segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Inquietos

Gus Van Sant é um diretor que agrada a todos, de Hollywood ao cenário independente do cinema, e sem perder a sua identidade.

Os seus filmes implicam em uma jornada interior, independente da história ou de onde vivem os seus personagens. A delicadeza é presente em temas pesados, como em Garotos de Programa (My Own Private Idaho/1991) e Encontrando Forrester (Finding Forrester/2000).

Em Inquietos (Restless/2011) não é diferente. Gus Van Sant faz a sua mágica, fazendo surgir, em um filme que trata de grandes perdas, a beleza de um gostar honesto, vibrante e adepto da imaginação.

Annabel Cotton (Mia Wasikowska) e Enoch Brae (Henry Hopper) se conhecem em um funeral. Ela conhece o falecido, mas ele não. Para Enoch, ir a funerais alheios se tornou uma tarefa cotidiana. Annabel é paciente terminal de câncer, com uma expectativa de vida de três meses. Ao saber disso, Enoch se propõe a acompanhá-la até o seu encontro com a morte.

Mia e Henry estão confortáveis nos papéis de Annabel e Enoch. Isso, por si só, já dá ao filme certa leveza. E os detalhes são enriquecedores, como as roupas que Annabel usa, às vezes caricatas, como se ela vestisse um personagem. Assim como a sua paixão por Darwin e pela natureza. E Hiroshi, amigo imaginário de Enoch, um fantasma de um piloto de caça kamikaze.

Para quem está prestes a perder a vida, Annabel exala a própria, sem que o medo se apodere do tempo que lhe resta. Aos poucos, Enoch percebe a dificuldade de se despedir de Annabel, pois eles se tornaram muito próximos. A partir daí, o espectador passa a conhecer a história dele com mais profundidade.

Inquietos é uma história de amor, e não apenas de um homem por uma mulher, de uma mulher por um homem, entre dois jovens. É uma história de amor à vida, aos afetos, aos desejos, e sobre como nos tornamos mais humanos ao nos desprendermos das vãs certezas, entre elas, a de que temos tempo para.

O filme tem uma linguagem que se aproveita da imaginação para lidar com a realidade, mas sem se perder dela. O roteiro de Jason Lew é impecável. Porém, é na direção que o filme se revela. Inquietos é uma combinação de acertos. Um belo filme para alimentar a alma.




segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O amante secreto

Este é um filme que eu assistirei sempre que precisar de um tanto de poesia na minha realidade. Apesar de dramático, sofrido em tantos aspectos, há uma beleza ímpar nesta obra, certamente amplificada pela direção de Walter Lima Jr.

A ostra e o vento (1998) fala sobre Marcela, ricamente interpretada por Leandra Leal, na sua estreia no cinema, uma adolescente que vive em uma ilha com o seu pai, o faroleiro José (Lima Duarte) e Daniel (Fernando Torres). Entre as várias histórias que se embrenham na trama principal, a mais poética – e profética - é, certamente, a forma como Marcela lida com a descoberta da sua sexualidade, sem que haja uma mulher como referência, e sob a proteção austera de seu pai.

O filme é baseado no livro homônimo de Moacir C. Lopes, e o roteiro é de Walter Lima Jr. e Flávio Tambellini. A ostra e o vento é um mergulho no universo frágil e sagaz de uma personagem que vive, através da imaginação, o que é tolhida de viver na realidade. Marcela convive com a solidão profunda, como se ela fosse a sua companhia reconhecida, com quem ela tagarela feito menina, a quem se confessa feito mulher. E neste cenário, toma por seu amante o vento.

A trilha sonora de A ostra e o vento, tão sedutora quanto o filme, foi composta por Wagner Tiso, exceto a canção-tema, de autoria de Chico Buarque, e a incidental J´attendrai (G. Olivieri / N. Rastelli).


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Através dos preferidos

O ator britânico Matthew Macfadyen

Acredito que a maioria daqueles que apreciam o cinema e a televisão, tenham as suas preferências de ator/atriz e de diretores. Em casos como este, dispensa-se a sinopse, indo direto ao produto, sem medo de errar. Raramente, o filme, a série ou a minissérie desapontam, porque ao escolhermos nossas preferências, contamos com o bom gosto daqueles que escolhem os seus papéis. Não que seja impossível nos desapontar, mas pensando desta forma, certamente é mais raro de acontecer.

