quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um universo chamado Barfly


Meu início com Charles Bukowski foi um tanto conturbado. Não me afeiçoei a ele - a sua obra - ao ler Cartas na Rua, livro que ganhei de um namorado que era apaixonado pelo escritor.  Passaram-se anos desde a primeira leitura até eu chegar a próxima. Quando aconteceu, quando li alguns poemas de Bukowski, dei-me conta de que seria afeto para a vida.

Então, eu soube desse filme com roteiro de Charles Bukowski, baseado em sua vida. O roteiro foi encomendado ai escritor pelo diretor de Barfly, Barbet Schroeder.

Assisti Barfly pela primeira vez há tantos anos que nem faço ideia de quando poderia ter sido. Posso garantir que também perdi as contas de quantas vezes eu o assisti, depois da primeira. Certamente, muitos acreditaram que se tratava de mais um da leva de 9 ½  Semanas de amor (Nine ½ Weeks/1986 | Adrian Lyne), filme que tornou Mickey Rourke conhecido como o sedutor nos moldes do personagem que interpretava.

Talvez nem todos estivessem preparados para a crueza de Barfly, para a forma contundente com que Rourke fez o seu papel, interpretando um personagem baseado em uma pessoa tão complexa quanto.


Eu já apreciava o trabalho de Mickey Rourke por conta dos filmes O Selvagem da Motocicleta (Rumble Fish/1983 | Francis Ford Coppola) e Coração Satânico (Angel Heart/1987 | Alan Parker), este lançado no mesmo ano de Barfly. Ao assisti-lo interpretar Henry Chinaski, passei do apreciar para o deslumbramento. O que Rourke fez em Barfly foi levar para a tela o personagem de vários livros de Bukowski, se não, muito do próprio autor.


Henry Chinaski é um personagem rico e completamente danificado. Ainda assim, sedutor, mas nãos nos moldes de John, o pseudo-galã do filme de Adrian Lyne. Sedutor por conta de sua complexidade e deboche, da forma como leva sua vida, praticamente morando em um bar, o amor psicodélico e ébrio que sente por Wanda Willcox (Faye Dunaway), assim como forma como lida com o próprio talento de poeta.


Adoro Dunaway como Wanda...


BARFLY | TRAILER

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Bem-vindos à selva da música clássica




Eu não sou conhecedora do universo da música clássica. Nunca conversei com um maestro como já conversei com muitos artistas, querendo saber como, quando... Por quê?

A questão é que eu adoro música. Em todas as áreas da minha vida ela está presente. Sendo assim, acabo lendo livros a respeito, assistindo a filmes nos quais ela também é personagem, e até séries de tevê, como o caso de Nashville, que relutei em conferir, mas ainda bem que o fiz, porque é uma ótima série sobre o cenário da música country.

Em dezembro de 2014, estreou mais uma série com músicos como tema. Ou seria a música? Na verdade, isso não importa, porque em terreno da arte os artistas se misturam às suas obras.

Baseada no livro homônimo da oboísta Blair Tindall, Mozart in the Jungle aborda os bastidores das orquestras e principalmente da vida dos seus maestros. O humor faz parte do tom da trama, mas isso não incute a ela qualquer leveza. O humor, quase sempre é ácido, é ferramenta poderosa para manter o espectador ansioso pelo próximo episódio.

A série também trata do conflito entre gerações, tema recorrente nessa vida da gente, em qualquer área. Um maestro de longa carreira, e reconhecidamente dos mais talentosos, entrega a batuta a um maestro mais jovem, completamente a contragosto. O choque entre a visão musical do mais tradicional com o mais apaixonado rende ótimas cenas entre dois grandes atores: Malcolm McDowell (Thomas) e Gael García Bernal (Rodrigo). Além disso, o efeito dessa mudança no comportamento e na execução musical dos integrantes da orquestra é muito interessante.


