segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Inquietos

Gus Van Sant é um diretor que agrada a todos, de Hollywood ao cenário independente do cinema, e sem perder a sua identidade.

Os seus filmes implicam em uma jornada interior, independente da história ou de onde vivem os seus personagens. A delicadeza é presente em temas pesados, como em Garotos de Programa (My Own Private Idaho/1991) e Encontrando Forrester (Finding Forrester/2000).

Em Inquietos (Restless/2011) não é diferente. Gus Van Sant faz a sua mágica, fazendo surgir, em um filme que trata de grandes perdas, a beleza de um gostar honesto, vibrante e adepto da imaginação.

Annabel Cotton (Mia Wasikowska) e Enoch Brae (Henry Hopper) se conhecem em um funeral. Ela conhece o falecido, mas ele não. Para Enoch, ir a funerais alheios se tornou uma tarefa cotidiana. Annabel é paciente terminal de câncer, com uma expectativa de vida de três meses. Ao saber disso, Enoch se propõe a acompanhá-la até o seu encontro com a morte.

Mia e Henry estão confortáveis nos papéis de Annabel e Enoch. Isso, por si só, já dá ao filme certa leveza. E os detalhes são enriquecedores, como as roupas que Annabel usa, às vezes caricatas, como se ela vestisse um personagem. Assim como a sua paixão por Darwin e pela natureza. E Hiroshi, amigo imaginário de Enoch, um fantasma de um piloto de caça kamikaze.

Para quem está prestes a perder a vida, Annabel exala a própria, sem que o medo se apodere do tempo que lhe resta. Aos poucos, Enoch percebe a dificuldade de se despedir de Annabel, pois eles se tornaram muito próximos. A partir daí, o espectador passa a conhecer a história dele com mais profundidade.

Inquietos é uma história de amor, e não apenas de um homem por uma mulher, de uma mulher por um homem, entre dois jovens. É uma história de amor à vida, aos afetos, aos desejos, e sobre como nos tornamos mais humanos ao nos desprendermos das vãs certezas, entre elas, a de que temos tempo para.

O filme tem uma linguagem que se aproveita da imaginação para lidar com a realidade, mas sem se perder dela. O roteiro de Jason Lew é impecável. Porém, é na direção que o filme se revela. Inquietos é uma combinação de acertos. Um belo filme para alimentar a alma.




segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O amante secreto

Este é um filme que eu assistirei sempre que precisar de um tanto de poesia na minha realidade. Apesar de dramático, sofrido em tantos aspectos, há uma beleza ímpar nesta obra, certamente amplificada pela direção de Walter Lima Jr.

A ostra e o vento (1998) fala sobre Marcela, ricamente interpretada por Leandra Leal, na sua estreia no cinema, uma adolescente que vive em uma ilha com o seu pai, o faroleiro José (Lima Duarte) e Daniel (Fernando Torres). Entre as várias histórias que se embrenham na trama principal, a mais poética – e profética - é, certamente, a forma como Marcela lida com a descoberta da sua sexualidade, sem que haja uma mulher como referência, e sob a proteção austera de seu pai.

O filme é baseado no livro homônimo de Moacir C. Lopes, e o roteiro é de Walter Lima Jr. e Flávio Tambellini. A ostra e o vento é um mergulho no universo frágil e sagaz de uma personagem que vive, através da imaginação, o que é tolhida de viver na realidade. Marcela convive com a solidão profunda, como se ela fosse a sua companhia reconhecida, com quem ela tagarela feito menina, a quem se confessa feito mulher. E neste cenário, toma por seu amante o vento.

A trilha sonora de A ostra e o vento, tão sedutora quanto o filme, foi composta por Wagner Tiso, exceto a canção-tema, de autoria de Chico Buarque, e a incidental J´attendrai (G. Olivieri / N. Rastelli).


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Através dos preferidos

O ator britânico Matthew Macfadyen

Acredito que a maioria daqueles que apreciam o cinema e a televisão, tenham as suas preferências de ator/atriz e de diretores. Em casos como este, dispensa-se a sinopse, indo direto ao produto, sem medo de errar. Raramente, o filme, a série ou a minissérie desapontam, porque ao escolhermos nossas preferências, contamos com o bom gosto daqueles que escolhem os seus papéis. Não que seja impossível nos desapontar, mas pensando desta forma, certamente é mais raro de acontecer.

Interpretando Mr. Darcy, em Orgulho e Preconceito

Recentemente, assisti pela quinta vez ao filme Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice/2005), de Joe Wright, baseado na obra da escritora inglesa Jane Austen, que eu admiro muito. Neste filme, descobri o ator Matthew Macfadyen, que interpretou o famoso personagem de Austen, o Mr. Darcy. Não é apenas pela complexidade ou por eu ter gosto em me embrenhar em universos de personagens mais densos, mas Macfadyen foi o melhor Mr. Darcy do cinema e da televisão. Ele deu credibilidade a um homem indiferente ao romance, com certa rudeza, mas que, ainda assim, conquista os espectadores.

Macfadyen, então, entrou para a minha lista de preferidos, portanto, dos que assisto a tudo, sem ler sinopses ou dar atenção às críticas. Porém, a jornada está em curso.

Estou assistindo a série inglesa Spooks, uma produção da BBC One e conhecida no Brasil como Dupla Identidade. A série fala sobre a rotina de espiões ingleses do MI-5, o equivalente à CIA dos americanos. Macfadyen é Tom Quinn, personagem que ele viveu nas primeiras três temporadas. Spooks está na décima e última temporada da série.

Como Tom Quinn, esquecemos Mr. Darcy e vemos um homem que vive diversas histórias, mas não consegue viver a sua própria. Além dos casos do MI-5, a vida pessoal dos espiões é abordada, o que torna a série muito mais interessante. O personagem de Macfadyen, por exemplo, mantém um romance com uma mulher que acredita que o nome dele é Matthew (o nome do ator!) e ele é um técnico de informática. Quando a verdade vem à tona, os riscos de se relacionar com quem não é espião ficam bem claros.

E apenas para citar outro ator que aprecio muito, a participação de Hugh Laurie na segunda temporada de Spooks vale ser conferida. O House, da série homônima, vale-se de toda crueza do humor negro do inglês para coordenar o MI-6, que cuida de assuntos internacionais.

Ainda há muito material com a participação de Macfadyen para eu conferir. Entre eles, já está no play a minissérie Perfect Strangers (2001), do qual já assisti o primeiro dos três episódios, e para 2012 o Ana Karenina, mais um filme do diretor Joe Wright.

Do que já assisti, a minissérie Any Human Heart foi das mais gratas surpresas, e não apenas pela participação de Macfadyen. Ela conta também com o fantástico Jim Broadbent, um dos mais versáteis atores ingleses, que participou de filmes como Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway/1994), Iris (Iris/2001), e Gangues de Nova York (Gangs of New York/2002).

Any Human Heart é baseada no livro de William Boyd, também responsável pela adaptação do mesmo para a telinha. A história gira em torno da vida de Logan Montstuart, sendo contada através de flashback pelo personagem aos oitenta anos. A minissérie estreou em 2010, pelo Channel 4.

Logan quer ser escritor. Durante a sua juventude, na companhia dos amigos, a sua busca girava em torno de perder a virgindade, antes de se formar. Assim que o sexo entra na equação, Logan tem uma série de relacionamentos complexos. Ele consegue publicar dois livros, mas depois, o que resta é uma recorrente promessa de arranjar tempo para escrever o próximo, aquele que será o maior sucesso da sua carreira como escritor. Enquanto isso não acontece, ele trabalha em diversas áreas, e com referências históricas e interação ficcional com indivíduos reais, William Boyd costura uma história que mergulha na questão existencial, e também na passagem do tempo que parece, sempre, não nos poupar de passar rápido demais.

