sábado, 28 de setembro de 2019

Dave Matthews Band | Que show foi aquele?


Música é importante para mim. Mesmo quando as pessoas insistem em colocá-la no patamar de mero entretenimento. Às vezes, é apenas isso mesmo. Na maior parte do tempo, ao menos para mim, é muito mais. Foi com a música que aprendi a escrever poemas. Com ela, aprendi que uma ótima forma de aprender é ensinar. Foi a música que me ensinou a lidar com as pessoas, que me apresentou a bateria, para a qual eu voltei, depois de quase duas décadas. Ela guia o meu trabalho há quase trinta anos. 

Posso dizer que a música inspira em mim as melhores ousadias. 

Quem não tem uma banda, da qual gosta, que faz diferença, não? Temos vários artistas, na verdade. Vários músicos, compositores, intérpretes que nos enchem de alegria, porque fazem música. Por conta do meu trabalho, tive a sorte de conhecer alguns dos meus ídolos, e outros que não eram, mas se tornaram meus ídolos. Há algo que sempre permanece, quando se trata desse meu afeto pelo artista: admiração pela obra e pela forma como ele cuida dela.

Ontem, eu e minha amiga de jornadas diversas, Rubia, fomos ao show da Dave Matthews Band, no Estádio do Ibirapuera, aqui em São Paulo. Quem me conhece, sabe que sou fã da banda, que escrevi um poema inspirado em um post de Twitter do Dave, que se transformou no meu primeiro romance do estilo fantástico, que dediquei a ele e quem sabe um dia o publicarei. Quem me conhece sabe o quanto admiro os integrantes da banda, porque eles são ótimos músicos e, na minha incapacidade de descrever tecnicamente o que eles são capazes de fazer musicalmente, resolvo a questão na metáfora mesmo: a música deles tem muitas camadas e nós, os apreciadores, somos convidados a nos embrenhar nelas e a experimentar das suas texturas.

Esta não é uma crítica. Deixo aos especialistas a função de dissecar o isso e o aquilo que formam uma crítica musical. Este texto é um agradecimento.

Foi o segundo show da banda que assisti. O primeiro, em 2008, deixou-me feliz, mas o de ontem foi além. Há algo no tempo que nos ensina a compreender a importância da vida que nos cerca. Isso cabe aos nossos relacionamentos com as pessoas e com tudo o que nos ajuda a aprender sobre nós mesmos, sobre o outro, sobre aquilo que nos inspira. Depois de onze anos, assistir a um show exclusivamente da Dave Matthews Band me levou a compreender algo muito bacana: as pessoas que estavam lá ontem, cantando todas as canções, conectadas com a música que as inspira, por quase três horas, elas – e eu – experimentaram algo que anda raro na vida do brasileiro: contentamento. Às vezes, eu me pegava reparando nas pessoas, naqueles sorrisos de quem se sentiu muito bem com aquela linha de baixo, com aquela convenção na bateria, com a lindeza de som da guitarra, com os metais berrando notas, com as danças, o teclado construindo escadas para que o violão cantasse quebrado... a voz revelando palavras.

É claro que queríamos ver de perto nossos ídolos. Óbvio que desejávamos cantar, bem alto, aquela canção que nos toca profundamente. Não havia dúvida de que estávamos ali para sentir o que sentimos ao apertar o play para a música da DMB

Semana passada, lancei meu sétimo livro. Em todas as minhas histórias há música. Falei sobre como a música influencia a minha escrita. Ontem, ao assistir um dos shows mais bacanas da minha vida, percebi que vai além: música é essencial para mim e parecia também ser para os que estavam lá, cantando a letra e a música. Tocando bateria no ar, vibrando com o ritmo marcante que se apossa de quase todas as canções. Mergulhando na languidez das canções mais suaves, com letras contundentes. Enlouquecendo quando os metais decidiam cantar em par. Aplaudindo a gaita convidada.

