terça-feira, 2 de setembro de 2014

Crazy For You - Parte 2 do deslumbramento


Foto © Divulgação

Assisti ao musical Crazy For You em dezembro do ano passado. Aconselho a quem estiver lendo esse texto que confira o que escrevi a respeito na época, antes de continuar, apenas para compreender melhor o que direi a seguir. Clique aqui para ler.

A reestreia do musical em São Paulo aconteceu no final de semana passado. Crazy For You ficará em cartaz, com temporada popular no Teatro Sérgio Cardoso, até dia 21 de setembro.

Domingo, fui ao teatro novamente, esperando por um espetáculo ainda mais afinado do que a primeira vez que o assisti, já que as apresentações vão sendo lapidadas com o tempo. Porém, encontrei um pouco mais do que esperava. 

Na descrição do Crazy For You que assisti nesse fim de semana, cabem muitos adjetivos, mas um fica ecoando na minha cabeça: o espetáculo foi muito, mas muito bonito. 

Não sei se os outros espectadores se sentiram como eu me senti, mas para mim era como se fosse possível sair de lá cantando, sapateando, sendo feliz. Foi diferente da primeira vez, talvez porque eu mesma tenha melhorado com o tempo, sendo capaz de receber o que o espetáculo oferece com a leveza que ele merece. Afinal, o tempo também melhora as pessoas, certo? 

O que sei é que a reação do público, inclusive a minha, aos devaneios de Bobby Child e ao tom agridoce de Polly Baker (Claudia Raia está ótima!), sedimentados pela música de George Gershwin, com versões em português das letras de Ira Gershwin muito bem feitas por Miguel Falabella, executadas com esmero pela orquestra, os dançarinos vestidos em coreografias de tirar o fôlego, não poderia ser diferente. Houve momentos em que me senti em um show de rock’n’roll. A cada cena, era plateia gritando, batendo palmas, pedindo bis. Bonito que só.

Não posso deixar de manifestar a minha admiração pelo Jarbas Homem de Mello, que aumenta a cada espetáculo que assisto, tão generoso que ele é com seus personagens. Para mim, e sei que para muitos, vê-lo no palco, exercendo seu talento, na pluralidade que lhe cabe, é um presente.

Aos que ainda não foram assistir ao musical, espero que aproveitem a oportunidade, que Crazy For You está de lavar a alma.  

CRAZY FOR YOU
Temporada Popular | Até 21 de setembro
Teatro Sergio Cardoso
Rua Rui Barbosa, 153
Bela Vista | São Paulo | SP

Informações: 11.3288 0136

Quinta e sexta | 21h
Sábado | 17h e 21h
Domingo | 21h

Ingressos: www.ingressorapido.com.br/Evento.aspx?ID=35164

FICHA TÉCNICA
Texto: Ken Ludwin
Músicas: George Gershwin
Letras: Ira Gershwin
Versão Brasileira: Miguel Falabella
Direção: José Possi Neto
Direção Musical e Vocal: Marconi Araújo
Coreografias Originais: Susan Stroman
Supervisor de Coreografia: Jeff Whiting
Direção de Coreografia: Angelique Ilo
Produtores Associados: Claudia Raia e Sandro Chaim
Produção Geral: Sandro Chaim

ELENCO
Claudia Raia, Jarbas Homem de Mello, Marcos Tumura, Rodrigo Mialaret, Hellen de Castro, Rodrigo Negrini, Alessandra Peixoto, Andrezza Meddeiros, Carla Vazquez, Daniel Cabral, Eduardo Martinz, Elcio Bonazzi, Jefferson Ferreira, João Sá, Mariana Barros, Mariana Gallindo, Mariana Matavelli, Marilice Cosenza, Mateus Ribeiro, Matheus Paiva, Nina Sato, Patrick Amstalden, Paulo Benevides, Raquel Quarterone e Paulo Santos.

ORQUESTRA
Assistente de Direção Musical e Regente: Beatriz De Luca
Ana Rodrigues - Piano
Bruna Barone - Bateria
Diego Calderoni - Trombone
Guilherme Macabelli - Reed (Clarinete em Bb, Clarinete Baixo e Sax Barítono)
Mauro - Reed (Clarinete em Bb e Sax Tenor)
Guilherme Terra - Piano
Ivan De Andrade - Reed (Flauta, Piccolo, Clarinete em Bb, Clarinete em Eb, Sax Alto e Ocarina)
Marcel Bonfim - Contra Baixo
Alex Rodrigues - Banjo/ Violão
Amilcar - Trompete
Paulo Malheiros - Trombone
Rodolfo Schwenger - Piano
Tiago Sormani - Reed (Flauta, Piccolo, Clarinete em Bb, Sax Soprano e Sax Alto)
Diogo - Trompete

Cenografia: Duda Arruk
Figurino: Fabio Namatame
Design de Luz: Wagner Freire
Design de Som: Tocko Michelazzo
Visagismo: Feliciano San Roman e Henique Mello
Supervisora de Sapateado: Chris Matallo
Diretora Residente: Vanessa Guillén

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Como se fosse história em quadrinhos

Sábado passado, acompanhei uma amiga no seu fazer de produtora cultural. A Drika Bourquim trabalhava em uma programação paralela à da Bienal do Livro, realizada pelo SESC, que promoveu uma série de encontros entre autores em suas unidades. A do dia 30 de agosto aconteceu no SESC Pompéia, com dois autores que eu não conhecia e tive muita sorte de conhecer: David Mairowitz e Marcello Quintanilha.

Mairowitz e Quintanilha são autores do cenário dos quadrinhos, do qual, não vou enganá-los, pouco sei, não por desgostar do segmento, apenas por não conhecê-lo. 