Macfadyen interpreta Logan adulto, e o faz com maestria, porque este é um personagem repleto de inquietações, que nunca se sentiu capaz de adaptar, mas que ao mesmo tempo, é de uma doçura e bondade gritantes. Tanto Macfadyen quanto Broadbent, e o mesmo eu digo sobre Sam Clafin, que interpreta o personagem na juventude, fizeram um trabalho muito especial ao construírem um Logan Montstuart crível, que lida com certa inocência com os revezes da sua vida.

Como diz Logan, “cada ser humano é uma coleção de eus; não permanecemos a mesma pessoa conforme seguimos nossa jornada pela vida”, e Any Human Heart aborda as versões de uma existência de forma emocionante.


  

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Vampiros e diários

O sobrenatural tem sido tema de livros, filmes e séries. Apesar de a saga Crepúsculo ter arrebanhado um público significativo, ainda voto, sem medo de errar, no original Drácula de Bram Stoker, filme de Francis Ford Coppola com o talentoso Gary Oldman dando vida - ou morte? - ao personagem, com a elegância e a sedução necessárias para que um matador daquele calibre seja querido por todos. E ainda traz Anthony Hopkins como o popular caçador de vampiros, Van Helsing.

Se Gary Oldman foi sagaz o suficiente para nos fazer apaixonar pelo seu Drácula, sendo que ele não se importava com toda a crueldade que envolvia a existência de tal predador, é a luta pela raspa de humanidade que resta aos vampiros que vem permeando as produções dos últimos anos.

Em 2007, antes do boom das produções vampirescas, a série Moonlight estreou no Brasil. Infelizmente, ela chegou durante a entressafra dessas produções, quando ainda não se sabia do impacto que o tema causaria na indústria, o que a levou a ser cancelada após dezesseis episódios. Mick St. John (Alex O’Loughlin) é um vampiro que sente uma falta gritante de quando era humano, e se dedica a manter a humanidade que lhe resta intacta. Detetive, ele ajuda a resolver casos que envolvem vampiros, enquanto rumina o seu amor por Beth Turner (Sophia Myles), humana e jornalista. Em poucos episódios, Moonlight conquistou muitos fãs pelo mundo, mas não atingiu a audiência esperada e foi cancelada. Era uma ótima série, que certamente se manteria, tivesse estreado um par de anos depois.

Eu era fã da série Moonlight e fui uma das que lamentaram o seu cancelamento, em 2008. Neste mesmo ano, estreou a badalada True Blood, já com a quinta temporada confirmada para 2012.

Em 2009, foi anunciada a estreia de outra série com vampiros como tema. The Vampire Diaries não me convenceu com o seu primeiro episódio, e em meio a tantas séries que eu acompanhava, na época, acabei a deixando de lado. Na verdade, por ter um elenco mais teen, fez-me pensar na saga Crepúsculo, que não me atrai tanto.

Sem episódios inéditos das minhas séries preferidas, decidi dar uma chance a The Vampire Diaries, comprometendo-me a assistir ao menos quatro episódios, assim seria possível perceber se a trama evoluiria ou não.

A terceira temporada da The Vampire Diaries ainda não estreou no Brasil, no canal Warner. Nos Estados Unidos, nove episódios já foram ao ar e inéditos somente a partir de janeiro de 2012.

The Vampire Diaries é baseada em uma série de livros de L. J. Smith. Diferente do que eu pensava, não é uma trama frágil onde apenas desfilam vampiros em um cenário adolescente. A história dos irmãos Salvatore é dramática, densa e muito bem pontuada pelo amor de ambos por Katherine Pierce, no passado, e na atualidade por Elena Gilbert, interpretadas por Nina Dobrev. Ainda assim, é o relacionamento entre Stefan (Paul Wesley) e Damon Salvatore (Ian Somerhalder) que tempera os acontecimentos em Mystic Falls, uma cidade que se mostra o lar de muitos vampiros, lobisomens e bruxas.

Depois de muitos anos longe de Mystic Falls, Stephan volta à cidade. Ele se apaixona por Elena e eles começam um conturbado relacionamento. Logo em seguida, Damon também chega à Mystic Falls, e fica claro ao espectador que o desejo de se vingar do irmão é latente. O motivo nós vamos descobrindo com mais detalhes a cada episódio.

Nos vampiros, as emoções são amplificadas, portanto as brigas entre Damon e Stephan são violentas, ao mesmo tempo em que se percebe, com o desenrolar da trama, que há mais amor do que ódio entre eles.

Damon é um personagem interessantíssimo, porque sendo aquele que desligou a sua humanidade, luta pelo contrário do que luta o seu irmão. Ele não quer se importar, mas sim seguir com a sua vida de predador, o que se torna impossível com a sua volta à cidade, porém não afeta o humor negro do personagem.

Eu assisti as duas primeiras temporadas e os episódios que passaram nos Estados Unidos da terceira. Foram cinquenta e três episódios em uma semana, equilibrando trabalho e extras, dormindo poucas horas por noite, simplesmente porque The Vampire Diaries é fascinante.

The Vampire Diaries
Warner Channel
Quartas, às 22h

Visite: http://warnerchannel.com/series/vampirediaries

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Os fãs perguntaram e ele respondeu

O cantor e compositor Kléber Albuquerque respondeu perguntas enviadas pelos seus fãs, o que resultou na entrevista abaixo.

Cada pessoa sente a música de uma forma diferente. Quais as sensações que as suas músicas te trazem? Pra que lugar dentro de você elas te levam?
Minhas canções trazem-me sensações diferentes, a depender do momento. Geralmente, quando estou compondo, a sensação mais forte é a de necessidade de manifestação, e certa febre que não passa enquanto a canção não termina. Algumas canções me dão uma sensação de nudez, pois vejo meus sentimentos muito expostos nelas. Outras dão a sensação de ensinar coisas a mim. Outras parecem pessoas que encontro na rua.

Você começa a compor pela música ou pela letra?
Geralmente, surge algum verso já escorado por uma intenção de melodia e, a partir daí, vou desenvolvendo a canção até a forma final.

Com que idade você percebeu que já era um artista tão bom?
Obrigado pela gentileza do adjetivo. Percebi que tinha vocação artística muito jovem, por volta de sete ou oito anos. Gostava de inventar músicas para consumo próprio, tinha já a cabeça povoada de melodias. No entanto, na época, gostava mesmo era de desenhar. Fui me interessar mais seriamente por música na adolescência, quando comecei a participar de bandas de rock. Foi então que comecei a compor minhas primeiras canções.

O que você busca como artista?
Penso que a condição de artista seja, mais do que ofício, vocação. Neste sentido, creio que minha busca artística seja mais por um jeito de olhar as coisas e uma vontade de expressar a singularidade desse olhar. Acho que este é o impulso básico que me leva a criar.

O que você acha da política no Brasil?
Acho que a política se faz em vários níveis. No sentido comum de política partidária, percebo uma lenta melhora nos hábitos da política brasileira, em que pesem os constantes escândalos nos noticiários, graças ao cada vez maior acesso das pessoas às informações. Acredito que nosso país vem amadurecendo aos poucos e, no sentido simbólico, vejo uma melhora em nossa autoestima como brasileiros. Mas penso também que a classe política acaba repetindo, numa escala maior e mais devastadora, a mentalidade comum das pessoas no que se refere à distinção entre os interesses individuais e coletivos.

