segunda-feira, 1 de julho de 2019

NELSON GONÇALVES - O AMOR E O TEMPO

© Divulgação
Eu tenho muito apreço pelo Teatro Gazeta. Meu gosto pelo teatro começou, de fato, ali, quando assisti, há mais de uma década, o espetáculo Querido Mundo [leia sobre]. Assisti a outros tantos espetáculos naquele palco. Alguns deles, marcaram-me para a vida. Pode parecer exagero, mas não é. Sou das pessoas que se permitem ser marcadas por um espetáculo de teatro, um filme, uma música, um livro, uma frase de um desconhecido que impulsiona aquela mudança que passei muito tempo postergando, e por aí afora.

Então, que aquele palco tem o poder de fazer minha imaginação, que já é inquieta por natureza, esbaldar-se em devaneios. 

Ontem, eu fui ao Teatro Gazeta. Entrei, sentei-me na poltrona A-25, assim, na fila do gargarejo. Enquanto o espetáculo não começava, eu imaginava cenas improvisadas naquele lugar onde palavras ganham tons, por conta de pessoas que, dedicadas à lida da interpretação, abrem alas para as emoções dos espectadores. 

O espetáculo: Nelson Gonçalves – O Amor e O Tempo.

Nelson Gonçalves completaria 100 anos em 21 de junho. O espetáculo, com três temporadas de sucesso no Rio de Janeiro, desembarcou no palco do Gazeta, em maio deste ano. Antes de continuar a falar sobre, um arrependimento: ter assistido à última apresentação da temporada.

Antes do início do espetáculo, uma excitação geral. É lindo de se ver quando as pessoas concordam sobre o que as tocou profundamente de maneira a despertar algo bom, um reconhecimento justo. Ali, as pessoas reverenciavam um significativo nome da música brasileira que era, também, um cronista do sentimento arrebatador, fosse para o contentamento ou para a tristeza. Cada canção, da qual ele se apropriava, voz e interpretação, traduzia um estado de espírito, um momento significativo, de Nelson Gonçalves ou dos apreciadores da música que ele compartilhava.

Antes de as cortinas se levantarem, eu pensava sobre como seria, se o elenco trafegaria pelo palco ou o tomaria para si. Posso dizer que o tomaram para si, que do início ao fim, sorriso e engasgos me tomaram... e não somente a mim. Outra coisa linda de se ver: um público fascinado pelo espetáculo. 

Primeiro, deixe-me falar sobre a banda, porque o meu lado musical se deslumbrou por ela. Primorosos arranjos para canções tão conhecidas, sendo executadas por músicos fantásticos. A música vestiu com delicadeza, até mesmo as canções de poesia arredia. 

No palco, dois Nelsons, um homem e uma mulher. Nelson Homem defendia a emoção. Nelson Mulher, a razão. Nesse encontro de reflexões, o espectador era levado ao universo de Nelson Gonçalves, a todos os “não” que ele recebeu, aos percalços, aos apaixonamentos e também aos desvarios. Eram duas pessoas no palco, mas eu só conseguia pensar em uma, porque os questionamentos me pareciam justos para qualquer pessoa. O quanto nos entregamos ao amor, o como lidamos com o tempo, e tudo aquilo que acontece durante eles.

Nelson Homem, interpretado por Guilherme Logullo, era excitação e deslumbramento em carne viva. Tudo nele chegava forte, abrasador. Nelson Mulher, interpretado por Jullie, era a dúvida e o medo do próximo sofrimento. A dança à qual os personagens se lançam é a de combinar esses universos, ambos tão presentes na vida de Nelson Gonçalves.

© Divulgação
Eu caí de amores por eles, assim, de cara. Quando começaram a cantar... que vozes! Que interpretações! O palco foi tomado pela música e pelas histórias das canções, elas sendo trançadas com a do próprio rei do rádio. Guilherme e Jullie me ganharam de vez. Mais do que isso, tomaram o palco, daquele jeito que sempre me deixa feliz: completamente, deixando nele um pouco de si. 

No final, entre os agradecimentos, Guilherme falou sobre a gentileza do pessoal do Teatro Gazeta. Trata-se de um lugar conduzido por pessoas que sabem que o fazer arte requer trabalho árduo, talento revigorante e revigorado. É sim um lugar onde os artistas são recebidos com respeito, assim como ao público. Um lugar onde eu conheci tantos artistas capazes de dominarem o palco, como se tivessem nascido nele e a ele pertencessem.

Nelson Gonçalves – O Amor e O Tempo é uma homenagem muito bem tecida pelo autor. Gabriel Chalita soube entremear as dores e os amores; as esperas e a solicitude do que nos acontece, sem que estejamos preparados para lidar com o acontecimento. Um espetáculo fantástico, que espero que, depois de suas voltas por outros cantos do Brasil – se passar pelo seu, não perca a oportunidade! -, possa voltar ao palco do Gazeta. Seria muito bom poder assisti-lo novamente.

© Divulgação
Na saída, comprei o livro sobre o espetáculo. Os atores anunciaram que logo sairiam para atender ao público. Eu não tive coragem de ficar. O que dizer a eles que justificasse minha gratidão por aquele espetáculo? Mas essa sou eu... quem engole palavras, para então despejá-las em um texto que diga o “quase” do sentimento que me arrebatou. E aqui estou, quase no final da minha declaração de imenso agradecimento por um tempo que fará parte da minha coleção de memórias.  

Antes de finalizar, quero compartilhar algo que uma pessoa, que estava sentada na fileira atrás de mim, disse, assim que as luzes acenderam: depois disso, só procurando um amor.

Espero que ela o tenha encontrado.

NELSON GONÇALVES – O AMOR E O TEMPO

Informações sobre o espetáculo: musicalnelsongoncalves.com.br


FICHA TÉCNICA

Um musical idealizado por Guilherme Logullo e Gabriel Chalita.
Direção e coreografia: Tânia Nardini.
Roteiro: Gabriel Chalita.
Elenco: Guilherme Logullo e Jullie.
Coordenação Artística: Guilherme Logullo.
Cenografia: Doris Rollemberg.
Figurinos: Fause Haten.
Direção Musical e arranjos: Tony Lucchesi.
Direção de Produção: Lu Castro e Bruno Mendonça.
Assistência de direção e movimento: Nadia Nardini.
Visagista: Diego Nardes.
Design de Som: Gabriel D’Angelo.
Design de Luz: Renato Machado.
Redes Sociais: Gabriella Costa.



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