terça-feira, 11 de agosto de 2020

DO VINHO AO ESCRITO


Neste ano, recebi um convite para redigir textos de duas sessões do site A Lenda Portuguesa, vinho de origem portuguesa, que já começou sua história aqui no Brasil. Aceitei, com a maior felicidade, porque foi meu primeiro trabalho oficial como redatora, depois de eu decidir que esse era um caminho que eu gostaria de seguir. E porque pediram para eu ser algo que, geralmente, não se permite ser em textos comerciais. Liberaram a poesia. Mais do que isso, pediram por ela.

Ao começar a trabalhar na pesquisa para elaborar aqueles textos, eu entendi a necessidade da poesia. Peguei-me completamente apaixonada pela linguagem usada para descrever as regiões do Alentejo e do Minho, onde esses vinhos são criados, feito obra de arte mesmo. São tantas etapas que pedem por um cuidado que se dedica somente ao que é trazido à vida para celebrar deleite e acompanhar histórias.

Pense na bebida como um condutor de longas conversas. O café tem feito esse papel, na minha rotina. Porém, o vinho também está presente, que sempre fui apreciadora. E a presença dele é tão marcante, que muitos dos meus personagens literários se valem do vinho como companhia em momentos de deleite, catarse ou de reflexão. 

Obviamente, eu experimentei alguns itens da carta de vinhos dessa marca e adorei. Esse trabalho com A Lenda Portuguesa me fez olhar para Portugal de uma maneira diferente, levando-me a desejar conhecer Portugal, como nunca antes desejei conhecer outro lugar. Assim, redescobri o prazer de apreciar um bom vinho e ainda mais ao Português de Portugal. Meu apreço pela Língua Portuguesa aumentou.

Outro detalhe tornou essa viagem bem agradável. É que eu sempre fico muito feliz quando alguém se apaixona por um projeto, não importa qual, obviamente, desde que seja algo bom. Criar e circular A Lenda Portuguesa aqui no Brasil é projeto desses que nascem de um apaixonamento. Eu gosto disso e desejo que o negócio seja próspero, que muitos brasileiros brindem aos seus feitos e afetos com A Lenda Portuguesa.

Eu sei, já entreguei o trabalho de redatora. Porém, ele me rendeu outra coisa, que desejo compartilhar com vocês. Eu gostei muito dos adjetivos usados para descrever os vinhos. Na verdade, para mim, esse projeto foi um ótimo encontro com o idioma. Então, como sempre acontece quando me aproximo de um tema que me fisga, escrevi quatro minicontos usando alguns dos adjetivos de descrição dos vinhos. Venho trabalhando em um livro de minicontos, há algum tempo. Meu encontro com A Lenda Portuguesa me ajudou a criar alguns deles.

Eu disse... meus personagens amam vinho. Eu também.



A PARTIDA

(Inspirado por alguns adjetivos colhidos do Vinho Verde D.O.C. Branco, A Lenda Portuguesa)

O vestido encomendado, com todo zelo de quem deseja com o desejo profundo, e ainda assim, lida graciosamente com a espera. Tecido leve, de cor citrina, vestindo o corpo dela com realização. Ela sabe que tudo irá se misturar: o aroma fresco da mudança escolhida, o elegante partir de quem já não sabe mais permanecer, os devaneios tropicais que vão além de matar a fome com frutas cítricas. Encara as conversas com despedidas necessárias, porém disfarçadas pela acidez equilibrada dos diálogos histriônicos que dão sabor ao acontecimento. Vento refrescante chega junto com a saudade antecipada. Um bom gole de vinho ameniza o pânico que a assalta. Aprecia um final de boca harmonioso, como se ele fosse capaz de definir próximos sabores de vida... longos. Parte sem dizer adeus. Os convidados continuam suas conversas, suas celebrações. Ela é da casta dos que partem sem dizer adeus, quando a partida significa recomeço.


