segunda-feira, 13 de março de 2017

Mariachi Gringo


Mariachi Gringo (El Mariachi Gringo/2012) é um desses filmes no qual esbarramos muito sem querer, do qual nada mais esperamos, além de entretenimento, e que nos surpreende de uma forma agradável. É como quando encontramos dinheiro nos bolsos de um casaco que não usamos há tempos.

A qualificação dos filmes me deixa incomodada. Certamente, a pessoa que o qualificou não assistiu ao filme, leu o título e achou que havia entendido tudo. Dirigido por Tom Gustafson e escrito por Cory Krueckeberg, Mariachi Gringo não é comédia. Ao contrário, conta história de um homem de quase trinta anos, que vive em uma cidade do interior, leva uma vida, assim mesmo, levando. Alguém que não sabe quem é ou quem poderia se tornar.

Shawn Ashmore, que interpreta o personagem em questão, é conhecido por suas participações em séries e filmes. Particularmente, gosto muito do trabalho dele na série The Following, e a mais recente é Conviction. A maioria, porém, deve conhecê-lo como Iceman, o Homem de Gelo dos filmes X-Men e Esquadrão de Heróis.

Em meio a uma crise existencial, guiada por remédios para depressão, Robert conhece um mexicano, dono de um bar que frequenta, que desperta novamente nele o desejo de voltar à música. Quando mais jovem, antes da crise atual, Robert tinha o sonho de sair por aí com sua banda. A música não é algo visto com bons olhos pela família, principalmente pela mãe. Na verdade, eles a consideram completamente sem importância.

A paixão de Alberto (Fernando Becerril) por Guadalajara (México) e pela música Mariachi, encanta Robert de tal forma, que ele pede para que o dono do bar El Mariachi o ensine a tocá-la. A amizade deles se estreita, conforme Robert aprende mais sobre o México, sua música e os Mariachis, os intérpretes dessa música.


Com o aprendizado, Robert vai se fortalecendo, sentindo-se mais vivo. Quando Alberto fica doente, ele se sente tão desalentado, que decide encarar uma nova jornada: tornar-se um Mariachi em Guadalajara.

A princípio, a história nos leva a imaginar diversos desfechos. Porém, durante o desenrolar da trama, percebemos que tudo o que tínhamos por certo vai caindo por terra, como acontece ao próprio personagem principal. 

O espectador acompanha as nuances da história e há momentos para gargalhadas, porque assim funciona a vida. Porém, Mariachi Gringo é um drama, relacionado ao estado de espírito de quem decide, depois de encarar a depressão e a impossibilidade de sair do lugar, a aventura de mergulhar em uma cultura completamente diferente da sua, e lá encontrar sentido para existir.

O próprio espectador se sentirá atraído por Guadalajara. Compreenderá um pouco melhor os Mariachis, perceberá que é muito fácil cair nas tramas alheias e não conseguir se desvencilhar delas. E também o valor da cultura de um povo, assim como dos laços que criamos com aqueles que encontramos durante a jornada da nossa vida.

E ainda tem Lila Downs... 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Voando para Casa | Uma boa história


Eu gosto de boas histórias. Às vezes, elas não me chegam por meio de livros ou filmes, que são as principais fontes das histórias que aprecio. Às vezes, eu esbarro com elas, como quando uma senhora passava mal, em frente onde trabalho, e em vez de entrar, ela preferiu seguir, porque no quarteirão seguinte estava o dentista com quem tinha hora marcada, alguém que a conhecia e poderia levá-la para casa. Então, eu a levei até lá. Demoramos um pouco para completar esse quarteirão. Ela se sentia um pouco melhor, mas tinha artrite, suas pernas doíam. Durante o caminho, ela me contou sobre sua paixão pela música e pelos gatos. Ela desejou ser pianista, quando menina, mas o pai não permitiu. Tornou-se ouvinte assídua de respeitáveis mestres da música clássica e popular. Após os filhos se casarem, vendo-se sozinha em casa, optou pela companhia dos gatos, e não poderia ter feito escolha melhor. Sentia-se feliz com eles.

Naquele dia, além de uma boa história, ganhei um longo abraço e a gratidão de Norma por eu tê-la levado a um lugar seguro, quando se sentia fragilizada. Essa é apenas uma das histórias que tenho para contar, porque alguém quis me contar a sua.

Jan Decleir interpreta Jos Pauwels, o dono do pombo cobiçado pelo sheik.
Sobre uma das minhas histórias, quem me conhece sabe que tenho sérios problemas com lagartixas e pombos. Ao contrário de mim, esses seres adoram intervir na minha vida. Elas caindo na minha cabeça. Eles voando contra a minha pessoa e me dando sustos. Isso significa que eu jamais escolheria um filme com lagartixas ou pombos, ou ambos no elenco. Mas o fiz hoje, para o bem desse eu que adora uma boa história.

Decidi assistir Voando para Casa (Flying Home/2014), por causa do ator. Quando gosto de um ator ou atriz, assisto aos filmes dos quais eles participam. Neste, o irlandês Jamie Dornan é o protagonista. Eu o aprecio como ator, mas não por conta do - para o meu gosto - inexpressivo 50 Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey/2015). Antes deste filme, eu o assisti na ótima série The Fall, que maximizou a boa impressão que tive dele, por conta de sua participação no filme Maria Antonieta (2006) e da série Once Upon a Time.

Escrito e dirigido por Dominique Deruddere, Voando para Casa conta a história de Colin Montgomery (Jamie Dornan), um empresário ambicioso de Nova York, que se vê diante de um desafio: convencer um sheik árabe a se tornar cliente de sua empresa. Ao visitar o sheik, que já decidira fechar negócio com outra empresa, ele se vê diante de uma oportunidade de conquistá-lo como cliente. O sheik cria e treina pombos e tem o desejo de conseguir um que esteja apto a participar de uma das mais importantes corridas do gênero. Ele acredita que seria possível ganhar a prestigiosa corrida de Barcelona, se conseguisse comprar o pombo de um homem que vive na Bélgica, mas que se nega a vendê-lo. Conseguir o tal pombo para o sheik se torna a missão de Montgomery. Assim, ele parte para Flandres com nome e história inventada, a não ser um único aspecto.


