terça-feira, 2 de setembro de 2014

Crazy For You - Parte 2 do deslumbramento


Foto © Divulgação

Assisti ao musical Crazy For You em dezembro do ano passado. Aconselho a quem estiver lendo esse texto que confira o que escrevi a respeito na época, antes de continuar, apenas para compreender melhor o que direi a seguir. Clique aqui para ler.

A reestreia do musical em São Paulo aconteceu no final de semana passado. Crazy For You ficará em cartaz, com temporada popular no Teatro Sérgio Cardoso, até dia 21 de setembro.

Domingo, fui ao teatro novamente, esperando por um espetáculo ainda mais afinado do que a primeira vez que o assisti, já que as apresentações vão sendo lapidadas com o tempo. Porém, encontrei um pouco mais do que esperava. 

Na descrição do Crazy For You que assisti nesse fim de semana, cabem muitos adjetivos, mas um fica ecoando na minha cabeça: o espetáculo foi muito, mas muito bonito. 

Não sei se os outros espectadores se sentiram como eu me senti, mas para mim era como se fosse possível sair de lá cantando, sapateando, sendo feliz. Foi diferente da primeira vez, talvez porque eu mesma tenha melhorado com o tempo, sendo capaz de receber o que o espetáculo oferece com a leveza que ele merece. Afinal, o tempo também melhora as pessoas, certo? 

O que sei é que a reação do público, inclusive a minha, aos devaneios de Bobby Child e ao tom agridoce de Polly Baker (Claudia Raia está ótima!), sedimentados pela música de George Gershwin, com versões em português das letras de Ira Gershwin muito bem feitas por Miguel Falabella, executadas com esmero pela orquestra, os dançarinos vestidos em coreografias de tirar o fôlego, não poderia ser diferente. Houve momentos em que me senti em um show de rock’n’roll. A cada cena, era plateia gritando, batendo palmas, pedindo bis. Bonito que só.

Não posso deixar de manifestar a minha admiração pelo Jarbas Homem de Mello, que aumenta a cada espetáculo que assisto, tão generoso que ele é com seus personagens. Para mim, e sei que para muitos, vê-lo no palco, exercendo seu talento, na pluralidade que lhe cabe, é um presente.

Aos que ainda não foram assistir ao musical, espero que aproveitem a oportunidade, que Crazy For You está de lavar a alma.  

CRAZY FOR YOU
Temporada Popular | Até 21 de setembro
Teatro Sergio Cardoso
Rua Rui Barbosa, 153
Bela Vista | São Paulo | SP

Informações: 11.3288 0136

Quinta e sexta | 21h
Sábado | 17h e 21h
Domingo | 21h

Ingressos: www.ingressorapido.com.br/Evento.aspx?ID=35164

FICHA TÉCNICA
Texto: Ken Ludwin
Músicas: George Gershwin
Letras: Ira Gershwin
Versão Brasileira: Miguel Falabella
Direção: José Possi Neto
Direção Musical e Vocal: Marconi Araújo
Coreografias Originais: Susan Stroman
Supervisor de Coreografia: Jeff Whiting
Direção de Coreografia: Angelique Ilo
Produtores Associados: Claudia Raia e Sandro Chaim
Produção Geral: Sandro Chaim

ELENCO
Claudia Raia, Jarbas Homem de Mello, Marcos Tumura, Rodrigo Mialaret, Hellen de Castro, Rodrigo Negrini, Alessandra Peixoto, Andrezza Meddeiros, Carla Vazquez, Daniel Cabral, Eduardo Martinz, Elcio Bonazzi, Jefferson Ferreira, João Sá, Mariana Barros, Mariana Gallindo, Mariana Matavelli, Marilice Cosenza, Mateus Ribeiro, Matheus Paiva, Nina Sato, Patrick Amstalden, Paulo Benevides, Raquel Quarterone e Paulo Santos.

ORQUESTRA
Assistente de Direção Musical e Regente: Beatriz De Luca
Ana Rodrigues - Piano
Bruna Barone - Bateria
Diego Calderoni - Trombone
Guilherme Macabelli - Reed (Clarinete em Bb, Clarinete Baixo e Sax Barítono)
Mauro - Reed (Clarinete em Bb e Sax Tenor)
Guilherme Terra - Piano
Ivan De Andrade - Reed (Flauta, Piccolo, Clarinete em Bb, Clarinete em Eb, Sax Alto e Ocarina)
Marcel Bonfim - Contra Baixo
Alex Rodrigues - Banjo/ Violão
Amilcar - Trompete
Paulo Malheiros - Trombone
Rodolfo Schwenger - Piano
Tiago Sormani - Reed (Flauta, Piccolo, Clarinete em Bb, Sax Soprano e Sax Alto)
Diogo - Trompete

Cenografia: Duda Arruk
Figurino: Fabio Namatame
Design de Luz: Wagner Freire
Design de Som: Tocko Michelazzo
Visagismo: Feliciano San Roman e Henique Mello
Supervisora de Sapateado: Chris Matallo
Diretora Residente: Vanessa Guillén

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Como se fosse história em quadrinhos

Sábado passado, acompanhei uma amiga no seu fazer de produtora cultural. A Drika Bourquim trabalhava em uma programação paralela à da Bienal do Livro, realizada pelo SESC, que promoveu uma série de encontros entre autores em suas unidades. A do dia 30 de agosto aconteceu no SESC Pompéia, com dois autores que eu não conhecia e tive muita sorte de conhecer: David Mairowitz e Marcello Quintanilha.