Marcello Quintanilha e David Mairowitz
Foto 
© Drika Bourquim
Encontros como estes são muito importantes, independente do segmento. Na minha função no Batuka! Brasil, festival no qual atuo como diretora de produção, os workshops com bate-papo entre os artistas e o público não somente sanam as dúvidas dos interessados no assunto, mas também inspiram muitos a fazerem escolhas que melhoram a sua própria relação com o fazer artístico. Isso porque, além da obra do artista, as pessoas têm acesso aos bastidores das suas criações: como nasceu a ideia, qual o tipo de técnica utilizada, a personalidade do artista impressa em sua obra.

Kafka de Crumb
Reconheço que tenho certo apreço por me aprofundar na intimidade de uma obra, o que me leva a sempre querer saber como ela nasceu, qual foi o primeiro sopro que deu vida a ela.

Talvez vocês esperassem um texto mais específico sobre os autores. Eu poderia ler o currículo deles e incluir aqui as informações adequadas. Mas vocês podem matar a curiosidade sobre quem eles são com uma simples busca no Google, que cada qual tem seu valor e vasta contribuição no meio. Esse texto não é especificamente sobre a carreira dos autores. Esse texto é sobre como Marcello Quintanilha e David Mairowitz fizeram com que eu me interessasse pelo universo dos quadrinhos. 

Tungstênio
Em duas horas, os autores responderam perguntas feitas pelo moderador André Conti, falando sobre suas carreiras e obras. Em seguida, o bate-papo foi aberto às perguntas do público presente.

Mairowitz é americano e vive entre a Alemanha e a França. Ele falou sobre a série de livros que já publicou como roteirista, entre eles Kafka de Crumb, a biografia de Franz Kafka e alguns contos, ilustrada por Robert Crumb. Foi interessante ver as características dos ilustradores com os quais o autor vem trabalhando. Fiquei bastante curiosa para conferir a adaptação de Mairowitz para os quadrinhos do livro O Coração das Trevas (Heart of Darkness/1902), do escritor Joseph Conrad, com ilustração de Catherine Anyango. Ele insistiu para que os presentes não deixassem de conferir a publicação, que deve ganhar sua versão em português em breve. Ele fez o mesmo comigo, após o evento, quando conversamos. O entusiasmo dele a respeito da obra despertou o desejo em mim de conhecê-la.

Para os cinéfilos de plantão, o filme Apocalypse Now (1989), de Francis Ford Coppola, foi inspirado no livro O Coração das Trevas

Quintanilha é quadrinista brasileiro que, apesar de viver em Barcelona há anos, e além dos trabalhos publicados no exterior, continua a criar para os brasileiros. Recentemente, lançou Tungstênio, HQ da qual ele apresentou algumas ilustrações durante o evento no SESC. Aliás, as ilustrações são das que captam o olhar, faz com que desejemos enxergar os detalhes.

O que me conquistou a respeito de Quintanilha foi o fato de ele ser completamente a favor da liberdade necessária para que o personagem, mais do que ser criado, possa acontecer. Essa intimidade com o desejo do personagem em seguir por direções diferentes das possivelmente imaginadas, faz com que eu me interesse, de cara, por conhecer a obra do autor. Também gostei de ele ter lançado uma história em quadrinhos na linguagem do cordel, na qual foi baseado o curta Disputa entre o Diabo e o Padre pela Posse do Cênte-for na Festa do Santo Mendigo, de Eduardo Duval e Francisco Tadeu, do qual assistimos um trecho, durante o evento. E eu tive de bancar a fascinada de plantão, confessando a ele que não conhecia o cenário dos quadrinhos, mas depois de escutar o que ele tinha a dizer, o faria. 

Sábado foi um dia muito especial, e eu gosto dos que me pegam de surpresa. Nada do que eu esperava aconteceu, e minha pessoa bancou o personagem libertário que escolheu aceitar o que viria. E aceitando o oferecido, acabou completamente seduzido pelo desejo de mergulhar no universo dos quadrinhos. Sendo assim, na pobreza de conhecimento atual, meu personagem se desculpa pelos possíveis erros de aplicação de certas palavras (quadrinhos, HQ, quadrinista, desenhista, ilustrador, roteirista, escritor), enquanto a minha pessoa agradece à Drika, ao David Mairowitz e ao Marcello Quintanilha, para então ir até ali, escolher o que ler... E ver.

Após evento no SESC, na 88º Festa de Nossa Senhora Achiropita

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

ELA e a solidão dele


Eu fiz hora para assistir ao Ela (Her/2013). Mesmo sendo fã do Joaquin Phoenix, ficar curiosa a respeito de um drama escrito e dirigido por Spike Jonze, e muitos amigos terem tecido comentários interessantes sobre o filme, ainda assim eu protelei.

O enredo do filme me inquietava. Eu acabara de assistir à série britânica Black Mirror, que abordava as formas que a tecnologia assumiria na vida do ser humano futuramente, com um olhar realmente obscuro. No episódio Be Right Back, a inteligência artificial é utilizada, a princípio, como forma de ajudar uma mulher a superar a morte de seu companheiro. Mas como as pessoas às vezes acabam por delegar à tecnologia o papel de progenitora de milagres, o desfecho da história raramente é positivo. Assim como no episódio de estreia da segunda temporada de Black Mirror, Ela traz para a realidade de um ser humano a humanidade imaginada, que cabe em um computador. Então, ainda digerindo os seis episódios da série, eu escolhi deixar o Ela para depois.


A ironia de vivermos em uma época em que nos conectarmos a outra pessoa parece tão fácil, quando pensamos em tecnologia, e ao mesmo tempo tão difícil, no aspecto humano, é o que torna Ela um filme que, com certa leveza, aborda a solidão em sua bruta forma.

