Enquanto Betty não vem...

Foi em uma prateleirinha dessas ditas de Arte que conheci muitos dos filmes que tenho como ‘de cabeceira’ e que, acredito completamente, poderiam desfilar em qualquer das prateleiras sem fazer feio. Uma pena que um rótulo mistifique essas obras que, ao contrário do que pregam desinformados atendentes de locadoras, podem apresentar ao cinéfilo em construção um universo de linguagem plural, ao invés de contadores de bilheterias.
No começo dos anos 90, ouvi falar muito de um filme que se tornou, durante alguns anos da minha vida, uma busca sem fim. Ao ouvir um amigo falar sobre Betty Blue (Betty Blue - 37°2 le matin / 1986) fiquei, de cara, com vontade de conferir essa figura que me pareceu, diante do monólogo do meu amigo a respeito dela, uma incógnita interessante de se tentar decifrar. O detalhe ficou por conta de onde ele assistiu o filme. Naquela época, TV a cabo não era para pessoas como eu, poucos tinham acesso a esse serviço. Mas isso não me afetou, a princípio, por isso peguei minha vontade de conferir o filme e fui caçá-lo nas locadoras.

Na falta do vídeo, pesquisei e descobri que se tratava de um filme baseado no livro 37°2 le matin, do escritor Philippe Djian.

Muito tempo depois, e eu já ciente do que viria, pois lera o livro, Betty Blue chegou às locadoras. O livro mexera muito comigo, pois a história de Betty e Zorg desfila sem pudores pela solidão inicial do zelador de bangalôs que, ao se tornar amante da bela Betty, também se envolve numa série de loucuras orquestradas pela moça. E nem pense que isso diminui o amor que Zorg cultiva por ela.
Betty oferece a Zorg algo que ele jamais tivera: a sensação de ser realmente bom em algo. Betty decide que um manuscrito de Zorg, já várias vezes rejeitado por editores, é uma obra-prima e deve ser publicado. No mundo dos outros que não o dela, isso geraria reclamações, decepções,, questionamentos. No universo criado por Betty, a coisa fica um tanto ácida.

Ler o livro me permitiu mergulhar no filme com muito mais liberdade. Betty Blue vale nas duas formas: livro e filme, sendo digno de qualquer prateleira. E da minha cabeceira.
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