O filme é simples. Simples como escutar sua avó ou sua mãe lhe contar uma história de família sobre pessoas que você nunca conheceu. Há romance, mas, honestamente, esse é apenas um aspecto do filme. Não toma conta dele. Outros relacionamentos pesam mais, como o de pais com filhos, dos próprios criadores de pombos com essas criaturas, dos cidadãos com sua região, do homem com o poder que se mostra menos importante do que as relações humanas. Você sabe aonde o filme o levará, porém, a sutileza com a qual o espectador é levado ao desfecho é o que faz a diferença em Voando para Casa. Trata-se de uma história bem contada, que remete ao fato de que, às vezes, por conta da série de conquistas que almejamos alcançar, esquecemos de que somos pessoas, e de que nem sempre precisamos do que desejamos intensamente.

VOANDO PARA CASA | TRAILER

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Hugh Laurie | Chance

Chance | Foto: Reprodução
Eu estava apegada ao Kenneth Branagh. Assisti Voltar a Morrer (Dead Again/1991) e queria mais. Até hoje ele é dos meus atores e diretores preferidos. Na época, quando internet era realidade que não a minha, descobri outro filme no qual, assim como em Voltar a morrer, ele atuou e dirigiu.

Para o resto das nossas vidas | Foto © Samuel Goldwyn

Para o resto de nossas vidas (Peter’s Friends/1992) conta a história de Peter Morton (Stephen Fry), que herdou de seu pai o título de lorde e uma mansão. Para celebrar, ele reúne um grupo de amigos da época da faculdade para um final de semana na tal mansão. É um filme singelo e muito interessante, que os amigos trazem seus dramas para a vida de Peter, quem tem um segredo para revelar que se sobrepõe as questões de seus amigos.


Foi assim que eu conferi, pela primeira vez, um trabalho de Hugh Laurie.

Alguns anos e algumas participações em filmes depois, fiquei sabendo que Dave Matthews (Dave Matthews Band) participara de um episódio de uma série que eu, que adoro séries, tinha escolhido não assistir, porque já havia três na lista de favoritas que tinham a ver com médicos. Como não sou de começar pela metade, decidi assistir a série do primeiro episódio ao 15º da terceira temporada, o tal com a participação do músico. Foi assim que Hugh Laurie entrou de vez para a lista das minhas benquerenças.

House, M.D. | Foto: Reprodução
House, M.D. foi uma série de sucesso, com oito temporadas. Laurie construiu um personagem que jamais será esquecido. E por mais talentoso que ele fosse, ele apropriara-se de tal forma de House que eu tinha a impressão de que o médico acabaria arranjando um cantinho no puxadinho de seus próximos personagens.

Mr. Pip | Foto: Reprodução
O primeiro trabalho de Laurie que conferi, após o fim de House, apagou essa possibilidade dos meus sentidos. Mr. Pip (2012) é um filme delicado, uma adaptação do livro do neozelandês Lloyd Jones, com roteiro e direção de Andrew Adamson, uma parceria entre Austrália, Papua Nova Guiné e Nova Zelândia.

Mr. Pip é conduzido por Matilda Naimo (Yzannjah Matsi), uma das habitantes de  Bougainville, Papua Nova Guiné, que passa por uma guerra. Por esse motivo, apenas um homem branco permaneceu na ilha, Tom Watts (Laurie). Em meio à guerra e ao abandono, Watts começa a ler Grandes Esperanças, de Charles Dickens, na escola da ilha. Matilda fica maravilhada com o livro, e passa a lidar com a guerra e as perdas, apoiando-se na sua imaginação.

Mr. Pip é um belíssimo filme sobre como uma pessoa pode fazer diferença na vida de outra, de maneira valiosa. É uma história repleta de nuances, que nos leva do aqui ao ali em um misto de desolação e esperança. Um filme agridoce, com um Laurie quase sempre silente e sendo fantástico.

Chance | Foto: Reprodução
Em outubro, estreou a série Chance, com Hugh Laurie como protagonista. Senti novamente aquele questionamento: será que House vai tomar conta? Isso porque a série coloca Laurie novamente em contato com a medicina.

Chance conta a história do neuropsiquiatra Dr. Eldon Chance, que passa por um divórcio e percebe que sua mente anda acessando lugares obscuros, principalmente quando se vê enredado em uma trama de manipulação e abuso ao se envolver com uma de suas pacientes que sofre de múltiplas personalidades.

Hugh Laurie é um ator daqueles que marcam o espectador, mas não na conta de apenas um personagem. Chance é uma ótima série, mas é outra.

Foto: Reprodução
Desde Para o resto de nossas vidas, tem sido prazeroso acompanhar a carreira de Hugh Laurie. Não importa a categoria: drama, comédia, suspense. Até mesmo as linguagens se misturam: cinema, televisão, música, literatura. O que sei é que ele é um daqueles artistas que nos fazem mergulhar em seus feitos, e isso é muito agradável.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O Relutante Fundamentalista


Há filmes que são preciosidades. Muitos deles, tornam-se atemporais, pois abordam o ser humano em sua inegável capacidade de ser benevolente, assim como cruel. Há também aqueles que são brilhantes em sua abordagem, que nos levam a olhar para grandes tragédias como que observando cada criminoso, cada vítima. Há uma proximidade que nos leva a observar com mais intimidade nosso próprio comportamento.

O Relutante Fundamentalista (The Reluctant Fundamentalist) é um desses filmes que nos inquieta e nos leva a uma jornada interior. Parte de um ato terrorista, com milhares de vítimas, e aporta na vida de um único personagem, alguém que sofre as consequências de tal ato, o que se mostra revelador, apontando um comportamento que tendemos a trazer para a vida de cidadão comum.


O filme é pontuado pelo momento em que o professor paquistanês Changez (Riz Ahmed) aceita conceder uma entrevista ao jornalista americano radicado no Paquistão, Bobby Lincoln (Liev Schreiber), sobre a época em que estudou nos Estados Unidos e se tornou um ilustre analista financeiro em Wall Street, sua volta a Lahore e o momento atual, quando sua família sofre ameaças constantes.


Trata-se de um “antes e depois” do paquistanês. A ideia de focar em um personagem para ilustrar a situação dos muçulmanos que viviam nos Estados Unidos, após o 11 de setembro, oferece intimidade que permite ao espectador se colocar no lugar dele. Porém, O Relutante Fundamentalista não trata somente de um lado das partes envolvidas em tal episódio. O filme demonstra que, em tempos de terrorismo, a verdade nem sempre tem espaço, o que é triste e se reflete no nosso cotidiano.