Não é somente Theodore (Phoenix), o escritor de cartas – aliás, as cartas inflamam mesmo o desejo do espectador de ser destinatário de uma delas -, que se apaixona pela voz de Samantha (Scarlett Johansson), um sistema operacional que ele baixa em seu computador, que ele chega a sentir como se fosse o amor de sua vida. Em determinado ponto do filme, assim, meio sem querer, o espectador se pega torcendo por essa verdade inventada. É nessa capacidade de nos levar a compreender o amor de Theodore por Samantha que o roteiro de Jonze é impecável. Não à toa, o filme ganhou o prêmio de Melhor Roteiro Original do Oscar 2014, fora uma série de outros prêmios.

Tenho de dizer que Joaquin Phoenix é daqueles atores que sempre me surpreendem. Antes de Ela, esse filme sublime, eu assisti ao filme O Mestre (The Master/2012), em que ele está fantástico, em um papel completamente avesso ao de Theodore. Lembrei-me deste filme, porque Amy Adams, a Amy de Ela, também participa dele. Phoenix é desses atores que tornam seus personagens críveis, dos singelos e benevolentes aos mais cruéis.


Theodore é um personagem frágil, que amarga o fim de um casamento, e que sai da solidão profunda, passa por um período de autodescoberta, sendo guiado pelas emoções provocadas por Samantha. Ele se inquieta com os momentos em que, mesmo sem querer, tem de encarar o que ela realmente é. O relacionamento segue seu curso, como qualquer outro relacionamento, com seus altibaixos, suas delícias e tristezas, o que colabora com os momentos mais emocionantes do filme.

Por mais visual que a atual geração seja, onde a forma, para muitos, tem de ser impecável para ser admirada e a pessoa desejada, o que mais me agrada em Ela é justamente a falta de forma. O amor de Theodore é construído com a disponibilidade que ultrapassa o imediatismo do primeiro olhar, aquele que, infelizmente, costuma descartar relacionamentos possíveis. O que o personagem tem é tempo para se apaixonar, considerando outros aspectos, aqueles que fazem a convivência física e emocional se conectarem, mas neste caso, sem ironia.

Não fosse Samantha somente uma voz saindo do computador...  


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Les Revenants é suspense em poesia


A vida, a morte, e as entrelinhas que as conectam, são temas muito inquietantes e atraentes. Por serem recorrentes, destacam-se aqueles que fazem um bom trabalho ao abordá-los, o que é o caso de Les Revenants, série francesa adaptada para televisão por Fabrice Cobert, é baseada no filme homônimo de Robin Capillo, lançado em 2004.


Em uma pequena cidade do interior da França, algumas pessoas, que morreram em períodos distintos, voltam à vida. A última lembrança de cada uma delas é de antes de sua morte, ou seja, eles não sabem como ou por que morreram, por isso voltam ao momento que se lembram. Ao reencontrarem as pessoas de suas vidas, suas histórias vão se revelando.


Gostei muito da forma como o encontro entre o morto e os vivos que ele deixou para trás aconteceu. A variedade de reações não contradiz a verdade de que, por mais que se ame uma pessoa, vê-la voltar à vida, depois de anos encarando o luto, não é fácil de se encarar. Obviamente, trata-se de ficção, mas não consegui deixar de pensar em como lidaríamos com algo assim, caso nossos afetos resolvessem voltar a nossa realidade. 


Les Revenants
 estreou em 2012. Com oito episódios, a sua primeira temporada foi tão bem-sucedida, que a série ganhará remake americano, italiano e russo. Uma versão britânica também foi cogitada.

Agora, é aguardar pela segunda temporada, que ainda não tem data para estrear. Espero que não demore muito mais, que Les Revenants é das que nos deixam ansiosos pelo próximo episódio e pela próxima temporada.





quarta-feira, 4 de junho de 2014

A caça e a injustiça


O dinamarquês A caça (Jagten/2012) é um filme delicado, que incomoda porque, desde o começo, deixa claro como o ser humano pode ser injusto ao cometer o que ele acredita ser justiça. Não houve como não pensar na mulher linchada, recentemente, por ter sido confundida com uma sequestradora de crianças.

Trata-se de um filme delicado, porque há sim uma delicadeza inerente ao personagem central, Lucas (Mads Mikkelsen), uma pessoa querida por todos da pequena cidade onde vive, e que, recentemente separado, tem de lutar para passar mais tempo com o filho. É delicado porque mergulha nessa mania desrespeitosa do ser humano de julgar o outro baseado no seu desejo de estar certo, de se perceber incapaz de errar quando se trata da vida de outra pessoa, e de colocá-la em risco ao criar, ou mesmo espalhar, boatos. A prepotência, causadora de tantos danos.


Lucas trabalha em uma creche, frequentada pela filha de seu melhor amigo, Klara (Annika Wedderkopp), uma menina de cinco anos que, contrariada na sua paixão infantil, conta à diretora que ele mostrou a ela as suas partes íntimas. O fato de o espectador saber que Lucas é inocente dá um tom muito mais sombrio ao que acontece a ele a seguir.

Pedofilia é um tema que desperta o juiz nas pessoas, rapidamente. Por saber do quão difícil é o assunto, devemos tratá-lo com muito mais cuidado, deixando as medidas a serem tomadas nas mãos da polícia. Porém, é fato que a acusação, mesmo sem embasamento, afeta a credibilidade de qualquer um, vide o caso da Escola Base, em São Paulo, uma grande injustiça, que afetou pesadamente a vida das pessoas envolvidas.


