quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Uma janela para a lua | encontro entre a razão e o delírio


Não raro, minha memória busca, em seu baú, completamente desorganizado, eu admito, um dos momentos que me fizeram refletir a respeito da vida, do meu papel nela. Pode parecer bobagem para muitos, mas sim, eu sou suscetível ao que livros, filmes, pinturas, fotografias e música me entregam. Sou suscetível à arte como sou à realidade e ao que algumas pessoas dizem, nem sempre para mim, e que me cabe e me ensina algo a respeito delas e sobre mim.

Então, que a minha memória deu uma volta a um ontem que aconteceu há mais de duas décadas, quando eu ainda gastava tempo na videolocadora... e adorava. Acordei com a lembrança dessa cena, e antes mesmo de me espreguiçar, fui tomada pela história toda.

É apenas um filme. Um apenas repleto de nuances, que, mais para o final dos anos 1990, permitiu-me mergulhar em um universo que me fascina e me causa espanto e pânico. Se há algo que me mete medo é perder a capacidade de pensar. Com todo o resto eu lidaria, mas como seria perder-se na própria mente? E não importa que, depois de perdido, saberá de nada do que ocorre.

Eu costumava alugar cinco filmes por vez. Não me lembro dos outros quatro, mas deste, veja bem, a minha memória é uma atrevida, porque faz o que quer de mim. Fez com que eu me levantasse com uma cena deste filme. Cinco minutos depois, nostalgia. 

Vamos começar pelo protagonista, um ator que nasceu na Turquia e foi criado na França: Tchéky Karyo. Se você não sabe quem é pelo nome, provavelmente deve tê-lo visto em algum daqueles filmes americanos de ação. Eu o vi em uma tela, pela primeira vez, em um filme de ação, mas era francês, de Luc Besson. Aliás, sugiro aos que assistiram somente o remake americano deste filme, que assistam ao original: Nikita - Criada para matar (La Femme Nikita/1990). Anne Parillaud e Jean-Hugues Anglade são fantásticos.  

Desde de Nikita, passei a prestar atenção ao Tchéky Karyo. Ótimo vilão de filme de ação, mas aprecio mesmo as suas atuações em filmes com foco nas histórias e nas pessoas, não nas explosões e tiroteios. Adoro um vilão, mas tenho certo apego aos que usam a inteligência a favor dos seus pecados.

Mas o filme que me veio ao acordar não é francês ou turco, mas italiano. Não é de ação, mas de cutucar espectador na emoção. Não fala sobre assunto no qual a maioria aprecia se aprofundar. Ainda assim, é dos filmes mais belos que já assisti. Acredito que eu precisava relembrar algo que me despertasse novamente para a ciência de que a imperfeição, apesar de o dicionário dizer que sim, não é defeito. É margem, possibilidade, releitura, camadas. 

Lembro-me de conhecer algumas pessoas chamadas de loucas e talvez elas realmente o fossem. Também conheci algumas pessoas que se diziam sãs e cometiam loucuras com determinada crueldade. As pessoas que conheci, que eram chamadas de doidas de pedra, tinham lá suas peculiaridades. Ainda assim, eu me pegava fascinada sobre como elas enxergavam o mundo. Talvez por isso este filme seja dos que guardo comigo, silencio, resgato sempre que preciso reafirmar que sabemos nada sobre o que é loucura e o que é viver fora do que é considerado certo.

Certo é viver como se deve, virar-se como se pode e, durante o caminho, reinventar-se sempre que achar necessário.

Uma janela para a lua (Colpo di Luna/1995) é um filme escrito e dirigido por Alberto Simone, que tem um currículo muito interessante, com conhecimento que lhe permitiu criar um filme que aborda a doença mental em suas variáveis, inclusive como defesa contra a dor. Leia sobre ele clicando aqui. Além de Karyo, o filme conta com a participação do ator italiano Nino Manfredi, que tem uma ampla filmografia, tendo participado dos filmes Nós que amávamos tanto (C'eravamo tanto amati/1974) e Feios, sujos e malvados (Brutti, sporchi e cattivi/1976), ambos dirigidos por Ettore Scola. A francesa Isabelle Pasco também faz parte do elenco.

Uma janela para A lua conta a história de Lorenzo (Tchéky Karyo), um matemático que volta a sua cidade natal, na Sicília, para reformar sua antiga casa. Ele contrata Salvatore (Nino Manfredi), que trabalha em uma instituição que abriga doentes mentais.

