Sol entre noites | Whisner Fraga
Fui ao lançamento do livro de Whisner Fraga, o Sol entre noites.
Tive o grande prazer de escrever o texto de orelha do livro, convite que me deixou feliz e um pouco temerosa, já que o Whisner é um autor que admiro muito, e um grande amigo.
Abaixo, segue o texto e aqui o link direto para o livro no site da Ficções:
www.ficcoes.com.br/livros/noites.html

Sol entre noites é uma coletânea de olhares imigrantes. Também são olhares dos que se descobrem estrangeiros às suas origens, a si mesmos, aos seus afetos e às suas vitórias.
Helena, personagem a quem o autor permite transitar por vários dos seus escritos, leva-nos pela mão, enquanto a trama é desenvolvida. Porém não há como determiná-la mulher de corpo presente na história de outros personagens. Para mim, Helena poderia muito bem ser cria da imaginação dos personagens agoniados com as próprias inquietações, tornando-se aquela que tudo observa, escuta, mas que jamais interfere nas decisões ou altera desfechos. Um misto de céu e inferno, o silêncio aos berros, o reflexo no reverso da verdade.
Neste livro, às vezes o que parece certo, determinado, mostra-se uma variação de um sonho, de um apego. Mostra-se plural, e em tantos aspectos que o leitor se perde na poesia que embala a prosa. Porém ele se perde com gosto, para encontrar-se logo adiante.
A realidade é detalhada por meio de metáforas, o que salienta o que dói e o que regozija. A busca é por reconstruir a origem, reconhecer-se nela e, mediante o insucesso, reencontrar-se com a origem adotada, engoli-la, visto que outra opção já não existe. Há uma urgência ferina em decidir quem se é no mundo.
Enquanto discorre sobre os costumes, sobre a forma como os libaneses enxergam, encaram a religião, as ligações familiares, as tradições, o sexo, a lógica, o autor aprimora a sua capacidade de envolver o leitor com a fragilidade eminente em cada certeza. Neste livro, como na vida, nem sempre amor é amor, justiça é justiça, desejo é desejo. Nem sempre o que o autor nos conta é definitivo, cravado no fato. Em alguns momentos, tudo se mistura, e de tal forma que o que sempre nos foi apresentado como intocável deita a cabeça nos nossos ombros.
Whisner Fraga resume a inquietação que permeia Sol entre noites: [eu queria me nutrir com algo que viesse a um só tempo de mim e da terra, algo que fosse cooperativo e mundano, coletivo e imperscrutável.] A inquietação – que também é desejo cravejado de urgências – de caber, de pertencer, de se identificar. De não estar só na sua condição de imigrante da vida.
Carla Dias
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