O diretor Thomas Vinterberg conseguiu conduzir a história de Lucas com a sensibilidade e clareza necessárias. Não há saídas estratégicas, momentos criados para tornar a trama um tanto menos indigesta. Lucas foi julgado, antes mesmo de ser preso. Klara tenta desmentir o que disse, mas os adultos já tinham tomado partido do que consideravam verdade, preferindo fazer a menina acreditar que não mentiu. Um dos amigos que acreditam na inocência de Lucas defende o óbvio: os adultos assumem que crianças não mentem, mas vejam só, elas mentem.

A caça mostra vários pontos de vista, o que nos leva a nos colocarmos no lugar daqueles que abraçaram a mentira como uma verdade absoluta. Ainda assim, o que fica claro é que devemos tomar cuidado ao nos colocarmos no papel do caçador, porque aquela máxima continua valendo: um dia da caça, outro do caçador. Ainda assim, ambos saem prejudicados.

Foto: Loic Venance/AFP
Mads Mikkelsen ganhou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes por A caça, em 2012. Prêmio merecido. Atualmente, vem se destacando como protagonista da série Hannibal.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Seja paciente, pois Believe merece



No começo, também pensei que Believe tivesse um toque de Touch (não resisti!), série que durou duas temporadas, que eu adorava, mas Kiefer Sutherland tinha de voltar para 24 Horas. Porém, a sensação de “lembra aquela outra” acaba no fato de serem séries em que crianças extraordinárias têm pais problemáticos e mães falecidas, e fazem parte de projetos secretos que estudam suas habilidades fora do comum. Parece muito, mas não é. Aliás, o mercado, os patrocinadores e o espectador precisam ter mais paciência. Believe é uma série que precisa de tempo para contar sua história. Alguns se desapontaram com a estreia, porém eu, particularmente, fiquei super ansiosa pelo episódio seguinte. Depois de cinco episódios, continuo me sentindo da mesma forma, e cada vez mais envolvida com a série.


A diferença se faz na forma de contar a história, assim como no rumo que os personagens tomam. Para mim, Believe tem uma combinação que me apetece: Alfonso Cuarón (ganhador do Oscar por "Gravidade") é cocriador e J. J. Abrams (Fringe/Lost) produtor executivo da série. Além disso, a personagem principal é Johnny Sequoya, uma atriz talentosa, que dá credibilidade à Bo Adams, a menina de dez anos que vive fugindo, com a ajuda de um grupo de pessoas que acredita que as habilidades dela – levitação, telecinesia, capacidade de controlar a natureza e por aí vai –, combinada à bondade que lhe é natural, um dia fará do mundo um lugar melhor, enquanto outros desejam transformá-la em uma poderosa arma.


Este grupo que ajuda Bo, tendo como líder Winter (Delroy Lindo), decide libertar o prisioneiro Tate (Jack McLaughlin) da prisão. Tate está no corredor da morte, quase na hora da execução, ele escapa da prisão com a ajuda de Winter. Mas essa liberdade não vem de graça, pois Tate se torna a pessoa responsável por Bo, que ele não sabe, é sua filha.


Bo, apesar de ser do bem, de oferecer momentos de leveza à série, não é uma personagem construída à base de percepções agradáveis. É geniosa, está descobrindo até onde pode chegar com suas habilidades, e por ser uma delas a capacidade de ler as pessoas e prever o futuro delas, vive se metendo em confusão ao ajudar estranhos, deixando Tate - que detesta a sua função de protetor de Bo e não sabe que se trata de sua filha -, maluco.


A dinâmica entre Johnny Sequoya e Jack McLaughlin é muito boa, o que ajuda na construção de seus personagens. Pode haver muito de tecnologia, de política, de ciência nessa história, mas é a humanidade a grande questão, assim como a escolha de alguns em aceitar que a vida é muito mais do que a maioria de nós se permite enxergar.

A primeira temporada de Believe está sendo veiculada no canal Warner, às quartas às 20h.




quarta-feira, 9 de abril de 2014

Não tenha medo da música instrumental


Conheço pessoas que se negam a escutar música instrumental, porque não aceitam a ideia de música sem letra. Também conheço quem ainda acredita que música instrumental é somente música interpretada por orquestra, e como elas não se interessam pelo segmento, nem ousam escutar o que está por aí.

Nos dias de hoje, quando o acesso à informação é muito mais fácil, devido à internet, acredito que as pessoas optam por não saber do que se trata determinado assunto. No final dos anos 80, eu não conhecia música instrumental. Mas então isso mudou, e foi quando me dei conta de que a música era muito mais abrangente do que eu imaginava. Por sorte, ousei escutar música sem letra.

Na segunda-feira, dia 7 de abril, a baterista Vera Figueiredo apresentou o seu novo show, Brasileira, no projeto Instrumental Sesc Brasil. Não posso deixar de mencionar que trabalho com ela há vinte e um anos, e não me lembro de ter resenhado um show exclusivamente dela, apesar de ter assistido a muitos deles e com diversas formações de banda. Mas isso porque eu não queria que meu gosto soasse como currículo artístico encomendado ou feedback de amizade. Porém, quem acompanha as minhas publicações aqui no Talhe, sabe que eu escrevo somente sobre o que gosto, sobre o que me comove.

E este show foi comovente em muitos aspectos.


Comecei a conhecer música instrumental quando trabalhei no Camerati, um centro cultural de Santo André que se tornou também uma gravadora com um selo dedicado ao segmento. Foi lá que eu conheci a Vera, e o show dela foi o primeiro de música instrumental que eu assisti na vida. Isso foi no final dos anos oitenta. Em 1993, comecei a trabalhar com ela, e a partir daí, conheci muitos músicos fantásticos, pessoas que passei a admirar com o passar do tempo.