Você acha que é possível trabalhar com ARTE sem Amor?
Acho que sim, pois penso que não pode haver nada que diminua a liberdade artística, mas penso também que faz uma grande diferença quando se faz qualquer coisa com amor.

Qual momento da sua carreira o emocionou mais?
Já vivi momentos muito emocionantes na carreira, mas houve um em especial quando, ao participar de um festival de música, conheci um grupo de cadeirantes que usavam camisetas com a letra de uma canção minha e de Élio Camalle, chamada “Isopor”. Me emocionei quando me contaram da importância desta canção para eles.

A sua família é inspiração para sua composição?
Talvez não diretamente. A vida é inspiração para composição e é mais fácil ver o que está próximo. Então a família, os amigos, as paisagens e pessoas que me cercam acabam tornando-se matéria e inspiração para minhas canções.

Que tipo de música você escuta?
Depende do momento. Normalmente não ouço muita música quando estou compondo, para ouvir melhor as músicas que surgem na cabeça. Mas gosto de eventualmente passear pelo rádio e ouvir as canções que todo mundo ouve. De vez em quando me apaixono por alguma canção e fico ouvindo-a mil vezes. A última canção que me tocou assim foi “Sunday Smile”, do Beirut.

Qual das suas composições demorou mais tempo pra ser finalizada?
Acho que a mais demorada foi “Vigília”, uma canção do meu segundo cd. Fiquei meses com ela pela metade, sem conseguir encontrar uma segunda parte. Depois de muito tempo decidi colocar um pedaço de outra canção inconclusa nela e, assim, consegui finalizar a canção. Um exemplo muito ecológico de reciclagem musical.

Há uma canção de sua autoria que te toca profundamente?
Gosto de uma em especial. Chama-se “Movimento” e está em meu cd “O Centro Está Em Todas As Partes”. Penso que seja minha melhor canção.

Quando você volta para Santo André para alegrar nossa cidade e encher nossos ouvidos de boa música?
Estou sempre voltando a Santo André, terra onde tenho amigos e família. É aquela velha ligação com o rio de nossa aldeia, ainda que seja o Tamanduateí...

Quais são os seus ídolos da vida?
Acho que não tenho ídolos, no sentido corrente da palavra. As pessoas que admiro são demasiado humanas, e eu as vejo assim.

Além da música, você se dedica a algum outro tipo de arte?
Sim. Gosto de literatura, de desenhar, pintar e ultimamente venho me dedicando à videoarte. Também tenho uma ligação muito forte com o teatro.

Qual canção de outro compositor que você gostaria de ter composto?
Muitas. Gostaria de ter composto “Carinhoso”, do Pixinguinha. Também gostaria de ter composto “Parabéns a Você”, mas desde que pudesse receber os direitos autorais pelas execuções.

Qual palavra faz você pensar em felicidade?
A palavra felicidade.

Fazer arte é colaborar para um mundo melhor?
Acredito que sim, num certo sentido. Penso que a Arte não deve ter compromisso de antemão com nada, nem mesmo com um mundo melhor. A função dela é oferecer um tipo de lente muito específico, pela qual podemos observar as coisas. Penso que o exercício deste tipo de observação ajuda a melhorar o mundo.

Quando você compõe em parceria, você contribui com a música e a letra ou vice-versa?
Depende muito da ocasião e do parceiro. Costumo compor tanto letra como música, então às vezes recebo letras para musicar, e em outras, música para letrar. E outras vezes ainda as coisas ocorrem junto, com cada parceiro contribuindo com um pedaço da canção.

Em sua opinião, tudo pode virar música ou poesia?
Imagino que sim. Poesia come de tudo. E a música melhora o sabor.

Curta Kléber Albuquerque no Facebook e acompanhe as novidades sobre a sua carreira.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Sol entre noites

Fui ao lançamento do livro de Whisner Fraga, o Sol entre noites.

Tive o grande prazer de escrever o texto de orelha do livro, convite que me deixou feliz e um pouco temerosa, já que o Whisner é um autor que admiro muito, e um grande amigo.

Abaixo, segue o texto e aqui o link direto para o livro no site da Ficções:
www.ficcoes.com.br/livros/noites.html


Whisner Fraga lança um tema em Sol entre noites, mas cabe ao leitor decidir se irá encará-lo como proposto, ou se, diante de tal jornada, escolherá dividir-se para encarar as – e trafegar pelas – bifurcações que encontrar pelo caminho. Porque esta trama – emaranhada em uma pontuação que indica o ritmo, como se fosse a batuta do maestro cadenciando o silêncio ao ar – requer a entrega de quem não apenas abre o livro e coloca os olhos nas palavras, mas também daquele que mergulha nas páginas a ponto de se misturar a elas. O tema, a imigração libanesa no Brasil, já foi abordado pelo autor em seu emblemático Abismo poente, também publicado pela Ficções Editora, em 2009. Porém Sol entre noites não é apenas a continuação. Há na sua identidade o peso que o ser humano carrega ao ser alvejado pelo sentimento de não pertencer, e não apenas a um país. Este livro não é continuação... Deleita-se na continuidade.

Sol entre noites é uma coletânea de olhares imigrantes. Também são olhares dos que se descobrem estrangeiros às suas origens, a si mesmos, aos seus afetos e às suas vitórias.

Helena, personagem a quem o autor permite transitar por vários dos seus escritos, leva-nos pela mão, enquanto a trama é desenvolvida. Porém não há como determiná-la mulher de corpo presente na história de outros personagens. Para mim, Helena poderia muito bem ser cria da imaginação dos personagens agoniados com as próprias inquietações, tornando-se aquela que tudo observa, escuta, mas que jamais interfere nas decisões ou altera desfechos. Um misto de céu e inferno, o silêncio aos berros, o reflexo no reverso da verdade.

Neste livro, às vezes o que parece certo, determinado, mostra-se uma variação de um sonho, de um apego. Mostra-se plural, e em tantos aspectos que o leitor se perde na poesia que embala a prosa. Porém ele se perde com gosto, para encontrar-se logo adiante.

A realidade é detalhada por meio de metáforas, o que salienta o que dói e o que regozija. A busca é por reconstruir a origem, reconhecer-se nela e, mediante o insucesso, reencontrar-se com a origem adotada, engoli-la, visto que outra opção já não existe. Há uma urgência ferina em decidir quem se é no mundo.

Enquanto discorre sobre os costumes, sobre a forma como os libaneses enxergam, encaram a religião, as ligações familiares, as tradições, o sexo, a lógica, o autor aprimora a sua capacidade de envolver o leitor com a fragilidade eminente em cada certeza. Neste livro, como na vida, nem sempre amor é amor, justiça é justiça, desejo é desejo. Nem sempre o que o autor nos conta é definitivo, cravado no fato. Em alguns momentos, tudo se mistura, e de tal forma que o que sempre nos foi apresentado como intocável deita a cabeça nos nossos ombros.

Whisner Fraga resume a inquietação que permeia Sol entre noites: [eu queria me nutrir com algo que viesse a um só tempo de mim e da terra, algo que fosse cooperativo e mundano, coletivo e imperscrutável.] A inquietação – que também é desejo cravejado de urgências – de caber, de pertencer, de se identificar. De não estar só na sua condição de imigrante da vida.

Carla Dias

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Estreias

Todos os anos, novas séries de televisão são lançadas. A maioria delas é cancelada, ainda nos primeiros episódios, por não conquistar público. Algumas delas têm apenas doze ou treze episódios por temporada, e as super estrelas do cenário das séries ganham até vinte e quatro episódios.

