terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Um serial killer em minha vida


Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  07/11/12




Dexter é um serial killer. Dexter é um serial killer pelo qual as mocinhas se apaixonam. Os mocinhos, esses queriam ter a visão direta de psicopata do Dexter, mas sem a coisa do serial killer de série de televisão pelo qual as mocinhas suspiram ou o emprego de especialista forense em amostras de sangue do departamento de polícia de Miami. Eles querem apenas aprender a aplicar a objetividade de Dexter, o serial killer com código de honra incutido nele pelo pai adotivo que percebeu, logo cedo, quem o filho era, e o ensinou que já que não havia como evitar o desenrolar da história, melhor que Dexter aprendesse a matar somente assassinos que a polícia não consegue prender.

Entendido? Dexter é um serial killer.

A primeira vez que tentei assistir à série Dexter, não consegui passar de meia hora do episódio. Fiquei extremamente incomodada com a simpatia imediata que senti pelo personagem interpretado por Michael C. Hall, ótimo ator que eu já conhecia de outra série bem peculiar, a Six Feet Under. Achei o cúmulo a possibilidade de torcer por ele, de alguma forma, afinal, serial killer é serial killer, certo?

Quando a série já estava na sua quarta temporada – atualmente, ela está na sétima -, um amigo insistiu para que eu desse uma chance ao Dexter Morgan. Ele panfletou tão bem que foi inevitável. Aluguei a temporada e, como acontece quando a série me pega de jeito, dormi pouquíssimo nos dias seguintes.

Foi assim que um serial killer entrou na minha vida.


Dexter é uma série muito elogiada por mérito. A forma como os roteiristas conduzem a trama é das mais ousadas. Não há limites sobre aonde o serial killer será levado, mas há coerência, e isso é o que a torna tão sedutora. Os temas da temporada levam o personagem central a encarar conflitos cada vez mais complicados, fazendo com que ele tenha de se esforçar, e muito, para equilibrar a realidade do homem que as pessoas enxergam e daquele que somente ele conhece.

Os personagens que colaboram com a história são muito bem construídos, como Debra Morgan (Jennifer Carpenter), irmã de Dexter que, eventualmente, se torna a chefe dele no departamento de polícia. Além de ser das personagens femininas mais boca suja que a tevê já teve, a relação deles é muito complexa e curiosa, e se tornou um tanto insana na temporada atual, o que só melhorou a cadência da série.


Frequentemente, Dexter, por ser um psicopata, consegue ser extremamente lógico a respeito de assuntos que tratamos com a emoção no talo, e alguns desses momentos são brilhantes. Isso também se deve ao fato de escutarmos a voz interior do serial killer o tempo todo, quando ele não está de papo com o pai morto, maneira que Dexter encontrou para analisar as ganas de seu passageiro sombrio, que divide a existência do moço com o profissional, o pai, o irmão, o filho, o amigo...

O próprio marketing da série é feito sobre a dúvida se Dexter é uma boa pessoa ou não. O código de honra e o esforço que ele faz para não dar pistas sobre a existência do seu lado B, ou melhor, do seu passageiro sombrio, ajudam a mantê-lo no hall dos mocinhos. Porém, quando se trata de localizar e executar suas vítimas, bom, o serial killer dá as caras. Sendo assim, não consigo dar fim à dúvida marqueteira: “eu sou uma pessoa fazendo coisas ruins ou sou uma má pessoa fazendo coisas boas?”.

Dexter é baseada no livro de Darkly Dreaming Dexter, de Lindsay Jeff. A sétima temporada de série está prevista para estrear no Brasil em 2013, no canal FX.

Não estou mentindo


Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  15/02/12



Todos por aqui sabem que sou apaixonada por séries... Também. Entram no pacote das telinhas e dos telões as minisséries e os filmes. Porém, ser fã de série de televisão é muito mais do que ser noveleiro, como muitos dizem por aí, porque a novela passa de segunda a sábado, e conseguimos ficar bem sem ela aos domingos, e nem sempre são realmente boas, mas somente uma distração após um dia de trabalho. Porém, as séries contam com um episódio por semana e ainda são por temporadas, ou seja, passamos meses esperando o próximo capítulo, quer dizer, episódio. 

No ano passado, descobri que algumas séries, que não me atraíam em nada, eram ótimas pedidas. Isso porque em período de middle season (quando não há episódio inédito da série, durante algumas semanas) e festas de final de ano, não há o que assistir que não seja de repeteco. Foi assim que incluí na minha extensa, porém seleta lista de favoritas, as séries The Tudors, Justified, The Vampire Diaries e Mad Men.


The Tudors teve quatro temporadas, e para quem não assistiu, vale alugar a série e conferir. Ela aborda os dez primeiros anos do reinado de Henrique VIII da Inglaterra. É uma produção impecável, que mostra um homem capaz de desafiar a então soberana Igreja Católica Romana, criando um cenário propício para que suas ações fossem perdoadas aos olhos de Deus. E a sua vida amorosa é tão trágica quanto a situação em que ele deixava muitos dos seus amigos e súditos. Entre Catarina de Aragão e Ana Bolena, o sedutor rei visitou o inferno. Jonathan Rhys Meyers interpreta Henrique VIII com competência, seduzindo a todos com a forma como conduz o personagem.


Justified chegou à terceira temporada, e assumo, pública e cronicamente, que não há como não cair de amores por esta série. A princípio, como não sou fã de faroeste, e era o que eu via nas imagens de divulgação, um cowboy, relutei em começar essa jornada. Mas então li que o ator que interpreta o personagem principal era o Timothy Olyphant, que eu adoro. Lá fui eu... E de lá não mais saí. Raylan Givens é um delegado vintage, por isso o quê de cowboy. Olyphant dá muito crédito ao personagem, e se não fosse isso, os tiros que pipocam de montão durante a série, os amigos improváveis do Kentucky (EUA), não seriam tão interessantes.


The Vampire Diaries eu repeli, antes mesmo de assistir a um episódio, mas porque estava passando pelo período de luto pelo cancelamento da série vampiresca mais bacana que já havia assistido, a Moonlight, protagonizada por Alex O’Loughlin, o atual Steve McGarret de Hawaii Five-O (que eu também adoro!). Porém, depois de dar uma chance a ela, mas sem muita animação, e me propor a assistir ao primeiro episódio, oficializei a minha carteirinha de fã. A história dos irmãos Damon e Stephan Salvatore –vampiros que se apaixonaram, ainda humanos, pela mesma mulher, a vampira Elizabeth, e que reencontram uma cópia dela nos dias atuais, pela qual ambos se apaixonam, uma humana, Elena, ambas interpretadas por Nina Dobrev – faz a tensão entre eles ser extremamente interessante. A ironia de Damon Salvatore (Ian Somerhalder ) é de se tirar o chapéu, sendo até mais apreciada do que o desejo de Stephan Salvatore (Paul Wesley) em preservar o pouco de humanidade que lhe resta.