Para mim, mergulhar no universo da música instrumental apenas somou à importância que a música já tinha em minha vida.

A questão é que já escutei as músicas da Vera tantas vezes que nem dá para contar, mas sempre é possível ativar o replay, porque elas são ótimas criações. Tenho as minhas preferidas, como a Deep Inside, do disco Vera Cruz Island (2001), que, por sorte, fez parte do repertório do show do Instrumental Sesc Brasil. Vera se apresentou com Gê Côrtes, no baixo acústico, e Marcos Romera, no piano acústico. São músicos que conheço há muitos anos, que têm uma rica história de parceria musical com a baterista. Foi bom escutar À Cara Gê, que Vera compôs em homenagem à Gê Côrtes, e faz parte do disco From Brasil (1995), também uma das minhas preferidas. Foi bacana a apresentação de uma obra autoral de Marcos Romera, a Rua Vergueiro, do disco DaGaroa (2012). O repertório trouxe obras de Vera e também de Jacob do Bandolim, Victor Mendoza, Antonio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes, e do convidado da noite, o trombonista Bocato.


Com Bocato, que também conheci na época do Camerati, aprendi a gostar ainda mais de música instrumental. Outro músico que conheço há anos e admiro muito. Ele foi convidado ao palco para tocar À Cara Gê e depois Gatuno, que compôs para Vera, e ela gravou no disco Conserto Para Um Trombone Quebrado (1988).

Obras musicais podem resultar do desejo do músico de compor, assim como nascerem da inspiração pelos acontecimentos da vida desse artista. Para mim, elas também têm biografia.

Este show foi especial em muitos aspectos. O cenário ficou ainda mais suntuoso com a iluminação sob a batuta de Piu Dip. O som estava impecável, graças ao João, da Tukasom, e sua equipe, o que para o músico é motivo de alegria, já que ele não quer somente fazer a sua parte, executando bem as músicas de seu repertório. Ele também quer que o público participe dessa experiência sensorial, e para que isso aconteça, o som tem de se espalhar bonito pelo recinto. No palco, era evidente a alegria com que os músicos tocavam. É o tipo de alegria que vem do reencontro, mas também do frescor que a experiência oferece. O público reagiu vibrando a essa combinação de boa estrutura e talentosos músicos no palco.

O Instrumental Sesc Brasil é um projeto muito especial e importante. Apesar de ter sido adaptado para TV em 1990, já vinha sendo realizado no palco do SESC Paulista, desde o início da década de 80. Participar dele é sempre uma honra para o músico. A apresentação desta semana foi a quarta de Vera Figueiredo no projeto, e, em minha opinião, essa também foi a apresentação mais significativa dela no palco do Instrumental Sesc Brasil.

Vera Figueiredo é uma excelente baterista e compositora que imprime em suas obras força e sutileza. O ritmo pode ser seu guia, mas, definitivamente, é a sua percepção sobre a vida que lhe oferece as ferramentas tanto para tocar quanto para compor. A minha resenha, simples, porém sincera, sobre o show dela, vem da sincera gratidão pela oportunidade de, mais uma vez, ver a música instrumental acontecer tão lindamente em um palco. E com músicos talentosos, pessoas a quem eu quero muito bem.

Quem não assistiu ao show no Teatro Anchieta, no SESC Consolação, ou pela internet, pela transmissão ao vivo, em breve poderá fazê-lo pelo site do Instrumental Sesc Brasil, que também veiculará uma entrevista e um bate-papo com os músicos, conduzidos pela jornalista Patrícia Palumbo.

terça-feira, 25 de março de 2014

PSI estreia em ótimo tom


A mente humana continua a ser o assunto mais sedutor em qualquer cenário. De como transformamos banalidades em alvos de celebração, atestamos ser o amor autor de atos de violência, travamos batalhas que nem são nossas em nome da empatia. Criamos e destruímos.

As séries de televisão tem sido uma boa vitrine para personagens que mergulham nas questões que permeiam aqueles que são atraídos pelos mistérios da mente, pelo questionamento constante. Alguns deles se tornam anti-heróis, uns amamos e outros odiamos com o maior amor do mundo.

No último domingo, estreou mais uma série que tem a mente como fio-condutor (ou cutucadora) oficial da trama. Criada por e com roteiro do psicanalista Contardo Calligaris, PSI aborda o universo do psicólogo-psiquiatra-psicanalista Carlo Antonini, principalmente o fora do consultório.

Carlo é interpretado por Emílio de Mello, que devo dizer, foi uma escolha pra lá de acertada. Durante os dois episódios de estreia, Emílio nos entregou um Carlo crível nas suas camadas, o homem inquieto e questionador, que acaba mergulhando nos problemas de seus pacientes, obviamente, quando as questões deles o intrigam. Um personagem com sua própria bagunça interior, que não se encaixa no politicamente correto.

PSI não é cria de Sessão de Terapia. As séries são distintas, apesar de começarem/acabarem nas mesmas locações: consultório e mente. Em PSI tudo é muito mais pessoal, que seu personagem principal é um temerário, o que quase sempre resulta em situações inusitadas, constrangedoras.


Para mim, PSI pagou promessa, antes mesmo de fazê-la. É prova de que, cercando-se de ótimos profissionais, conhecedores do tema, atores e atrizes que se arriscam em seus personagens, é possível criar algo que não subjugue o espectador com superficialidades. Já que inspirar a reflexão é sempre um bom começo de relacionamento.