O show da Dave Matthews Band foi sensacional. Algum crítico musical saberá explicar melhor a parte técnica. Eu vou de metáfora mesmo: o show de ontem foi de virar ao avesso o espírito do espectador. Virou o meu e, por isso, eu agradeço ao Dave, Carter, Stefan, Tim, Rashawn, Jeff e Buddy

A música da Dave Matthews Band continuará a fazer parte da minha playlist existencial. E que venham mais shows, porque a experiência de estar presente, quanto eles fazem e acontecem com a música, é muito bacana.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

NELSON GONÇALVES - O AMOR E O TEMPO

© Divulgação
Eu tenho muito apreço pelo Teatro Gazeta. Meu gosto pelo teatro começou, de fato, ali, quando assisti, há mais de uma década, o espetáculo Querido Mundo [leia sobre]. Assisti a outros tantos espetáculos naquele palco. Alguns deles, marcaram-me para a vida. Pode parecer exagero, mas não é. Sou das pessoas que se permitem ser marcadas por um espetáculo de teatro, um filme, uma música, um livro, uma frase de um desconhecido que impulsiona aquela mudança que passei muito tempo postergando, e por aí afora.

Então, que aquele palco tem o poder de fazer minha imaginação, que já é inquieta por natureza, esbaldar-se em devaneios. 

Ontem, eu fui ao Teatro Gazeta. Entrei, sentei-me na poltrona A-25, assim, na fila do gargarejo. Enquanto o espetáculo não começava, eu imaginava cenas improvisadas naquele lugar onde palavras ganham tons, por conta de pessoas que, dedicadas à lida da interpretação, abrem alas para as emoções dos espectadores. 

O espetáculo: Nelson Gonçalves – O Amor e O Tempo.

Nelson Gonçalves completaria 100 anos em 21 de junho. O espetáculo, com três temporadas de sucesso no Rio de Janeiro, desembarcou no palco do Gazeta, em maio deste ano. Antes de continuar a falar sobre, um arrependimento: ter assistido à última apresentação da temporada.

Antes do início do espetáculo, uma excitação geral. É lindo de se ver quando as pessoas concordam sobre o que as tocou profundamente de maneira a despertar algo bom, um reconhecimento justo. Ali, as pessoas reverenciavam um significativo nome da música brasileira que era, também, um cronista do sentimento arrebatador, fosse para o contentamento ou para a tristeza. Cada canção, da qual ele se apropriava, voz e interpretação, traduzia um estado de espírito, um momento significativo, de Nelson Gonçalves ou dos apreciadores da música que ele compartilhava.

Antes de as cortinas se levantarem, eu pensava sobre como seria, se o elenco trafegaria pelo palco ou o tomaria para si. Posso dizer que o tomaram para si, que do início ao fim, sorriso e engasgos me tomaram... e não somente a mim. Outra coisa linda de se ver: um público fascinado pelo espetáculo. 

Primeiro, deixe-me falar sobre a banda, porque o meu lado musical se deslumbrou por ela. Primorosos arranjos para canções tão conhecidas, sendo executadas por músicos fantásticos. A música vestiu com delicadeza, até mesmo as canções de poesia arredia. 

No palco, dois Nelsons, um homem e uma mulher. Nelson Homem defendia a emoção. Nelson Mulher, a razão. Nesse encontro de reflexões, o espectador era levado ao universo de Nelson Gonçalves, a todos os “não” que ele recebeu, aos percalços, aos apaixonamentos e também aos desvarios. Eram duas pessoas no palco, mas eu só conseguia pensar em uma, porque os questionamentos me pareciam justos para qualquer pessoa. O quanto nos entregamos ao amor, o como lidamos com o tempo, e tudo aquilo que acontece durante eles.

Nelson Homem, interpretado por Guilherme Logullo, era excitação e deslumbramento em carne viva. Tudo nele chegava forte, abrasador. Nelson Mulher, interpretado por Jullie, era a dúvida e o medo do próximo sofrimento. A dança à qual os personagens se lançam é a de combinar esses universos, ambos tão presentes na vida de Nelson Gonçalves.