A razão encontra o delírio.

Não vou entrar em detalhes sobre o enredo do filme, porque acredito que, se não o conhecem, vocês precisam assisti-lo sem que eu tenha entregado muito do que me fascinou nele. Porque, no resumo do meu apego, de onde minha memória puxa lembranças, quando preciso delas, este filme pertence a uma coleção de inspirações.

Uma janela para a lua está disponível, na íntegra e legendado, neste link:


quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

PUSH UP | PROFISSIONAL E PESSOAL

 

Em 2006, assisti ao espetáculo que mudou a forma como eu encarava o teatro. Querido Mundo (clique e leia), de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, contava com dois atores pelos quais tenho profunda admiração: Maximiliana Reis e Jarbas Homem de Mello. Foi ali que me apaixonei pelo teatro. Foi ali que me atrevi a aceitar o desejo de, quem sabe um dia, ser capaz de escrever uma história que se acomode em um palco.

E o palco...

O que mais me encanta sobre o palco é ele caber em qualquer espaço, em qualquer formato. Reúna pessoas capazes de contar histórias, de vestir personagens, de tocar instrumentos musicais e lá está: o palco a abarcar espetáculo.

Em 2013, fui convidada para assistir TOC TOC (clique e leia), de Laurent Baffie, com direção de Alexandre Reinecke. João Bourbonnais, um dos atores do espetáculo, leu um texto meu, sobre o Conexão Marilyn Monroe (clique e leia), escrito e dirigido por Reinecke. Minha admiraçãopor Bourbonnais, despertada durante o TOC TOC, levou-me ontem ao teatro. 

Push Up, do dramaturgo alemão Roland Schimmelpfennig, chegou ao Teatro Viga, em São Paulo, com direção de César Baptista. O espetáculo se aprofunda no universo corporativo, valendo-se da jornada de executivos, completamente dedicados à vida profissional, sendo surpreendidos por questões pessoais, durante a busca por uma colocação mais prestigiosa. Cada um deles tenta convencer o diretor da empresa na qual trabalham de que é a pessoa certa para cuidar da nova filial, em Nova Délhi, Índia.

© Divulgação
Ainda que o texto de Schimmelpfennig aborde a busca de executivos por um cargo ao qual dedicaram muito tempo e trabalho para merecer, qualquer um pode se enxergar ali, na sua própria realidade. Estamos, o tempo todo, disputando uma colocação na vida. Às vezes, essa disputa acaba por limitar a nossa interação com o mundo, com as pessoas. Acontece de ela nos levar a crer que somos insubstituíveis na nossa profissão, imprescindíveis para nossos afetos, absolutamente necessários e capazes. Assim, ela pode nos levar a um encontro nada agradável com a realidade de não conseguirmos aquela vaga, sermos descartados em um relacionamento, compreendermos a nossa irrelevância em situações que tínhamos por certo dominar e sermos obrigados a reconhecer que há o que não podemos mudar.

A cadência dos diálogos entre os personagens, a sobreposição deles, mostrando o mesmo momento em diferentes percepções. Longos diálogos, tão coerentes naquela loucura que cada personagem encara. A troca de cadeiras, a troca de cena, reforça que a vida é mesmo um jogo. Alguns entram para ganhar, e, apesar de ótimos jogadores, preparados e dedicados, saem perdedores e não apenas profissionalmente: que vida resta quando se gastou tanto tempo em busca do que nunca terá? Que vida resta, quando se aprendeu somente a ser a pessoa daquela busca que levou a lugar nenhum?

O ritmo dos diálogos, os breves monólogos, as cenas em que o silêncio diz mais e alto. O quando o dito contradiz o que ecoa na mente e no coração. A direção de Baptista permite ao espectador se aprofundar nas entrelinhas.

Nova Délhi não é para qualquer um. 

Os atores desempenham seus papeis belamente. Não há como deixar de mencionar, mais uma vez: o ritmo dos diálogos. Houve momentos em que ele era tão acelerado, e o que era dito carregava tanto enfrentamento e desapontamento, que meu coração acelerou em contrapartida. Dava para sentir aquilo, mesmo não sendo a minha história. 

