segunda-feira, 23 de abril de 2012

O fantástico universo de Tati


Tatiana Belinky nasceu na Rússia, e veio para o Brasil aos dez anos de idade. É escritora, tradutora, poeta, dramaturga, e as suas obras voltadas ao universo da criança são as mais celebradas.

Aos noventa e três anos de idade, detentora de vários prêmios, ela ainda é a menina contemplando o universo de personagens como os que a inspiraram a se tornar escritora e a mergulhar no universo infantil.

Um punhado de letras para enfeitar os cabelos de Tati é uma homenagem a essa mulher com uma história de vida tão rica quanto as que vem criando para os seus livros.  O espetáculo, escrito e dirigido por Rony Guilherme, aborda os principais eventos da vida de Tatiana Belinky de uma maneira lúdica, assim como a sua obra, fazendo com que a menina Tati contracene com os seus personagens preferidos, como se eles tivessem saltado das páginas dos livros para a realidade dela.


Durante o espetáculo, os adultos entre o público presente, acabam por revisitar a infância. E não somente como adultos se permitindo apreciar um espetáculo infantil, permitindo-se a leveza, mas como se as crianças que foram se apoderassem dos adultos que se tornaram, durante o espetáculo.


Tati (Rebeca Andreza) e seu pai, Sr. Aron (Fabrício Bini)

Eu mesma, pessoa com memória fraca para a infância, quem aprendeu a contemplar a coisa de ser criança apenas com a chegada dos sobrinhos, contadores de histórias inspirados, peguei-me a acompanhar a Tati menina, interpretada com vivacidade e diligência por Rebeca Andreza, como se pudesse vestir a pele dessa personagem-pessoa e viver as suas aventuras.

Observar a vida de Tatiana Belinky, tendo como ponto de partida a menina que ainda vive nela, é algo que torna Um punhado de letras para enfeitar os cabelos de Tati um espetáculo inspirador. 


Tatiana Belinky na estreia do espetáculo, comemorando 93 anos de idade

O que mais me agradou no espetáculo foi a forma como o autor abordou a passagem de tempo. A Tati contemplando o surgimento da Tatiana adulta, sendo conduzida pelo seu imaginário, no qual o personagem mais querido da menina, a Emília - interpretada graciosamente por Marina Ribeiro, e sendo a filha mais serelepe de Monteiro Lobato -, com o auxílio do Visconde de Sabugosa e da fada Sininho, acompanha a menina nessa jornada.



Quando entra em cena a Tatiana adulta - interpretada pela talentosa Maximilana Reis, com a leveza que mulheres-meninas inventadoras de histórias trazem no sorriso -, e a menina Tati se apaixona pela Tatiana que vem despertando tantas crianças para a o prazer da leitura, compreendemos a importância de pessoas como ela no universo literário. Melhor, no universo inteirinho.


Maximiliana Reis


Também participam do espetáculo Fabrício Bini, Renato Rodrigues, Carol de Grammont, Júnior Lima e Jéssica Lima.

Um punhado de letras para enfeitar os cabelos de Tati ficará em cartaz, no Teatro Paulinas, em São Paulo, somente até o próximo final de semana. Levem seus filhos e confiram esse espetáculo de uma lindeza digna da vida de uma mulher como Tatiana Belinky, que vem enfeitando o universo das nossas crianças com tanta alegria e criatividade.







 Confira o blog do espetáculo: http://umpunhadodeletrasparatati.blogspot.com.br/

quinta-feira, 19 de abril de 2012

De Mr. Darcy à assassina fabricada

Depois de grandes sucessos, Joe Wright deu um passo adiante com Hanna (2011), estreando o seu primeiro thriller de ação. O diretor de Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice/2005), Desejo e Reparação (Atonement/2007) e O Solista (The Soloist/2009), vale-se do seu talento de contador de histórias guiadas pela emoção para fazer um filme no qual a personagem central é resultado de um treinamento militar rígido, sendo também transformada em uma assassina quase perfeita.

Hanna (Saoirse Ronan) foi criada pelo pai, Erik Heller (Eric Bana), um ex-agente da CIA, em uma área remota da Finlândia. Nas primeiras cenas, ao vermos a menina com a expressão tão distante, pensamos que se trata somente de melancolia, afinal, ela vive no meio do nada, e o único contato que tem é com seu pai. Porém, não tarda para descobrirmos que, na verdade, Hanna foi treinada para ser assim, o que a ajudaria a executar o plano de assassinar a espiã da CIA, Marissa Wiegler (Cate Blanchett).

O talento de Joe Wright para o drama é o que garante que Hanna não seja mais um filme sobre a criação de soldados/assassinos perfeitos. Quando o plano traçado pelo pai de Hanna para que ela chegue até o seu alvo não sai como previsto, entra em cena a caçada pela menina, liderada por uma Cate Blanchett, como sempre, impecável.

Mais do que uma boa direção, Hanna conta com a interpretação dual de Saoirse, que, em certos momentos, enquanto viaja pela África e pela Europa, enquanto é perseguida por agentes e assassinos, contempla a sua própria humanidade, ao lidar com outras pessoas. A atriz dá credibilidade à personagem, faz com que sintamos empatia por Hanna.

Hanna é um filme com bons ingredientes, que apesar de ter deixado algumas questões em aberto, o que poderia ter sido resolvido com um roteiro melhor trabalhado, consegue alcançar um resultado positivo. O fato de ser um filme que, por conta do seu tema, poderia abusar da violência, mas que a aplica com menor frequência e grande austeridade é resultado de um olhar que contempla a complexidade do ser humano. Joe Wright acertou em cheio.