Mad Men é uma vitrine comportamental não apenas dos transeuntes do cenário publicitário dos anos 60, mas de toda uma geração, conduzida pelo publicitário Don Draper (Jon Hamm) e seus companheiros da Madison Avenue. A forma como a sociedade é definida, através das campanhas publicitárias, é de nos fazer pensar como consumidores e seres humanos. Além do mais, a série trata de como os publicitários driblavam as restrições sobre a divulgação do fumo, assim como lidavam com o romance com suas secretárias, as suas “garotas”, sob a sombra da política contra o assédio sexual. A série mostra bem a posição do homem e da mulher na época, enquanto vende o sonho americano, sem se importarem com o custo disso. Uma época em que beber e fumar muito era essencial aos homens de negócio, o que faz com que o telespectador se sinta deveras incomodado com tanta fumaça e pileques. Uma ótima série sobre pessoas dispostas a tudo para vender um produto.

Na verdade, comecei essa crônica pensando em falar sobre uma série que chegou à sua última temporada, causando pânico nos dependentes dela. Mas assim como as séries que citei antes, essa eu comecei a assistir por outro motivo, e acabei me tornando, ao lado de milhares e milhares de pessoas, uma fã de primeira dela.

Eu soube que o Dave Matthews participou de um episódio de House MD. Como era o episódio 15 da terceira temporada, e eu nunca começo a assistir uma série pelo meio, aluguei desde a primeira temporada. Passei uma semana chegando à minha casa às nove da noite e assistindo episódios da série até as três da madrugada.

House chegará ao fim em maio, e com o saldo mais do que positivo. Hugh Laurie conseguiu construir um personagem complexo, e ainda ser o inglês mais americano que já vi. Mas o ator tem outros talentos, é músico – lançou o CD Let Them Talk –, escritor – publicou o romance O Vendedor de Armas –, e deseja trabalhar escrevendo, produzindo e dirigindo. Televisão? Cinema? Quem sabe ambos.

House vai fazer falta...


E eu não estou mentindo...


Realidade na telinha


Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  03/10/12




Sim, eu assisto a alguns reality shows, principalmente os que envolvem música e o Chef Gordon Ramsay. 

Atualmente, ando meio viciada em um sobre pessoas que vão comprar o primeiro imóvel, Property Virgins. Já percebi que nem todos os episódios são recentes, mas isso realmente não importa, porque é muito, mas muito interessante saber o que as pessoas procuram no seu primeiro lar oficial. Mais interessante ainda é ver a apresentadora do programa, a corretora de imóveis Sandra Rinomato - que infelizmente deixou o programa neste ano, mas em breve voltará com um novo em folha - tentando explicar aos futuros proprietários que a casa dos sonhos nem sempre é a primeira casa que o dinheiro deles pode comprar.


Um bom reality show tem de tratar do que se propõe: a realidade. Não me agrada simplesmente observar pessoas confinadas em uma mesma casa, tentando parecer descolados, até não aguentarem a pressão. É muito mais interessante quando há um tema e nem sempre é necessário que haja uma disputa. Extreme Makeover Home Edition, liderado pelo elétrico Ty Pennington, é um exemplo clássico de se fazer um reality show no qual os patrocinadores ganham seu espaço sem roubar o dos beneficiados pelo programa, porque não há nada mais chato do que logomarcas tendo mais destaque que a história sendo contada.


Os programas culinários muito me agradam e em nada beneficiam minhas habilidades na cozinha. Não é a comida que me fascina, mas o formato dos programas. Dinner Impossible se molda com um quê de missão impossível. O Chef Robert Irvine recebe a missão de cozinhar de acordo com o local onde deverá servir o jantar. Há de tudo... Criar pratos que enganem aos olhos, com formato de um e gosto de outro, surpreendendo os convidados e por aí vai. A grande sacada é o tempo que ele tem para fazer isso e as limitações impostas pelo ambiente no qual se encontra. É tenso e divertido vê-lo derrubar os obstáculos e servir um bom jantar. 


Em Kitchen Nightmares, o Chef Gordon Ramsay se propõe a levantar restaurantes que estão à beira da falência. Mais uma vez, a comida é o de menos para o espectador, apesar de ser essencial ao restaurante. O Chef Ramsay não é nada delicado ao abordar os problemas, e isso é bom de se ver, porque é verdade que nem sempre a pessoa que vai lhe ajudar tem de ser cuidadosa ao dizer a verdade. às vezes, é preciso escancarar com ela para que se enxergue o problema. Neste programa, aprende-se a gerir um restaurante, mas no processo, o Chef Ramsay acaba cutucando o chefe da tribo. É muito complicado para um dono de um restaurante compreender que está fazendo tudo errado. E na maioria das vezes, isso é fato.  E não posso deixar de mencionar o espetacular documentário que foi ao ar entre 2010 e 2011, o Gordon’s Great Escape, que mostra o Chef em diversos países em busca da verdadeira comida local. Ele deseja aprender a cozinhá-la, conhecer os seus temperos e acaba em uma verdadeira jornada cultural.


Um bom reality show de música se faz com grandes artistas. American Idol sempre esteve no top da lista de programa com ótimos intérpretes nos finais de temporadas. Ano passado, mais um programa com o mesmo perfil estreou nos Estados Unidos, o The X Factor. Ambos os programas buscam por um intérprete capaz de impressionar o público e emplacar hits, mas uma boa performance, habilidades como instrumentista e como compositor também pesam na balança. Já o também estreante em 2011 The Voice busca, como o nome já diz, pela voz. Recentemente, o Brasil estreou com a versão nacional de The Voice. Ídolos, versão brasileira de American Idol, estreou em 2006.

Para mim, o principal fator para não me encher com reality show mambembe é saber o que realmente nele não me interessa. E não me interessa assistir a programas que promovam indivíduos que nada têm a dizer, que não respeitem os participantes. Obviamente que sei que eles giram em torno de seus patrocinadores, mas como eu já disse, há como promover marcas sem desabonar o participante.

Ok... Vou ali ver o Gordon Ramsay botar ordem na cozinha.

Pina: poesia na tela


Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  02/05/12





Sim, eu sou fã de carteirinha de Wim Wenders, desde que assisti o belo Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin/1987) e descobri que o roteirista e diretor tinha uma visão deveras interessante sobre anjos. Para quem não assistiu a esse filme, saiba que ele não é a versão alemã de Cidade dos Anjos (City of Angels/1998). Na verdade, o americano foi adaptado a partir do alemão, e por mais que eu ache lindo o filme com Nicolas Cage e Meg Ryan, tendo o próprio Wim Wenders como coroteirista, Asas do Desejo é imbatível com a sua poesia e o ritmo que, em determinado momento, é definido pela participação de Nick Cave.