Particularmente, entusiasmei-me a assistir Mozart in the Jungle não somente pelo tema, mas também porque aprecio profundamente os atores envolvidos no projeto. McDowell tem participado de várias séries, entre elas The Mentalist e Frank & Bash, além de ser presença constante – e marcante - no cinema. E devo confessar que não consigo deixar de achá-lo fantástico em Laranja Mecânica (A Clockwork Orange/1970). Bernal é ótimo ator, que conheci por meio do filme O Crime do Padre Amaro (El crimen del padre Amaro/2002). Depois disso, venho acompanhando a carreira dele. Gabriel García Bernal permite que seu maestro Rodrigo seja extremamente sedutor, porque para ele a música vem primeiro, e ele a reconhece em todos os lugares.

O que eu não imaginava era que juntos eles seriam espetaculares.


Mozart in the Jungle é uma daquelas séries que nos levam a rir das mazelas humanas. Das grandes festas para arrecadação de fundos, passando pela disparidade de personalidade entre os maestros, suas guerras particulares e admiração inconfessável, a paixão pela música e a rotina da burocracia que envolve manter uma orquestra, as distrações que afastam do que realmente importa, ou seja, a música, chegando ao slogan da própria série: sexo, drogas e música clássica.

Mozart in the Jungle é uma série original do Amazon, com dez capítulos na primeira temporada. Clique aqui para mais informações.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Luz acesa ou apagada?




As séries mais realistas – principalmente sobre serial killers e psicopatas em geral - são as que mais me assustam. Apesar de serem ficção, essas séries apontam para os monstros que existem por aí, disfarçados de cidadãos exemplares, figuras de bondade incontestável. Em alguns casos, a ficção alardeia a possível realidade.

Pessoalmente, eu morro de medo de livros, filmes e séries sobrenaturais. Mas nem pensem que o gênero me desagrada. Porém, não aprecio o sobrenatural abordado no escancaro do humor rasgado ou do provocar o medo por meio de cenas clichês, mas que sempre dão certo. Para me botar medo, é preciso que a história seja muito bem contada, com interpretação das boas, e havendo clichês (quase impossível evitá-los!), que eles sejam apresentados de uma forma bem convincente.

Hoje eu falo sobre a minha percepção a respeito de duas séries com elementos sobrenaturais, diretamente ligadas à literatura, que me apetecem e me botam medo também.

PENNY DREADFUL


Criada por John Logan - roteirista de filmes como Gladiador (Gladiator/2000), O Aviador (The Aviator/2004) e A Invenção de Hugo Cabret (Hugo/2012), Penny Dreadful é das minhas séries pra lá de preferidas.

Tendo como cenário a Londres da era Vitoriana, a série conta com uma trama inédita para a história de personagens conhecidos da literatura, entre eles Dr. Victor Frankenstein (Harry Treadaway), extraído da obra de Mary Shelley, e Dorian Gray (Reeve Carney), de Oscar Wilde.

Sir Malcom Murray (Timothy Dalton) é um explorador que passou muito tempo na África. De volta à Londres, ele tenta localizar a sua filha, Mina (Olivia Llewellyn), sequestrada por seres sobrenaturais, que remetem à obra de Bram Stoker, Drácula. Ele conta com a ajuda de Vanessa Ives (Eva Green), quem acolhe, após o desaparecimento de Mina. Elas eram amigas inseparáveis, que cresceram juntas, até o dia em que Vanessa, motivada pela inveja, seduz o noivo de Mina, que testemunha a traição. A culpa que Vanessa sente é tanta, que ela acaba sendo internada em um hospício.

A conexão de Vanessa com o sobrenatural serve como fio-condutor da trama. Eva Green desempenha tão bem o seu papel, que as cenas em que Vanessa está sofrendo algum tipo de intervenção sobrenatural, e independe dos efeitos especiais, são de tirar o fôlego.

Também participam da busca por Mina o criado africano de Sir Malcom, Sembene (Danny Sapani), e o americano Ethan Chandler (Josh Hartnett), que viaja pela Europa e se apresenta como o gatilho mais rápido do Oeste.

Logan não se intimida em mergulhar na obscuridade do diabólico tentando arrebanhar a todos, o que resulta em um roteiro que explora cada personagem de forma sedutora e amedrontadora.