Eu realmente adoro séries, e acompanho, no momento, várias delas. Já escrevi sobre algumas, panfletei, angariei novos fãs, até para as já canceladas, mas com episódios suficientes para contar uma boa história.

Neste ano, três séries estreantes chamaram a minha atenção. São dramas e com temas relevantes, como o herói de guerra que volta para casa, mas é suspeito de colaborar com terroristas. O homem que construiu uma máquina capaz de identificar e prever ações terroristas, descartando crimes considerados irrelevantes, mas que fazem toda a diferença na vida das pessoas que vivem a realidade dele, então, ele passa a agir em prol dessas pessoas, tentando evitar os crimes. E o médico rico e famoso, distante emocionalmente dos seus pacientes, mas correto, honesto, que passa a receber visitas de sua falecida ex-mulher, que se dedicava a uma clínica gratuita, e tenta mudar a forma como ele enxerga a vida.

O que há em comum entre as três séries são os seus protagonistas de cinema. Em Homeland, uma adaptação da série israelense Hatufim/Prisoners of War, Damien Lewis, ótimo ator que trabalhou na série Life e na minissérie Band of Brothers, divide a cena com Claire Daines, que se destacou em filmes como A Viagem (Brokedown Palace), Garota da Vitrine (Shopgirl) e Mod Squad (The Mod Squad). Lewis participou de vários filmes para a tevê, e também pode ser visto nos filmes Um Lugar Para Recomeçar (Na Unfinished Life) e O Apanhador de Sonhos (Dreamcatcher).



Em Person of Interest, além do sempre competente Michael Emerson, o Benjamin Linus de Lost, e J. J. Abrahms (Lost/Fringe) como produtor executivo, a série conta com Jim Caviezel, ator que tem uma lista honrosa de ótimos filmes, entre eles Alta Frequência (Frequency), O Conde de Monte Cristo (The Count of Monte Cristo), A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ) e Olhar de Anjo (Angel Eyes). Sou suspeita em dizer, por ser fã dos dois atores, mas digo mesmo assim: Jim Caviezel e Michael Emerson estão muito bem, obrigada, nesta série.



A Gifted Man pode contar com um quê sobrenatural, afinal, há um espírito que conversa com o protagonista da série. Porém, o tema em nada nos faz lembrar de séries como Medium e Ghost Whisperer. A atuação de Patrick Wilson, de Pecados Íntimos (Little Children), Menina Má.Com (Hardy Candy) e O Vizinho (Lakeview Terrace), dá credibilidade à série e o tom de drama a respeito de um homem que sempre manteve o trabalho em primeiro plano, por isso é bom no que faz, e que por influência da ex-mulher, uma humanista, passa a perceber o mundo além das paredes de sua clínica ou de seu apartamento.



Person of Interest estreará na Warner, no dia 18 de outubro, e A Gifted Man em novembro, na Universal. Homeland estreou no dia 2 de outubro, nos estados Unidos.

Estas são séries que, se seguirem o caminho que apontam nos primeiros episódios, conquistarão seu espaço e o reconhecimento do público. O meu reconhecimento elas já conquistaram.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Como viver sem limites?


Em Sem Limites (Limitless/2011), Eddie Morra (Bradley Cooper) é um escritor com um bloqueio criativo que vive em condições miseráveis. Não é à toa que a namorada o abandona, e a editora a quem deveria entregar um livro, já não acredita mais nele. Eddie está tão no fundo do poço, que confundi-lo com um morador de rua não seria difícil.

A vida de Eddie muda completamente quando ele reencontra um velho amigo, que lhe apresenta um medicamento capaz de fazer com que uma pessoa use 100% do seu cérebro. O escritor com bloqueio criativo, de repente, consegue se lembrar de tudo o que leu, ouviu, viveu em toda a sua vida.

Seria fácil pensar que ele finalmente conseguiu concluir seu livro e se tornou um escritor de Best-seller, e claro que isso acontece. Porém, a grande virada do filme está em outro lugar.

O amigo de Eddie é morto, e ele fica com o suprimento do medicamento. A partir daí, o escritor passa a viver sem limites e a sua história muda completamente. Eddie se lança ao mercado financeiro, virando Wall Street ao avesso, e chamando a atenção do grande empresário Carl Van Loon, interpretado pelo sempre competente Robert De Niro.

A verdadeira trama por detrás da história de um escritor que não consegue escrever se mostra extremamente atraente, e Cooper consegue dar vida a um homem diferente daquele que vemos no começo do filme. A fragilidade do escritor vai se dissipando, e a segurança deste novo homem, amparado por um medicamento que não é comercializado, mas, ele descobre mais tarde, é disputado por muitos, é abalada diversas vezes. E o mais impressionante é como o personagem lida com tal questão. O desfecho do filme é impecável.

O medicamento não opera o milagre de criar habilidades nas pessoas. Ele apenas potencializa, com a utilização de todo o cérebro, o que a pessoa já traz consigo.

Cooper conseguiu construir um Eddie crível, apesar das situações surreais que ele vive. Foi bom ver o ator em um papel sério e complexo, e melhor ainda presenciar ele conduzi-lo no tom certo.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Comédia com quê de humor negro

Paul Rudd é daqueles atores versáteis, apesar de ser mais do que clara a sua tendência a enriquecer as comédias. E não falo apenas das comédias românticas, como a adorável A razão do meu afeto (The Object of My Affection/1998), ou sobre a sua participação na série Friends, como Mike Hannigan, que se casa com Phoeb. Em filmes como Eu te amo, cara (I Love You, Man/2009), quando o personagem Peter Klaven se dá conta de que é amigo apenas das amigas de sua noiva, e que não tem um amigo para chamar para ser seu padrinho, e sai caçando alguém para ocupar o cargo, Rudd consegue a façanha de ser engraçado de um jeito tão dramático e peculiar, que não há como não reconhecê-lo como o grande ator que é.

Em Como você sabe (How Do You Know/2010), a comédia romântica está carregada de certo humor negro. Mesmo o romance é difícil de acontecer ali, não para o personagem de Rudd, George, mas sim para a personagem de Reese Whiterspoon, Lisa.

Pense em como seria se tudo desse errado na sua vida de um jeito tão inesperado que ficaria até difícil de acreditar. Isso acontece com George e com Lisa em um mesmo momento, e cada qual tem de aprender a lidar com as mudanças que chegam. No meio das suas devidas crises, eles se conhecem, e em um encontro pra lá de estranho. Não dá certo, e Lisa se rende ao charme do esportista Matty (Owen Wilson), o tipo de homem que nenhuma mulher em sã consciência gostaria de ter como companheiro de vida, mas que ela decide ser o melhor no momento. Porém, é com George que Lisa trata das suas questões mais importantes.


O filme também traz o sempre fantástico Jack Nicholson como Charles, o pai de George, um empresário genioso, mau caráter e que não dá a mínima ao filho, até que a possibilidade de ir para cadeia entra em cena. Falando em cena, as protagonizadas por Nicholson e Rudd são hilárias. Rudd está muito bem no papel de homem que não sabe o que fazer da vida, depois de ser incriminado por um crime financeiro que não cometeu, e perder tudo.

Como você sabe trata de perdas e ganhos, assim como sobre decisões catárticas que a vida nos apresenta, assim, no susto. Também trata, com bom humor, mas também com quê de tapa na cara, como nos permitimos ser manipulados quando se trata do amor, seja o romântico ou o fraterno. E sobre como isso pode nos levar às escolhas avessas ao que realmente desejamos.