O sonho de Changez era ser quem se tornou. Apesar de a família insistir pela sua volta ao Paquistão, ele escolheu seguir seu próprio caminho. Então, ser quem se tornou já não importava mais. Vieram os rótulos, as deduções, as detenções. A transformação de Changez, até o momento em que decide voltar para Lahore, acontece pela pressão por ele ser um paquistanês, um muçulmano vivendo em Nova York.

De volta a Lahore, tornou-se um professor querido pelos alunos, e por isso, visto como um líder. Então, um professor americano é sequestrado no Paquistão, e as suspeitas caem sobre Changez.


A entrevista, o que Lincoln traz para esse encontro, a série de armadilhas para a compreensão de um a respeito do outro, mostram O Relutante Fundamentalista como um filme sobre a fragilidade humana diante das tragédias. Sobre como o ódio entre os de díspares culturas pode engolir até mesmo aqueles que ainda querem, precisam e acreditam na verdade.

O Relutante Fundamentalista  é uma coprodução entre EUA, Inglaterra e Qatar. Baseado no livro do paquistanês Mohsin Hamid, dirigido pela indiana, radicada nos Estados Unidos, Mira Nair, foi lançado em 2012. Também conta com as participações de Kiefer Sutherland e Kate Hudson no elenco.

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NOTA
Encontrei pela internet sites, artigos e imagens promocionais que trazem o título em português do filme como O FUNDAMENTALISTA RELUTANTE. Este é o título do livro de Hamid. O título do filme é O RELUTANTE FUNDAMENTALISTA, como consta no site da distribuidora [clique aqui e confira] e você pode tirar a dúvida conferindo ambos, filme e livro, clicando aqui.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

Elas e as importâncias


O conteúdo é dolente, mas tem humor desprovido do sensacionalismo que impera nos telejornais. É justamente na crueza do ocorrido que se debruça o espetáculo. O humor conduz o espectador à contemplação do que a maioria tende a não observar com a devida atenção, mas que acontece às mulheres do mundo, não somente àquela que você não conhece. Acontece também àquela do pequeno mundo que é a casa ao lado, ou a sua própria.

Fui assistir ao espetáculo Os Monólogos da Vagina pela quarta vez, no Teatro Gazeta, em São Paulo. Penso que seria muito interessante se você, que não sabe do que se trata, assistisse também. Homens são muito bem-vindos. Não pensem que é só para mulheres, por conta do título. Alguns que conheço já tiveram essa dúvida, mas fiquem tranquilos que é espetáculo para todos.

[Se quiser ler sobre a apresentação de comemoração de quinze anos de espetáculo, clique AQUI.] 

Acredito que, se você assistir ao espetáculo uma única vez, já fará uma grande diferença, que ao contrário do que tentam provar por aí, arte é um veículo fantástico, não somente para alimentar o espírito das pessoas, para inspirá-las aos devaneios e reflexões (o que já maravilhoso!), mas também para registrar e contar histórias relevantes, como neste caso. 

Eve Ensler, autora de Os Monólogos da Vagina, colheu depoimento de mais de duzentas mulheres, de várias partes do mundo, sobre sexo, relacionamentos e violência doméstica. Alguns relatos incluídos no espetáculo são contundentes e provocam o espectador a se perguntar como é possível alguém passar por aquilo em tempos modernos. Pelo jeito, a nossa capacidade de lutar contra abusos não anda se modernizando com a urgência desse espanto. Ao contrário, tendemos a fazer de conta que não temos nada a ver com isso, assim não precisamos lidar com tais questões, que apesar de parecerem pessoais, são globais. 

No palco, as atrizes interpretam situações que algumas das mulheres entrevistadas viveram. Torna-se impossível aceitar o fato de que mulheres ainda passem por aquelas situações. Os depoimentos muitas vezes levam os espectadores às gargalhadas, até chegarem ao ponto de escancarar o problema. A reação do público é imediata, como deveria ser no diariamente, diante da privação de direitos das mulheres, do desrespeito aplicado a muitas delas... Muitas de nós.

A mulher vem se posicionando com mais energia e coletivamente, apontando os abusos sofridos, mas muitas delas ainda escondem sua condição da família, dos amigos, como se fossem culpadas por serem vítimas. Esse pensamento é que precisa ser mudado. Pode levar tempo, mas creio que o processo foi iniciado. 

Além do mais, cai por terra qualquer esforço dessas mulheres em se apresentar quando a política, as leis, as pessoas que têm como função orientar e atender às necessidades dessas mulheres se tornam seus algozes.

Os Monólogos da Vagina é um resumo do que a mulher ainda tem de enfrentar, apesar de toda modernidade de hoje em dia. Trata de um cenário que, em vez de melhorar, agarra-se a um retrocesso que deveríamos – e nós todos, como seres humanos e cidadãos – encarar como inadmissível, e nos unirmos para soluções, não para gerar mais rótulos e aumentar estatísticas, endossar violência.

Adriana Lessa, Cacau Melo e Maximiliana Reis interpretam lindamente, e com o devido respeito, a experiência de mulheres que, em alguns casos, nem mesmo compreendem a violência que sofrem. São reféns em suas casas, aprisionadas pela cultura de seu país, pela religião herdada.

Eu poderia relatar o que me encantou na forma como as atrizes conduzem o espetáculo. Mas, na verdade, creio que será muito mais interessante se você aparecer por lá para vê-las no palco. É feito um balé de interpretações ora graciosas, ora calcadas no humor, para então abraçarem a dramaticidade que as histórias carregam. 



Acredito que muito do que julgamos ser clichê são verdades gritantes. Porque, sim, é difícil imaginar uma mulher sofrer violência física e emocional pelo simples fato de ser mulher, o que a faz ter de lutar para defender o que lhe é de direito. Talvez a questão seja essa, e não somente para as mulheres. Tratar-nos como seres humanos, em primeiro lugar, pode nos libertar da ideia – completamente equivocada – de que somos melhores ou mais importantes do que o outro; que temos o direito de escravizar, corpo e alma, de outro ser humano.


Paulo Renato Pirozzi, Maximiliana Reis, Raquel Pirozzi, Adriana Lessa e Carla Dias.

Clique AQUI e leia comentário de Miguel Falabella.
Clique AQUI para informações sobre o espetáculo.


