terça-feira, 23 de julho de 2013

TOC com um toque de comédia



No texto que escrevi sobre o espetáculo Conexão Marilyn Monroe, manifestei meu desejo profundo por continuar a conhecer o trabalho de Alexandre Reinecke. Por esse motivo, recebi um gentil convite do João Bourbonnais para assistir ao TOC TOC, do qual ele faz parte do elenco. 

Com texto do francês Laurent Baffie, TOC TOC é o espetáculo com direção de Reinecke que está há mais tempo em cartaz. São cinco anos no circuito.

Claro que aceitei o convite, e a prova de que vou continuar me embrenhando no universo de Alexandre Reinecke é esse post. Mais que isso, fiquei muito feliz em conhecer o trabalho de atores que ainda não conhecia. O teatro tem sido tão gentil comigo quanto o João foi ao me fazer o convite.

ANTES DAS GARGALHADAS VEM O PAPO SÉRIO

Os transtornos mentais são tratados com certo receio fora do ambiente médico. Ter um transtorno mental, na popularização do entendimento, é ser louco. E neste caso, ainda que a pessoa também seja um gênio – quem não se lembra do gênio da matemática retratado no filme “Uma Mente Brilhante” (A Beautiful Mind/2002), que sofria de esquizofrenia? -, não evita o reflexo do outro de ser indiferente para não se sentir incomodado. Obviamente, isso não impede que os nomes de alguns transtornos sejam adaptados ao vocabulário popular, com pitadas de metáfora. Há quem use a palavra bipolar para descrever, com certo charme, a si mesmo. Chamar a si de bipolar, quando não se sofre do transtorno, tornou-se praticamente licença poética, adjetivo requintado. E não me levem a mal, pois adoro uma metáfora. A grande questão é saber que existe a metáfora e a realidade, porque na realidade, transtornos mentais não tem charme.

O ESPETÁCULO


TOC TOC
  fala sobre o encontro de seis portadores de transtorno obsessivo-compulsivo na sala de espera do consultório de um famoso especialista no assunto, o Dr. Stein. Mas antes de falar sobre o espetáculo, falemos sobre nós mesmos.

Nós que certamente já pensamos ter algum problema por conta de algumas manias, como sair de casa e ter de voltar porque tem certeza de que deixou a luz acesa, a porta destrancada, a torneira jorrando água, o ferro ligado, o gás aberto e por aí vai. Para nós eu vou citar o que minha amiga disse no final do espetáculo: se eu pensava que tinha TOC, agora não penso mais. Isso porque, por mais que TOC TOC seja um espetáculo de comédia, que rir dos problemas faça parte do cardápio, é impossível não pensar em como é difícil conviver com um transtorno obsessivo-compulsivo. 

O espetáculo começa com Fred (João Bourbonnais) no palco, quer dizer, na sala de espera. Ele sofre de uma síndrome que faz com que diga palavras e faça gestos obscenos frequentemente, sem qualquer controle. Em seguida, chega o taxista Vicente (Ithamar Lembo), que é incapaz de parar de fazer contas. A elegância de Fred e a sagacidade de Vicente são muito bem combinadas, de forma a somente acrescentar ao espetáculo. Vicente é o atiçador da ansiedade alheia, e sem verniz, leva os outros personagens ao ápice da ansiedade. Fred tenta ser o conciliador, mas as suas tentativas acabam frustradas, já que sempre descamba a dizer indecências em vez do que realmente gostaria. A empatia entre ambos é o que dá o ritmo ao espetáculo.


Completam o elenco: Branca (Andréa Mattar), que tem mania de limpeza, Maria (Sandra Pêra), a religiosa que acha que esqueceu água, gás e tudo mais aberto, Lili (Laura Carvalho), que repete tudo o que diz e Bob (Dídio Perini) um fanático por simetria. Adriana Fonseca é a secretária do consultório. O elenco está afinado, e não raro arrancam aplausos da plateia. Para cada um deles, há uma diversidade de situações engraçadas, e ao se entrelaçarem os transtornos de cada um, melhor, a peculiaridade de cada um, fica impossível não render às gargalhadas.

Mais uma vez, afirmo aqui a minha admiração a quem consegue dar vida a uma comédia que respeita o espectador, e em todos os sentidos. Fazer graça com a seriedade não é o mesmo que delegar a ela a anulação da sua importância. É preciso cuidado para não se usar o humor de forma que ofenda até mesmo ao próprio. E nesse ponto, podemos qualificar TOC TOC como um espetáculo, apesar do tema que aborda, dos requintados, porque diverte, não ofende e ainda leva o espectador a contemplar o transtorno obsessivo-compulsivo com um pouco mais de gentileza, o que é mérito da combinação de um ótimo texto - recheado com referências locais de forma muito perspicaz -, uma direção competente e atores pra lá de talentosos.

Sendo assim, fica aqui meu agradecimento ao João Bourbonnais pelo convite, e o meu convite para que vocês - os vocês que acreditam ter TOC ou não -, apareçam para conferir TOC TOC. O que posso garantir é que as gargalhadas acontecem do começo ao fim do espetáculo. 


TOC TOC

De 8 de fevereiro a 30 de março de 2014
Curta temporada!
Teatro APCD
Rua Voluntários da Pátria, 547 - Santana | SP

Sábado: 21h
Domingo: 19h

Informações e vendas: 
De quarta-feira a sábado: das 15h às 22h.
Domingo: das 15h às 20h.
Fone: 11.2223 2424 e 11.3105 3129      

Ingressos: clique para conferir.

Texto: Laurent Baffie
Tradução: Clara Carvalho
Direção: Alexandre Reinecke

Com:
Adriana Fonseca
Andréa Mattar
Dídio Perini
Ithamar Lembo
João Bourbonnais
Laura Carvalho
Sandra Pêra

Ficha Técnica
Produtores Associados: Andréa Mattar, Dídio Perini, Gerardo Franco E Sandra Pêra
Produção Executiva: Paula Tonolli
Cenário: Marcia Moon
Luz: Ricardo Silva
Trilha Sonora: Cleuber Rufino
Figurino: Carol Badra
Camareira: Rose Aragão
Contra Regra: Diego De Lima

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AINDA SOBRE TRANSTORNOS MENTAIS

É impossível não pensar em filmes e séries de televisão que abordam o tema. A série Monk foi a que mais lidou com o humor. O detetive Adrian Monk usava seu transtorno obsessivo-compulsivo para resolver os seus casos. Atualmente, a série Perception vem ganhando espaço, e com todo o direito. Ela aborda a vida do neurocientista e professor Dr. Daniel Pierce (Eric McCormack), que é esquizofrênico e consultor do FBI. No cinema, um dos filmes que mais gosto é o Mr. Jones (1993). E meu gosto não é pelo romance que permeia a trama, mas pelas cenas incríveis criadas quando o bipolar Mr. Jones, interpretado por Richard Gere, está em crise.

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