© Divulgação
Eu caí de amores por eles, assim, de cara. Quando começaram a cantar... que vozes! Que interpretações! O palco foi tomado pela música e pelas histórias das canções, elas sendo trançadas com a do próprio rei do rádio. Guilherme e Jullie me ganharam de vez. Mais do que isso, tomaram o palco, daquele jeito que sempre me deixa feliz: completamente, deixando nele um pouco de si. 

No final, entre os agradecimentos, Guilherme falou sobre a gentileza do pessoal do Teatro Gazeta. Trata-se de um lugar conduzido por pessoas que sabem que o fazer arte requer trabalho árduo, talento revigorante e revigorado. É sim um lugar onde os artistas são recebidos com respeito, assim como ao público. Um lugar onde eu conheci tantos artistas capazes de dominarem o palco, como se tivessem nascido nele e a ele pertencessem.

Nelson Gonçalves – O Amor e O Tempo é uma homenagem muito bem tecida pelo autor. Gabriel Chalita soube entremear as dores e os amores; as esperas e a solicitude do que nos acontece, sem que estejamos preparados para lidar com o acontecimento. Um espetáculo fantástico, que espero que, depois de suas voltas por outros cantos do Brasil – se passar pelo seu, não perca a oportunidade! -, possa voltar ao palco do Gazeta. Seria muito bom poder assisti-lo novamente.

© Divulgação
Na saída, comprei o livro sobre o espetáculo. Os atores anunciaram que logo sairiam para atender ao público. Eu não tive coragem de ficar. O que dizer a eles que justificasse minha gratidão por aquele espetáculo? Mas essa sou eu... quem engole palavras, para então despejá-las em um texto que diga o “quase” do sentimento que me arrebatou. E aqui estou, quase no final da minha declaração de imenso agradecimento por um tempo que fará parte da minha coleção de memórias.  

Antes de finalizar, quero compartilhar algo que uma pessoa, que estava sentada na fileira atrás de mim, disse, assim que as luzes acenderam: depois disso, só procurando um amor.

Espero que ela o tenha encontrado.

NELSON GONÇALVES – O AMOR E O TEMPO

Informações sobre o espetáculo: musicalnelsongoncalves.com.br


FICHA TÉCNICA

Um musical idealizado por Guilherme Logullo e Gabriel Chalita.
Direção e coreografia: Tânia Nardini.
Roteiro: Gabriel Chalita.
Elenco: Guilherme Logullo e Jullie.
Coordenação Artística: Guilherme Logullo.
Cenografia: Doris Rollemberg.
Figurinos: Fause Haten.
Direção Musical e arranjos: Tony Lucchesi.
Direção de Produção: Lu Castro e Bruno Mendonça.
Assistência de direção e movimento: Nadia Nardini.
Visagista: Diego Nardes.
Design de Som: Gabriel D’Angelo.
Design de Luz: Renato Machado.
Redes Sociais: Gabriella Costa.



segunda-feira, 1 de abril de 2019

A poesia melancólica e reveladora de "O quarto de Jack"

Cena do filme O quarto de Jack | Foto © George Kraychyk

Eu sei que a maioria de vocês já assistiu ao filme e foi há um bom tempo. Ele foi lançado em 2015. Talvez, muitos de vocês não se lembrem claramente do filme, o que é justificável, já que há muita coisa acontecendo e estamos todos ligados a elas: cinema, questões pessoais, música, trabalho, literatura, injustiças, fotografia, violência, artes plásticas, telejornal, celebrações, memes, superações, perdas e por aí vai.

Desde seu lançamento, eu vinha evitando me encontrar com esse filme. Não é raro acontecer de eu me demorar em um desejo. Na verdade, sempre que me demoro em um desejo, é porque algo me diz que esse tempo é uma espera que tem seu valor. Raramente eu me engano nesse aspecto. 