OS MONÓLOGOS DA VAGINA
Com Adriana Lessa, Cacau Melo e Maximiliana Reis

Temporada | Até 7 de agosto

Teatro Gazeta
Avenida Paulista, 900 | São Paulo, capital
Informações | 11.3253 4102 – teatro.gazeta@terra.com.br

Horário | Sexta às 21h | Sábado às 21h | Domingo às 20h

Compre online clicando AQUI.

Texto | Eve Ensler
Adaptação e Concepção Original | Miguel Falabella
Elenco | Adriana Lessa, Cacau Melo e Maximiliana Reis - Sônia Ferreira (standing)
Visagismo | Anderson Bueno
Trilha composta | Ricardo Severo
Operação de Som | Mattheus Chaves
Operação de Luz | Lucas Nascimento
Figurinos | Anderson Bueno e Milton Fucci Júnior
Cenário 2012 | Cássio L. Reis
Montagem de vídeo | Fábio Lima
Produção 2016 | R&M Brasil Produções Artísticas


domingo, 17 de abril de 2016

A Paixão Segundo Nelson


Acabei de chegar em casa. Acabei de chegar em casa, vinda do teatro. Não é de meu feitio escrever a respeito das minhas aventuras como espectadora de feitos artísticos, assim, no mesmo dia. Gosto de ruminar. Sou ruminadora por natureza. Mas não hoje. Acabei de chegar do teatro e sinto uma vontade imensa de falar sobre o que vi.

Falarei, então. Melhor... Escreverei.

Você pode pensar: ah, mas é só um espetáculo! Uma pena mesmo será se você não puder ver o que vi, pouco antes de chegar em casa, vinda do teatro. Então, dizer a si: “ah, que espetáculo! ”

Assisti ao A Paixão Segundo Nelson [uma farsa musical brasileira], no Teatro Bradesco, aqui em São Paulo. Com adaptação dos textos de Nelson Rodrigues feita por Zeca Baleiro, quem também assina as canções originais. Eu que ando nesse apaixonamento pelo teatro sendo amplificado a cada vez que assisto a um bom espetáculo, ganhei hoje a oportunidade não só de ver personagens de Nelson Rodrigues desfilarem pelo palco, mas tais personagens serem interpretados de uma forma que me fez acreditar completamente neles. Houve esse momento em que me senti espectadora dentro da história. Uma vizinha bisbilhotando a vida alheia e com sucesso.

Não ter intimidade com as obras de Nelson Rodrigues não é impedimento para quem deseja assistir a um espetáculo que é uma lindeza. Há delicadeza na brutalidade das histórias daqueles personagens, e um humor refinado, que inspira não somente a gargalhada, mas a gargalhada acompanhada de uma fisgada de inquietação. Daquelas fisgadas que doem na alma.

A direção de Débora Dubois deu ao espetáculo ritmo e profundidade. A música de Zeca Baleiro não dá tom de musical ao espetáculo, mas o envolve de tal forma que se apresenta como aquele personagem outro, que sem ele todo o resto poderia desmoronar. A liga. O laço. A benção. O abraço.

Mais uma vez, Jarbas Homem de Mello fez um trabalho impecável. Eu disse e repito: ele é capaz de fazer os personagens se deslumbrarem por ele, porque ao se apossar deles, Jarbas faz com que se rendam a sua capacidade de trazê-los, de forma crível e rica, à vida.

Roberto Cordovani faz um belo trabalho incorporando/interpretando Myrna, um dos pseudônimos femininos de Nelson Rodrigues. Fez-me voltar no tempo, de quando o vi pela primeira vez e fiquei fascinada por sua figura. Na época, ele estava em cartaz com o espetáculo “O Retrato de Dorian Gray”. Na época, eu não fazia ideia do que poderia acontecer em um palco, ou quem era Dorian Gray. Eu estava somente começando minha jornada no mundo das artes. Foi emocionante, finalmente, vê-lo nesse palco que aprendi a respeitar.

Os atores em A Paixão Segundo Nelson fizeram um trabalho de uma beleza daquelas de comover. Bom também ver no palco Rui Rezende, Vanessa Gerbelli e Helena Ranaldi. Cada ator que participa do espetáculo construiu parte dessa jornada iniciada por Zeca Baleiro e Débora Dubois. Aliás, somente um apreciador da obra de Nelson Rodrigues poderia ter adaptado seus textos para tal espetáculo com tamanha coerência e fluidez.

Cheguei em casa ontem... Sim, já é ontem. Cheguei feliz que só, por ter assistido a um ótimo espetáculo sobre uma figura importante do repertório artístico brasileiro, que reuniu muita gente boa. Não é preciso conhecer a obra de Nelson Rodrigues para se deleitar com A Paixão Segundo Nelson [uma farsa musical brasileira]. É preciso não perder o último dia do espetáculo em São Paulo.

Aproveite para fascinar-se.

A Paixão Segundo Nelson [uma farsa musical brasileira]
17 de abril | Último dia!
Teatro Bradesco
Rua Palestra Itália, 500 | 3 piso do Bourbon Shopping
Perdizes | São Paulo


INGRESSOS
> Na bilheteria do Teatro Bradesco
> Pela internet: teatrobradesco.com.br