Muitos temas complexos são abordados em Push Up: a dificuldade de mulheres se colocarem no mundo corporativo. A solidão que vem com se manter disponível para os negócios, 24 horas por dia. O tempo que passa e fragiliza o corpo e nem sempre celebra a idade da sabedoria... e do corpo, e assim segue.

Assistindo ao espetáculo, concluí que o mundo é uma grande corporação, e que todos queremos aquele cargo, acreditando que seja o melhor para nós. Poucos terão aquele cargo e, quem sabe, mais por sorte do que por infortúnio. 

A reestreia de Push Up será no dia 14 de janeiro de 2020. Recomendo que vocês assistam ao espetáculo, porque ele é ótimo e também porque precisamos prestigiar aqueles que conseguem manter o questionamento possível, papel que a arte, e seus artistas, fazem linda e intrepidamente. 

PUSH UP

Texto | Roland Schimmelpfennig
Direção | César Baptista

TEATRO VIGA ESPAÇO CÊNICO
Rua Capote Valente, 1323
Pinheiros | São Paulo | SP

INGRESSOS
Bilheteria: 1 hora de antecedência
Online:https://www.sympla.com.br/espetaculo-teatral-push-up__758674

Elenco
Antoniela Canto | Angelika
Daniel Faleiros Migliano | Robert
Fabio Acorsi | Henrique
Fulvio Filho | Frank
Isabella Lemos | Patrizia
João Bourbonnais | Hans
Karlla Braga | Maria
Monalisa Vasconcelos | Sabrine

Assistente de Direção: Chico Ribas
Iluminação: Wagner Pinto
Figurino: André do Val
Produção: Nathalia Gouvêa
Assessoria de Imprensa: Morente Forte
Fotografia: Felipe Souza
Designer Gráfico: Fábio Acorsi
Mídias Sociais: Paulo Bernardo

sábado, 28 de setembro de 2019

Dave Matthews Band | Que show foi aquele?


Música é importante para mim. Mesmo quando as pessoas insistem em colocá-la no patamar de mero entretenimento. Às vezes, é apenas isso mesmo. Na maior parte do tempo, ao menos para mim, é muito mais. Foi com a música que aprendi a escrever poemas. Com ela, aprendi que uma ótima forma de aprender é ensinar. Foi a música que me ensinou a lidar com as pessoas, que me apresentou a bateria, para a qual eu voltei, depois de quase duas décadas. Ela guia o meu trabalho há quase trinta anos. 

Posso dizer que a música inspira em mim as melhores ousadias. 

Quem não tem uma banda, da qual gosta, que faz diferença, não? Temos vários artistas, na verdade. Vários músicos, compositores, intérpretes que nos enchem de alegria, porque fazem música. Por conta do meu trabalho, tive a sorte de conhecer alguns dos meus ídolos, e outros que não eram, mas se tornaram meus ídolos. Há algo que sempre permanece, quando se trata desse meu afeto pelo artista: admiração pela obra e pela forma como ele cuida dela.

Ontem, eu e minha amiga de jornadas diversas, Rubia, fomos ao show da Dave Matthews Band, no Estádio do Ibirapuera, aqui em São Paulo. Quem me conhece, sabe que sou fã da banda, que escrevi um poema inspirado em um post de Twitter do Dave, que se transformou no meu primeiro romance do estilo fantástico, que dediquei a ele e quem sabe um dia o publicarei. Quem me conhece sabe o quanto admiro os integrantes da banda, porque eles são ótimos músicos e, na minha incapacidade de descrever tecnicamente o que eles são capazes de fazer musicalmente, resolvo a questão na metáfora mesmo: a música deles tem muitas camadas e nós, os apreciadores, somos convidados a nos embrenhar nelas e a experimentar das suas texturas.

Esta não é uma crítica. Deixo aos especialistas a função de dissecar o isso e o aquilo que formam uma crítica musical. Este texto é um agradecimento.

Foi o segundo show da banda que assisti. O primeiro, em 2008, deixou-me feliz, mas o de ontem foi além. Há algo no tempo que nos ensina a compreender a importância da vida que nos cerca. Isso cabe aos nossos relacionamentos com as pessoas e com tudo o que nos ajuda a aprender sobre nós mesmos, sobre o outro, sobre aquilo que nos inspira. Depois de onze anos, assistir a um show exclusivamente da Dave Matthews Band me levou a compreender algo muito bacana: as pessoas que estavam lá ontem, cantando todas as canções, conectadas com a música que as inspira, por quase três horas, elas – e eu – experimentaram algo que anda raro na vida do brasileiro: contentamento. Às vezes, eu me pegava reparando nas pessoas, naqueles sorrisos de quem se sentiu muito bem com aquela linha de baixo, com aquela convenção na bateria, com a lindeza de som da guitarra, com os metais berrando notas, com as danças, o teclado construindo escadas para que o violão cantasse quebrado... a voz revelando palavras.