Paul Rudd e Reese Whiterspoon formam um par muito bom neste filme. A dinâmica entre eles é das melhores, e mesmo os personagens coadjuvantes são fantásticos, com participações marcantes. Um bom roteiro, muito bem amarrado, e uma ótima direção de James L. Brooks (Melhor é Impossível/Espanglês).


sexta-feira, 20 de maio de 2011

Élio Camalle se apresenta no CCSP

O cantor e compositor se apresentará no Centro Cultural São Paulo na sexta-feira, dia 03 de junho. Ele apresentará o seu sexto disco, Receita, que retrata, através dos ritmos e canções, as diferentes manifestações das alegrias e dores de amores.

O evento começará às 19h, na Sala Adoniran Barbosa. Acompanhando o músico, estarão Johnny Frateschi, André Freitas e Breno Ruiz. Participação de Vasco Faé.

Élio Camalle - Receita
CSSP - Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000
Paraíso - SP

Informações
Fone: 11.397 4002
ccsp@prefeitura.sp.gov.br

Myspace: http://www.myspace.com/eliocamalleoficial

Seja o entrevistador!


Entre os dias 20 e 31 de maio, você que é apreciador da música e da poesia do cantor e compositor Kléber Albuquerque, poderá enviar uma pergunta para compor a entrevista que será publicada no site do artista.

A entrevista, que será publicada na primeira quinzena de junho, contará exclusivamente com perguntas enviadas pelos fãs, valendo a que recebermos primeiro, quando houver repetição. Entre as perguntas enviadas, Kléber Albuquerque selecionará as 3 mais originais, e os autores das mesmas ganharão o último disco lançado por ele, SÓ O AMOR CONSTRÓI, autografado.

Acesse o site www.kleberalbuquerque.com.br para enviar a sua pergunta.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Crônica do Dia – do virtual ao papel

Há treze anos marcando pontos na internet, o site Crônica do Dia ganhará uma versão impressa. O livro, que conta com a participação de 30 cronistas, sendo que alguns deles ainda colaboram com o site, será lançado em algumas capitais brasileiras, a partir de julho deste ano.

Com o título Acaba não, mundo!, o livro poderá levar às cabeceiras dos leitores do site algumas das mais interessantes crônicas já publicadas no Crônica do Dia.

Conecte-se e se prepare para conhecer este trabalho:

Crônica do Dia
Site oficial: www.cronicadodia.com.br
Facebook: www.facebook.com/cronicadodia
Orkut: www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=1114496
Twitter: www.twitter.com/cronicadodia

Acaba não, mundo!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Olivia, o vídeo

A espera valeu!
A estreia do vídeo OLIVIA, da banda irlandesa STAND aconteceu na quarta, dia 13. A música é ótima e o vídeo ficou bem bacana.



Visite: www.standland.com

quinta-feira, 14 de abril de 2011

U2 - Um show além da música


Ontem, o Estádio do Morumbi (SP) estava lotado para o terceiro e último show no Brasil do U2, da turnê 360º.

Fã desde a época em que começaram a banda, eu não sabia o que esperar, mas esperava ansiosa, como a maioria dos presentes. Fui de pista, então nem tudo da movimentação do palco eu consegui conferir, não vou conseguir dar detalhes a respeito. Porém, certamente o telão nos fez sentir como se estivéssemos em cima do palco, junto com a banda. Isso diminuiu a distância. E em certos momentos do show, a transformação do telão, as mensagens expostas nele, a tradução simultânea do que Bono dizia, enfim, foi um show dentro do show.

Ao subirem ao palco, Larry Mullen Jr., Adam Clayton, The Edge e Bono Vox realizaram meu sonho desde que comecei a cantarolar suas canções, com um dicionário ao lado, que era para entender o que cantavam. E neste momento, também compreendi com mais clareza a importância de músicos que conseguem, décadas depois, manter a sua música com um frescor inigualável. Isso é o que os torna atuais, capazes de arrebanhar novos fãs – na novidade e na idade -, apresentarem-se pelo mundo afora.

O U2 abriu o show dessa quarta com “Even Better Than A Real Thing”, e em pouco tempo, já estávamos entregues ao som peculiar da guitarra de The Edge, ao baixo vibrante de Adam, à bateria ‘cheia’ de Larry, e à voz inconfundível de Bono.

Um show do U2, concluí, não é apenas um show, mas uma viagem através do que nos faz apaixonar pela banda. É o som feito impressão digital, com identidade própria, e as letras que falam de tantas importâncias, como o amor, mas em suas várias versões, chegando mesmo àquele que falta - como reza a canção “Pride (In The Name Of Love). Aliás, quase 90 mil pessoas cantando essa canção com a banda foi de arrepiar.

O áudio do show foi transmitido por rádio e online, ou seja, o público ultrapassou os presentes no Morumbi, chegando a outros países.

Sobem ao palco, também, as convicções da banda, os trabalhos sociais e de conscientização dos quais Bono já se tornou representante. Ele chega a um país sabendo sobre ele, falando com seus políticos, pedindo pela compreensão do que aflige a sociedade e coloca em risco a liberdade do ser humano. Durante o show, houve intervenções no telão, através de imagens e depoimento, mensagens, todas tratando de assuntos que estão aí, e aos quais a maioria de nós dedica a indiferença, como se não nos afetasse em nada, como se não habitássemos o mesmo planeta. Até mesmo as mães das crianças de Realengo foram lembradas.

Esse lado político e social apenas nos leva a outro patamar da música do U2: a humanidade. Ela está presente nas letras, nas ações deles, nos vários agradecimentos verbalizados por Bono a nós, seus fãs, por termos os colocado onde estão hoje. E não é uma declaração vazia, como já vimos em muitos artistas fazerem por puro ibope, em busca da empatia fácil de um público que aprecia ser reconhecido como engrenagem para o sucesso de seus afetos. A jornada do U2 apenas comprova que eles são merecedores de todo sucesso do qual desfrutam, porque eles fazem bom uso dessa oportunidade, e abraçam o mundo e suas questões mais difíceis, durante o caminho. Transformam a necessidade de mudança em canções, e essas canções em ações.

Sendo assim, o show do U2, para mim, não foi apenas entretenimento. Acho que não foi somente isso para todos os presentes, para os que se emocionavam canção após canção, e com as palavras de Bono, com o cenário estampando essas canções. As mensagens que suas canções lançam estão lá, assumidamente importantes, pedindo para que olhemos para nós mesmos, analisemos nossas escolhas, percebamos que somos ONE – um, ao menos nas batalhas que pedem por isso, que significam o bem-estar de tantos, não apenas o nosso.

Rubia e eu, antes do show

O momento mais emocionante para mim foi quando o U2 tocou um trecho de uma música que tenho por hábito cantarolar, antes de dormir. “All I Want Is You” é uma das canções mais belas já compostas.

O primeiro show do U2 que assisti valeu e em todos os sentidos. Era um sonho, agora se realizou, mas minha lista de desejos, onde cabe o que eu quiser, independente se acontecerá ou não, acabei de incluir:

Assistir um show do U2 em uma casa de show para apenas algumas centenas de pessoas, bem de perto.

Sonhar, por que não?