FICHA TÉCNICA
DIREÇÃO E CONCEPÇÃO | Débora Dubois.
ADAPTAÇÃO DE TEXTOS E CANÇÕES ORIGINAIS | Zeca Baleiro.
ELENCO | Giselle Lima, Helena Ranaldi, Jarbas Homem de Mello, Lula Lira, Marcos Lanza, Roberto Cordovani, Rui Rezende e Vanessa Gerbelli.
MÚSICOS | Adriano Magoo e Billy Magno.
PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS (em off) | Cauby Peixoto, Jards Macalé, José Mayer, Juca de Oliveira e Mel Lisboa.
ASSISTENTE DE DIREÇÃO E PARTICIPAÇÃO ESPECIAL | Luis Felipe Correa.
DIREÇÃO DE ATORES | Fernando Neves.
DIREÇÃO DE MOVIMENTO | Fernando Neves e Jarbas Homem de Mello.
ASSISTENTE DE DIREÇÃO DE MOVIMENTO | Cris Rocha e Erica Monteiro.
PREPARADORA VOCAL | Ana Luiza.
DIREÇÃO MUSICAL E TRILHA INCIDENTAL | Adriano Magoo e Zeca Baleiro.
DESENHO DE LUZ E OPERAÇÃO | Wagner Pinto.
DESENHO DE SOM E OPERAÇÃO | Guilherme Ramos.
SONOPLASTIA | Sergio Fouad.
GRAVAÇÃO OFF | Adriana Maciel, Leonardo Nakabayashi, Sergio Fouad e Walter Costa.
CENOGRAFIA | Duda Arruk.
ASSISTENTE DE CENOGRAFIA | Fernando Passetti.
CENOTÉCNICO | Ezequiel Tiburcio Jr..
PRODUÇÃO CENOTÉCNICA | Mara Cesar.
ASSISTENTE CENOTÉCNICO | Alex Farias.
EQUIPE CENOTÉCNICA | Edmir Filgueiras, Carmos Tiburcio e Thiago Taveira.
PRODUÇÃO DE OBJETOS | Márcio Vinicius.
FIGURINOS | Marichilene Artisevskis e Leopoldo Pacheco.
CRIAÇÃO DE MAQUIAGEM E CARACTERIZAÇÃO | Leopoldo Pacheco.
PERUCAS | Emi Sato.
MAQUIAGEM | Claudinho Hidalgo.
COSTURA | Judite Gerônimo de Lima.
ALFAIATE | Miguel Ange Arua.
TURBANTES E MAIÔS | Desolina Martinati.
ADEREÇO DE FIGURINO | Luís Rossi (FCR Produções).
DESIGNER GRÁFICO | Pietro Leal.
FOTOS DIVULGAÇÃO | Gal Oppido.
FOTOS MAKING OFF | Larissa Cardoso.
FOTOS DE CENA | Daniela Albuquerque.
REGISTRO VIDEOGRÁFICO | Jhonny Luz.
DIRETORA TÉCNICA | Vanessa Campanari.
MICROFONISTA | Pollyana Oliveira.
TÉCNICOS DE PALCO | Alexandre Peixoto da Silva e Umberto Alves.
CAMAREIROS | André Rocha, Luciano de Freitas, Sandra Matos e Renata Reis.
PERUCARIA | Kerolaine Amorim.
ASSESSORIA DE IMPRENSA | Casé Assessoria.
FINANCEIRO E LEI | Sonia Odila.
ASSESSORIA JURÍDICA | Dra. Raquel Lemos.
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO | Beto Muller.
CAPTAÇÃO DE RECURSOS | Bia Wetzel.
CAPTAÇÃO DE PARCERIAS | Amalia Tarallo.
EQUIPE DE PRODUÇÃO | Fabrício Sindice, Vanessa Campanari e Thiago Marchine.
PRODUÇÃO EXECUTIVA E ADMINISTRAÇÃO | Marisa Medeiros.
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO | Deco Gedeon e Edinho Rodrigues.
REALIZAÇÃO | Brancalyone Produções, Fidellio Produções e Opus.



terça-feira, 12 de abril de 2016

Estúpido Cupido | O Musical

Foto: Reprodução
A cada vez que vou ao teatro, aumenta consideravelmente meu afeto por essa vertente artística. Admiro mais e mais aqueles que têm o talento de levar acontecimentos a um palco, chegando ao ponto de contar uma história. Falando em afeto, desta passagem pelo teatro vou guardar o assanhamento considerável da minha memória afetiva por conta da música.

Domingo passado, foi a última apresentação da temporada do espetáculo Estúpido Cupido no Teatro Gazeta, em São Paulo. O musical marca a comemoração de 50 anos de carreira da protagonista, Françoise Forton, o que também inclui a exposição A Incansável Guerreira da Arte.

O repertório do espetáculo é formado por canções que tocavam em todas as festas da minha infância... Desculpem, mas eu avisei: memória afetiva. E parece que a memória não era somente minha. Os presentes vibraram e cantaram junto com os hits dos anos 60 e 70 e de festas da infância e adolescência de muitos deles.

Estúpido Cupido conta a história de Maria Tereza, a Tetê (Françoise Forton), ex-miss que se tornou uma atriz de sucesso e apresentadora de programa de tevê, que é convencida por sua amiga Ana Maria (Clarisse Derzié Luz) a ir a um baile de reencontro dos amigos do colégio. Esse baile traz trilha sonora e figurino da época do colégio, quando as paixões eram urgentes e o futuro cabia no final de semana.



Foto: Reprodução

A leveza de Estúpido Cupido é ingrediente necessário para visitar o passado. O que me ganhou foi o “antes e depois” da biografia dos personagens acontecendo ali mesmo, no palco. Enquanto a versão atual dos personagens - ainda que esbarrando em levezas - desfiavam questões que ganham importância e urgência somente com o passar do tempo, com a experiência adquirida, como alegrias e tristezas da carreira e do casamento, por exemplo, a versão da época do colégio, muito mais apaixonada e apaixonante, apesar de tão escolada em desfiar uma e outra crueldade, circula pelo mesmo palco, promovendo um flashback ao vivo e conversas entre as versões de um mesmo personagem.

Colocar no mesmo palco as versões da época do colégio e atuais dos personagens foi uma ótima forma de se ligar o passado ao presente, de se desnudar aquela percepção melhorada que a nostalgia, às vezes, nos leva a abraçar. Nem tudo que vem de lá, do passado, chega ao presente na versão original. Não somos apenas nós que mudamos... A forma como nos lembramos de algumas passagens de nossa vida também sofre transformação. É isso que Tetê entende ao reencontrar sua paixão da época de colégio.

Interessante também foi mencionar, de forma realmente espirituosa, ingredientes do universo tecnológico – que quem não curte e compartilha não tem festa de arromba -, que assim como as pessoas, e principalmente por conta delas, o mundo também muda.

Quando nesse cenário, pincelado com músicas tão agradáveis, às vezes até pueris, inclui-se uma jovem fã de Annita, Daniele (Carla Diaz), observa-se, então, as diferenças entre o que era popular nos anos 60 e 70 e o que é popular em 2016. Obviamente, trata-se de um filão cultural, tanto de uma época quanto da outra. Uma citação de uma variedade de estilos. Mais do que isso, travou-se uma comparação comportamental inevitável, que levou o público a desfrutar com mais gosto do humor que o espetáculo oferecia.