COISAS DE SAUDADE
(Inspirado por alguns adjetivos colhidos do Vinho Branco DOC, A Lenda Portuguesa)

Gosta de longos passeios noturnos, em tempo fresco, depois de uma taça de vinho de aroma frutado. Contempla a cidade e seus cenários gastronômicos e tragicômicos, salpicados de abandonos diversos: românticos, semânticos, musicais. Sente saudade das noites como espectador de shows acontecidos em espaços quase totalmente ignorados. Pequenos lugares, escondidos e raros. Sente saudade dos sucos misteriosos, com aquela marcante nota citrina e infernalmente deliciosos, obras da violinista de uma banda da casa de um desses lugares, nos quais ele não coloca os pés há tempos. Sempre a achou meio bruxa: o tênue - ainda que marcante - brilho no olhar equilibrado por devaneios. Como se movimentava pelo palco, possuída pela música. Sente saudade da presença dela, por isso evita tais lugares. Ela desapareceu, deixando as lembranças que ele repassa, durante seus passeios noturnos. A cor palha da pele da noite enfeita a rua com seu tom de saudade anoitecida. Noite dessas, ele não voltará para casa.


ABANDONO
(Inspirado por alguns adjetivos colhidos do Vinho Verde Rosé, A Lenda Portuguesa)

Colheita manual, de quando é preciso tocar para sentir de fato. Na mão, o bilhete que não consegue ler de pronto. Notas mentais de ausência: hoje a vida vai ficar mais complicada. Velas aromáticas, não gosta. Mesa posta: groselha, frutas vermelhas e compota. Necessidade indecente de dulçor. Respira fundo: como alguém consegue viver entre quatro paredes cor rubi? Sobrancelha arqueada, repensa: é rubi clara, até que bonita. Bonita, mas diferente da beleza que costuma apreciar, os sentidos em êxtase. Talvez por isso o engasgo na apreciação. É quase harmonioso, como pode? Abre a boca para dizer, mas escolhe se calar. Dizer para quem? As cortinas atrapalhadas em uma coreografia de vento que as acolhe. A acidez da verdade desfila pela sua percepção, sentindo-se fantástica ao trazer de par a sua nada equilibrada interferência. Como será, então? Como seremos? O vazio parece refrescante, sempre pensou que abandono pesasse ao ter de senti-lo. Por que o alívio? A cor bonita, até é que bonita.


BAILARINA
(Inspirado por alguns adjetivos colhidos do Vinho Tinto D.O.C Alentejo, A Lenda Portuguesa)

Pai pede: não sonhe exagerado, é arriscado. Que tal passar com tranquilidade pelo mundo? Ela sorri macio e se nega a atendê-lo. Logo cedo, mostrou-se curiosa sobre tudo o que leva ao movimento. A inquietude dela preocupa os pais, incomoda os irmãos, agonia os avós. Tornou-se a melhor bailarina da escola de dança do bairro. Sempre que borrifa no corpo o perfume de frutas vermelhas, coloca a faixa encorpada nos cabelos, enfia-se  no tutu cor vermelha granada - presente da tia, que ela acha que tem mais de duzentos anos -,  sente-se pronta para movimentos suaves, resultado da persistente necessidade de resistir à facilidade de desistir. Para o pai, ela é a prova de que a vida pode ser bem complexa e não se refere à alergia dela ao cacau. Não a entende, mesmo quando tudo o que ela precisa é de colo. A mãe sabe: se é assim aos sete anos de idade, a menina vai virar o mundo ao avesso, quando não puder mais chamar professora de “tia”. Suspiram os pais, os irmãos e os avós. E a menina? Sorri.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Minha lista pessoal | Dicas de filmes e séries



Olá!

Essa é uma lista de filmes, séries e documentários que assisti e dos quais gostei, disponíveis no Netflix e na Amazon Prime. Como há frequentes atualizações de catálogo, pode acontecer de um e outro título já não estar mais disponível.