U2 360º Tour
13/04/2011 – Estádio do Morumbi

SET LIST

Even Better Than The Real Thing
I Will Follow
Get On Your Boots
Magnificent
Mysterious Ways
Elevation
Until The End Of The World
I Still Haven’t Found What I’m Looking For
Pride (In The Name Of Love)
The Model - convidado: Seu Jorge
Beautiful Day
Miss Sarajevo
Zooropa
City Of Blinding Lights
Vertigo
I’ll Go Crazy If I Don’t Go Crazy Tonight
Sunday Bloody Sunday
Scarlet
Walk On

BIS
One
Where The Streets Have No Name
Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me
With Or Without You
Moment Of Surrender




quarta-feira, 23 de março de 2011

Whisner Fraga virtual

Whisner Fraga, amigo e escritor que admiro muito, está inaugurando hoje o seu site – www.whisnerfraga.com.br. Quem quiser visitar o espaço encontrará informações sobre os livros que ele já publicou, poesias, contos e por aí vai. Enfim, vale o passeio.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A morte em cena

A morte é tema profundamente explorado nas artes. No cinema, ela tem sido abordada com classe e também com violência, na cadência da rotina, da surpresa, nas condições da espera.

A vida é o que nos prepara para a morte, mas como será a entressafra?

Além da Vida (After Life/2010) é um filme que trata do período entre a vida e a morte, este espaço em que, muitos acreditam, a pessoa é preparada para deixar completamente a realidade que conhece.

Eliot Deacom (Liam Neeson) é diretor de uma funerária e responsável pela preparação dos corpos para o funeral. Anna Taylor (Christina Ricci) é uma professora em um relacionamento complicado com Paul Coleman (Justin Long). Após uma discussão com Paul, Anna sofre um acidente e quando desperta está na mesa de trabalho da funerária.

Anna descobre, não da melhor forma, que Eliot tem o dom de conversar com os mortos que estão em transição entre a vida e a morte. Além de preparar o corpo para o funeral, ele ajuda a pessoa a aceitar que está morta.

Seria tudo muito simples de se entender se o filme não nos embrenhasse em detalhes que nos fazem duvidar se Anna está mesmo morta, e isso acontece durante todo o filme, em questões levantadas por ela e pelo destempero de Eliot, que brada que as pessoas levam suas vidas como se já estivessem mortas, e quando realmente estão, insistem em não querer acreditar no fato.

Paul é impedido de ver Anna na funerária, algo permitido somente aos familiares, mas que Eliot parece ter prazer em impedir. De alguma forma, Paul sente que há algo de muito estranho acontecendo naquele lugar, e passa a desconfiar de que Anna não está morta, principalmente depois de um dos alunos dela alegar que a viu em pé, pela janela.

A partir daí, o espectador muda de opinião várias vezes, e a verdade é que Além da Vida é um suspense que brinca com a nossa certeza, o que torna o filme ainda mais interessante. É um ótimo trabalho de atores – Neeson, Ricci e Long -, com um roteiro bem amarrado e uma direção eficaz de Agnieszka Wojtowicz-Vosloo, também uma dos três roteiristas do filme.


quinta-feira, 3 de março de 2011

O mestre do Samba

A gente pensa que sabe sobre uma série de coisas que apenas conhecemos porque fazem parte da nossa cultura, mas se trata apenas do bom e velho “conhecemos por nome”, não por conteúdo, o que geralmente nos permite conhecer o assunto pelas bordas. Portanto, é preciso um olhar mais atento, certa proximidade para realmente compreender a importância desse fragmento que complementa o cenário geral do que acontece no nosso país.

Na semana passada, assisti a um workshop no IBVF, destinado a mostrar aos presentes como funciona o curso Instrumentos do Samba. E foi tão interessante que cairia bem aos que não tocam um instrumento ou pretendem aprender a tocá-lo. Caberia perfeitamente no aprendizado dos que, por serem brasileiros, interessam-se pela História cultural do nosso país.

O workshop foi ministrado pelo percussionista Julio Cesar, pessoa tão talentosa que, fácil, fácil, faz o coração da gente bater ao ritmo dos tamborins. Ele não é apenas um músico exemplar, mas também um profundo conhecedor do Samba, tendo como educador nessa matéria o pai, o grande Osvaldinho da Cuíca.


Julio Cesar Grupo no Batuka! Brasil 2009

Primeiramente, Julio fez com que os presentes sentissem a pulsação. Se para tudo o que fazemos nessa vida é preciso cadência, imagine para a música, uma dependente completa da capacidade do músico de interpretá-la com suas nuances. E enquanto marcávamos essa cadência, com os pés, como que caminhando pela música, ele nos deu uma aula sobre os instrumentos usados na interpretação do Samba, seja nos grupos, nas rodas de Samba ou nas baterias de escolas de Samba.

Aliás, foi justamente ao gosto do carnaval que o workshop seguiu em frente. A cada participante ele delegou um dos instrumentos: caixas, surdos, tamborins, ganzás e chocalho de platinela (rocar). Aos poucos, e com muita paciência - porque havia pessoas ali que nunca tinham sequer empunhado um daqueles instrumentos, o que dirá de tocá-lo -, ele começou a incluir os instrumentos em uma peça de percussão, explicando como os surdos eram tocados, como as caixas soavam, onde entravam os ganzás e os tamborins de algumas escolas de samba.


No Batuka! Brasil 2009

Eu confesso que estava um tanto apreensiva por ter ficado com o chocalho de platinela. Nunca fui muito boa com o ganzá, e esse modelo me parecia ainda mais assustador. Mas acontece que para ser mestre é preciso sabedoria. E o Julio, o mestre da vez, conseguiu coordenar a todos, mantendo a confiança necessária para o simples que cabe no início de todo aprendizado. Ele nos mostrou que, apesar de não sabermos nada sobre estes instrumentos, somos capazes de aprender a lidar com eles e a fazer música. Sendo assim, mesmo errando o passo, com frequência, senti-me participante, atuante nessa aula, como todos os presentes, o que é muito positivo quando se trata de adquirir conhecimento.

Por exemplo, o workshop me deu embasamento suficiente para escrever este artigo. Posso dizer, com toda certeza, que hoje sei um pouco mais sobre o Samba. Porque, enquanto nos ensinava a tocar os instrumentos, o Julio nos dava uma aula tão importante quanto: a origem do Samba, o perfil dele, de acordo com a região, as modificações nos instrumentos, com o avanço da tecnologia. E um dos pontos altos desse workshop foi a demonstração das diferenças na interpretação da bateria de diversas escolas de samba, um assunto fascinante.


Trecho do workshop no IBVF

Julio Cesar é tão apaixonado pela música, pela percussão, que acaba contagiando a todos. Ele é um instrumentista como poucos, com uma capacidade fantástica de brincar com a dinâmica, de perceber a sonoridade que cabe em cada música. Além do mais, é um ótimo mestre.

Se você tem algum interesse em aprender a tocar percussão brasileira, o curso Instrumentos do Samba está com inscrições abertas. Uma nova classe deve começar no dia 14 de março, e conta com até 6 alunos. Para solicitar informações sobre o curso: cursos@ibvf.com.br. Para saber um pouco mais sobre o Julio Cesar: www.ibvf.com.br/juliocesar.htm.


Fotos © Thiago Figueiredo

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Colocando preço na vida

Repo Men – O Resgate de Orgãos, dirigido por Miguel Sapochnik, faz-me insistir no fato de que não há, no Brasil, o cuidado necessário ao se dar um título em português a um filme estrangeiro. Um dos que mais me incomoda é o filme The Fall, batizado, em terras tupiniquins, Dublê de Anjo. O filme é fantástico, mas como a própria atendente da locadora me disse, ela não se interessou, porque achou que fosse um drama daqueles tão água-com-açúcar, que a faria dormir. Enganou-se profundamente.

Clique AQUI e leia a crônica sobre o filme The Fall.