Sim, eu sou apaixonada por Wim Wenders, mas ainda assim, não esperava a viagem que fiz ao assistir o seu filme, ainda em cartaz aqui no Brasil. Na verdade, por se tratar de um documentário, eu esperava um filme bem diferente. O que eu não esperava era um poema na tela.

Pina (2011) é um filme sobre a dançarina e coreógrafa alemã Pina Bausch, também amiga de longa data de Wenders. Ela faleceu em 2009, pouco antes do início do documentário. Ele pensou em parar o projeto, mas decidiu dar continuidade, utilizando, além de imagens dos espetáculos Le Sacre du Printemps (1975), Kontakthof (1978), Café Muller (1978), eVollmond (2006), declarações dos bailarinos da companhia Tanztheater Wuppertal Pina Bausch sobre a coreógrafa.


Wenders, como foi divulgado, inaugurou a era do filme de arte em 3D com Pina. Particularmente, 3D não me agrada, porém não consigo imaginar não se ter essa experiência com este filme, porque é justamente a proximidade que essa linguagem cinematográfica oferece que nos permite mergulhar no que o diretor/roteirista quer nos mostrar, como se quisesse que alcançássemos certa intimidade com a pessoa por detrás da coreógrafa.

As coreografias de Pina são impactantes, parecem palavras ditas e com a poesia na ponta da língua. Os movimentos dos bailarinos nos remetem a cenários imaginários, mas também ganham as ruas de Wuppertal, cidade belíssima onde Pina viveu e desenvolveu seu trabalho por 35 anos.


Pina é um filme sedutor, faz com que o espectador deslize nas matizes das coreografias, na energia dos bailarinos, na melancolia do que eles têm a dizer sobre a coreógrafa. Para ela, mais importante do que a dança era qual sentimento levava o bailarino a dar o tom a ela.

Wenders conseguiu homenagear essa talentosa mulher de uma forma como poucos conseguiriam. Ele fez a dança virar cinema, o que não é fácil, mas não parou por aí. Wenders fez, mais uma vez, o cinema virar poesia.

Sam escolheu suas armas


Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  06/06/12

"C'mon get up, get dressed
The world is spinning
Full of kindly beings
The one you love will love you back
And no-one's spoiling anything
Everything's just right
It makes you want to fill your lungs and sing
And ooh ...You silly pretty little thing"
Bob Geldof, da canção Silly Pretty Thing




Acordei pensando sobre esse filme que assisti semana passada. Acordei pensando como se o tivesse sonhado, sabe?  Ele tratava da história de um homem que chegou ao fundo poço, aos cafundós do abismo, ao fim do fim da linha por causa das drogas. Então, um dia ele pensou ter matado um homem e decidiu aderir à religião da esposa, que enquanto o marido estava na cadeia, deixou de ser stripper e foi cuidar da vida e da filha. 

O mais interessante é que, em determinado momento dessa aceitação de Deus, ele resolveu construir uma igreja que recebesse a todos os que as outras não aceitavam. Porque se Deus deu uma chance a ele, como não daria às prostitutas e aos drogados, aos bandidos em busca de salvação? Deus pode sim ser o aceitador de tudo e todos, mas não os homens. É diferente converter bandidos, enquanto eles estão na cadeia, de aceitá-los, ainda em processo de compreensão da sua expiação espiritual, ou seja, ainda detentores do cargo de marginais. 

A igreja vingou, mas nenhum pastor quis participar dela. Foi assim que o criminoso se apossou da palavra.

Mas não é a religiosidade desse homem que me inquieta. O que ele fez, depois de se estabelecer e se tornar dono de uma empreiteira, é que me fez repensar alguns causos. E isso acabou no continente africano, no Sudão, para ser mais exata.

Agora, talvez seja o ponto em que você está pensando que será muito chato ouvir falar, mais uma vez, sobre as necessidades da África. E que não tem mais paciência para ver aquela foto da criança sendo observada pelo abutre, nem mesmo ouvir falar em mais um Live Aid by Bob Geldof. Eu adoro o Bob Geldof... Ótimo músico e, principalmente, um verdadeiro humanitário.

Redenção (Machine Gun Preacher/2011), que é estrelado por Gerard Butler e baseado na história de Sam Childers. Sim, ele existe, e ao ouvir falar, na igreja que frequentava, sobre a situação da África, decidiu se voluntariar para um programa de reconstrução de casas em Yei, no Sudão do Sul, em 1998, em plena guerra. A partir daí, não houve quem tirasse a África de Sam. Ele voltou ao Sudão, construiu uma clínica e depois um orfanato em área de risco, mas que somente ali atenderia quem realmente precisava dele. A milícia rebelde estava matando e sequestrando as crianças. 

 Sam Childers

Houve um momento em que Sam se sentiu muito perturbado com a história que assistia no Sudão. Ele chegou a hipotecar a casa e a vender a sua empresa para conseguir dinheiro para o trabalho voluntário, criando uma situação difícil para a esposa e a filha. Ele era diferente de um pastor convencional, porque amante que era das armas, ele as empunhava para defender as pessoas, e principalmente para reaver as crianças órfãs sequestradas. E são essas crianças, a forma como elas são agradecidas a ele e compreender a dor, que ele retomou o seu caminho. Sem abandonar as armas, claro. 

É verdade... A miséria não ronda somente a África. No Brasil, há pessoas que não têm o básico para viver, crianças que necessitam lidar com a fome e com o descaso. Mas a questão que me faz pensar que pessoas como Sam Childers e Bob Geldof sejam necessárias, pessoas que olham para além das fronteiras de seus países de origem, é que há lugares, como o Sudão e a Etiópia, em que somente a política bem aplicada e os projetos sociais efetivos não podem resolver o problema. Onde a bondade, o humanitarismo e a coragem de estrangeiros de trafegar por lugares em guerra fazem toda a diferença.

A foto do abutre e a criança foi registrada pelo fotógrafo sul-africano Kevin Carter, em 1993. Foi publicada pelo jornal New York Times e  ganhou o Pulitzer, em 1994. A menina sudanesa estava tentando chegar a um posto de alimentação. É uma das imagens que mais tocaram as pessoas sobre a situação da África. Bob Geldof continua a sua batalha humanitária e não se esqueceu da África, assim como Sam Childers. O orfanato que ele construiu continua na ativa.  

 Bob Geldof

Hoje eu acordei com esse filme na cabeça, mas talvez eu tenha sonhado sobre o assunto. E o que experimento agora é a sensação de que, apesar de saber que ainda falta muito para a situação da África se acertar, ainda há esperança. Graças a Sams e Bobs e Ghandis e Betinhos e Martins e a mim e a você que, na pequeneza do que podemos fazer, sonhamos o mundo melhor. 