Agora, é esperar pelos próximos episódios. Será um prazer contemplar Emílio construindo Carlo, e certamente desejo ver Jarbas Homem de Mello, de quem eu acompanho a carreira há um bom tempo, e quem aprecio profundamente como ator, aparecer novamente na série.

De saldo positivo, até agora, posso dizer que é bom ver séries brasileiras ganhando terreno com qualidade.




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Eu gosto do Kevin



Originalmente publicado no site
Crônica do Dia, em 13/03/2013.


Quem não se lembra de Kevin Bacon em Footloose - Ritmo Louco (Footloose / 1984) é porque nasceu em tempo de assistir ao remake e não ficou a fim de assistir ao original. Aliás, eu assisti ao remake, porque gosto de conferir as variações sobre o tema, e posso dizer, com toda certeza, que nada como Kevin Bacon em Footloose. Nada como a canção tema do filme, cria de Kenny Loggins, interpretada por ele. Nada como aquele riff de guitarra que nos faz sair pulando. Nada como Footloose nos anos 80.


Certas obras não precisam de remake, de releitura, de versão contemporânea, de retoque.

Além de ator, Kevin também é músico. Há anos tem uma banda com seu irmão, Michael, a The Bacon Brothers, que é muito bacana. Michael Bacon também é compositor de trilhas para cinema e televisão.

Tudo bem que Kevin me ganhou em Footloose. Eu tinha quatorze anos, dancei aquela música na sala de casa mil e tantas vezes. Fiquei tentando reproduzir na voz o tal riff de guitarra, achando que estava conseguindo, o que era uma eficiente auto-enganação. Assisti ao filme nem sei quantas vezes.


O primeiro filme com Kevin que assisti, e que me fez acreditar que gostava dele como ator e não apenas por conta do impacto de Footloose, foi Linha Mortal (Flatliners / 1990). Aliás, este é um daqueles filmes que, sempre que passa na tevê, eu assisto. A partir daí, segui assistindo Kevin, e entre os meus filmes preferidos há vários que ele estrela, e em muitos deles, ele é o vilão da história. O Rio Selvagem (The River Wild / 1994), Sleepers - A Vingança Adormecida (Sleepers / 1996), Ecos do Além (Stir of Echoes / 1999), Encurralada (Trapped / 2002), Sobre Meninos e Lobos (Mystic River / 2003) e por aí vai.


Em O Lenhador (The Woodsman / 2004), Kevin se mostrou extremamente eficiente ao contar a história de um homem que, após doze anos na prisão por molestar garotas menores de idade, luta para se manter na linha. Não é uma história palatável, porque a reação do espectador a um pedófilo é, de cara, que ele se dane no mínimo na mesma proporção do crime que cometeu. Só que, em determinado momento do filme, o espectador se pega torcendo para que esse homem consiga o que deseja. Esse tipo de virada só é possível quando o ator consegue, apesar do peso da história do personagem, comover o espectador. E Kevin Bacon conseguiu nesse filme.


Estreou em 2013 a série The Following, primeiro projeto para televisão do qual Kevin Bacon participa. Na trama, ele interpreta Ryan Hardy, um ex-agente do FBI responsável pela prisão do serial killer Joe Carroll, interpretado pelo inglês James Purefoy, de quem também sou fã confessa.

O ator escolheu este projeto porque o personagem que interpreta é um mocinho cheio de problemas, que vai de um coração danificado ao alcoolismo. E o coração danificado foi um presentinho do serial killer ao agente quando este ainda estava no FBI, na época da captura Carroll, anos antes.


Quando Carroll foge da prisão, Hardy é chamado como consultor para ajudar a capturá-lo. Porém, o que parece uma caça ao criminoso, mostra-se um jogo criado pelo brilhante professor de literatura, um sedutor de primeira, que coloca Hardy como peça central de um grande projeto, que conta com os “seguidores” de Carroll, pessoas que matam e morrem por ele, uma seita de serial killers. E tudo muito bem embasado pela literatura de Edgard Allan Poe, especialidade de Carroll.

Kevin Bacon e James Purefoy estão muito bem como antagonistas e oferecem momentos dignos de Oscar, quer dizer, Emmy.


The Following inquieta por ter uma história plausível, apesar dos acontecimentos absurdos. Basta alguém inteligente e total do mal para dar a largada. E um anti-herói para correr atrás.

A estreia de Kevin Bacon na televisão, esse veterano do cinema, não poderia ser melhor. Um ótimo personagem para um ator como ele dar vida.

Kevin Bacon

The Bacon Brothers

The Following
2ª temporada
Warner, às sextas - 22h25

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Ser mãe é um acontecimento

© Cíntia Duarte
Grávida aos dezoito, ela se perguntou como daria a notícia à mãe. Grávida trinta e um, como daria a notícia ao marido? Tendo como mote a gravidez em períodos distintos, duas Marias experimentam um momento catártico, quando lidam com a gravidez inesperada. E no qual a menina consegue lidar de forma muito positiva com a gravidez na adolescência, e a mulher transforma seus medos em ferramentas para se tornar a mãe que seus filhos merecem.

Mãe de Dois é comédia, espetáculo inspirado no livro homônimo da jornalista Maria Dolores, que nasceu do blog que ela iniciou quando ficou grávida do segundo filho, onde registrava situações cotidianas. Maria estava presente na estreia de Mãe de Dois, o que foi muito comovente. Ela também divide a direção de produção com Felipe Duarte. Confesso que fiquei com vontade de perguntar a ela como é ver uma obra de sua autoria – obra de blog, de livro e de filhos! – inspirar a criação de espetáculo tão especial.

No palco, Maria se torna duas, a adolescente e a adulta, e elas dividem não apenas o cenário, mas também muitos questionamentos, levando-nos a refletir sobre os diversos papéis que a mulher moderna vem desempenhando na atualidade, quando é preciso equilibrar a vida profissional com a maternidade. 

