestou ao personagem de Faroeste Caboclo um olhar necessariamente agridoce, de uma profundeza capaz de tornar uma cena impecavelmente dramática, sem dizer uma palavra. João de Santo Cristo é bandido, já matou, rouba mesmo. É filho de uma terra árida, de pai morto e vingado, um ser que não tem nada a perder. Deixou tudo para trás e foi recomeçar em Brasília, mas lá encontrou a mesma aridez, só mudou o cenário. Continuou bandido, então conheceu Maria Lúcia. Tentou mudar, “desbandidar”, mas então o amor, que se mostra para nós como apaziguador e positivamente transformador, selou o destino de ambos, e não de uma forma palatável.

Fato é que, mesmo bandido, não há como não querer bem ao João de Santo Cristo.


Ísis Valverde, com uma carreira marcada pelas novelas, estreante no cinema, construiu uma Maria Lúcia que me fez admirá-la profundamente como atriz. Despida dos apetrechos que sempre envolvem seus tradicionais papéis na televisão, tornou Maria Lúcia uma personagem interessante, mergulhada na depressão coletiva, e também na pessoal. Filha de senador, ela usa drogas, namora bandido, e por amor, acaba mulher de traficante. O desolamento da personagem remete ao desolamento de uma geração, assim como seu entusiasmo, seu amor por João de Santo Cristo metaforiza a busca pela mudança, pela conquista da liberdade de ser.



Ver o seu objeto de desejo morrendo de amores por um rival, ainda mais quando ele é um pobre mortal, é de endoidecer qualquer endinheirado sem rumo. Não se trata de amor, mas sim de poder. E o Jeremias de Felipe Abib não deixa por menos. É jovem, é traficante, é chefe de turma que não está nem aí se tem de vender drogas, bater ou matar. Felipe deu a Jeremias a credibilidade necessária para que seu desejo por Maria Lúcia se mostrasse ainda mais feroz quando combinado ao desejo de desbancar o seu rival.




Faroeste Caboclo é um filme e tanto. Engana-se quem pensa que é um filme feito exclusivamente para os fãs de Renato Russo e da Legião Urbana. Ele é baseado na canção homônima, mas é filme feito para quem gosta de bom cinema.



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