É claro que queríamos ver de perto nossos ídolos. Óbvio que desejávamos cantar, bem alto, aquela canção que nos toca profundamente. Não havia dúvida de que estávamos ali para sentir o que sentimos ao apertar o play para a música da DMB

Semana passada, lancei meu sétimo livro. Em todas as minhas histórias há música. Falei sobre como a música influencia a minha escrita. Ontem, ao assistir um dos shows mais bacanas da minha vida, percebi que vai além: música é essencial para mim e parecia também ser para os que estavam lá, cantando a letra e a música. Tocando bateria no ar, vibrando com o ritmo marcante que se apossa de quase todas as canções. Mergulhando na languidez das canções mais suaves, com letras contundentes. Enlouquecendo quando os metais decidiam cantar em par. Aplaudindo a gaita convidada.

O show da Dave Matthews Band foi sensacional. Algum crítico musical saberá explicar melhor a parte técnica. Eu vou de metáfora mesmo: o show de ontem foi de virar ao avesso o espírito do espectador. Virou o meu e, por isso, eu agradeço ao Dave, Carter, Stefan, Tim, Rashawn, Jeff e Buddy

A música da Dave Matthews Band continuará a fazer parte da minha playlist existencial. E que venham mais shows, porque a experiência de estar presente, quanto eles fazem e acontecem com a música, é muito bacana.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

NELSON GONÇALVES - O AMOR E O TEMPO

© Divulgação
Eu tenho muito apreço pelo Teatro Gazeta. Meu gosto pelo teatro começou, de fato, ali, quando assisti, há mais de uma década, o espetáculo Querido Mundo [leia sobre]. Assisti a outros tantos espetáculos naquele palco. Alguns deles, marcaram-me para a vida. Pode parecer exagero, mas não é. Sou das pessoas que se permitem ser marcadas por um espetáculo de teatro, um filme, uma música, um livro, uma frase de um desconhecido que impulsiona aquela mudança que passei muito tempo postergando, e por aí afora.

Então, que aquele palco tem o poder de fazer minha imaginação, que já é inquieta por natureza, esbaldar-se em devaneios. 

Ontem, eu fui ao Teatro Gazeta. Entrei, sentei-me na poltrona A-25, assim, na fila do gargarejo. Enquanto o espetáculo não começava, eu imaginava cenas improvisadas naquele lugar onde palavras ganham tons, por conta de pessoas que, dedicadas à lida da interpretação, abrem alas para as emoções dos espectadores. 

O espetáculo: Nelson Gonçalves – O Amor e O Tempo.

Nelson Gonçalves completaria 100 anos em 21 de junho. O espetáculo, com três temporadas de sucesso no Rio de Janeiro, desembarcou no palco do Gazeta, em maio deste ano. Antes de continuar a falar sobre, um arrependimento: ter assistido à última apresentação da temporada.

Antes do início do espetáculo, uma excitação geral. É lindo de se ver quando as pessoas concordam sobre o que as tocou profundamente de maneira a despertar algo bom, um reconhecimento justo. Ali, as pessoas reverenciavam um significativo nome da música brasileira que era, também, um cronista do sentimento arrebatador, fosse para o contentamento ou para a tristeza. Cada canção, da qual ele se apropriava, voz e interpretação, traduzia um estado de espírito, um momento significativo, de Nelson Gonçalves ou dos apreciadores da música que ele compartilhava.

Antes de as cortinas se levantarem, eu pensava sobre como seria, se o elenco trafegaria pelo palco ou o tomaria para si. Posso dizer que o tomaram para si, que do início ao fim, sorriso e engasgos me tomaram... e não somente a mim. Outra coisa linda de se ver: um público fascinado pelo espetáculo. 

Primeiro, deixe-me falar sobre a banda, porque o meu lado musical se deslumbrou por ela. Primorosos arranjos para canções tão conhecidas, sendo executadas por músicos fantásticos. A música vestiu com delicadeza, até mesmo as canções de poesia arredia. 