Rebeca Reis interpreta a Maria adolescente, que tem de aprender a lidar com as questões que a gravidez lhe traz, como criar um filho e fazer faculdade. Não que isso interfira na sua personalidade. Ela continua com seus desejos e sonhos de adolescente, e quando o bebê nasce, apaixona-se por ele.

Flávia Monteiro interpreta a Maria adulta, às voltas com a segunda gravidez. Mais experiente como mãe e profissional, ela aproveita de forma mais abrangente a jornada de estar grávida. Obviamente, essa abrangência toda traz os conflitos à tona. E são justamente os conflitos de ambas as Marias que dão a leveza da comédia ao espetáculo.

Flávia Monteiro e Rebeca Reis estavam em sintonia. Não fosse isso, o espetáculo não teria o ritmo necessário para que as Marias abordassem situações idênticas, mas com pontos de vista diferentes, por conta do tempo, e que isso fosse impactante, num tom bem-humorado.

Para mim, foi muito bacana ver a Flávia Monteiro no palco, atriz que só conhecia da televisão, que sempre achei muito talentosa. Ela está ótima em Mãe de Dois. Rebeca Reis me fez esquecer que ela é tão jovem, ainda que interpretando uma adolescente. Não foi a primeira vez que a vi no palco, mas foi quando percebi que ela é das atrizes capazes de encarar, e graciosamente, qualquer personagem.

Quando eu soube do espetáculo, do que se tratava, decidi não ler o livro ou o blog, antes de conferir o Mãe de Dois. Mas isso eu vou resolver daqui a pouco.

Mãe de Dois é um ótimo agrado ao espectador. E nem pense que é espetáculo somente para mães ou mulheres, pois nisso eu prestei atenção: os homens que estavam presentes se divertiram muito. Gargalharam até. Sendo assim, espero que todos compareçam ao espetáculo e se permitam rir e emocionar com essa história sobre ser mulher se transformando em mãe justo quando está começando a descobrir o mundo. E ser mãe e profissional, ocupada com tantos afazeres, tendo descoberto muito sobre o mundo, mas ainda com muitas perguntas sem respostas. 



MÃE DE DOIS

Até 6 de abril
Sexta – 22h45
Sábado – 20h
Domingo – 20h

LOCAL
Teatro Gazeta
Av. Paulista, 900 – São Paulo | SP

INGRESSOS
Clique aqui para comprar


FICHA TÉCNICA

TEXTO
Martha Mendonça e Nelito Fernandes
Inspirado no livro MÃE DE DOIS, de Maria Dolores

ELENCO
Flávia Monteiro
Rebeca Reis

DIREÇÃO
Luiz Antônio Pilar

FIGURINO
Helena Affonso

ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO E PREPARAÇÃO DE ELENCO
Marco Bravo

TRILHA SONORA
Felipe Duarte e Bruno Morais

PARTICIPAÇÃO NA TRILHA SONORA
Deyvid Castro e Alessandro Brito

DESENHO DE LUZ
Toninho Rodrigues

PREPARAÇÃO CORPORAL
Paula Sousa

DESIGN GRÁFICO
Milton Lima

CENOGRAFIA
Carolina de Freitas

FOTOGRAFIA
Cíntia Duarte

EXECUÇÃO DE CENÁRIO
Cíntia Duarte

OPERADOR DE SOM
Matheus Silva Chaves

TÉCNICO DE PALCO 
Rui Silva

PRODUÇÃO
Zita Terra e Betina Duarte

PRODUÇÃO EXECUTIVA
Mariana Mariano e Paula Terra

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO
Felipe Duarte e Maria Dolores



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Quando dizer adeus é um engasgo


A primeira vez que o assisti foi em Perfume de Mulher (Scent of a Woman/1992). A impressão que tive sobre ele foi que aquele era um ator que não era jovem ou velho. Havia nele um ar irônico, mesmo quando, no papel do estudante rico culpado, jogando a culpa em um estudante pobre inocente, quando passava pela vergonha de engolir o seu erro, ele parecia dizer mais do que o diálogo permitia.

Perfume de Mulher
Philip Seymour Hoffman, para mim, nunca foi jovem, nunca foi velho. Era um ator tão peculiar, com tantas camadas, que só conseguia pensá-lo capaz de ser quem ele quisesse. E eu sempre acreditaria nele. Não era jovem ou velho, não tinha idade quando se vestia de personagem. E sempre sorria um sorriso embebido em mistério.

Magnólia
Portanto, aceitar sua idade nesse formato, sabe? Formato R.I.P, é triste, provoca a questão: o que fazer com o espaço que ele deixou?

O Talentoso Ripley
Ele fez uma série de filmes memoráveis, entre eles Magnólia (1999), O Talentoso Ripley (The Talented Mr. Ripley/1999),  Quase Famosos (Almost Famous/2000), Dúvida (Doubt/2008), e um dos catárticos, pelo qual levou o Oscar de Melhor Ator, Capote (2005). Quem assistiu a esse filme, deliciou-se com a capacidade de Hoffman fazer mágica no cinema.

Capote

Só que, para mim, o filme dele mais significativo é Ninguém é Perfeito (Flawless/1999). Em meio a diversos trabalhos brilhantes, esse me chega assim, genial. Em Capote ele se tornou o homem em questão, trejeitos e etc e tal. Em Flawless, ele se tornou a Drag Queen Rusty, infernizada pelo ex-policial Walter Joontz, interpretado por outro ator fantástico, Robert De Niro. 

Ninguém é perfeito
Walter é um homem superconservador, que vive brigando com Rusty e seus amigos. Durante um evento, em que tenta ajudar um dos vizinhos, ele sofre um derrame. Seu lado direito fica paralisado, o que resulta, depois de muita fisioterapia, em ele ter de usar bengala. Ele também fica com dificuldade na fala, e para ajudá-lo nessa questão, seu fisioterapeuta indica aulas de canto. É quando Walter deixa de lado todo desprezo que sente por Rusty e lhe pede ajuda. A partir daí, assistir Huffman e De Niro se torna uma viagem muito especial.

Dúvida
Philip Seymour Hoffman vai sim fazer falta, e muita. Em um meio no qual a juventude e a beleza perfeita anda se esbaldando, atores e atrizes como ele, que se sobrepõem aos rótulos e campanhas de marketing com seu talento, deixam sempre esse vazio, esse espaço ao qual pertencerão as lembranças de ótimos personagens que nos levaram a fantásticos passeios.

Quase Famosos
Ele não era jovem, não era velho. Tinha esse rosto expressivo, o sorriso que sempre me pareceu dolente, a feição do sábio e daquele sabe da importância da gentileza O vício pode ter levado sua vida, mas não seu legado.  Philip Seymour Hoffman foi e sempre será um dos mais talentosos atores da sua geração.



quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

As superadas se superam




Espaço e respeito é conquista diária para todos, mas além dessa batalha cotidiana, a mulher ainda exibe – ora com graça e ora descendo dos saltos – a sua capacidade indelével de lidar com várias coisas ao mesmo tempo. Na hora de se virar para resolver todas as tarefas, e atender a todos que lhe exigem presença, ela quase sempre tira de letra.

Fato é que a mulher também – ou principalmente - é multitarefa quando se trata das emoções. Sendo assim, além das batalhas cotidianas, ela equilibra todos os assuntos do coração, enquanto lida com os altibaixos da sua própria percepção sobre eles. É justamente sobre alguns desses altibaixos que o espetáculo Superadas se debruça, mas com graça, que em muitos momentos a melhor saída é rir.

Catarina Abdala
Dirigido por Eduardo Figueiredo, o mesmo de Mulheres Alteradas, Superadas está em cartaz no Teatro Gazeta, em São Paulo. Baseado no segundo livro da cartunista argentina Maitena, Superadas conta com a adaptação para o teatro do também cartunista Miguel Paiva.

Mel Lisboa
Margarida (Catarina Abdala) declara independência e se separa do marido e do seu personal trainer. Para ela, a grande festa que planeja oferecer é para celebrar sua independência, assim como a alta da terapia e seus seios novos. Marta (Flávia Guedes) e Marisa (Mel Lisboa) são suas melhores amigas. Por meio dessas três amigas, o espetáculo mostra como essas mulheres lidam com os diversos papeis que desempenham, do profissional ao de mãe e esposa, sem abrir mão de uma boa sessão com a cartomante, digladiar-se com a empregada tirana (ambas interpretadas por Flávia Guedes) ou de se atrapalhar com as peculiaridades – e cabos – da tecnologia. Mel Lisboa também interpreta a filha de Margarida, Patrícia, assim como a moça da plateia. Todos os papeis masculinos cabem a Raphael Viana, entre eles o de ex-marido de Margarida, pai de Patrícia, o personal trainer e o rapaz da plateia.

Flávia Guedes
Superadas oferece um toque de leveza aos assuntos complicados que fazem parte da transformação pela qual o universo feminino vem passando, espiando da necessidade de conexão – humana e tecnológica - ao vislumbre sobre o que o futuro lhes reserva. No espetáculo, tudo isso acontece e "desacontece", de acordo com o desejo – e o humor – de suas protagonistas.

Raphael Viana
Não posso deixar de dizer que a presença de Catarina Abdala é inebriante. Como espectadora, identifiquei-me com as armadilhas e me deliciei com as saídas que sua personagem encontra para lidar com a separação e a descoberta de que, como dedicadas a melhorar a capacidade de ser multitarefa emocional, as mulheres podem escolher entre sentar e chorar ou perder o fôlego de tanto gargalhar.

Por em vez de serem superadas, superarem.


SUPERADAS

Até 9 de março de 2014

Teatro Gazeta
Av. Paulista, 900
Bela Vista, São Paulo / SP
Informações: 11. 3884 9977

HORÁRIO
Sexta 21h | Sábado 22h | Domingo 18h

CLASSIFICAÇÃO
Não recomendado para menores de 12 anos.

INGRESSOS
Clique aqui.

Autora: Maitena
Dramaturgia: Miguel Paiva

ELENCO
Catarina Abdala, Mel Lisboa, Flávia Guedes e Raphael Viana

Direção: Eduardo Figueiredo
Direção Musical e Trilha Original: Dani Black
Músicos/Estúdio: Maicon Ananias e Felipe Roseno
Figurinos: Theodoro Cochrane
Assistente de Figurinos: Tatiana Cavalin
Cenário: Maira Knox
Desenho de Luz: Fernando Azambuja e Otavio Dias
Preparação de Elenco: Dani Biancardi
Coreografias: Janaina Marlene
Programação Visual: Mariana Resnik
Fotos: Guga Melgar
Assistente de Direção: Diogo Villa Maior
Estágio de Direção: Frederico Giesen
Gerente de Produção: Bia Izar
Produção Executiva: Aline Pereira
Assistência de Produção: Gisa Guttervil
Assistência de Produção RJ: Tarso Souza
Secretária: Renata Vieira
Administrador: Thais Somaio
Direção de Produção: Maurício Machado
Realização e Produção: Manhas Manias de Evento

FACEBOOK