sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Um dia

Quando pensamos em vinte anos adiante, dependendo da nossa idade vigente, apreciamos o futuro de forma diferente. Há uma série de planos arquitetados, alguns com grande possibilidade de realização, outros nem tanto, ainda assim, eles não saem da nossa lista de projetos futuros.

Futuro é algo que tem voz própria. Apesar de o construirmos a cada dia vivido, ele é o lugar no tempo que inexiste quando o alcançamos, pois ao fazê-lo, ele se torna o presente. Ele é, simplesmente, um berço para os nossos sonhos.

Um dia (One Day/2011) é desses filmes que brincam com o tempo. Muitos filmes fizeram isso, como o De repente é amor (A Lot Like Love/ 2005), filme de Nigel Cole, com Ashton Kutcher e Amanda Peet. Mas acredito que poucos lidaram com a melancolia de forma tão graciosa, como em Um dia.

Emma Morley e Dexter Mayhew passam o dia de sua formatura juntos, 15 de julho de 1988. É assim que se dá início a uma amizade que se estende pela vida afora. Ela é uma garota da classe operária e que sonha em ser poeta, escritora, mas acaba como garçonete em um restaurante mexicano. Ele é um rapaz rico, acostumado às conquistas e aos relacionamentos efêmeros, que acaba como apresentador de um programa de televisão trash. Mas ambos mudam o rumo de suas histórias.



Nas duas décadas que se seguem, eles vivem momentos cruciais, em muitos dos 15 de julho de suas vidas, e não há como não se identificar com eles, nem sempre pela situação em si, mas pela forma como somos conduzidos aos nossos próprios momentos catárticos.

Anne Hathaway, de O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada/2006) e O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married/2008), empresta à Emma o humor gracioso, o sorriso honesto da moça desajeitada e ensimesmada, sempre às voltas com as suas inseguranças. Jim Sturgess, de Across the Universe (2007) e Quebrando a Banca (21/2008), mergulha em um tom sedutor quase escrachado, e que dá crédito ao personagem, construindo uma biografia que se revela, diferente do que Dexter busca, repleta de altibaixos.

Um dia conta com a direção de Lone Scherfig, de Educação (An Education/2009). Baseado no Best-seller de David Nicholls, também o roteirista do filme, o que talvez tenha garantido a ele a dinâmica das emoções vividas por Emma e Dexter, como se o amor que descobrem, logo que se conhecem, tivesse sendo lapidado a cada tombo e a cada conquista.

David Nicholls também é responsável pelo roteiro de um dos filmes mais belos que já assisti, Quando você viu seu pai pela última vez (And When Did You Last See Your Father?/2007), uma adaptação do livro de Blake Morrison, dirigido por Anand Tucker e estrelado por Colin Firth e Jim Broadbent.

Um dia não é apenas um romance, tampouco nada mais que um drama. Na vida, não há como catalogar a nossa história com apenas um gênero, pois somos a mistura de drama, comédia, romance, tragédia e ação. E esse filme trata dessa pluralidade desencadeada pelas emoções com certa pureza, como se estivéssemos ouvindo as confidências de um amigo. E ele não é apenas triste ou somente alegre. Ele é bom e nos faz compreender a importância do tempo das nossas escolhas.


Um dia - trailer




segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Inquietos

Gus Van Sant é um diretor que agrada a todos, de Hollywood ao cenário independente do cinema, e sem perder a sua identidade.

Os seus filmes implicam em uma jornada interior, independente da história ou de onde vivem os seus personagens. A delicadeza é presente em temas pesados, como em Garotos de Programa (My Own Private Idaho/1991) e Encontrando Forrester (Finding Forrester/2000).

Em Inquietos (Restless/2011) não é diferente. Gus Van Sant faz a sua mágica, fazendo surgir, em um filme que trata de grandes perdas, a beleza de um gostar honesto, vibrante e adepto da imaginação.

Annabel Cotton (Mia Wasikowska) e Enoch Brae (Henry Hopper) se conhecem em um funeral. Ela conhece o falecido, mas ele não. Para Enoch, ir a funerais alheios se tornou uma tarefa cotidiana. Annabel é paciente terminal de câncer, com uma expectativa de vida de três meses. Ao saber disso, Enoch se propõe a acompanhá-la até o seu encontro com a morte.