Por mais temor que a série provoque, não há como tirar os olhos da cena. O primeiro episódio da segunda temporada de Penny Dreadful estreou na semana passada. Para mim, um dos mais interessantes da série, que mostra que, na nova temporada, Vanessa vai ultrapassar de vez os muros que separam este mundo daquele outro, o dito sobrenatural.

Status: luzes acesas quase sempre, meus caros.



HAVEN



Lembro-me bem de quando uma amiga me emprestou o livro Saco de Ossos, de Stephen King. Acostumada a ler antes de dormir, eu era obrigada a me levantar às seis da manhã, durante um bom período, para ler o livro antes de ir para o trabalho, já que, ao lê-lo à noite, nem a luz acesa me permitia dormir.

Em 2011, Saco de Ossos foi lançado nos estados Unidos como minissérie.

Algumas obras de King também foram adaptadas para o cinema e fizeram muito sucesso. Entre eles: Carrie, A Estranha (Carrie/1977), O Iluminado (The Shinning/1980), À Espera de um Milagre (The Green Mile/2000) e O Apanhador de Sonhos (Dreamcatcher/2002).

Recentemente, comecei a assistir a série Haven, mais projeto baseado na obra de Stephen King.

Baseada no livro The Colorado Kid, e adaptada por Jim Dunn e Sam Ernsta, a série aborda a história de Audrey Parker (Emily Rose), uma agente do FBI que tem a habilidade de desvendar crimes ao observar os casos de uma perspectiva diferente. Ela é enviada para Haven, para prender um fugitivo. Lá, Parker descobre que a cidade está repleta de pessoas sofrem com aflições sobrenaturais, conhecidas como os problemas. Ela também descobre que é imune a essa maldição e que a sua identidade foi forjada, assim como sua memória reescrita. Ao ver uma foto de uma mulher idêntica a ela, em uma antiga matéria de jornal local sobre o assassinato do garoto de colorado, Parker decide ficar na cidade e investigar aquela mulher, que julga ser a sua mãe. Acontece que aquela mulher é mesmo Parker, com a mesma idade de hoje, há vinte sete anos, chamada Lucy.

Trabalhando com a polícia local, Parker conhece dois homens que a acompanham na jornada em busca da sua identidade, assim como a ajudar aqueles que sofrem com os problemas. Nathan Wuornos (Lucas Bryant) é filho do chefe de polícia, onde também trabalha. O problema de Wuornos é não sentir nada, fisicamente. Duke Crocker (Eric Balfour) é um sedutor trapaceiro, e também o menino que aparece na foto do jornal, segurando a mão de Lucy.

Em Haven, os casos policiais têm a ver com os problemas, com crimes cometidos, às vezes, sem mesmo a pessoa saber que o seu foi ativado. Enquanto desvenda crimes e ajuda aos problemáticos, Parker também vai desenrolando a sua própria história. Ela, Wuornos e Crocke se tornam especialistas em ajudar as pessoas acometidas pelos problemas.

Não tão densa quanto Penny Dreadful, permitindo até um toque de humor à base de ironia, Haven aborda os problemas de forma muito interessante. Entre eles, estão o da mulher capaz de mudar as condições climáticas, de acordo com o seu humor; a moça que desenha uma paisagem, depois o desenho não pode ser rasgado, senão o que está nele é destruído, assim como homem que é um imã para balas de tiros disparados perto dele. Bom mesmo é o roteiro, que ainda que o problema em questão seja completamente absurdo, é tão bem escrito que o espectador embarca na trama.

Haven conta com quatro temporadas exibidas, cada uma com treze episódios. A quinta temporada foi anunciada com vinte e seis episódios, sendo que treze deles já foram exibidos. Os outros treze devem ser veiculados ainda em 2015. Obviamente, poderiam ter anunciado a quinta e a sexta temporada, mas uma questão financeira fez com que o canal SyFy fizesse esse pacote.

Status: luzes acesas de vez em quando, meus caros.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

O mundo sem ela

O maestro — tomado pelo frenesi que lhe é peculiar — leva a orquestra para as ruas, para um ensaio. Alguns músicos e os dirigentes da orquestra ficam furiosos. Onde já se viu sair de uma sala de acústica perfeita para ensaiar em um estacionamento, ou espaço afim, no meio da cidade e seus barulhos, as buzinas, o falatório, os passos das pessoas rumo ao trabalho? Expostos à curiosidade dos comuns?

