Push Up | Profissional e pessoal
Em 2006, assisti ao espetáculo que mudou a forma como eu encarava o teatro. Querido Mundo (clique e leia), de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, contava com dois atores pelos quais tenho profunda admiração: Maximiliana Reis e Jarbas Homem de Mello. Foi ali que me apaixonei pelo teatro. Foi ali que me atrevi a aceitar o desejo de, quem sabe um dia, ser capaz de escrever uma história que se acomode em um palco.
E o palco...
O que mais me encanta sobre o palco é ele caber em qualquer espaço, em qualquer formato. Reúna pessoas capazes de contar histórias, de vestir personagens, de tocar instrumentos musicais e lá está: o palco a abarcar espetáculo.
Em 2013, fui convidada para assistir TOC TOC (clique e leia), de Laurent Baffie, com direção de Alexandre Reinecke. João Bourbonnais, um dos atores do espetáculo, leu um texto meu, sobre o Conexão Marilyn Monroe (clique e leia), escrito e dirigido por Reinecke. Minha admiraçãopor Bourbonnais, despertada durante o TOC TOC, levou-me ontem ao teatro.
Push Up, do dramaturgo alemão Roland Schimmelpfennig, chegou ao Teatro Viga, em São Paulo, com direção de César Baptista. O espetáculo se aprofunda no universo corporativo, valendo-se da jornada de executivos, completamente dedicados à vida profissional, sendo surpreendidos por questões pessoais, durante a busca por uma colocação mais prestigiosa. Cada um deles tenta convencer o diretor da empresa na qual trabalham de que é a pessoa certa para cuidar da nova filial, em Nova Délhi, Índia.
![]() |
© Divulgação |
Ainda que o texto de Schimmelpfennig aborde a busca de executivos por um cargo ao qual dedicaram muito tempo e trabalho para merecer, qualquer um pode se enxergar ali, na sua própria realidade. Estamos, o tempo todo, disputando uma colocação na vida. Às vezes, essa disputa acaba por limitar a nossa interação com o mundo, com as pessoas. Acontece de ela nos levar a crer que somos insubstituíveis na nossa profissão, imprescindíveis para nossos afetos, absolutamente necessários e capazes. Assim, ela pode nos levar a um encontro nada agradável com a realidade de não conseguirmos aquela vaga, sermos descartados em um relacionamento, compreendermos a nossa irrelevância em situações que tínhamos por certo dominar e sermos obrigados a reconhecer que há o que não podemos mudar.
A cadência dos diálogos entre os personagens, a sobreposição deles, mostrando o mesmo momento em diferentes percepções. Longos diálogos, tão coerentes naquela loucura que cada personagem encara. A troca de cadeiras, a troca de cena, reforça que a vida é mesmo um jogo. Alguns entram para ganhar, e, apesar de ótimos jogadores, preparados e dedicados, saem perdedores e não apenas profissionalmente: que vida resta quando se gastou tanto tempo em busca do que nunca terá? Que vida resta, quando se aprendeu somente a ser a pessoa daquela busca que levou a lugar nenhum?
O ritmo dos diálogos, os breves monólogos, as cenas em que o silêncio diz mais e alto. O quando o dito contradiz o que ecoa na mente e no coração. A direção de Baptista permite ao espectador se aprofundar nas entrelinhas.
Nova Délhi não é para qualquer um.
Nova Délhi não é para qualquer um.
Os atores desempenham seus papeis belamente. Não há como deixar de mencionar, mais uma vez: o ritmo dos diálogos. Houve momentos em que ele era tão acelerado, e o que era dito carregava tanto enfrentamento e desapontamento, que meu coração acelerou em contrapartida. Dava para sentir aquilo, mesmo não sendo a minha história.
Muitos temas complexos são abordados em Push Up: a dificuldade de mulheres se colocarem no mundo corporativo. A solidão que vem com se manter disponível para os negócios, 24 horas por dia. O tempo que passa e fragiliza o corpo e nem sempre celebra a idade da sabedoria... e do corpo, e assim segue.
Assistindo ao espetáculo, concluí que o mundo é uma grande corporação, e que todos queremos aquele cargo, acreditando que seja o melhor para nós. Poucos terão aquele cargo e, quem sabe, mais por sorte do que por infortúnio.
A reestreia de Push Up será no dia 14 de janeiro de 2020. Recomendo que vocês assistam ao espetáculo, porque ele é ótimo e também porque precisamos prestigiar aqueles que conseguem manter o questionamento possível, papel que a arte, e seus artistas, fazem linda e intrepidamente.
Texto | Roland Schimmelpfennig
Direção | César Baptista
TEATRO VIGA ESPAÇO CÊNICO
Rua Capote Valente, 1323
Pinheiros | São Paulo | SP
INGRESSOS
Bilheteria: 1 hora de antecedência
Online:https://www.sympla.com.br/espetaculo-teatral-push-up__758674
Elenco
Antoniela Canto | Angelika
Daniel Faleiros Migliano | Robert
Fabio Acorsi | Henrique
Fulvio Filho | Frank
Isabella Lemos | Patrizia
João Bourbonnais | Hans
Karlla Braga | Maria
Monalisa Vasconcelos | Sabrine
Assistente de Direção: Chico Ribas
Iluminação: Wagner Pinto
Figurino: André do Val
Produção: Nathalia Gouvêa
Assessoria de Imprensa: Morente Forte
Fotografia: Felipe Souza
Designer Gráfico: Fábio Acorsi
Mídias Sociais: Paulo Bernardo
Comentários