Sam Childers / Machine Gun Preacher - machinegunpreacher.org

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Kleber Albuquerque lança 10 Coisas Que Eu Podia Dizer No Lugar De Eu Te Amo

Clique na imagem e confira o flyer!


Eu quero ser Tim Burton!

Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  30/05/12

“Sabe o que é estranho? É que sempre me achei normal quando era
criança. Depois de um tempo,você começa a pensar que é maluco,
porque todo mundo te chama assim. Aí os anos passam e você
se dá conta de que eles estavam certos, você era louco mesmo.”
Tim Burton


O que você quer ser quando crescer?

Pergunta recorrente na vida de qualquer criança, acaba sempre recebendo respostas sazonais. Há dias em que se quer ser herói, em outros, professor, bombeiro, astronauta, ou colecionador de gibis, filho da mãe e do pai e não de um extraterrestre, porque isso dá medo e afasta os amiguinhos. Não há limites para o que se pode ser quando crescer sendo criança.

Eu quis ser muitas coisas quando criança. Apesar de a minha memória infante depender das minhas irmãs para funcionar, lembro-me de duas coisas que queria ser quando crescesse: freira e aconselhadora para apaziguar alma. Crescendo, percebi que as pessoas não gostam quando nos metemos em seus assuntos com um punhado de conselhos que não pediram, eu não gosto. E que ser freira é um chamado que eu nunca estive realmente a fim de atender.

Então, fui sendo.

Se me perguntassem hoje, mas com a mesma intenção de quando eu era criança, o que eu seria quando crescesse, mesmo aos quase quarenta e dois anos de idade, eu responderia com a paixão da menina: o Tim Burton!


O mundo criado pelo menino que se achava normal, enquanto rotulado louco, que se tornou, depois do sucesso, um rotulado excêntrico, é de uma perspicácia aguçada. Sei que a maioria de nós teve uma infância regada às alegrias de ser criança, às brincadeiras, aos planos do que ser quando crescer e que isso é bom e saudável. Só que também há aquelas crianças que, desde sempre, existem de um jeito diferente. Se houvesse um Tim Burton na minha escola, quando eu era menina, talvez tivéssemos nos tornado grandes amigos com roupas esquisitas, ar taciturno e silêncio imperante, porque ao começarmos a conversar,  ele contando sobre os personagens que lhe inquietavam a alma, eu me deslumbraria de vez, e não haveria quem pudesse me tirar daquele universo que ele me permitiu visitar. Talvez, se eu tivesse conhecido um Tim Burton quando criança, desde lá eu já desejaria ser ele quando crescesse.

O universo de Tim Burton me fascina. Seria incapaz de criar algo tão profundo, melancólico e de uma beleza dissimétrica tão encantadora. O artista dos desenhos, da poesia e dos filmes, de tantos talentos, é uma inspiração para mim. Os personagens que traz à vida, bom, alguns estão mortos, mas tudo certo! Continuam interessantemente construídos e contando histórias envolventes.

Frankenweenie

Na verdade, escrevendo a respeito, percebo que cometi uma gafe existencial. Não é que eu realmente queira ser Tim Burton quando crescesse...

Se inventarem um jeito de se voltar ao passado - e que não tenha nada a ver com o Marty McFly tentando voltar para o futuro -, quando voltasse a ser criança eu gostaria de conhecer um Tim Burton na escola. E que ele me permitisse ser sua amiga independente das nossas esquisitices. E que ao me contar sobre os lúgubres e sublimes personagens que lhe habitassem a alma eu finalmente pudesse exercer a função de aconselhadora para apaziguar alma, mas sem ofender ou ultrapassar limites.

Quando eu crescer quero ser.


terça-feira, 23 de outubro de 2012

E se a vida é um cabaré...



Palco é coisa séria, meus caros. Não interessa que seja aquele improvisado no quintal de um apaixonado por arte, na praça principal, nas casas de show ou nos mais importantes teatros da cidade. 

O palco da música eu entendo, ainda que seja como quem observa de longe ou apenas ajuda o espetáculo a acontecer, como a pessoa do backstage. Nos palcos improvisados pipocam a diversidade e tantos talentos que melhor mesmo não tomá-los por menos, porque de lá sempre sai grandiosidade. Sobre os palcos dos teatros da cidade, vocês sabem se andam acompanhando meus escritos. Sobre eles eu ando - humilde, porém apaixonadamente – aprendendo.

No domingo, fui ao Teatro Procópio Ferreira, aqui em São Paulo, para assistir ao espetáculo Cabaret, a produção brasileira do musical da Broadway. Fui sabendo do que se tratava, porque assisti ao filme que consagrou Liza Minelli. Ainda assim, isso aconteceu há tantos anos que meu olhar para o espetáculo estava desatrelado de expectativas. Fui ao teatro para ser surpreendida. Foi exatamente o que aconteceu.

Sally Bowles é uma daquelas personagens que inspiram a criação. Ela nasceu com o livro de Christopher Isherwood, Goodbye to Berlin (1939). Sally também se tornou o personagem central do espetáculo teatral I Am a Camera (1951), de John Van Druten. Porém, foi por meio do musical Cabaret (1966), com texto de Joe Masteroff, que a cantora e dançarina foi consagrada um dos personagens mais marcantes do cenário artístico, caindo nas graças da Broadway. 


Talvez por isso Claudia Raia tenha batalhado tanto até conseguir os direitos do espetáculo. Sally Bowles é um daqueles personagens que trafegam sobre a corda bamba do gosto de sucesso falseado, enquanto se embrenha é na miséria. Uma artista inglesa, vivendo e trabalhando em um clube decadente de Berlim, no período de ascensão do nazismo, lidando com o vício, o amor e todas as mudanças pelas quais a Alemanha passava. 

Em cartaz há quase um ano, e já tendo circulado por outras cidades do país, a versão brasileira de Cabaret é de Miguel Falabella. Com direção de José Possi Neto, o espetáculo surpreende pela produção. O cenário e a iluminação são ingredientes muito bem aplicados no espetáculo, assim como a música, executada por uma orquestra de 14 músicos e conduzida pela maestrina Beatriz de Luca. Aliás, às vezes a orquestra faz a vez de sonoplasta, destacando cenas e ornamentando gestos, além de executar o repertório do espetáculo com canções de John Kander e letras de Fred Ebb. É um trabalho de sincronismo muito bem feito entre músicos e elenco.


Claudia Raia ganha no quê de humor autoinfligido, do qual Sally se vale para sobreviver, talvez, a si mesma. A atriz tem um ótimo timing para revezar drama e comédia, e essa cadência se reflete no desfecho da personagem. Mesmo seu amor nasce da conveniência de quem não tem onde morar e encosta-se ao outro, neste caso, o americano recém-chegado em Berlim, Clifford Bradshaw, muito bem interpretado por Guilherme Magon, um escritor em busca de inspiração para escrever um romance. 