O quarto de Jack (Room) é um daqueles filmes em que a tristeza profunda é de beleza insana. Quando uma ação horrível é encarada da melhor forma possível e essa forma é dura, porém poética, o que me faz lembrar de um amigo que me confessou não gostar de poesia. 

Eu conheço muitas pessoas que não gostam de poesia. Não tenho problema algum com quem não gosta de poesia, apesar de ela ser uma constante na minha vida e na minha história. Porém, sempre me pergunto como essas pessoas reconhecem a poesia da vida, a que não está registrada em livros, que não sai da boca de criadores, durante um sarau. A poesia que é de autoria da vida e se constrói com o tempo e as escolhas de cada um.


Dirigido por Lincoln Abrahamson, com roteiro baseado no livro de Emma Donoghue e escrito pela própria autora, o filme conta a história de Jack, um menino que nasceu e viveu cinco anos em um quarto, tendo como única visão do exterior o céu enquadrado em uma claraboia. A mãe, sequestrada aos dezessete anos de idade, vivendo à mercê do desejo do seu sequestrador há sete, cria um universo para o filho naquele pequeno espaço, enquanto lida com o desespero de ter como sina uma vida restrita a um quarto, à violência que ela sofre a cada dia e a uma criança que ela não sabe se verá o mundo real.

A cadência do filme leva o espectador a mergulhar na narrativa de Jack sobre o mundo em que ele vive. Neste momento, a poesia se apodera das cenas por meio das palavras. A visão de mundo do menino, idealizada a partir dos relatos da mãe sobre ele, é revelada durante cenas sobre a rotina deles. Não há como o espectador passar incólume a esses relatos. Não há como o espectador que, diferente de Jack, conhece o mundo e suas mazelas, não se encantar com a maneira que o menino enxerga a vida, o mundo, a própria existência.

Cena do filme O quarto de Jack

Jacob Tremblay me fez acreditar em Jack e embarcar em seu imaginário. O ator tem outro filme complexo na sua filmografia, Extraordinário (Wonder/2017), no qual interpreta Auggie, personagem com a difícil missão de encarar um novo universo, o da escola, sendo uma criança com uma deformidade facial. Brie Larson é uma atriz com uma filmografia variada, protagonista do filme Capitã Marvel (Captain Marvel/2019). Dos filmes que mais gosto, lembro-me de sua participação em O maravilhoso agora (The Spectacular Now/2013). Em O quarto de Jack, Larson interpreta Ma, a mãe de Jack. Ela dá força a uma personagem fragilizada pela violência que sofre, pelo cativeiro, pela responsabilidade de cuidar de seu filho que vive à mercê do algoz dela, pai de seu filho. Ela torna a dor e a solidão que sente em algo quase palpável. Tremblay e Larson tornam este um filme memorável.

Este filme pode servir de metáfora para prisões particulares, violência velada, privação do direito de estar no mundo, de existir nele. Antes disso, ele é um filme sobre uma mulher mantida em cativeiro, que sobrevive a quem a mantém em cativeiro, que tem um filho em cativeiro, que sobrevive ao cativeiro e supera seu algoz a ponto de alcançar a liberdade. Quando ela chega, a liberdade, essa mulher tem uma imensa dificuldade de se ajustar à realidade para a qual volta. O filho dela tem de conhecer o mundo no qual nunca esteve. Ele tem de aceitar que aquele mundo que ele conheceu, resumido ao quarto onde nasceu e cresceu, é mais, é diferente, é outro.

O quarto de Jack é a poesia melancólica e reveladora, porque leva o espectador a confrontar a certeza de que tem controle sobre tudo que lhe cabe. Porque, para sobrevivermos aos riscos que viver impõe, temos de acreditar que aquilo nunca acontecerá conosco. 


O quarto de Jack | Trailer