Mairowitz e Quintanilha são autores do cenário dos quadrinhos, do qual, não vou enganá-los, pouco sei, não por desgostar do segmento, apenas por não conhecê-lo. 

Marcello Quintanilha e David Mairowitz
Foto 
© Drika Bourquim
Encontros como estes são muito importantes, independente do segmento. Na minha função no Batuka! Brasil, festival no qual atuo como diretora de produção, os workshops com bate-papo entre os artistas e o público não somente sanam as dúvidas dos interessados no assunto, mas também inspiram muitos a fazerem escolhas que melhoram a sua própria relação com o fazer artístico. Isso porque, além da obra do artista, as pessoas têm acesso aos bastidores das suas criações: como nasceu a ideia, qual o tipo de técnica utilizada, a personalidade do artista impressa em sua obra.

Kafka de Crumb
Reconheço que tenho certo apreço por me aprofundar na intimidade de uma obra, o que me leva a sempre querer saber como ela nasceu, qual foi o primeiro sopro que deu vida a ela.

Talvez vocês esperassem um texto mais específico sobre os autores. Eu poderia ler o currículo deles e incluir aqui as informações adequadas. Mas vocês podem matar a curiosidade sobre quem eles são com uma simples busca no Google, que cada qual tem seu valor e vasta contribuição no meio. Esse texto não é especificamente sobre a carreira dos autores. Esse texto é sobre como Marcello Quintanilha e David Mairowitz fizeram com que eu me interessasse pelo universo dos quadrinhos. 

Tungstênio
Em duas horas, os autores responderam perguntas feitas pelo moderador André Conti, falando sobre suas carreiras e obras. Em seguida, o bate-papo foi aberto às perguntas do público presente.

Mairowitz é americano e vive entre a Alemanha e a França. Ele falou sobre a série de livros que já publicou como roteirista, entre eles Kafka de Crumb, a biografia de Franz Kafka e alguns contos, ilustrada por Robert Crumb. Foi interessante ver as características dos ilustradores com os quais o autor vem trabalhando. Fiquei bastante curiosa para conferir a adaptação de Mairowitz para os quadrinhos do livro O Coração das Trevas (Heart of Darkness/1902), do escritor Joseph Conrad, com ilustração de Catherine Anyango. Ele insistiu para que os presentes não deixassem de conferir a publicação, que deve ganhar sua versão em português em breve. Ele fez o mesmo comigo, após o evento, quando conversamos. O entusiasmo dele a respeito da obra despertou o desejo em mim de conhecê-la.

Para os cinéfilos de plantão, o filme Apocalypse Now (1989), de Francis Ford Coppola, foi inspirado no livro O Coração das Trevas

Quintanilha é quadrinista brasileiro que, apesar de viver em Barcelona há anos, e além dos trabalhos publicados no exterior, continua a criar para os brasileiros. Recentemente, lançou Tungstênio, HQ da qual ele apresentou algumas ilustrações durante o evento no SESC. Aliás, as ilustrações são das que captam o olhar, faz com que desejemos enxergar os detalhes.

O que me conquistou a respeito de Quintanilha foi o fato de ele ser completamente a favor da liberdade necessária para que o personagem, mais do que ser criado, possa acontecer. Essa intimidade com o desejo do personagem em seguir por direções diferentes das possivelmente imaginadas, faz com que eu me interesse, de cara, por conhecer a obra do autor. Também gostei de ele ter lançado uma história em quadrinhos na linguagem do cordel, na qual foi baseado o curta Disputa entre o Diabo e o Padre pela Posse do Cênte-for na Festa do Santo Mendigo, de Eduardo Duval e Francisco Tadeu, do qual assistimos um trecho, durante o evento. E eu tive de bancar a fascinada de plantão, confessando a ele que não conhecia o cenário dos quadrinhos, mas depois de escutar o que ele tinha a dizer, o faria. 

Sábado foi um dia muito especial, e eu gosto dos que me pegam de surpresa. Nada do que eu esperava aconteceu, e minha pessoa bancou o personagem libertário que escolheu aceitar o que viria. E aceitando o oferecido, acabou completamente seduzido pelo desejo de mergulhar no universo dos quadrinhos. Sendo assim, na pobreza de conhecimento atual, meu personagem se desculpa pelos possíveis erros de aplicação de certas palavras (quadrinhos, HQ, quadrinista, desenhista, ilustrador, roteirista, escritor), enquanto a minha pessoa agradece à Drika, ao David Mairowitz e ao Marcello Quintanilha, para então ir até ali, escolher o que ler... E ver.

Após evento no SESC, na 88º Festa de Nossa Senhora Achiropita