Porém, a trajetória de Sally Bowles não seria apresentada de maneira tão interessante não fosse outro personagem.  O mestre de cerimônias, o MC, interpretado por Jarbas Homem de Mello.


Sou apreciadora do trabalho do Jarbas desde a primeira vez que assisti ao Querido Mundo, de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, em que ele dividia o palco com Maximiliana Reis. Foi a partir deste espetáculo que meu interesse pelo teatro foi amplificado. E apesar de saber que surpreender faz parte do vocabulário artístico de Jarbas, fui mais que surpreendida pela sua interpretação no Cabaret. Há no MC de Jarbas Homem de Mello a excentricidade muito bem pontuada, que nos leva a vê-lo, simbolicamente, como o informante do destino, amigo íntimo dos desfechos. Ele conduz o seu papel com a graça e o deboche necessários.

Cabaret é um espetáculo que acertou ao se aliar a tantos artistas talentosos. Para quem ainda não assistiu, recomendo que o faça logo, assim terá a oportunidade de repetir a dose, o que é, sem dúvida, um sintoma que dos espectadores após o espetáculo. Fica o desejo de assistir novamente.

Agradeço à Bruna Barone pelo convite, aproveitando para parabenizá-la pelo trabalho feito junto à orquestra. Também agradeço à Lucy Puzoni Elias pela agradável companhia.









TEXTO: Joe Masteroff
MÚSICAS: John Kander
LETRAS: Fred Ebb
VERSÃO BRASILEIRA: Miguel Falabella
DIREÇÃO: José Possi Neto
DIREÇÃO MUSICAL E VOCAL: Marconi Araújo
COREOGRAFIA: Alonso Barros
PRODUTORES ASSOCIADOS: Claudia Raia E Sandro Chaim
PRODUÇÃO GERAL: Sandro Chaim

ELENCO
Claudia Raia como Sally Bowles
Jarbas Homem De Mello como MC
Guilherme Magon como Clifford Bradshaw

ATORES CONVIDADOS
Liane Maya
Marcos Tumur

PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS
Kátia Barros
Júlio Mancini

KIT KAT GIRLS
Alessandra Dimitriou
Carol Costa
Clara Camargo
Hellen De Castro
Luana Zenun
Luciana Milano
Raquel Quarterone
Renata Bras

KIT KAT BOYS
Alberto Goya
Daniel Monteiro
Mateus Ribeiro
Renato Bellini
Rodrigo Negrini
Rodrigo Vicente
Tomas Quaresma

ORQUESTRA
Maestrina: Beatriz De Luca



Andrei Presser – Teclado
Angela Bianchi – Contra Baixo
Bruna Barone – Bateria
Bruno Garcia Fermiano – Trompete 1
Caroll Ramgél – Trombone
César Vicente – Violino/Viola 1
Chico Macedo – Reed 1
Claudemir Alves – Trompete 2
Elias Borges (Kibe) – Reed 2
Fabio Petrucelli – Violoncelo
Gabriel Oliveira – Violino/Viola 2
Lucas Bojikian – Piano
Marcelo Manfrinato – Reed 3
Thiago Chaves – Banjo

SERVIÇO
Até 16 de dezembro
Teatro Procópio Ferreira - Rua Augusta, 2.823, Jardins - São Paulo/SP

Quinta-feira: às 21h
Sexta-feira: às 21h30
Sábado (duas sessões): às 17h e às 21h
Domingo: às 18h
Ingressos: de R$ 40,00 a R$ 200,00
Ingressos por telefone: 4003-1212 ou pelo site: www.ingressorapido.com.br
Bilheteria: Terça a Sábado das 14h às 19h; domingo das 14 às 18h ou até o início do espetáculo

INFORMAÇÕES: 11.3083-4475

Censura: 14 anos
Capacidade: 600 lugares
Duração: 2h30



facebook.com/cabaretomusical


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Sobre paraísos




Não é uma história de amor... Mas é. Não é uma história sobre drogas... Mas é. Não é uma história sobre música eletrônica... Mas é. Não é somente, porque tudo se mistura.

Paraísos Artificiais, primeiro longa de ficção de Marcos Prado, e do qual é roteirista ao lado de Pablo Padilla e Cristiano Gualba, é apresentado como “Uma história de amor e êxtase”, mas acredito que seja mais, apesar do amor que pontua a trama e das muito bem dirigidas cenas de sexo, a maioria com personagens em viagens provocadas pelas drogas.

A história é contada entrelaçando três períodos das vidas de Érika (Nathalia Dill) e Nando (Luca Bianchi), ótimos atores que interpretam muito bem os seus papeis. Um deles acontece em paradisíaca praia do nordeste brasileiro, durante um festival de música eletrônica. As pessoas dançam, flertam e usam drogas, algumas por pura diversão e outras, abraçando um quê hippie, estão em busca de uma viagem interior que lhes dê as respostas que procuram. Érika é DJ e faz sua estreia durante o evento. Na companhia de Lara (Lívia Bueno), ela mergulha em si, valendo-se das emoções provocadas pelo sexo e pelas drogas.

Nando foi ao festival com um amigo, Patrick (Bernardo Melo Barreto). No caso dele, o uso de drogas é pela diversão, pela experiência de usá-la durante a rave.


O segundo momento se passa alguns anos depois, quando Nando e Patrick viajam para Amsterdam, na Holanda, e Érika o reconhece em uma festa da qual é DJ, mas ele não. Os dois se envolvem, acabam apaixonados, mas Nando tem de voltar para o Brasil, trazendo drogas, porque precisa do dinheiro. O terceiro momento se passa no Rio de Janeiro, quando Nando sai da prisão, alguns anos depois de ser preso com as drogas, já no Brasil. 

Com uma fotografia impecável e dessa maneira fragmentada, porém muito bem colocada, Marcos Prado constrói uma trama na qual o amor guia os personagens em seus conflitos pessoais, enreda reencontros e mostra como as drogas influenciaram seus destinos. E o mais interessante, o que realmente torna Paraísos Artificiais um grande filme, é que não se toma partido. Não é um filme onde escolhas ruins se separam das boas, como se fosse uma batalha entre o bem e o mal. Nele tudo se mistura e acontece, assim como acontece na vida.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A sorte está lançada



É fato que o tema ‘guerra’ gera ótimos filmes. Porém, não são todos que são bem produzidos, a ponto de não apenas gerarem uma ótima bilheteria, mas também conquistarem a credibilidade destinada somente aos filmes impecáveis, como Apocalypse Now (1979), de Francis Ford Coppola.

Há também os filmes que usam a guerra para introduzir uma história de amor, e isso é exatamente o que acontece em Um homem de sorte (The Lucky One/2012), dirigido por Scott Hicks. Obviamente, estamos falando de mais um filme baseado no livro de um inspirado criador de histórias de amor. Nicholas Sparks se tornou sinônimo de filmes dramáticos e românticos, mas sem apelar para o dramalhão e dando um bom rumo aos clichês que, todos nós sabemos, faz parte da realidade dos apaixonados. E o cinema descobriu que Nicholas Sparks escreve de um jeito para caber nas telas. 

