sábado, 7 de janeiro de 2017

Voando para Casa | Uma boa história


Eu gosto de boas histórias. Às vezes, elas não me chegam por meio de livros ou filmes, que são as principais fontes das histórias que aprecio. Às vezes, eu esbarro com elas, como quando uma senhora passava mal, em frente onde trabalho, e em vez de entrar, ela preferiu seguir, porque no quarteirão seguinte estava o dentista com quem tinha hora marcada, alguém que a conhecia e poderia levá-la para casa. Então, eu a levei até lá. Demoramos um pouco para completar esse quarteirão. Ela se sentia um pouco melhor, mas tinha artrite, suas pernas doíam. Durante o caminho, ela me contou sobre sua paixão pela música e pelos gatos. Ela desejou ser pianista, quando menina, mas o pai não permitiu. Tornou-se ouvinte assídua de respeitáveis mestres da música clássica e popular. Após os filhos se casarem, vendo-se sozinha em casa, optou pela companhia dos gatos, e não poderia ter feito escolha melhor. Sentia-se feliz com eles.

Naquele dia, além de uma boa história, ganhei um longo abraço e a gratidão de Norma por eu tê-la levado a um lugar seguro, quando se sentia fragilizada. Essa é apenas uma das histórias que tenho para contar, porque alguém quis me contar a sua.

Jan Decleir interpreta Jos Pauwels, o dono do pombo cobiçado pelo sheik.
Sobre uma das minhas histórias, quem me conhece sabe que tenho sérios problemas com lagartixas e pombos. Ao contrário de mim, esses seres adoram intervir na minha vida. Elas caindo na minha cabeça. Eles voando contra a minha pessoa e me dando sustos. Isso significa que eu jamais escolheria um filme com lagartixas ou pombos, ou ambos no elenco. Mas o fiz hoje, para o bem desse eu que adora uma boa história.

Decidi assistir Voando para Casa (Flying Home/2014), por causa do ator. Quando gosto de um ator ou atriz, assisto aos filmes dos quais eles participam. Neste, o irlandês Jamie Dornan é o protagonista. Eu o aprecio como ator, mas não por conta do - para o meu gosto - inexpressivo 50 Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey/2015). Antes deste filme, eu o assisti na ótima série The Fall, que maximizou a boa impressão que tive dele, por conta de sua participação no filme Maria Antonieta (2006) e da série Once Upon a Time.

Escrito e dirigido por Dominique Deruddere, Voando para Casa conta a história de Colin Montgomery (Jamie Dornan), um empresário ambicioso de Nova York, que se vê diante de um desafio: convencer um sheik árabe a se tornar cliente de sua empresa. Ao visitar o sheik, que já decidira fechar negócio com outra empresa, ele se vê diante de uma oportunidade de conquistá-lo como cliente. O sheik cria e treina pombos e tem o desejo de conseguir um que esteja apto a participar de uma das mais importantes corridas do gênero. Ele acredita que seria possível ganhar a prestigiosa corrida de Barcelona, se conseguisse comprar o pombo de um homem que vive na Bélgica, mas que se nega a vendê-lo. Conseguir o tal pombo para o sheik se torna a missão de Montgomery. Assim, ele parte para Flandres com nome e história inventada, a não ser um único aspecto.


O filme é simples. Simples como escutar sua avó ou sua mãe lhe contar uma história de família sobre pessoas que você nunca conheceu. Há romance, mas, honestamente, esse é apenas um aspecto do filme. Não toma conta dele. Outros relacionamentos pesam mais, como o de pais com filhos, dos próprios criadores de pombos com essas criaturas, dos cidadãos com sua região, do homem com o poder que se mostra menos importante do que as relações humanas. Você sabe aonde o filme o levará, porém, a sutileza com a qual o espectador é levado ao desfecho é o que faz a diferença em Voando para Casa. Trata-se de uma história bem contada, que remete ao fato de que, às vezes, por conta da série de conquistas que almejamos alcançar, esquecemos de que somos pessoas, e de que nem sempre precisamos do que desejamos intensamente.

VOANDO PARA CASA | TRAILER