Interpretando Mr. Darcy, em Orgulho e Preconceito

Recentemente, assisti pela quinta vez ao filme Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice/2005), de Joe Wright, baseado na obra da escritora inglesa Jane Austen, que eu admiro muito. Neste filme, descobri o ator Matthew Macfadyen, que interpretou o famoso personagem de Austen, o Mr. Darcy. Não é apenas pela complexidade ou por eu ter gosto em me embrenhar em universos de personagens mais densos, mas Macfadyen foi o melhor Mr. Darcy do cinema e da televisão. Ele deu credibilidade a um homem indiferente ao romance, com certa rudeza, mas que, ainda assim, conquista os espectadores.

Macfadyen, então, entrou para a minha lista de preferidos, portanto, dos que assisto a tudo, sem ler sinopses ou dar atenção às críticas. Porém, a jornada está em curso.

Estou assistindo a série inglesa Spooks, uma produção da BBC One e conhecida no Brasil como Dupla Identidade. A série fala sobre a rotina de espiões ingleses do MI-5, o equivalente à CIA dos americanos. Macfadyen é Tom Quinn, personagem que ele viveu nas primeiras três temporadas. Spooks está na décima e última temporada da série.

Como Tom Quinn, esquecemos Mr. Darcy e vemos um homem que vive diversas histórias, mas não consegue viver a sua própria. Além dos casos do MI-5, a vida pessoal dos espiões é abordada, o que torna a série muito mais interessante. O personagem de Macfadyen, por exemplo, mantém um romance com uma mulher que acredita que o nome dele é Matthew (o nome do ator!) e ele é um técnico de informática. Quando a verdade vem à tona, os riscos de se relacionar com quem não é espião ficam bem claros.

E apenas para citar outro ator que aprecio muito, a participação de Hugh Laurie na segunda temporada de Spooks vale ser conferida. O House, da série homônima, vale-se de toda crueza do humor negro do inglês para coordenar o MI-6, que cuida de assuntos internacionais.

Ainda há muito material com a participação de Macfadyen para eu conferir. Entre eles, já está no play a minissérie Perfect Strangers (2001), do qual já assisti o primeiro dos três episódios, e para 2012 o Ana Karenina, mais um filme do diretor Joe Wright.

Do que já assisti, a minissérie Any Human Heart foi das mais gratas surpresas, e não apenas pela participação de Macfadyen. Ela conta também com o fantástico Jim Broadbent, um dos mais versáteis atores ingleses, que participou de filmes como Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway/1994), Iris (Iris/2001), e Gangues de Nova York (Gangs of New York/2002).

Any Human Heart é baseada no livro de William Boyd, também responsável pela adaptação do mesmo para a telinha. A história gira em torno da vida de Logan Montstuart, sendo contada através de flashback pelo personagem aos oitenta anos. A minissérie estreou em 2010, pelo Channel 4.

Logan quer ser escritor. Durante a sua juventude, na companhia dos amigos, a sua busca girava em torno de perder a virgindade, antes de se formar. Assim que o sexo entra na equação, Logan tem uma série de relacionamentos complexos. Ele consegue publicar dois livros, mas depois, o que resta é uma recorrente promessa de arranjar tempo para escrever o próximo, aquele que será o maior sucesso da sua carreira como escritor. Enquanto isso não acontece, ele trabalha em diversas áreas, e com referências históricas e interação ficcional com indivíduos reais, William Boyd costura uma história que mergulha na questão existencial, e também na passagem do tempo que parece, sempre, não nos poupar de passar rápido demais.

Macfadyen interpreta Logan adulto, e o faz com maestria, porque este é um personagem repleto de inquietações, que nunca se sentiu capaz de adaptar, mas que ao mesmo tempo, é de uma doçura e bondade gritantes. Tanto Macfadyen quanto Broadbent, e o mesmo eu digo sobre Sam Clafin, que interpreta o personagem na juventude, fizeram um trabalho muito especial ao construírem um Logan Montstuart crível, que lida com certa inocência com os revezes da sua vida.

Como diz Logan, “cada ser humano é uma coleção de eus; não permanecemos a mesma pessoa conforme seguimos nossa jornada pela vida”, e Any Human Heart aborda as versões de uma existência de forma emocionante.