Um homem de sorte é impecável em algo: na fotografia. Não há como não desejar estar naquele lugar, molhar os pés no lago, colocar as flores do jardim nos cabelos, brincar com os cães, morar na casa de Beth Clayton, sua avó e seu filho. Mas vamos começar pelo começo...



Zac Efron é um ator e músico que ficou famoso com a franquia High School Musical, e que vem se construindo como ator de cinema com muita graça. Em 2010, ele deu uma mostra de que leva o cinema a sério em A Morte e Vida de Charlie” (Charlie St. Cloud), de Burr Steers, um filme sobre um rapaz que perde o irmão em um trágico acidente e mantém contato com o espírito dele, o que o torna uma pessoa ensimesmada e esquisita. Em “Um homem de sorte” ele novamente interpreta uma alma atormentada, dessa vez como Logan Thibault, um fuzileiro que, em meio à guerra do Iraque, encontra a foto de uma mulher. A partir daí, ele escapa da morte algumas vezes e atribui àquela foto, àquela mulher, a sua sorte. Quando volta para casa, com problemas para se adaptar na casa da irmã, decide sair em busca de si e da mulher que tanto lhe beneficiou.


Logan encontra Beth (Taylor Schilling), a mulher da foto, em um canil, onde trabalha com a sua avó. Ele até tenta contar a ela, logo que chega, por que está ali, mas acaba não encontrando as palavras e acaba como empregado do canil, onde, ao bom estilo Sparks, um grande amor nascerá.

Um homem de sorte é um bom filme. Alguns momentos nos surpreendem, mas são somente alguns. E a real beleza do filme, repito, está na fotografia, que nos leva a acreditar que, em um lugar como aquele, não há como não nascer um grande amor.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Leitura das primeiras páginas

Agradeço muito às pessoas que participaram do vídeo-leitura do meu livro, o Estopim, os queridíssimos Carolini Lucci, Eduardo Loureiro Jr., Elaine Zannette, Élio Camalle, Franchi Foglia, Graça Cunha, Kléber Albuq uerque, Lucina, Marinete da Silva, Maximiliana Reis, Patrícia Paschoalin, Roberto Bieto, Silvia Falabella, Vera Figueiredo, Vincenzina De Simone e Whisner Fraga. Música Buenos Dias, de Claudio Lucci, com São Quixote.

Confira o vídeo abaixo e se prepare para o lançamento, que será no próximo sábado na Livraria da Vila - Alameda lorena, 1731, São Paulo, das 16h às 19h. Durante o lançamento, apresentação musical de Raquel de Assis (voz) e Paulo Renato Pirozzi (violão), com repertório que inclui as músicas citadas nas aberturas dos capítulos, e que serviram de trilha sonora enquanto eu escrevia o livro.




 Confira também: estopimlivro.blogspot.com

De cabeça e ouvidos abertos


Música, como em qualquer setor da nossa vida, depende das escolhas que fazemos. Não há problema algum em você optar por ser aquele que aprecia o estilo que for de música. Problema há quando você se atém à exclusividade, fechando os olhos – e os ouvidos – para o que acontece além daquilo que você decidiu ser o seu único gosto cabível na sua percepção musical.

Há muitos músicos talentosos por aí, colaborando com compositores inspirados, ou eles mesmos sendo os compositores de suas obras. Não importa mais o instrumento... O instrumentista também pode ter seu próprio trabalho e composto por suas próprias obras musicais.

Com a internet, as opções são tantas que melhor nem mesmo se atrever a contabilizar. E com tantas opções disponíveis, a ideia de exclusividade no gosto, que já era um tanto equivocada, torna-se completamente avessa à liberdade de apreciarmos boa música.

É por conta dessa liberdade que podemos conhecer alguns músicos excepcionais, como Renato Martins, percussionista brasileiro, hoje residente em Bruxelas, que já passou por vários estilos até encontrar o seu próprio, porque não há como defini-lo, principalmente por ele estar em constante processo de transformação.

O que continua o mesmo é o seu talento para fazer o Udu cantar. Na Clínica Criativa Novos Caminhos, que apresentou no IBVF – Instituto de Bateria Vera Figueiredo, no dia 11 de agosto, Renato tocou no Udu a introdução do tema de Missão Impossível. E ele também toca, no Udu, o Hino Nacional.

Não é apenas no Udu que o talento de Renato se mostra. Ao tocar o cajon e a cajita, ele consegue aproveitar a sonoridade dos instrumentos a favor do seu rico vocabulário.

Não é preciso ser percussionista para apreciar a música de um percussionista. E Renato Martins vale a pena ser apreciado. Abrir a cabeça para o que o meio musical está oferecendo é também surpreender-se, constantemente, com talentos como ele.

Trechos da apresentação de Renato Martins no IBVF
   

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Eric McCormack se reinventa em Perception


Foram 187 episódios em oito temporadas nas quais Debra Missing e Eric McCormack pintaram e bordaram da melhor forma possível, oferecendo uma sitcom de qualidade e humor afiado. Will & Grace foi, e continuará sendo, das melhores.

Desvincular-se de Will Truman, o advogado homossexual e suas aventuras com a melhor amiga Grace, uma designer de interiores heterossexual, poderia ser uma aventura das não muito agradáveis, não fosse Eric McCormack um talentoso ator.

McCormack, desde o cancelamento de Will & Grace, em 2006, não teve o mesmo destaque que essa série lhe proporcionou, participando de séries como convidado, entre elas Law & Order: Special Victims Unit e The New Adventures of Old Christine, e atuando na série-animação Pound Puppies, entre outros trabalhos. O que realmente faltava a ele era um papel para que pudesse mostrar que não somente de Will Truman vive o talento de Eric McCormack.




Perception estreou em julho na tevê americana. Uma produção da TNT, traz McCormack como protagonista, dando vida ao complexo Dr. Daniel Pierce, um excêntrico professor de neurociência atormentado pela esquizofrenia, que é contratado pelo FBI para ajudar a resolver os casos mais labirínticos. 

Gênios com transtornos psíquicos severos não são novidade nas telas. O diretor Ron Howard levou aos cinemas a história do gênio da matemática John Nash, com o belíssimo Uma Mente Brilhante (A Beautiful Mind/2001). Monk foi uma ótima série, com um toque cômico, que contava as aventuras do brilhante detetive de homicídios que sofria de Transtorno Obsessivo-compulsivo (TOC), interpretado Tony Shalhoub. Obviamente, Perception tem de provar a que veio, mas em poucos episódios, já provou que McCormack foi a escolha acertada para dar vida ao Dr. Pierce.





Como neurocientista, o Dr. Pierce vive às voltas com a ruminação sobre a sua condição. Afinal, ser um gênio não muda a sua situação. Personagens imaginários o ajudam nos necessários quebra-cabeças oferecidos pela agente do FBI, e sua ex-aluna, Kate Moretti (Rachael Leigh Cook).


O Dr. Daniel Pierce em nada lembra o alegórico e sedutor Will Truman, e isso é um elogio, porque, às vezes, um personagem marca a carreira de um ator de forma que fica difícil reinventar-se. Em Perception, McCormack vem se reinventando com todo o talento que lhe cabe.





MacCormack vem construindo Daniel Pierce com muito cuidado, e os resultados têm sido gratificantes. Acredito que, finalmente, ele recebeu o personagem que merecia para voltar às séries. É bom vê-lo interpretando um personagem tão complexo sem torná-lo uma caricatura. Sendo assim, ele coloca Will & Grace no seu devido lugar, mas respeitosamente: no passado.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A delicadeza de um sonho quase impossível de se realizar


Penso que quem escreve as chamadas dos cartazes dos filmes que estão no cinema não os assistem, o que é pra lá de errado. Neste caso, "Uma fantástica e charmosa história" e "A comédia romântica do ano". Se quem escreveu isso assistiu ao filme, bom, a pessoa é ruim mesmo na percepção ou está apenas copiando o que o outro disse.


Apesar de a própria sinopse do filme tratá-lo como comédia, eu realmente não consigo concordar com isso. Há romance, há drama, há humor, mas não se trata de uma comédia. Quem for ao cinema não encontrará a comédia prometida. Na verdade, os momentos dedicados à serventia do sentido cômico são os que em nada me agradam.


Amor impossível já é um título em português lamentável e não define o filme. O original, em tradução livre, é A pesca do salmão no Iêmen. Ok, trata-se de um título nada sedutor, mas não só de obviedades vive uma obra. Esta é baseada no livro homônimo de Paul Torday.

Nesta história, o salmão é tão importante quanto a história de amor que tentam vender ao espectador. Na verdade, há mais de uma história de amor acontecendo, ao mesmo tempo. Há o amor de um xeique visionário, Muhammed (Amr Waked), pela pesca do salmão e pelo seu povo, assim como há o amor que nasce entre um especialista em peixes, Dr. Alfred Jones (Ewan McGregor), e a responsável pelos negócios do xeique na Inglaterra Harriet (Emily Blunt). E também há a amizade cultivada entre três pessoas completamente diferentes dedicadas a fazer acontecer algo quase impossível, que é implementar a pesca de salmão no Iêmen, no deserto. Enfim, o amor existe, não é impossível, e mesmo o sonho, por mais insano que pareça, é “quase” impossível.


Só que nem tudo flui facilmente. Além de o xeique enfrentar a posição contrária de sua gente ao seu sonho, o Dr. Alfred Jones reluta em trabalhar com o projeto, tratando jocosamente a ideia do xeique e solicitando itens complicados e caríssimos para fazer o projeto virar, porque acredita ser impossível fazê-lo. O que ele não esperava é que o xeique atendesse aos seus pedidos, porque, além de ser apreciador da pesca do salmão, ele também acreditava que ter como praticar a pesca no Iêmen poderia beneficiar seu povo. Aliás, é a admiração pelo xeique que aflora no cientista que faz deste um filme muito especial.


A ideia do xeique não teria dado em nada não fosse a intervenção do governo britânico, que na tentativa de abafar ações do exército no Afeganistão, precisava de uma notícia positiva que envolvesse o Oriente Médio. 

O filme não é uma comédia. Aliás, dele eu tiraria justamente o tom cômico utilizado somente nas citações políticas do filme. Se a ideia era ridicularizar a política quando se trata de abafar escândalos, o que realmente se consegue com os momentos em que aparecem esses interesses e os envolvidos é beirar o ridículo. Esse é o único erro do filme.

Amor impossível conta com a direção de Lasse Hallström (Chocolate/Querido John) e roteiro de Simon Beaufoy (Quem quer ser um milionário/Ou tudo ou nada).

 

quinta-feira, 26 de julho de 2012

As recompensas de Kléber Albuquerque

Pessoas!

O querido amigo e compositor-poeta, que eu adoro, Kléber Albuquerque, iniciou uma campanha de crowdfunding para o seu novo disco. Quem puder, assista ao vídeo e colabore. A música dele merece, e acho que quem pode mesmo sair ganhando nessa somos nós, porque precisamos fazer circular a boa música para fazer bem é para a nossa alma.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Lançamento do livro Estopim

Um vídeo com fotógrafos e artistas plásticos divulgando o meu novo livro, o romance Estopim que será lançado em agosto. Confira o post no blog do livro com link para o vídeo:

http://estopimlivro.blogspot.com.br/2012/07/veja-e-escute-o-livro_18.html


Clique na imagem para vê-la ampliada.


quarta-feira, 11 de julho de 2012

Uma das minhas pessoas preferidas: Selton Mello



Selton Mello é uma das minhas pessoas preferidas. A sua transição das novelas para o cinema foi um ganho e tanto para a cultura brasileira. Nada contra as novelas, aliás, eu sou noveleira assumida. E não que ele tenha abandonado a televisão, até porque algumas das melhores séries brasileiras têm sido protagonizadas por ele. Porém, a série está mais para o cinema do que para o folhetim.

O que venho observando com admiração é o crescimento dessa uma pessoa das minhas preferidas. Um ótimo ator ele já se mostrou em tantos anos de carreira. Há nele (personagem-pessoa ou pessoa-personagem?) uma melancolia que na comédia incrementa e no drama alimenta sutilezas, e tais entretons seduzem o espectador, dão credibilidade aos personagens. Só que Selton Mello é mais do que um ator de primeira. Ele também vem se mostrando um diretor com um olhar atento, capaz de contar histórias em uma cadência própria, aproximando o espectador do personagem.


Feliz Natal (2008), seu primeiro longa como diretor, mostrou o rumo que ele seguiria, a intimidade provocada entre espectador e personagens. O filme aborda a aproximação de Caio - belissimamente interpretado por Leonardo Medeiros – de sua família que mora na capital, após anos afastado por conta de um acontecimento que o levou a se mudar para o interior. Além do drama pessoal de Caio, que se esgueira pela culpa e pela sorte por ter sobrevivido a tal evento, o filme mergulha em questões familiares e em uma época em que as emoções se misturam e são mais intensas. A forma como essa história é contada nos faz sentir a densidade dessas emoções. Foi com este filme que conheci o Selton Mello diretor e gostei... Muito.


Além de ator e diretor, Selton também vem demonstrando sua habilidade como autor. Ele foi coroteirista de Feliz Natal e do poético O Palhaço (2011), ambos em parceria com Marcelo Vindicatto.

De volta para a televisão, ele atuará como diretor da Sessão de Terapia, série adaptada da israelense Be Tipul, que teve várias adaptações, sendo a mais conhecida a americana In Treatment, estrelada pelo talentoso Gabriel Byrne. A estreia da Sessão de Terapia está prevista para outubro.

O que me faz ter Selton Mello como uma das minhas pessoas preferidas - e olha que ainda não o assisti atuando em teatro - é o seu olhar transeunte. Seja como ator, autor ou diretor, ele sempre encontra a forma mais interessante de contar uma história. E eu espero pelo que virá.



segunda-feira, 2 de julho de 2012

Super mãe!

Voltei ao Teatro Gazeta - que é um lugar muito acolhedor - para assistir a comédia Como se tornar uma super mãe em 10 lições. Com texto de Paul Fuke, baseado na obra de Dan Dreenburg, e tradução de Clara Carvalho, através das lembranças de Daniel é construída a história sobre uma típica família judia, destacando a influência da mãe na formação do homem que ele se tornou. Isso é mostrado logo no início, quando ele interrompe sua palestra, no dia em que recebe um importante prêmio, para desfiar uma série de satisfações aos questionamentos cotidianos da mãe, que se encontra no auditório. É então que ele decide revelar ao público como se tornara o homem ali presente, tendo sido criado por uma mãe judia.


Danton Mello conduz Daniel como um adulto que ainda é um menino aos olhos da mãe. Nós sabemos que os pais costumam tratar seus filhos como eternos pimpolhos, mas há um limite que essa mãe se esqueceu de enxergar. E com todos os exageros, o drama, a manipulação por meio da culpa, Ana Lúcia Torre encanta ao dar forma aos absurdos cometidos por essa mãe judia, que ama - e comanda - seu filho.

No silêncio de Ary França, o marido submisso ao poder de fogo da mãe da família, cravam-se os pontos e vírgulas da história. Sua interpretação pontua a dos outros, como se um olhar, uma careta, um gesto ou um som emitido fossem desfechos distribuídos durante o espetáculo.

Flávia Garrafa está muito bem. Ela interpreta a filha da família, mas também dá vida à esposa de um comerciante, um personagem muito engraçado. Como o comerciante, Luciano Gatti se mostra frágil, o que fortalece ainda mais a ideia de mães que conduzem a família. Gatti também interpreta o médico e o psicanalista.

A sintonia entre Danton Mello e Ana Lúcia Torre conduz o espetáculo em um tom que o público aprecia. Em contrapartida ao talento desses atores, à dinâmica com a qual interpretam seus papéis, os presentes reagem da melhor forma que se pode reagir a uma comédia: eles se divertem e gargalham muito. Eu me diverti. Eu gargalhei. E, obviamente, a direção de Alexandre Reinecke colabora, e muito, com a forma como a história é entregue ao público.




Conhecemos as consequências de certas combinações. Um bom texto, por exemplo, se combinado a uma performance mediana, pode se tornar um espetáculo morno. Entretanto, há atores e atrizes que fazem milagres com textos medianos, elevando a qualidade do espetáculo com o seu talento em se expressar no palco. Sendo assim, só nos resta concluir que de nada adiantariam textos fantásticos não fossem atores e atrizes tão fantásticos quanto, capazes de debulhar a trama em performances marcantes. E quando a combinação é essa, quando os atores e atrizes estão entregues a um texto que os merece, o espectador sempre sai ganhando. E o que posso dizer de Como se tornar uma super mãe em 10 lições é justamente isso. No espetáculo, tudo se combina.

Como se tornar uma super mãe em 10 lições é um espetáculo para não se perder.

COMO SE TORNAR UMA SUPER MÃE EM 10 LIÇÕES
com ANA LÚCIA TORRE, DANTON MELLO, ARY FRANÇA, LUCIANO GATTI e FLÁVIA GARRAFA

Sexta às 21h15min
Sábado às 22h
Domingo às 18h

Teatro Gazeta
teatrogazeta.com.br
Av. Paulista, 900 - Térreo
Próx. ao Metrô Trianon
(11) 3253-4102
teatro.gazeta@terra.com.br

Vendas por Telefone
Call Center Livepass
(11) 4003-1527
Horário de atendimento
de segunda-feira a sábado
das 09 às 21 horas

Like Crazy



Publicado originalmente no site
Crônica do Dia, em  20/06/12

Vivemos em processo de idealização e desapontamento. Não há como negar que, sempre que possível, criamos versões para desfechos sobre os quais não temos qualquer poder de mudança, esperando sempre pelo melhor para nós mesmos e para quem amamos.

Não acho isso errado, contanto que saibamos lidar com os possíveis – e frequentes – resultados diferentes e, às vezes, até mesmo contrários aos esperados. É preciso saber desapontar-se.

Like Crazy (2011) aborda bem o tema da idealização, mas de uma forma quase hipnótica, porque, neste caso, o idealizado aconteceu, mas se perdeu nos acontecimentos.

No filme, uma jovem britânica conhece um jovem americano em uma faculdade em Los Angeles, nos Estados Unidos. Eles se apaixonam, ficam juntos durante o tempo que resta da faculdade e então o visto dela expira. Ela tem de voltar para a Inglaterra para fazer a renovação, mas vislumbrando o tempo que teria de ficar longe do seu namorado, decide adiar a viagem, perdendo o prazo para renovação do visto. Quando tenta entrar nos Estados Unidos, com visto de turista, descobre que aquela infração a impedia de entrar no país. A partir daí, Anna e Jacob passam a viver um relacionamento a distância.




Separar duas pessoas completamente apaixonadas por continente é lançá-las ao inesperado. Ainda que nelas sobreviva a noção de que o amor é tão grande que não há como se dobrar à situação, na prática a vida ensina que essa expectativa é das mais traiçoeiras. E quanto maior o amor, mais a falta talha desamparo no espírito desses amantes.

Like Crazy é um filme que lida com delicadeza das emoções mais facilmente decifráveis às que surgem quando o desejo não é atendido, mas sem perder a tensão quando acontecem. O diretor e corroteirista Drake Doremus fez um ótimo trabalho, o que ajuda a destacar as atuações dos protagonistas Felicity Jones e Anton Yelchin. Eles estão ótimos para um filme que dá destaque à atuação e com diálogos muito bem escritos.

É muito interessante a forma como o desfecho do filme é apresentado. Todas as situações que antecederam aquele momento apontavam para ele. Ainda assim, o diretor conseguiu chegar a ele de uma maneira peculiar. É possível enxergar, na cena final, o quanto somos movidos a expectativas que não estamos preparados para descartar, quando a não realização delas instala um vazio incapaz de ser preenchido com outra história, até aceitarmos que sim, a distância modifica relacionamentos.

E o Like Crazy que dá título ao filme é uma das coisas mais bacanas nele.