domingo, 23 de janeiro de 2011

Vinho, Giamatti e uma boa história para se apreciar



O que me atrai em Paul Giamatti é que ele não se parece com ninguém, ao menos no que se refere aqueles que cabem no meu gosto. Há certo refinamento neste homem que me agrada profundamente, até mesmo quando interpreta personagens que são pessoas, como Harvey Pekar, importante autor do universo dos quadrinhos, conhecido pelo seu mau humor constante (Anti-Herói Americano/American Splendor, 2003).



Paul Giamatti constrói tão bem seus personagens, que leva o espectador a se envolver profundamente com eles. Seja para rir, para chorar ou para ficar com vontade de bater no personagem, a viagem é sempre uma surpresa agradável. Mesmo no confuso Dama na Água (Lady In The Water, 2006), ele faz valer a sua participação.
Desde o seu lançamento, em 2004, venho ensaiando para assistir Sideways – Entre umas e outras. É uma coisa minha, fico espreitando o objeto de desejo, e, às vezes, demoro muito a desempacotar o presente, mas chego lá... E cheguei, hoje.
Penso que a classificação de filmes como comédia, romance, ação etc, às vezes leva o espectador em geral a perder a chance de assistir a bons filmes. Sideways, apesar da interpretação engraçadíssima de Thomas Haden Church, não me parece uma comédia como a entendemos na indústria cinematográfica. E a prova maior é que, enquanto na caixinha do DVD consta a classificação como “comédia”, e ainda traz os dizeres “uma comédia inteligente sobre amizade e vinho”, em vários sites especializados em cinema ele consta como “drama”, apesar de ter ganhado o Golden Globe de Melhor Filme – Musical ou Comédia. Também levou o de Melhor Roteiro.



Sideways conta a história de Miles, um professor de Inglês depressivo, que tenta publicar um livro no qual nem mesmo ele acredita, enquanto vive e revive a tristeza pelo fim de seu casamento, há dois anos. Sendo apreciador e conhecedor de vinhos, quando Jack (Thomas Haden Church) vai se casar, Miles planeja com o amigo, desde a faculdade, uma viagem de despedida de solteiro, durante uma semana, pelos vinhedos da Califórnia, passando pelas vinícolas da região. Para Jack, um mulherengo que só quer se dar bem, o desejo é pela farra, enquanto Miles mergulha na sua apreciação pelo vinho, a espera excruciante pela resposta de sua agente literária sobre uma possibilidade de edição de seu livro, e nas lembranças de quando esteve em determinados locais com a ex-esposa.



Maya, interpretada por Virginia Madsen, e Stephanie, interpretada por Sandra Oh, são as mulheres que entram no caminho de Miles e Jack, durantea viagem. Aliás, “Sideways” serve como prova de que muita coisa pode acontecer em apenas uma semana.


Sideways é baseado no livro de Rex Pickett, e ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. O diretor e co-roteirista Alexander Payne leu o livro e adorou o tom pessoal e humano da história, assim como o cenário onde se passa. Ele também elegeu tonalidade pastel dos anos 70 para este filme, pedindo ao diretor de fotografia que usasse essa característica, o que funcionou muito bem, pois dá ao espectador uma sensação de conforto, em meio a tantas idas e vindas dos personagens.
Gosto de pensar em Sideways como uma miscelânea, como é a vida de cada um de nós, sem determinar se é comédia, drama, ficção... Está tudo no mesmo pacote. Gosto de pensar que este filme é o que Maya expõe ao explicar a Miles por que se envolveu no mundo do vinho. Após uma bela introdução, explicitando como, ao saborear o vinho, ela imagina o que se passou enquanto as uvas cresciam, como o sol as tocava, se choveu, ela diz “... a bottle of wine is actually alive - it's constantly evolving and gaining complexity.” - uma garrafa de vinho está de fato viva – e constantemente evoluindo e ganhando complexidade, assim como o ser humano.


Aliás, esta cena, a da conversa entre Miles e Mya, na varanda da casa de Stephanie, é uma daquelas em que somente bons atores poderiam tornar bela. Giamatti e Madsen conseguiram. O diálogo sobre vinhos é, na verdade, uma breve incursão nos sentimentos deles.
Sideways é um ótimo filme, com um trabalho fantástico – mais uma vez – de Paul Giamatti.




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