Portanto, se não há como traduzir o título original, o mínimo a se fazer é colocar um título em português que não remeta a outra trama que não a do filme em questão. Afinal, nem todos gostam de ler sinopses, e nem todas as sinopses descrevem realmente o filme.

Repo Men me interessou antes de ser lançado no Brasil. Fã assumida de Jude Law, um amigo me mandou o link do trailer, e a partir daí, fiz a contagem regressiva, até o filme chegar ao Brasil. Mais do que a presença de Jude Law no filme, também me interessou a presença de outro grande ator, Forest Whitaker, assim como a participação da brasileira Alice Braga.

Voltando ao meu problema com o título, Repo Men trata sim de órgãos humanos, mas ao incluir o subtítulo O Resgate de Orgãos, imaginamos logo um filme sobre tráfico de órgãos, e não é bem assim...

A história se passa em um futuro próximo, quando uma empresa, especializada na criação de sofisticados órgãos mecânicos, domina o cenário dos transplantes em humanos. O que poderia ser considerado um milagre, acaba se tornando um negócio muito lucrativo. Os órgãos são considerados produtos. Assim como, se você não pagar o financiamento da sua casa ou do seu carro, o credor tem o direito de reaver esses produtos, a The Union, a empresa fabricante, tem o direito de reaver os órgãos, após determinado prazo sem pagamento da parcela.

O que mais me intrigou neste filme foi justamente a parte comercial. Não é um filme fácil de digerir, afinal, os Repo Men são coletores de órgãos. Eles têm um equipamento que lhes permite tirar órgãos das pessoas que não efetuaram os devidos pagamentos, independente se elas conseguirão sobreviver ou não, se se trata de um rim ou de um coração, ou seja, tem muito sangue.

Remy (Law) e Jack (Whitaker) são amigos de infância e dos melhores coletores de órgãos da The Union. Eles mantêm uma relação de amor e ódio, desde o início dessa amizade. Jack insiste que Remy não deve deixar a sua esposa definir o que ele deve fazer, principalmente acatar ao pedido dela de ele se tornar vendedor, trabalhando nos escritórios da The Union.

Durante os trabalhos de coleta, Remy e Jack se divertem com a má sorte dos compradores, assim como costumam pregar peças entre si. Para eles, o que fazem é apenas um trabalho, não há nada de errado em reaver um produto que não foi pago.

Em um de seus trabalhos solo, Remy tem de coletar o coração de um músico do qual é fã. Esta é uma das cenas em que percebemos como a lapidação dos conceitos do que é certo e do que é errado pode nos levar a lugares onde não deveríamos estar. Remy ajuda seu ídolo a pilotar a mesa de som, deleita-se com a sua música, e então, anuncia que é hora de reaver o órgão, pergunta se ele quer que ele chame uma ambulância, assim, como um bom funcionário declama as regras para executar o seu trabalho. Porém, as coisas não saem como ele previu, e Remy sofre um ataque cardíaco. Ele passa por um transplante e recebe um coração da The Union.

Passando para o outro lado da questão, Remy percebe o quanto o seu trabalho se equiparava às mortes de autoria de um seria killer, por exemplo. A diferença era que ele tinha o respaldo da justiça, o que ele fazia era legal, e dispensando completamente a necessidade de reflexão. E como qualquer outro comprador, ele tem uma dívida com a The Union, pelo seu novo coração. E como a maioria deles, não tem como pagar essa dívida, passando de caçador à caça.

Baseado no livro de Eric Garcia, com roteiro do próprio e co-autoria de Garett Lerner, Repo Men leva capitalização da ciência ao máximo, colocando preço nas pessoas, nas que jamais terão o poder de guiar essa máquina de fazer dinheiro ou a frieza para participar dessa engrenagem, e estarão sempre nas listas dos coletores, restando apenas as suas próprias vidas para efetuar o pagamento.

Repo Men é um ótimo filme, no qual o espectador tem de estar atento ao que está por trás da violência cometida legalmente.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O amor e o cinema

Eu aprecio muito um bom romance no cinema. Basta ter uma história que me convença e atuações compatíveis com a qualidade da trama. Acredito que contar uma história de amor – trágica ou não – requer talento do escritor ao descrever os acontecimentos, assim como a habilidade do diretor em fazer com que seus atores sigam tal roteiro com uma cadência que lhes permita não passar por tolos. Porque, assim como na vida, falar de amor no cinema pode parecer bobo ao não se acertar o tom ao dizê-lo.

As obras de Jane Austen, romancista inglesa de grande sucesso, têm sido a fonte para ótimos filmes que tratam das relações humanas, e o amor romântico tem seu destaque. Se na imaginação das leitoras de Austen os homens que desfilam em seus livros chamam a atenção pela sua complexidade, o que dizer sobre o Mr. Darcy interpretado por Matthew Macfadyen no ótimo filme de Joe Wright, “Orgulho e Preconceito” (Pride and Prejudice/2005)?

Ainda contando com Kira Knightley como protagonista, como em “Orgulho e Preconceito”, há o belíssimo - em todos os quesitos – “Desejo e Reparação”. Joe Wright tem o olhar certo para romances de época. Sob a sua batuta, eles não se tornam banais. Em “Desejo e Reparação” (Atonement/2007), ele repete a protagonista, Kira Knightley, mas não a cadência. Tendo a Inglaterra e suas complicações políticas, assim como a 2ª Guerra Mundial como pano de fundo, o drama conta a história de um amor arrebatador e repleto de ciladas. Baseado no livro de Ian McEwan, “Desejo e Reparação” é um belíssimo filme, com direção impecável e um ótimo roteiro de Christopher Hampton.

Filmes com o romance como protagonista não são, como dizem boa parte dos mocinhos de plantão, apenas para mocinhas. Aliás, os mocinhos sabem muito bem como contar uma bela história de amor, e às vezes ela é tão inusitada, tão peculiar, que nos deixam sem fôlego. Bom exemplo é o filme francês Betty Blue (37°2 le matin), dirigido por Jean-Jacques Beineix e baseado no livro homônimo de Philippe Djian. Apesar das sandices apresentadas na trama, é incontestável que se trata de uma história de amor, ainda que um tanto torta.

Os brasileiros também sabem muito bem dizer o amor, e quase sempre o fazem com um quê de melancolia que cai bem na nossa versão do sentimento. “Os desafinados” (2008), de Walter Lima Júnior, tem a música como cenário, mas é o amor entre Joaquim (Rodrigo Santoro) e Glória (Claudia Abreu) que dá o tom ao filme. O mesmo acontece com “Não por acaso” (2007) de Philippe Barcinski, que também conta com Rodrigo Santoro como protagonista, interpretando Pedro, que trabalha em uma fábrica de mesas de sinuca. Ele perde a namorada em um acidente e tem de reaprender a se relacionar com uma nova mulher.

Alguns filmes tratam delicadamente o amor, mas justamente porque esse já foi tripudiado, e de tantas formas, que a sutileza é necessária e a profundidade adquirida pelas dificuldades. Em “Assédio” (Besieged/1998), Bernardo Bertolucci desarranja a alma de um europeu que mora em uma mansão herdada por sua tia, e recebe uma africana refugiada, casada, mas com o marido preso, em seu país, para trabalhar para ele. Nesta mansão, ele compõe em seu piano, restringindo seu universo à música. Ao se apaixonar por Shandurai (Thandie Newton), o Sr. Kinsky (David Thewlis) embarca em uma jornada emocional, na qual o amor está presente, assim como a beleza que sempre cabe nos filmes de Bertolucci.