Espero que vocês encontrem algo do qual gostem, até porque há uma grande variedade de assuntos nessa lista. Lembrando que se trata disso mesmo: gosto. Aproveitem as dicas que cabem no gosto de vocês. 






NETFLIX | FILMES

10 jours en or
5 Flights Up
A Hologram for the King
A menina índigo
Aloha
American Son
Big eyes
Blackway
Blue Jay
Children of Men
Christine
Collateral Beauty
Damascus Cover
Definitely Maybe
Dolemite is my name
Dumplin’
Easy A
Fractured
Fundamentals of Caring
Genius
Gone Girl
Hacksaw Ridge
I am Sam
Identity Thief
Intern
Le Grand Bain
Les Chaises Musicales
Like Father
Limitless
Lion
Little Boxes
Love Bones
Martian Child
Mary Shelley
Meet Joe Black
Music and lyrics
O Filme da Minha Vida
Only You
Other people
Our Kind of Traitor
Our Soul at Night
Outside in
Paddleton
Playing For Time
Regression
The African Doctor
The Beautiful Fantastic
The Book of Love
The Bookshop
The Fundamentals Of Caring
The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society
The Land Of Steady Habits
The Last Laugh
The Last Thing He Wanted
The Man who Knew Infinity
The Man without Gravity
The Whole Truth
This Beautiful Fantastic
This Is Where I Leave You
True Story
Unbroken
Unworked
Velvet Buzzsaw
Vier Minuten
Vivir dos Veces





NETFLIX | SÉRIES/MINISSÉRIES

After Life
All the Bright Places
Anne With An “E”
Aquarius
Birdman
Blindspot
Breaking Bad
Collide
Feed the Beast
Good Girls
Goop Lab
Hannibal
Limitless
Locke & Key
Lucifer
Mad Men
Marcella
Meet Joe Black
Messiah
Mindhunter
Our Souls at Night
Peaky Blinders
Peaky Blinders
Rita
Marcella
Sherlock
Story of God
The Alienist
The Blacklist
The Discovery
The Eddy
The Sinner
The Stranger
Unbelievable
Unothordox
Vikings
When They See Us




NETFLIX | DOCUMENTÁRIOS

Chasing Trane
Clive Davis – The Soundtrack of Our Lives
It Takes a Lunatic
Jerry Seinfeld: Comedian 
Joan Didion – The Center Will Not Hold You
Keith Richards – Under The Influence
Miles Davis – Birth of The Cool
My Beautiful Broken Brain
Quincy
Soul Exodus
The Two Killings of Sam Cooke
They’ll Love Me When I’m Dead
What Happened, Miss Simone?




AMAZON PRIME | FILMES

After The Weeding
An Eternity’s Gate
Blue Jasmine
Good 
Jagten
Last Chance Harvey
Liberal Arts
Love, Rosie
Remember Me
Salmon Fishing In the Yemen
Silver Lines Playbook
The Age of Adeline
The Machinist
The Night Manager
The Other Boleyn Girl
The Words




AMAZON PRIME | SÉRIES

Damages
House, M.D.
Justified
Monk
Mozart in the Jungle
Mr. Robot

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Uma janela para a lua | encontro entre a razão e o delírio


Não raro, minha memória busca, em seu baú, completamente desorganizado, eu admito, um dos momentos que me fizeram refletir a respeito da vida, do meu papel nela. Pode parecer bobagem para muitos, mas sim, eu sou suscetível ao que livros, filmes, pinturas, fotografias e música me entregam. Sou suscetível à arte como sou à realidade e ao que algumas pessoas dizem, nem sempre para mim, e que me cabe e me ensina algo a respeito delas e sobre mim.

Então, que a minha memória deu uma volta a um ontem que aconteceu há mais de duas décadas, quando eu ainda gastava tempo na videolocadora... e adorava. Acordei com a lembrança dessa cena, e antes mesmo de me espreguiçar, fui tomada pela história toda.