Mozart in The Jungle
O produtor sofre com a demanda musical de sua gravadora. A música que antes lhe fascinava, e os artistas com os quais tinha prazer em trabalhar, resumem-se agora a pessoas que caibam em um modelo de sucesso. Ele sabe que retorno comercial é necessário, afinal, todos têm de ganhar a vida. Mas por que não um retorno comercial com boa música? Ele encontra essa compositora e decide que irá produzir o disco dela. Sem a parceria com a gravadora — da qual foi convidado a se retirar pelo seu sócio —, ele vai para as ruas. Grava todas as faixas do disco nas ruas, aproveitando os barulhos da cidade e de seus personagens.

Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again)
Ela queria ser a primeira pianista clássica negra da História. O talento estava lá, a dedicação, idem. Porém, na sua época o preconceito racial não era assim, possível de ser comentado. Não vamos nos enganar, que ele ainda existe e tem força, ainda é bem complicado comentar a respeito, apesar de termos mais liberdade nesse quesito, o que é bem triste ao nos voltarmos ao que muitas pessoas arriscaram e continuam a arriscar — sim, falo da vida delas — para melhorar esse cenário. Ela não se tornou a primeira pianista clássica da História, mas certamente uma das artistas mais importantes dela. Mas a vida pode tirar a pessoa do prumo, não? Mesmo com boas intenções, com a batalha certa a ser encarada, a intimidade com seus demônios traçou outro plano, enquanto o público se encantava com sua música.

Nina Simone
Toda vez que reflito sobre a importância da arte — e eu o faço com frequência, já que, com a mesma frequência encontro quem afirme que é somente entretenimento, então vamos mantê-la consumível, ainda que descartável —, imagino o mundo sem ela. Você consegue?

Vamos nos ater à música, que é o assunto em pauta. Você consegue imaginar um mundo como um longo filme sem trilha sonora? Sem canções de ninar? Sem canções religiosas? Ah, mas sem essas também... Nada de Eleanor Rigby, Insensatez, Stairway to Heaven ou Roda Viva. Sem os musicais, claro. Sem serenata, roda de violão, festivais.

Conheço muitos artistas que dizem que não vieram ao mundo para influenciar a opinião de ninguém, que fazem arte por vários motivos, menos com a intenção de mudar o mundo. Talvez por isso o façam tão graciosamente. Obviamente, seria ótimo se esses artistas, os que têm algo a dizer, tivessem mais espaço na realidade das pessoas; que fosse possível que suas obras chegassem ao grande público com a facilidade — apesar da dificuldade — com a qual um maestro leva músicos e instrumentos para as ruas, e um produtor musical grava canções pela cidade.

Você pode até dizer que estou delirando, afinal, o maestro e o produtor são personagens de série de televisão e cinema. Mas e a pianista? Ela não é personagem. Apesar de ter se tornado uma pessoa difícil de lidar e que, às vezes, tinha ideias radicais, ideias que avançavam enquanto ela lidava com transtorno mental, antes mesmo de doenças como a que tinha fossem diagnosticadas normalmente. Era bipolar, daí veio muito do seu comportamento errático. Arriscou uma carreira de sucesso para cantar sobre direitos civis, falando sobre o orgulho de ser negra em um momento em que sê-lo era muito mais difícil e complicado do que é hoje em dia. Imagine sê-lo com orgulho.

Arte também requer coragem de se expor como a maioria de nós jamais se exporia

Não há como passarmos pela vida sem que a arte nos toque de alguma forma. Quem sabe se, ao ampliarmos o seu alcance, possamos usufruir todos os seus matizes. E trazê-la para a rua como experimentação. Trazê-la sem mutilá-la para que caiba em projetos formatados. Trazê-la na grandiosidade que lhe cabe. Trazê-la para falar sobre tudo, sem censura, mas definitivamente celebrando a liberdade e o respeito pela criação e opinião do outro.

Para que, muito além do prazer que a arte pode nos oferecer, não nos tornemos um mundo mudo e incapaz de enxergar além.