Recentemente, assisti pela quarta vez um dos filmes que fala sobre o amor e suas rusgas, com a dolência e as descobertas que lhe cabem. Para mim, “O despertar de uma paixão” (The painted veil/2007), é um dos filmes mais bonitos e bem feitos ao tratar de um amor unilateral que renasce, tendo a paisagem de uma remota vila da China, completamente tomada pela cólera e pelo atrito entre China e Inglaterra, como cenário do nascimento de um amor correspondido. As atuações de Edward Norton e Naomi Watts são exímias, e o diretor John Curran conduz a trama com maestria. O filme é baseado no livro de W. Somerset Maugham. O roteiro foi escrito por Ron Nyswaner.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Kléber Albuquerque - Canções seminuas


No dia 11 de fevereiro, o cantor e compositor Kléber Albuquerque se apresentará em São Paulo, mostrando, como ele mesmo define, "canções seminuas, vestidas apenas com violão e voz".

E quem estiver a fim de colaborar com o repertório, basta acessar a página pessoal do artista no Facebook e sugerir uma canção:

http://www.facebook.com/profile.php?id=1781077239

Quem quiser apreciar boa música e boa poesia, passe por lá!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O amor e suas mazelas

Ole Bordenal conseguiu criar um cenário para a história que criou. leva o sentimento aonde poucos chegariam.

Há tempos não me doía a alma assistir a um filme, tamanha curiosidade para saber aonde ele me levaria. Há tempos eu não me fascinava com um roteiro que lidasse com as mazelas do amor, com os enganos que cometemos em seu nome, tampouco espreitasse a solidão acompanhada de forma tão contundente.

Ole Bordenal escreveu e dirigiu uma história que realmente não é mais uma nos arrabaldes do amor. Ela tem aquele quê que a destaca, que nos faz parar e pensar se teríamos coragem de encarar a jornada que Jonas, interpretado por Anders W. Berthelsen, o personagem central, encara, às vezes, com a sede dos que querem que o mundo se dane, e em outras, com a carência de quem vê a vida passar, sem sentir profundamente o que seja.

Jonas é um fotógrafo que sonhou viajar pelo mundo e registrar belas paisagens, mas acabou se tornando membro de uma equipe forense, limitando seu talento a clicar mortos em cenas de crime. Casado, tem dois filhos e leva uma vida pacata, sem grandes emoções. Quando se envolve em um acidente automobilístico, conhece Julia (Rebecka Hemsen), quem fica severamente ferida. Ao decidir aparecer no hospital para saber sobre ela, acaba se envolvendo na história de vida de Julia, que está com amnésia, e aceita, assim como a família dela, a ideia de que Jonas é Santiago, namorado de Julia, que todos ansiavam conhecer.

Eu sei... Enquanto você dormia (While You Were Sleeping/1995) já tocou neste ponto. Porém, Não é mais uma história de amor (Kærlighed på film, 2007/Dinamarca) não é comédia romântica, mas suspense carregado de drama, daqueles de dar um nó no espectador. E ao assumir o papel de Santiago, Jonas vai tão longe que acaba se confundindo com essa pessoa. E tudo isso com o Bordenal entregando o final logo no começo do filme.

Este é um filme que acontece do começo ao fim, e não se debruça somente no seu desfecho.

Não é mais... é um filme envolvente, com um ator talentoso levando a trama. E a fotografia é impecável.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Vinho, Giamatti e uma boa história para se apreciar



O que me atrai em Paul Giamatti é que ele não se parece com ninguém, ao menos no que se refere aqueles que cabem no meu gosto. Há certo refinamento neste homem que me agrada profundamente, até mesmo quando interpreta personagens que são pessoas, como Harvey Pekar, importante autor do universo dos quadrinhos, conhecido pelo seu mau humor constante (Anti-Herói Americano/American Splendor, 2003).



Paul Giamatti constrói tão bem seus personagens, que leva o espectador a se envolver profundamente com eles. Seja para rir, para chorar ou para ficar com vontade de bater no personagem, a viagem é sempre uma surpresa agradável. Mesmo no confuso Dama na Água (Lady In The Water, 2006), ele faz valer a sua participação.
Desde o seu lançamento, em 2004, venho ensaiando para assistir Sideways – Entre umas e outras. É uma coisa minha, fico espreitando o objeto de desejo, e, às vezes, demoro muito a desempacotar o presente, mas chego lá... E cheguei, hoje.
Penso que a classificação de filmes como comédia, romance, ação etc, às vezes leva o espectador em geral a perder a chance de assistir a bons filmes. Sideways, apesar da interpretação engraçadíssima de Thomas Haden Church, não me parece uma comédia como a entendemos na indústria cinematográfica. E a prova maior é que, enquanto na caixinha do DVD consta a classificação como “comédia”, e ainda traz os dizeres “uma comédia inteligente sobre amizade e vinho”, em vários sites especializados em cinema ele consta como “drama”, apesar de ter ganhado o Golden Globe de Melhor Filme – Musical ou Comédia. Também levou o de Melhor Roteiro.



Sideways conta a história de Miles, um professor de Inglês depressivo, que tenta publicar um livro no qual nem mesmo ele acredita, enquanto vive e revive a tristeza pelo fim de seu casamento, há dois anos. Sendo apreciador e conhecedor de vinhos, quando Jack (Thomas Haden Church) vai se casar, Miles planeja com o amigo, desde a faculdade, uma viagem de despedida de solteiro, durante uma semana, pelos vinhedos da Califórnia, passando pelas vinícolas da região. Para Jack, um mulherengo que só quer se dar bem, o desejo é pela farra, enquanto Miles mergulha na sua apreciação pelo vinho, a espera excruciante pela resposta de sua agente literária sobre uma possibilidade de edição de seu livro, e nas lembranças de quando esteve em determinados locais com a ex-esposa.



Maya, interpretada por Virginia Madsen, e Stephanie, interpretada por Sandra Oh, são as mulheres que entram no caminho de Miles e Jack, durantea viagem. Aliás, “Sideways” serve como prova de que muita coisa pode acontecer em apenas uma semana.


Sideways é baseado no livro de Rex Pickett, e ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. O diretor e co-roteirista Alexander Payne leu o livro e adorou o tom pessoal e humano da história, assim como o cenário onde se passa. Ele também elegeu tonalidade pastel dos anos 70 para este filme, pedindo ao diretor de fotografia que usasse essa característica, o que funcionou muito bem, pois dá ao espectador uma sensação de conforto, em meio a tantas idas e vindas dos personagens.
Gosto de pensar em Sideways como uma miscelânea, como é a vida de cada um de nós, sem determinar se é comédia, drama, ficção... Está tudo no mesmo pacote. Gosto de pensar que este filme é o que Maya expõe ao explicar a Miles por que se envolveu no mundo do vinho. Após uma bela introdução, explicitando como, ao saborear o vinho, ela imagina o que se passou enquanto as uvas cresciam, como o sol as tocava, se choveu, ela diz “... a bottle of wine is actually alive - it's constantly evolving and gaining complexity.” - uma garrafa de vinho está de fato viva – e constantemente evoluindo e ganhando complexidade, assim como o ser humano.


Aliás, esta cena, a da conversa entre Miles e Mya, na varanda da casa de Stephanie, é uma daquelas em que somente bons atores poderiam tornar bela. Giamatti e Madsen conseguiram. O diálogo sobre vinhos é, na verdade, uma breve incursão nos sentimentos deles.
Sideways é um ótimo filme, com um trabalho fantástico – mais uma vez – de Paul Giamatti.