É apenas um filme. Um apenas repleto de nuances, que, mais para o final dos anos 1990, permitiu-me mergulhar em um universo que me fascina e me causa espanto e pânico. Se há algo que me mete medo é perder a capacidade de pensar. Com todo o resto eu lidaria, mas como seria perder-se na própria mente? E não importa que, depois de perdido, saberá de nada do que ocorre.

Eu costumava alugar cinco filmes por vez. Não me lembro dos outros quatro, mas deste, veja bem, a minha memória é uma atrevida, porque faz o que quer de mim. Fez com que eu me levantasse com uma cena deste filme. Cinco minutos depois, nostalgia. 

Vamos começar pelo protagonista, um ator que nasceu na Turquia e foi criado na França: Tchéky Karyo. Se você não sabe quem é pelo nome, provavelmente deve tê-lo visto em algum daqueles filmes americanos de ação. Eu o vi em uma tela, pela primeira vez, em um filme de ação, mas era francês, de Luc Besson. Aliás, sugiro aos que assistiram somente o remake americano deste filme, que assistam ao original: Nikita - Criada para matar (La Femme Nikita/1990). Anne Parillaud e Jean-Hugues Anglade são fantásticos.  

Desde de Nikita, passei a prestar atenção ao Tchéky Karyo. Ótimo vilão de filme de ação, mas aprecio mesmo as suas atuações em filmes com foco nas histórias e nas pessoas, não nas explosões e tiroteios. Adoro um vilão, mas tenho certo apego aos que usam a inteligência a favor dos seus pecados.

Mas o filme que me veio ao acordar não é francês ou turco, mas italiano. Não é de ação, mas de cutucar espectador na emoção. Não fala sobre assunto no qual a maioria aprecia se aprofundar. Ainda assim, é dos filmes mais belos que já assisti. Acredito que eu precisava relembrar algo que me despertasse novamente para a ciência de que a imperfeição, apesar de o dicionário dizer que sim, não é defeito. É margem, possibilidade, releitura, camadas. 

Lembro-me de conhecer algumas pessoas chamadas de loucas e talvez elas realmente o fossem. Também conheci algumas pessoas que se diziam sãs e cometiam loucuras com determinada crueldade. As pessoas que conheci, que eram chamadas de doidas de pedra, tinham lá suas peculiaridades. Ainda assim, eu me pegava fascinada sobre como elas enxergavam o mundo. Talvez por isso este filme seja dos que guardo comigo, silencio, resgato sempre que preciso reafirmar que sabemos nada sobre o que é loucura e o que é viver fora do que é considerado certo.

Certo é viver como se deve, virar-se como se pode e, durante o caminho, reinventar-se sempre que achar necessário.

Uma janela para a lua (Colpo di Luna/1995) é um filme escrito e dirigido por Alberto Simone, que tem um currículo muito interessante, com conhecimento que lhe permitiu criar um filme que aborda a doença mental em suas variáveis, inclusive como defesa contra a dor. Leia sobre ele clicando aqui. Além de Karyo, o filme conta com a participação do ator italiano Nino Manfredi, que tem uma ampla filmografia, tendo participado dos filmes Nós que amávamos tanto (C'eravamo tanto amati/1974) e Feios, sujos e malvados (Brutti, sporchi e cattivi/1976), ambos dirigidos por Ettore Scola. A francesa Isabelle Pasco também faz parte do elenco.

Uma janela para A lua conta a história de Lorenzo (Tchéky Karyo), um matemático que volta a sua cidade natal, na Sicília, para reformar sua antiga casa. Ele contrata Salvatore (Nino Manfredi), que trabalha em uma instituição que abriga doentes mentais.

A razão encontra o delírio.

Não vou entrar em detalhes sobre o enredo do filme, porque acredito que, se não o conhecem, vocês precisam assisti-lo sem que eu tenha entregado muito do que me fascinou nele. Porque, no resumo do meu apego, de onde minha memória puxa lembranças, quando preciso delas, este filme pertence a uma coleção de inspirações.

Uma janela para a lua está disponível, na íntegra e legendado, neste link: