segunda-feira, 30 de junho de 2014

Les Revenants é suspense em poesia


A vida, a morte, e as entrelinhas que as conectam, são temas muito inquietantes e atraentes. Por serem recorrentes, destacam-se aqueles que fazem um bom trabalho ao abordá-los, o que é o caso de Les Revenants, série francesa adaptada para televisão por Fabrice Cobert, é baseada no filme homônimo de Robin Capillo, lançado em 2004.


Em uma pequena cidade do interior da França, algumas pessoas, que morreram em períodos distintos, voltam à vida. A última lembrança de cada uma delas é de antes de sua morte, ou seja, eles não sabem como ou por que morreram, por isso voltam ao momento que se lembram. Ao reencontrarem as pessoas de suas vidas, suas histórias vão se revelando.


Gostei muito da forma como o encontro entre o morto e os vivos que ele deixou para trás aconteceu. A variedade de reações não contradiz a verdade de que, por mais que se ame uma pessoa, vê-la voltar à vida, depois de anos encarando o luto, não é fácil de se encarar. Obviamente, trata-se de ficção, mas não consegui deixar de pensar em como lidaríamos com algo assim, caso nossos afetos resolvessem voltar a nossa realidade. 


Les Revenants
 estreou em 2012. Com oito episódios, a sua primeira temporada foi tão bem-sucedida, que a série ganhará remake americano, italiano e russo. Uma versão britânica também foi cogitada.

Agora, é aguardar pela segunda temporada, que ainda não tem data para estrear. Espero que não demore muito mais, que Les Revenants é das que nos deixam ansiosos pelo próximo episódio e pela próxima temporada.





quarta-feira, 4 de junho de 2014

A caça e a injustiça


O dinamarquês A caça (Jagten/2012) é um filme delicado, que incomoda porque, desde o começo, deixa claro como o ser humano pode ser injusto ao cometer o que ele acredita ser justiça. Não houve como não pensar na mulher linchada, recentemente, por ter sido confundida com uma sequestradora de crianças.

Trata-se de um filme delicado, porque há sim uma delicadeza inerente ao personagem central, Lucas (Mads Mikkelsen), uma pessoa querida por todos da pequena cidade onde vive, e que, recentemente separado, tem de lutar para passar mais tempo com o filho. É delicado porque mergulha nessa mania desrespeitosa do ser humano de julgar o outro baseado no seu desejo de estar certo, de se perceber incapaz de errar quando se trata da vida de outra pessoa, e de colocá-la em risco ao criar, ou mesmo espalhar, boatos. A prepotência, causadora de tantos danos.


Lucas trabalha em uma creche, frequentada pela filha de seu melhor amigo, Klara (Annika Wedderkopp), uma menina de cinco anos que, contrariada na sua paixão infantil, conta à diretora que ele mostrou a ela as suas partes íntimas. O fato de o espectador saber que Lucas é inocente dá um tom muito mais sombrio ao que acontece a ele a seguir.

Pedofilia é um tema que desperta o juiz nas pessoas, rapidamente. Por saber do quão difícil é o assunto, devemos tratá-lo com muito mais cuidado, deixando as medidas a serem tomadas nas mãos da polícia. Porém, é fato que a acusação, mesmo sem embasamento, afeta a credibilidade de qualquer um, vide o caso da Escola Base, em São Paulo, uma grande injustiça, que afetou pesadamente a vida das pessoas envolvidas.


O diretor Thomas Vinterberg conseguiu conduzir a história de Lucas com a sensibilidade e clareza necessárias. Não há saídas estratégicas, momentos criados para tornar a trama um tanto menos indigesta. Lucas foi julgado, antes mesmo de ser preso. Klara tenta desmentir o que disse, mas os adultos já tinham tomado partido do que consideravam verdade, preferindo fazer a menina acreditar que não mentiu. Um dos amigos que acreditam na inocência de Lucas defende o óbvio: os adultos assumem que crianças não mentem, mas vejam só, elas mentem.

A caça mostra vários pontos de vista, o que nos leva a nos colocarmos no lugar daqueles que abraçaram a mentira como uma verdade absoluta. Ainda assim, o que fica claro é que devemos tomar cuidado ao nos colocarmos no papel do caçador, porque aquela máxima continua valendo: um dia da caça, outro do caçador. Ainda assim, ambos saem prejudicados.

Foto: Loic Venance/AFP
Mads Mikkelsen ganhou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes por A caça, em 2012. Prêmio merecido. Atualmente, vem se destacando como protagonista da série Hannibal.