Mia e Henry estão confortáveis nos papéis de Annabel e Enoch. Isso, por si só, já dá ao filme certa leveza. E os detalhes são enriquecedores, como as roupas que Annabel usa, às vezes caricatas, como se ela vestisse um personagem. Assim como a sua paixão por Darwin e pela natureza. E Hiroshi, amigo imaginário de Enoch, um fantasma de um piloto de caça kamikaze.

Para quem está prestes a perder a vida, Annabel exala a própria, sem que o medo se apodere do tempo que lhe resta. Aos poucos, Enoch percebe a dificuldade de se despedir de Annabel, pois eles se tornaram muito próximos. A partir daí, o espectador passa a conhecer a história dele com mais profundidade.

Inquietos é uma história de amor, e não apenas de um homem por uma mulher, de uma mulher por um homem, entre dois jovens. É uma história de amor à vida, aos afetos, aos desejos, e sobre como nos tornamos mais humanos ao nos desprendermos das vãs certezas, entre elas, a de que temos tempo para.

O filme tem uma linguagem que se aproveita da imaginação para lidar com a realidade, mas sem se perder dela. O roteiro de Jason Lew é impecável. Porém, é na direção que o filme se revela. Inquietos é uma combinação de acertos. Um belo filme para alimentar a alma.




segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O amante secreto

Este é um filme que eu assistirei sempre que precisar de um tanto de poesia na minha realidade. Apesar de dramático, sofrido em tantos aspectos, há uma beleza ímpar nesta obra, certamente amplificada pela direção de Walter Lima Jr.

A ostra e o vento (1998) fala sobre Marcela, ricamente interpretada por Leandra Leal, na sua estreia no cinema, uma adolescente que vive em uma ilha com o seu pai, o faroleiro José (Lima Duarte) e Daniel (Fernando Torres). Entre as várias histórias que se embrenham na trama principal, a mais poética – e profética - é, certamente, a forma como Marcela lida com a descoberta da sua sexualidade, sem que haja uma mulher como referência, e sob a proteção austera de seu pai.

O filme é baseado no livro homônimo de Moacir C. Lopes, e o roteiro é de Walter Lima Jr. e Flávio Tambellini. A ostra e o vento é um mergulho no universo frágil e sagaz de uma personagem que vive, através da imaginação, o que é tolhida de viver na realidade. Marcela convive com a solidão profunda, como se ela fosse a sua companhia reconhecida, com quem ela tagarela feito menina, a quem se confessa feito mulher. E neste cenário, toma por seu amante o vento.

A trilha sonora de A ostra e o vento, tão sedutora quanto o filme, foi composta por Wagner Tiso, exceto a canção-tema, de autoria de Chico Buarque, e a incidental J´attendrai (G. Olivieri / N. Rastelli).


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Através dos preferidos

O ator britânico Matthew Macfadyen

Acredito que a maioria daqueles que apreciam o cinema e a televisão, tenham as suas preferências de ator/atriz e de diretores. Em casos como este, dispensa-se a sinopse, indo direto ao produto, sem medo de errar. Raramente, o filme, a série ou a minissérie desapontam, porque ao escolhermos nossas preferências, contamos com o bom gosto daqueles que escolhem os seus papéis. Não que seja impossível nos desapontar, mas pensando desta forma, certamente é mais raro de acontecer.

Interpretando Mr. Darcy, em Orgulho e Preconceito

Recentemente, assisti pela quinta vez ao filme Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice/2005), de Joe Wright, baseado na obra da escritora inglesa Jane Austen, que eu admiro muito. Neste filme, descobri o ator Matthew Macfadyen, que interpretou o famoso personagem de Austen, o Mr. Darcy. Não é apenas pela complexidade ou por eu ter gosto em me embrenhar em universos de personagens mais densos, mas Macfadyen foi o melhor Mr. Darcy do cinema e da televisão. Ele deu credibilidade a um homem indiferente ao romance, com certa rudeza, mas que, ainda assim, conquista os espectadores.

Macfadyen, então, entrou para a minha lista de preferidos, portanto, dos que assisto a tudo, sem ler sinopses ou dar atenção às críticas. Porém, a jornada está em curso.

Estou assistindo a série inglesa Spooks, uma produção da BBC One e conhecida no Brasil como Dupla Identidade. A série fala sobre a rotina de espiões ingleses do MI-5, o equivalente à CIA dos americanos. Macfadyen é Tom Quinn, personagem que ele viveu nas primeiras três temporadas. Spooks está na décima e última temporada da série.

Como Tom Quinn, esquecemos Mr. Darcy e vemos um homem que vive diversas histórias, mas não consegue viver a sua própria. Além dos casos do MI-5, a vida pessoal dos espiões é abordada, o que torna a série muito mais interessante. O personagem de Macfadyen, por exemplo, mantém um romance com uma mulher que acredita que o nome dele é Matthew (o nome do ator!) e ele é um técnico de informática. Quando a verdade vem à tona, os riscos de se relacionar com quem não é espião ficam bem claros.

E apenas para citar outro ator que aprecio muito, a participação de Hugh Laurie na segunda temporada de Spooks vale ser conferida. O House, da série homônima, vale-se de toda crueza do humor negro do inglês para coordenar o MI-6, que cuida de assuntos internacionais.

Ainda há muito material com a participação de Macfadyen para eu conferir. Entre eles, já está no play a minissérie Perfect Strangers (2001), do qual já assisti o primeiro dos três episódios, e para 2012 o Ana Karenina, mais um filme do diretor Joe Wright.

Do que já assisti, a minissérie Any Human Heart foi das mais gratas surpresas, e não apenas pela participação de Macfadyen. Ela conta também com o fantástico Jim Broadbent, um dos mais versáteis atores ingleses, que participou de filmes como Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway/1994), Iris (Iris/2001), e Gangues de Nova York (Gangs of New York/2002).

Any Human Heart é baseada no livro de William Boyd, também responsável pela adaptação do mesmo para a telinha. A história gira em torno da vida de Logan Montstuart, sendo contada através de flashback pelo personagem aos oitenta anos. A minissérie estreou em 2010, pelo Channel 4.

Logan quer ser escritor. Durante a sua juventude, na companhia dos amigos, a sua busca girava em torno de perder a virgindade, antes de se formar. Assim que o sexo entra na equação, Logan tem uma série de relacionamentos complexos. Ele consegue publicar dois livros, mas depois, o que resta é uma recorrente promessa de arranjar tempo para escrever o próximo, aquele que será o maior sucesso da sua carreira como escritor. Enquanto isso não acontece, ele trabalha em diversas áreas, e com referências históricas e interação ficcional com indivíduos reais, William Boyd costura uma história que mergulha na questão existencial, e também na passagem do tempo que parece, sempre, não nos poupar de passar rápido demais.


Macfadyen interpreta Logan adulto, e o faz com maestria, porque este é um personagem repleto de inquietações, que nunca se sentiu capaz de adaptar, mas que ao mesmo tempo, é de uma doçura e bondade gritantes. Tanto Macfadyen quanto Broadbent, e o mesmo eu digo sobre Sam Clafin, que interpreta o personagem na juventude, fizeram um trabalho muito especial ao construírem um Logan Montstuart crível, que lida com certa inocência com os revezes da sua vida.

Como diz Logan, “cada ser humano é uma coleção de eus; não permanecemos a mesma pessoa conforme seguimos nossa jornada pela vida”, e Any Human Heart aborda as versões de uma existência de forma emocionante.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Vampiros e diários

O sobrenatural tem sido tema de livros, filmes e séries. Apesar de a saga Crepúsculo ter arrebanhado um público significativo, ainda voto, sem medo de errar, no original Drácula de Bram Stoker, filme de Francis Ford Coppola com o talentoso Gary Oldman dando vida - ou morte? - ao personagem, com a elegância e a sedução necessárias para que um matador daquele calibre seja querido por todos. E ainda traz Anthony Hopkins como o popular caçador de vampiros, Van Helsing.

Se Gary Oldman foi sagaz o suficiente para nos fazer apaixonar pelo seu Drácula, sendo que ele não se importava com toda a crueldade que envolvia a existência de tal predador, é a luta pela raspa de humanidade que resta aos vampiros que vem permeando as produções dos últimos anos.

Em 2007, antes do boom das produções vampirescas, a série Moonlight estreou no Brasil. Infelizmente, ela chegou durante a entressafra dessas produções, quando ainda não se sabia do impacto que o tema causaria na indústria, o que a levou a ser cancelada após dezesseis episódios. Mick St. John (Alex O’Loughlin) é um vampiro que sente uma falta gritante de quando era humano, e se dedica a manter a humanidade que lhe resta intacta. Detetive, ele ajuda a resolver casos que envolvem vampiros, enquanto rumina o seu amor por Beth Turner (Sophia Myles), humana e jornalista. Em poucos episódios, Moonlight conquistou muitos fãs pelo mundo, mas não atingiu a audiência esperada e foi cancelada. Era uma ótima série, que certamente se manteria, tivesse estreado um par de anos depois.

Eu era fã da série Moonlight e fui uma das que lamentaram o seu cancelamento, em 2008. Neste mesmo ano, estreou a badalada True Blood, já com a quinta temporada confirmada para 2012.

Em 2009, foi anunciada a estreia de outra série com vampiros como tema. The Vampire Diaries não me convenceu com o seu primeiro episódio, e em meio a tantas séries que eu acompanhava, na época, acabei a deixando de lado. Na verdade, por ter um elenco mais teen, fez-me pensar na saga Crepúsculo, que não me atrai tanto.

Sem episódios inéditos das minhas séries preferidas, decidi dar uma chance a The Vampire Diaries, comprometendo-me a assistir ao menos quatro episódios, assim seria possível perceber se a trama evoluiria ou não.

A terceira temporada da The Vampire Diaries ainda não estreou no Brasil, no canal Warner. Nos Estados Unidos, nove episódios já foram ao ar e inéditos somente a partir de janeiro de 2012.

The Vampire Diaries é baseada em uma série de livros de L. J. Smith. Diferente do que eu pensava, não é uma trama frágil onde apenas desfilam vampiros em um cenário adolescente. A história dos irmãos Salvatore é dramática, densa e muito bem pontuada pelo amor de ambos por Katherine Pierce, no passado, e na atualidade por Elena Gilbert, interpretadas por Nina Dobrev. Ainda assim, é o relacionamento entre Stefan (Paul Wesley) e Damon Salvatore (Ian Somerhalder) que tempera os acontecimentos em Mystic Falls, uma cidade que se mostra o lar de muitos vampiros, lobisomens e bruxas.

Depois de muitos anos longe de Mystic Falls, Stephan volta à cidade. Ele se apaixona por Elena e eles começam um conturbado relacionamento. Logo em seguida, Damon também chega à Mystic Falls, e fica claro ao espectador que o desejo de se vingar do irmão é latente. O motivo nós vamos descobrindo com mais detalhes a cada episódio.

Nos vampiros, as emoções são amplificadas, portanto as brigas entre Damon e Stephan são violentas, ao mesmo tempo em que se percebe, com o desenrolar da trama, que há mais amor do que ódio entre eles.

Damon é um personagem interessantíssimo, porque sendo aquele que desligou a sua humanidade, luta pelo contrário do que luta o seu irmão. Ele não quer se importar, mas sim seguir com a sua vida de predador, o que se torna impossível com a sua volta à cidade, porém não afeta o humor negro do personagem.

Eu assisti as duas primeiras temporadas e os episódios que passaram nos Estados Unidos da terceira. Foram cinquenta e três episódios em uma semana, equilibrando trabalho e extras, dormindo poucas horas por noite, simplesmente porque The Vampire Diaries é fascinante.

The Vampire Diaries
Warner Channel
Quartas, às 22h

Visite: http://warnerchannel.com/series/vampirediaries

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Os fãs perguntaram e ele respondeu

O cantor e compositor Kléber Albuquerque respondeu perguntas enviadas pelos seus fãs, o que resultou na entrevista abaixo.

Cada pessoa sente a música de uma forma diferente. Quais as sensações que as suas músicas te trazem? Pra que lugar dentro de você elas te levam?
Minhas canções trazem-me sensações diferentes, a depender do momento. Geralmente, quando estou compondo, a sensação mais forte é a de necessidade de manifestação, e certa febre que não passa enquanto a canção não termina. Algumas canções me dão uma sensação de nudez, pois vejo meus sentimentos muito expostos nelas. Outras dão a sensação de ensinar coisas a mim. Outras parecem pessoas que encontro na rua.

Você começa a compor pela música ou pela letra?
Geralmente, surge algum verso já escorado por uma intenção de melodia e, a partir daí, vou desenvolvendo a canção até a forma final.

Com que idade você percebeu que já era um artista tão bom?
Obrigado pela gentileza do adjetivo. Percebi que tinha vocação artística muito jovem, por volta de sete ou oito anos. Gostava de inventar músicas para consumo próprio, tinha já a cabeça povoada de melodias. No entanto, na época, gostava mesmo era de desenhar. Fui me interessar mais seriamente por música na adolescência, quando comecei a participar de bandas de rock. Foi então que comecei a compor minhas primeiras canções.

O que você busca como artista?
Penso que a condição de artista seja, mais do que ofício, vocação. Neste sentido, creio que minha busca artística seja mais por um jeito de olhar as coisas e uma vontade de expressar a singularidade desse olhar. Acho que este é o impulso básico que me leva a criar.

O que você acha da política no Brasil?
Acho que a política se faz em vários níveis. No sentido comum de política partidária, percebo uma lenta melhora nos hábitos da política brasileira, em que pesem os constantes escândalos nos noticiários, graças ao cada vez maior acesso das pessoas às informações. Acredito que nosso país vem amadurecendo aos poucos e, no sentido simbólico, vejo uma melhora em nossa autoestima como brasileiros. Mas penso também que a classe política acaba repetindo, numa escala maior e mais devastadora, a mentalidade comum das pessoas no que se refere à distinção entre os interesses individuais e coletivos.

Você acha que é possível trabalhar com ARTE sem Amor?
Acho que sim, pois penso que não pode haver nada que diminua a liberdade artística, mas penso também que faz uma grande diferença quando se faz qualquer coisa com amor.

Qual momento da sua carreira o emocionou mais?
Já vivi momentos muito emocionantes na carreira, mas houve um em especial quando, ao participar de um festival de música, conheci um grupo de cadeirantes que usavam camisetas com a letra de uma canção minha e de Élio Camalle, chamada “Isopor”. Me emocionei quando me contaram da importância desta canção para eles.

A sua família é inspiração para sua composição?
Talvez não diretamente. A vida é inspiração para composição e é mais fácil ver o que está próximo. Então a família, os amigos, as paisagens e pessoas que me cercam acabam tornando-se matéria e inspiração para minhas canções.

Que tipo de música você escuta?
Depende do momento. Normalmente não ouço muita música quando estou compondo, para ouvir melhor as músicas que surgem na cabeça. Mas gosto de eventualmente passear pelo rádio e ouvir as canções que todo mundo ouve. De vez em quando me apaixono por alguma canção e fico ouvindo-a mil vezes. A última canção que me tocou assim foi “Sunday Smile”, do Beirut.

Qual das suas composições demorou mais tempo pra ser finalizada?
Acho que a mais demorada foi “Vigília”, uma canção do meu segundo cd. Fiquei meses com ela pela metade, sem conseguir encontrar uma segunda parte. Depois de muito tempo decidi colocar um pedaço de outra canção inconclusa nela e, assim, consegui finalizar a canção. Um exemplo muito ecológico de reciclagem musical.

Há uma canção de sua autoria que te toca profundamente?
Gosto de uma em especial. Chama-se “Movimento” e está em meu cd “O Centro Está Em Todas As Partes”. Penso que seja minha melhor canção.

Quando você volta para Santo André para alegrar nossa cidade e encher nossos ouvidos de boa música?
Estou sempre voltando a Santo André, terra onde tenho amigos e família. É aquela velha ligação com o rio de nossa aldeia, ainda que seja o Tamanduateí...

Quais são os seus ídolos da vida?
Acho que não tenho ídolos, no sentido corrente da palavra. As pessoas que admiro são demasiado humanas, e eu as vejo assim.

Além da música, você se dedica a algum outro tipo de arte?
Sim. Gosto de literatura, de desenhar, pintar e ultimamente venho me dedicando à videoarte. Também tenho uma ligação muito forte com o teatro.

Qual canção de outro compositor que você gostaria de ter composto?
Muitas. Gostaria de ter composto “Carinhoso”, do Pixinguinha. Também gostaria de ter composto “Parabéns a Você”, mas desde que pudesse receber os direitos autorais pelas execuções.

Qual palavra faz você pensar em felicidade?
A palavra felicidade.

Fazer arte é colaborar para um mundo melhor?
Acredito que sim, num certo sentido. Penso que a Arte não deve ter compromisso de antemão com nada, nem mesmo com um mundo melhor. A função dela é oferecer um tipo de lente muito específico, pela qual podemos observar as coisas. Penso que o exercício deste tipo de observação ajuda a melhorar o mundo.

Quando você compõe em parceria, você contribui com a música e a letra ou vice-versa?
Depende muito da ocasião e do parceiro. Costumo compor tanto letra como música, então às vezes recebo letras para musicar, e em outras, música para letrar. E outras vezes ainda as coisas ocorrem junto, com cada parceiro contribuindo com um pedaço da canção.

Em sua opinião, tudo pode virar música ou poesia?
Imagino que sim. Poesia come de tudo. E a música melhora o sabor.

Curta Kléber Albuquerque no Facebook e acompanhe as novidades sobre a sua carreira.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Sol entre noites

Fui ao lançamento do livro de Whisner Fraga, o Sol entre noites.

Tive o grande prazer de escrever o texto de orelha do livro, convite que me deixou feliz e um pouco temerosa, já que o Whisner é um autor que admiro muito, e um grande amigo.

Abaixo, segue o texto e aqui o link direto para o livro no site da Ficções:
www.ficcoes.com.br/livros/noites.html


Whisner Fraga lança um tema em Sol entre noites, mas cabe ao leitor decidir se irá encará-lo como proposto, ou se, diante de tal jornada, escolherá dividir-se para encarar as – e trafegar pelas – bifurcações que encontrar pelo caminho. Porque esta trama – emaranhada em uma pontuação que indica o ritmo, como se fosse a batuta do maestro cadenciando o silêncio ao ar – requer a entrega de quem não apenas abre o livro e coloca os olhos nas palavras, mas também daquele que mergulha nas páginas a ponto de se misturar a elas. O tema, a imigração libanesa no Brasil, já foi abordado pelo autor em seu emblemático Abismo poente, também publicado pela Ficções Editora, em 2009. Porém Sol entre noites não é apenas a continuação. Há na sua identidade o peso que o ser humano carrega ao ser alvejado pelo sentimento de não pertencer, e não apenas a um país. Este livro não é continuação... Deleita-se na continuidade.

Sol entre noites é uma coletânea de olhares imigrantes. Também são olhares dos que se descobrem estrangeiros às suas origens, a si mesmos, aos seus afetos e às suas vitórias.

Helena, personagem a quem o autor permite transitar por vários dos seus escritos, leva-nos pela mão, enquanto a trama é desenvolvida. Porém não há como determiná-la mulher de corpo presente na história de outros personagens. Para mim, Helena poderia muito bem ser cria da imaginação dos personagens agoniados com as próprias inquietações, tornando-se aquela que tudo observa, escuta, mas que jamais interfere nas decisões ou altera desfechos. Um misto de céu e inferno, o silêncio aos berros, o reflexo no reverso da verdade.

Neste livro, às vezes o que parece certo, determinado, mostra-se uma variação de um sonho, de um apego. Mostra-se plural, e em tantos aspectos que o leitor se perde na poesia que embala a prosa. Porém ele se perde com gosto, para encontrar-se logo adiante.

A realidade é detalhada por meio de metáforas, o que salienta o que dói e o que regozija. A busca é por reconstruir a origem, reconhecer-se nela e, mediante o insucesso, reencontrar-se com a origem adotada, engoli-la, visto que outra opção já não existe. Há uma urgência ferina em decidir quem se é no mundo.

Enquanto discorre sobre os costumes, sobre a forma como os libaneses enxergam, encaram a religião, as ligações familiares, as tradições, o sexo, a lógica, o autor aprimora a sua capacidade de envolver o leitor com a fragilidade eminente em cada certeza. Neste livro, como na vida, nem sempre amor é amor, justiça é justiça, desejo é desejo. Nem sempre o que o autor nos conta é definitivo, cravado no fato. Em alguns momentos, tudo se mistura, e de tal forma que o que sempre nos foi apresentado como intocável deita a cabeça nos nossos ombros.

Whisner Fraga resume a inquietação que permeia Sol entre noites: [eu queria me nutrir com algo que viesse a um só tempo de mim e da terra, algo que fosse cooperativo e mundano, coletivo e imperscrutável.] A inquietação – que também é desejo cravejado de urgências – de caber, de pertencer, de se identificar. De não estar só na sua condição de imigrante da vida.

Carla Dias

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Estreias

Todos os anos, novas séries de televisão são lançadas. A maioria delas é cancelada, ainda nos primeiros episódios, por não conquistar público. Algumas delas têm apenas doze ou treze episódios por temporada, e as super estrelas do cenário das séries ganham até vinte e quatro episódios.

Eu realmente adoro séries, e acompanho, no momento, várias delas. Já escrevi sobre algumas, panfletei, angariei novos fãs, até para as já canceladas, mas com episódios suficientes para contar uma boa história.

Neste ano, três séries estreantes chamaram a minha atenção. São dramas e com temas relevantes, como o herói de guerra que volta para casa, mas é suspeito de colaborar com terroristas. O homem que construiu uma máquina capaz de identificar e prever ações terroristas, descartando crimes considerados irrelevantes, mas que fazem toda a diferença na vida das pessoas que vivem a realidade dele, então, ele passa a agir em prol dessas pessoas, tentando evitar os crimes. E o médico rico e famoso, distante emocionalmente dos seus pacientes, mas correto, honesto, que passa a receber visitas de sua falecida ex-mulher, que se dedicava a uma clínica gratuita, e tenta mudar a forma como ele enxerga a vida.

O que há em comum entre as três séries são os seus protagonistas de cinema. Em Homeland, uma adaptação da série israelense Hatufim/Prisoners of War, Damien Lewis, ótimo ator que trabalhou na série Life e na minissérie Band of Brothers, divide a cena com Claire Daines, que se destacou em filmes como A Viagem (Brokedown Palace), Garota da Vitrine (Shopgirl) e Mod Squad (The Mod Squad). Lewis participou de vários filmes para a tevê, e também pode ser visto nos filmes Um Lugar Para Recomeçar (Na Unfinished Life) e O Apanhador de Sonhos (Dreamcatcher).



Em Person of Interest, além do sempre competente Michael Emerson, o Benjamin Linus de Lost, e J. J. Abrahms (Lost/Fringe) como produtor executivo, a série conta com Jim Caviezel, ator que tem uma lista honrosa de ótimos filmes, entre eles Alta Frequência (Frequency), O Conde de Monte Cristo (The Count of Monte Cristo), A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ) e Olhar de Anjo (Angel Eyes). Sou suspeita em dizer, por ser fã dos dois atores, mas digo mesmo assim: Jim Caviezel e Michael Emerson estão muito bem, obrigada, nesta série.



A Gifted Man pode contar com um quê sobrenatural, afinal, há um espírito que conversa com o protagonista da série. Porém, o tema em nada nos faz lembrar de séries como Medium e Ghost Whisperer. A atuação de Patrick Wilson, de Pecados Íntimos (Little Children), Menina Má.Com (Hardy Candy) e O Vizinho (Lakeview Terrace), dá credibilidade à série e o tom de drama a respeito de um homem que sempre manteve o trabalho em primeiro plano, por isso é bom no que faz, e que por influência da ex-mulher, uma humanista, passa a perceber o mundo além das paredes de sua clínica ou de seu apartamento.



Person of Interest estreará na Warner, no dia 18 de outubro, e A Gifted Man em novembro, na Universal. Homeland estreou no dia 2 de outubro, nos estados Unidos.

Estas são séries que, se seguirem o caminho que apontam nos primeiros episódios, conquistarão seu espaço e o reconhecimento do público. O meu reconhecimento elas já conquistaram.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Como viver sem limites?


Em Sem Limites (Limitless/2011), Eddie Morra (Bradley Cooper) é um escritor com um bloqueio criativo que vive em condições miseráveis. Não é à toa que a namorada o abandona, e a editora a quem deveria entregar um livro, já não acredita mais nele. Eddie está tão no fundo do poço, que confundi-lo com um morador de rua não seria difícil.

A vida de Eddie muda completamente quando ele reencontra um velho amigo, que lhe apresenta um medicamento capaz de fazer com que uma pessoa use 100% do seu cérebro. O escritor com bloqueio criativo, de repente, consegue se lembrar de tudo o que leu, ouviu, viveu em toda a sua vida.

Seria fácil pensar que ele finalmente conseguiu concluir seu livro e se tornou um escritor de Best-seller, e claro que isso acontece. Porém, a grande virada do filme está em outro lugar.

O amigo de Eddie é morto, e ele fica com o suprimento do medicamento. A partir daí, o escritor passa a viver sem limites e a sua história muda completamente. Eddie se lança ao mercado financeiro, virando Wall Street ao avesso, e chamando a atenção do grande empresário Carl Van Loon, interpretado pelo sempre competente Robert De Niro.

A verdadeira trama por detrás da história de um escritor que não consegue escrever se mostra extremamente atraente, e Cooper consegue dar vida a um homem diferente daquele que vemos no começo do filme. A fragilidade do escritor vai se dissipando, e a segurança deste novo homem, amparado por um medicamento que não é comercializado, mas, ele descobre mais tarde, é disputado por muitos, é abalada diversas vezes. E o mais impressionante é como o personagem lida com tal questão. O desfecho do filme é impecável.

O medicamento não opera o milagre de criar habilidades nas pessoas. Ele apenas potencializa, com a utilização de todo o cérebro, o que a pessoa já traz consigo.

Cooper conseguiu construir um Eddie crível, apesar das situações surreais que ele vive. Foi bom ver o ator em um papel sério e complexo, e melhor ainda presenciar ele conduzi-lo no tom certo.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Comédia com quê de humor negro

Paul Rudd é daqueles atores versáteis, apesar de ser mais do que clara a sua tendência a enriquecer as comédias. E não falo apenas das comédias românticas, como a adorável A razão do meu afeto (The Object of My Affection/1998), ou sobre a sua participação na série Friends, como Mike Hannigan, que se casa com Phoeb. Em filmes como Eu te amo, cara (I Love You, Man/2009), quando o personagem Peter Klaven se dá conta de que é amigo apenas das amigas de sua noiva, e que não tem um amigo para chamar para ser seu padrinho, e sai caçando alguém para ocupar o cargo, Rudd consegue a façanha de ser engraçado de um jeito tão dramático e peculiar, que não há como não reconhecê-lo como o grande ator que é.

Em Como você sabe (How Do You Know/2010), a comédia romântica está carregada de certo humor negro. Mesmo o romance é difícil de acontecer ali, não para o personagem de Rudd, George, mas sim para a personagem de Reese Whiterspoon, Lisa.

Pense em como seria se tudo desse errado na sua vida de um jeito tão inesperado que ficaria até difícil de acreditar. Isso acontece com George e com Lisa em um mesmo momento, e cada qual tem de aprender a lidar com as mudanças que chegam. No meio das suas devidas crises, eles se conhecem, e em um encontro pra lá de estranho. Não dá certo, e Lisa se rende ao charme do esportista Matty (Owen Wilson), o tipo de homem que nenhuma mulher em sã consciência gostaria de ter como companheiro de vida, mas que ela decide ser o melhor no momento. Porém, é com George que Lisa trata das suas questões mais importantes.


O filme também traz o sempre fantástico Jack Nicholson como Charles, o pai de George, um empresário genioso, mau caráter e que não dá a mínima ao filho, até que a possibilidade de ir para cadeia entra em cena. Falando em cena, as protagonizadas por Nicholson e Rudd são hilárias. Rudd está muito bem no papel de homem que não sabe o que fazer da vida, depois de ser incriminado por um crime financeiro que não cometeu, e perder tudo.

Como você sabe trata de perdas e ganhos, assim como sobre decisões catárticas que a vida nos apresenta, assim, no susto. Também trata, com bom humor, mas também com quê de tapa na cara, como nos permitimos ser manipulados quando se trata do amor, seja o romântico ou o fraterno. E sobre como isso pode nos levar às escolhas avessas ao que realmente desejamos.

Paul Rudd e Reese Whiterspoon formam um par muito bom neste filme. A dinâmica entre eles é das melhores, e mesmo os personagens coadjuvantes são fantásticos, com participações marcantes. Um bom roteiro, muito bem amarrado, e uma ótima direção de James L. Brooks (Melhor é Impossível/Espanglês).