segunda-feira, 4 de agosto de 2014

ELA e a solidão dele


Eu fiz hora para assistir ao Ela (Her/2013). Mesmo sendo fã do Joaquin Phoenix, ficar curiosa a respeito de um drama escrito e dirigido por Spike Jonze, e muitos amigos terem tecido comentários interessantes sobre o filme, ainda assim eu protelei.

O enredo do filme me inquietava. Eu acabara de assistir à série britânica Black Mirror, que abordava as formas que a tecnologia assumiria na vida do ser humano futuramente, com um olhar realmente obscuro. No episódio Be Right Back, a inteligência artificial é utilizada, a princípio, como forma de ajudar uma mulher a superar a morte de seu companheiro. Mas como as pessoas às vezes acabam por delegar à tecnologia o papel de progenitora de milagres, o desfecho da história raramente é positivo. Assim como no episódio de estreia da segunda temporada de Black Mirror, Ela traz para a realidade de um ser humano a humanidade imaginada, que cabe em um computador. Então, ainda digerindo os seis episódios da série, eu escolhi deixar o Ela para depois.


A ironia de vivermos em uma época em que nos conectarmos a outra pessoa parece tão fácil, quando pensamos em tecnologia, e ao mesmo tempo tão difícil, no aspecto humano, é o que torna Ela um filme que, com certa leveza, aborda a solidão em sua bruta forma.

Não é somente Theodore (Phoenix), o escritor de cartas – aliás, as cartas inflamam mesmo o desejo do espectador de ser destinatário de uma delas -, que se apaixona pela voz de Samantha (Scarlett Johansson), um sistema operacional que ele baixa em seu computador, que ele chega a sentir como se fosse o amor de sua vida. Em determinado ponto do filme, assim, meio sem querer, o espectador se pega torcendo por essa verdade inventada. É nessa capacidade de nos levar a compreender o amor de Theodore por Samantha que o roteiro de Jonze é impecável. Não à toa, o filme ganhou o prêmio de Melhor Roteiro Original do Oscar 2014, fora uma série de outros prêmios.

Tenho de dizer que Joaquin Phoenix é daqueles atores que sempre me surpreendem. Antes de Ela, esse filme sublime, eu assisti ao filme O Mestre (The Master/2012), em que ele está fantástico, em um papel completamente avesso ao de Theodore. Lembrei-me deste filme, porque Amy Adams, a Amy de Ela, também participa dele. Phoenix é desses atores que tornam seus personagens críveis, dos singelos e benevolentes aos mais cruéis.


Theodore é um personagem frágil, que amarga o fim de um casamento, e que sai da solidão profunda, passa por um período de autodescoberta, sendo guiado pelas emoções provocadas por Samantha. Ele se inquieta com os momentos em que, mesmo sem querer, tem de encarar o que ela realmente é. O relacionamento segue seu curso, como qualquer outro relacionamento, com seus altibaixos, suas delícias e tristezas, o que colabora com os momentos mais emocionantes do filme.

Por mais visual que a atual geração seja, onde a forma, para muitos, tem de ser impecável para ser admirada e a pessoa desejada, o que mais me agrada em Ela é justamente a falta de forma. O amor de Theodore é construído com a disponibilidade que ultrapassa o imediatismo do primeiro olhar, aquele que, infelizmente, costuma descartar relacionamentos possíveis. O que o personagem tem é tempo para se apaixonar, considerando outros aspectos, aqueles que fazem a convivência física e emocional se conectarem, mas neste caso, sem ironia.

Não fosse Samantha somente uma voz saindo do computador...  


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