Estúpido Cupido é um musical de celebração da carreira de Françoise Forton, mas também uma revisitação. Maria Teresa, a Tetê do espetáculo, foi o personagem que a atriz interpretou na novela homônima de Mário Prata, sucesso nos anos 70. Porém, a referência ao folhetim para por aí. A Tetê do musical tem história própria.

Essa passagem pelo teatro foi agradável, com direito ao assanhamento de boas memórias. Se a ideia de Françoise Forton era levar ao palco o encontro entre a ingenuidade de uma época e as intempéries de outra, podemos dizer que Estúpido Cupido cumpriu seu papel.

Celebrar uma carreira de personagens marcantes, como Tetê, rendeu ao público um ótimo espetáculo.Sendo assim, caso o espetáculo aporte na sua região, aproveite e embarque, que Estúpido Cupido é um agrado dos bons.  

FICHA TÉCNICA
Ficha Técnica
Texto: Flávio Marinho
Direção: Gilberto Garwronski
Elenco: Françoise Forton, Luciano Szafir, Clarisse Derzié Luz, Renato Rabelo, Sheila Matos, Carla Diaz, Luísa Viotti, Júlia Guerra, Ryene Chermont, Ricardo Knupp e Mateus Penna Firme
Direção Musical: Liliane Secco
Coreografia: Mabel Tude
Cenários e Figurinos: Clívia Cohen

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

SEM RETORNO | Quantas pessoas você quer ser para viver para sempre?




Ele não passou pelas salas de cinema do Brasil, o que podemos lamentar. No começo de dezembro, foi incluído no catálogo do Netflix. 

Entre tantos filmes dispensáveis que estreiam todo ano, Sem Retorno (Self/less - 2015) merecia as salas de cinema. Melhor... Aqueles que ainda vivem sem o Netflix poderiam conhecê-lo.

O filme conta com uma boa trama, cenas de ação, o mocinho e o bandido que acredita que é mocinho. Ainda assim, nada disso seria suficiente sem a competência dos atores, da direção e um bom roteiro para contar uma história que muitos já contaram, mas de outra forma.

Sem Retorno | Ben Kingsley (Damian)

Ben Kingsley é dos meus atores preferidos. Ele participa apenas de uma parte do filme, ainda assim, sua presença é marcante. Ryan Reynolds já provou que é talentoso e competente, não importa o estilo de filme. O britânico Matthew Goode vem participando de algumas séries que das quais eu gosto muito, interpretando Stanley Mitchell em Dancing on the Edge, Finn Polmar em The Good Wife e Henry Talbot em Downton Abbey.

Sem Retorno | Matthew Goode (Dr. Albright)


Damian (Ben Kingsley) sofre de câncer terminal. Homem poderoso, que passou a vida ignorando as realizações da filha, sempre centrado nas conquistas e no poder. Ao encarar a morte, decide optar por um tratamento médico que lhe tiraria o direito à identidade, mas lhe daria muitos anos de vida, como outra pessoa... Em outro corpo. O Dr. Albright (Matthew Goode) é o cientista que lhe oferece o milagre. Ele garante que os corpos para os quais os pacientes são transferidos foram cultivados em laboratório. Após a “migração” de Damian para seu novo corpo, ele descobre que, na verdade, seu novo e saudável corpo pertencia a um militar, pai de família, que o vendeu para pagar o tratamento da filha.


Sem Retorno | Ryan Reynolds (Damian)

Ryan Reynolds está ótimo como o jovem Damian habitando o corpo do militar.

A grande questão do filme é que não sabemos até onde uma pessoa pode chegar para provar que está certa ou para ganhar dinheiro e conquistar um poder inacessível à maioria de nós. No caso do cientista, seu corpo já não correspondia mais a sua mente. O corpo estava doente e então ele colocou suas pesquisas para funcionarem. Dr. Albright foi um corpo e uma identidade que ele roubou por acreditar que mentes como a dele, geniais, mereciam viver o máximo. Esse descarte do outro é o que pesa no filme. É possível compreender que, a partir do momento que nossas escolhas ultrapassam a lógica, é preciso pensar em quem  mais estamos levando junto.

A direção de Sem Retorno me ganhou. Até então, não sabia quem era o diretor, tampouco que ele havia dirigido dois dos filmes que mais me encantaram nesse quesito e no de fotografia: Dublê de Anjo (The Fall/2006) – e vou sempre mencionar que não gosto nada desse título em português – e A Cela (The Cell/2000). Mais um de Tarsem Singh para o hall dos meus preferidos.

O roteiro de Sem Retorno é assinado pelos irmãos espanhóis David e Àlex Pastor.

Sem Retorno é um bom filme, com interpretações competentes e uma trama que fisga o espectador. Vale a pena assistir ao filme, o que certamente o levará a refletir sobre como somos frágeis diante do que gênios e poderosos podem fazer quando desfalcados de qualquer consideração a outro ser humano. Essa não é uma combinação que traz bons frutos.


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Filipe Catto | Voz, palco, música e poesia



Feito uma droga lenta
Uma ressaca imensa
Tua boca me arrebenta, amor
Me leva por um fio, me despe no vazio
Da canção “Adorador”, de Filipe Catto e Pedro Luís, do disco Tomada


Sábado passado, estive no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, para assistir, ao lado de grandes amigos, ao show de lançamento do disco Tomada, de Filipe Catto. Eu já havia escrito a respeito do impacto desse artista e desse disco na minha pessoa – o espírito agradece profundamente –, em uma crônica publicado no Crônica do Dia, e que você pode ler clicando aqui.

Escrevo sobre o que me alimenta a alma. E esse show, meus caros... 

Filipe Catto é recente na minha lista de afetos. Fisgou-me a atenção com a canção Adoração, de sua autoria, ano passado. A partir daquele momento, de ter escutado tal canção, tornei-me apreciadora de sua obra, da interpretação poderosa que ele oferece à música. 

Porém, havia esse espaço não preenchido nessa benquerença toda. Vê-lo no palco, escutá-lo cantando ao vivo, ainda era desejo que urgia. Sábado passado, saciei esse desejo.

Eu sei... O mundo está de cabeça para baixo. O ser humano, eu sei... Alguns muitos deles andam cometendo insanidades em nome de crenças tortas, em busca de poder e dinheiro, sem se importarem com quantas vidas são ceifadas pelo caminho na conta das escolhas que fizeram. Como falar sobre arte, a sua beleza e o prazer que oferece aos seus apreciadores, quando o mundo assiste a acontecimentos tão tristes?

Como não falar sobre ela?

Quando a vida - orquestrada pelas ações das pessoas – amarga, momentos como os que aconteceram naquele palco do Auditório Ibirapuera são inspiradores, rejuvenescem nossa esperança de conquistarmos levezas e sabedoria. O que Filipe Catto deixou naquele palco foi um coração que se compadece das mazelas humanas, mas que, acima de tudo, compreende a força da arte para desenvergar o espírito de quem se vê cercado por tantas tragédias.

Não escrevo isso na tentativa de adivinhar o que o artista pensava e sentia. Posso até me valer de outras palavras, mas a menção sobre como os acontecimentos devastadores atuais o afeta, do quanto ele acredita na humanidade, foi o próprio que fez, naquele palco, onde ele deixou seu coração.

Dei a mim esse show de presente de aniversário, assim como o Tomada, que adquiri na pré-venda. Não sou de celebrar, mas achei que merecia tal agrado à alma. E eu não estava enganada... Do momento em que Filipe Catto entrou em cena, até quando ele se despediu do público, senti-me como se tivesse embarcado em uma jornada na qual seria impossível sentir menos do que deslumbramento.

Desde que Tomada foi disponibilizado online, ele tem sido tocado no meu player. É um disco do qual todas as faixas me agradam. As parcerias e as escolhas de compositores, as letras e seus significados... Seria possível criar um personagem no qual caberia a maioria das situações descritas ou sugeridas nas canções. Ao vivo, obviamente, muito da sonoridade muda, por conta da formação da banda, e até mesmo do que, no momento, inspira o intérprete. Canções como Dias e Noites (Filipe Catto) e Depois de Amanhã (Filipe Catto/Moska), soaram um pouco mais rock’n’roll, o que foi ótimo de se escutar. Um salve para os músicos da banda: Ana Karina Sebastião (baixo), Fabá Jimenez (guitarra), Lucas Vargas (teclados) e Michelle Abu (bateria).

Filipe Catto trafega tranquilamente por diversos gêneros e pode fazer o que quiser com sua voz. Ele canta com o corpo, o que é raro quando espontâneo, que é o caso, e foi muito bacana de se ver. Foi como ver a música estampada em cada gesto. 


Fôlego, primeiro disco do artista, tem um quê dramático-cativante. As canções que trouxe dele para o palco ajudaram Filipe a tecer um show que tem como base o amor em suas mais complexas e plurais notações. Para mim, escutá-lo e vê-lo cantar Adoração foi arrebatador. Eu estava à espera do feito e me senti feliz que só por ter realizado esse gosto.

Filipe tem uma voz belíssima, que escuto sempre, permito invadir meus sentidos e inspirar devaneios. Definitivamente, suas canções entraram em outra das minhas listas: aquelas que eu escuto, enquanto escrevo minhas histórias, penso meus livros, embarco nos personagens. Ele também é compositor dos bons, dos que sabem colocar som e palavra no lugar mais generoso de si, até surgir aquela canção que vai se tornar uma das preferidas de muitos.

Se você tiver a oportunidade, assista ao show Tomada. É um espetáculo que aborda emoções diversas, de música composta com requinte e interpretada com entrega. 

É tão bonito de se ver e de se escutar...

No final do show, Filipe Catto fez uma sessão de autógrafos. Fila longa, chuva caindo pesada lá fora e calor. Ensaiei mil coisas para dizer na hora que ele fosse autografar o meu disco. Aliás, comprei o Tomada na pré-venda, autografado, por isso estava com o Fôlego para ele autografar. Ensaiei mil coisas para dizer, muitas delas eram sobre o que eu havia sentido durante o show. Queria agradecê-lo por isso. No final, a única palavra que saiu da minha boca foi meu nome para o autógrafo. E ganhei uma foto.


Sendo péssima com as palavras ditas, desde sempre, aprendi a me perdoar por não conseguir verbalizar assim, na lata. Escrevo depois, mas nem por isso com sentimentos requentados. Eles continuam a reverberar no meu dentro, atiçando silêncios a serem quebrados com música e poesia.

Minha estreia assistindo a um show de Filipe Catto foi melhor... Insanamente melhor do que eu esperava. E hoje, no dia do meu aniversário, chegou o Tomada, parte dois do meu presente. 


Eu sei... O mundo está de cabeça para baixo. Amém ao fato de termos a música, a poesia, a arte para nos sustentar.


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

CHAPLIN é espetáculo arrebatador


CHAPLIN, O VAGABUNDO | O que o espetáculo me mostrou


Carlitos | Cena do filme Luzes da Cidade
Falo sobre mim, mas já escutei outros escritores dizerem o mesmo. Às vezes, é difícil e leva tempo para me despedir dos personagens que crio. Às vezes, retardo o final da história, apenas para manter aquele personagem vivo, passível de outras tramas. E ao dizer adeus, mergulho em uma tristeza digna de quem perdeu um ente querido.

Personagens não fazem parte somente do mundo das artes. Todos nós, eventualmente, vestimos personagens ao lidarmos com situações que pedem mais de nós do que usualmente oferecemos. No processo, muitos aprendem um pouco mais sobre a vida e suas mazelas. Outros se rendem aos seus personagens, levando uma vida na corda bamba existencial.

No último sábado, fui ao teatro para assistir a um espetáculo musical sobre uma pessoa que não apenas criou, mas viveu seu personagem e com ele contribuiu amplamente com a história do cinema. Chaplin, O Musical conta a história de Charlie Chaplin, ator e diretor, o criador de Carlitos, o Vagabundo.

Charles Spencer Chaplin nasceu em Londres, em 1889. Faleceu na Suíça, em 1977. Cabe nos anos que separam essas datas, uma história de vida que se debruçou sobre a história de um personagem, e de tal forma, que criador se confundiu com a criatura. 

Chaplin, O Musical é providencial, pois aborda a vida do homem que fez a alegria de tantos e impactou a industria cinematográfica. Nessa biografia há uma riqueza fantástica de emoções, que por meio de uma produção competente, consegue aproximar o espectador dessa pessoa-personagem e suas camadas, seus tons. 

Assistindo ao espetáculo, dei-me conta de que o Vagabundo foi uma ferramenta que Chaplin encontrou para lidar com acontecimentos pessoais difíceis, como a doença de sua mãe. O homem tão peculiar, nem sempre agradável, definitivamente complexo e que viveu muitos romances; o ator e diretor celebrado, sempre cercado de pessoas... Chaplin vivia de e sobrevivia à solidão. Carlitos foi sua companhia presente, sua voz ecoando em tempos de cinema mudo.

CHAPLIN, O MUSICAL

Reprodução
Sabe aquele dia em que você sai de casa e não faz a menor ideia de que será surpreendido mais do que deseja e acredita ser possível? Eu sabia que Chaplin era um ótimo musical, então esperava por algo realmente interessante, que me faria o espírito feliz. Primeiro, porque já assisti a outros musicais com o Jarbas Homem de Mello, que considero um dos artistas mais completos. Depois, o espetáculo tem sido um grande sucesso, de público e crítica. Enfim, não havia como não incluir na minha expectativa o item “aprazimento”.

Acontece que eu não esperava pelo o que assisti. Foi mais, muito mais do que eu poderia imaginar. Foi além do aprazimento, tornando-se uma verdadeira experiência emocional.

Chaplin, O Musical é um espetáculo da Broadway, com texto original de Christopher Curtis e Thomas Meehan. Traz cinco músicas inéditas, sendo que músicas e letras originais são de autoria Christopher Curtis. E não me canso de dizer que Miguel Falabella, mais uma vez, fez uma versão brasileira impecável. Teatro lotado – como tem sido, desde a estreia do espetáculo, que foi em São Paulo, mas já passou pelo Rio de Janeiro -, e a primeira cena nos chega feito um poema. Chaplin pensando sobre sua existência como Chaplin e como o Vagabundo.

Chaplin teve em seu irmão, Sydney Chaplin, o companheiro de vida e de viagem, alguém que desempenhou um importante papel também na sua carreira. No palco do musical, Syd é interpretado por Marcello Antony, que o fez primorosamente. Eu poderia listar adjetivos para tentar dizer a beleza dessa interpretação. Porém, vou me ater ao desejo de que você, quem lê essas palavras, vá ao teatro para conferir por si próprio, e eleja os adjetivos que sentir durante o espetáculo. Para mim, Antony deu vida a Syd de forma crível, transparecendo o amor de um irmão por outro.

Reprodução
Chaplin é um espetáculo sublime, e não estou gastando benquerença com ele, e sim validando um merecimento. Não há o que dizer contra, e aposto que aqueles que adoram ter ao algo sobre o qual reclamar, em qualquer situação, sentiram-se deveras contrariados.

Da música, a orquestra tocando ao vivo, passando pelo cenário impecável - incluindo uma engenhosa coreografia para as mudanças de cenas -, um elenco afinadíssimo – destaque para Paula Capovilla (Hedda Hooper), que voz! -, e o ritmo dinâmico e emocional do espetáculo, tudo me impressionou e emocionou. Todos que passaram por aquele palco, e aqueles que estiveram nos bastidores, cuidando para que tudo estivesse alinhado, trabalharam lindamente... Isso mesmo, lindamente. Não consigo pensar em palavra mais adequada para comentar o resultado do trabalho dessas pessoas.

E, claro, lá estava Chaplin... O Chaplin de Jarbas Homem de Mello.

Reprodução
Aqueles que acompanham meus escritos sabem que adoro o Jarbas. Desde que o vi pela primeira vez no palco, acompanho sua carreira e escrevo sobre os espetáculos que assisto. Quem me conhece, também sabe que não sou dos confetes. Todos os elogios que venho tecendo a ele, desde aquela primeira vez, são meus, são válidos e verdadeiros. 

Sei que a cada espetáculo o artista comprometido com a sua arte aprimora seu talento, eleva seu fazer artístico. Para um artista dedicado e apaixonado pelo o que faz, esperamos sempre aquele passo adiante que nos encherá a alma de contentamento, no próximo espetáculo.  Porém, o que Jarbas fez em Chaplin não foi um passo adiante. Trata-se de um salto, do qual me sinto incapaz de sugerir mensura.

Reprodução
Interpretar um personagem a contento requer talento. Interpretar um homem que se misturou ao seu personagem requer muito mais que talento. É preciso se aproximar da história do homem para mergulhar na do personagem, encontrando aquele lugar onde ambos se misturam, e essa terceira pessoa possa observá-los e conectar-se as suas emoções. Jarbas pesquisou a biografia de Charlie Chaplin, os trejeitos dele e do Vagabundo; leu livros sobre ele e assistiu aos filmes do ator e diretor, fez aulas de circo, patinação e violino. Foi trabalho dedicado que resultou em uma caracterização impressionante, combinada ao talento de Jarbas interpretando o personagem e as canções do musical.

Uma das passagens mais marcantes do espetáculo se refere também a um dos momentos mais desafiadores da carreira do artista, por ter gerado uma grande obra, mas também reforçado a ideia de que ele era comunista. Charlie se considerava um humanista, um cidadão do mundo, e desejava dar voz aos que não tinham. Em uma das suas ações como questionador da humanidade, escreveu, dirigiu e estrelou O Grande Ditador (The Great Dictator/1940), um filme emblemático, do qual o discurso final se tornou inesquecível. E assistir a essa cena no palco, interpretada com tal desenvoltura e comprometimento por Jarbas, foi comovente. 

Definitivamente, um salto.



CHAPLIN, O MUSICAL

Em cartaz até 25 de outubro

TEATRO PROCÓPIO FERREIRA
Rua Augusta, 2.823 | Cerqueira César | São Paulo

INGRESSOS

BILHETERIA
Terça a sábado | das 14h às 19h.
Domingo | das 14h às 18h ou até o início de cada espetáculo.

PELA INTERNET | www.ingressorapido.com.br
Call Center | 11.4003 1212 | Vendas de grupo: 11. 3064 7500

Texto Original: Christopher Curtis e Thomas Meehan | Músicas e letras originais: Christopher Curtis | Versão Brasileira: Miguel Falabella | Direção: Mariano Detry | Produtores Associados: Claudia Raia e Sandro Chaim | Direção Musical e Vocal: Marconi Araújo | Coreografia: Alonso Barros | Cenografia: Matt Kinley | Figurino: Fábio Namatame | Visagismo: Dicko Lorenzo