No palco, dois Nelsons, um homem e uma mulher. Nelson Homem defendia a emoção. Nelson Mulher, a razão. Nesse encontro de reflexões, o espectador era levado ao universo de Nelson Gonçalves, a todos os “não” que ele recebeu, aos percalços, aos apaixonamentos e também aos desvarios. Eram duas pessoas no palco, mas eu só conseguia pensar em uma, porque os questionamentos me pareciam justos para qualquer pessoa. O quanto nos entregamos ao amor, o como lidamos com o tempo, e tudo aquilo que acontece durante eles.

Nelson Homem, interpretado por Guilherme Logullo, era excitação e deslumbramento em carne viva. Tudo nele chegava forte, abrasador. Nelson Mulher, interpretado por Jullie, era a dúvida e o medo do próximo sofrimento. A dança à qual os personagens se lançam é a de combinar esses universos, ambos tão presentes na vida de Nelson Gonçalves.

© Divulgação
Eu caí de amores por eles, assim, de cara. Quando começaram a cantar... que vozes! Que interpretações! O palco foi tomado pela música e pelas histórias das canções, elas sendo trançadas com a do próprio rei do rádio. Guilherme e Jullie me ganharam de vez. Mais do que isso, tomaram o palco, daquele jeito que sempre me deixa feliz: completamente, deixando nele um pouco de si. 

No final, entre os agradecimentos, Guilherme falou sobre a gentileza do pessoal do Teatro Gazeta. Trata-se de um lugar conduzido por pessoas que sabem que o fazer arte requer trabalho árduo, talento revigorante e revigorado. É sim um lugar onde os artistas são recebidos com respeito, assim como ao público. Um lugar onde eu conheci tantos artistas capazes de dominarem o palco, como se tivessem nascido nele e a ele pertencessem.

Nelson Gonçalves – O Amor e O Tempo é uma homenagem muito bem tecida pelo autor. Gabriel Chalita soube entremear as dores e os amores; as esperas e a solicitude do que nos acontece, sem que estejamos preparados para lidar com o acontecimento. Um espetáculo fantástico, que espero que, depois de suas voltas por outros cantos do Brasil – se passar pelo seu, não perca a oportunidade! -, possa voltar ao palco do Gazeta. Seria muito bom poder assisti-lo novamente.

© Divulgação
Na saída, comprei o livro sobre o espetáculo. Os atores anunciaram que logo sairiam para atender ao público. Eu não tive coragem de ficar. O que dizer a eles que justificasse minha gratidão por aquele espetáculo? Mas essa sou eu... quem engole palavras, para então despejá-las em um texto que diga o “quase” do sentimento que me arrebatou. E aqui estou, quase no final da minha declaração de imenso agradecimento por um tempo que fará parte da minha coleção de memórias.  

Antes de finalizar, quero compartilhar algo que uma pessoa, que estava sentada na fileira atrás de mim, disse, assim que as luzes acenderam: depois disso, só procurando um amor.

Espero que ela o tenha encontrado.

NELSON GONÇALVES – O AMOR E O TEMPO

Informações sobre o espetáculo: musicalnelsongoncalves.com.br


FICHA TÉCNICA

Um musical idealizado por Guilherme Logullo e Gabriel Chalita.
Direção e coreografia: Tânia Nardini.
Roteiro: Gabriel Chalita.
Elenco: Guilherme Logullo e Jullie.
Coordenação Artística: Guilherme Logullo.
Cenografia: Doris Rollemberg.
Figurinos: Fause Haten.
Direção Musical e arranjos: Tony Lucchesi.
Direção de Produção: Lu Castro e Bruno Mendonça.
Assistência de direção e movimento: Nadia Nardini.
Visagista: Diego Nardes.
Design de Som: Gabriel D’Angelo.
Design de Luz: Renato Machado.
Redes Sociais: Gabriella Costa.



segunda-feira, 1 de abril de 2019

A poesia melancólica e reveladora de "O quarto de Jack"

Cena do filme O quarto de Jack | Foto © George Kraychyk

Eu sei que a maioria de vocês já assistiu ao filme e foi há um bom tempo. Ele foi lançado em 2015. Talvez, muitos de vocês não se lembrem claramente do filme, o que é justificável, já que há muita coisa acontecendo e estamos todos ligados a elas: cinema, questões pessoais, música, trabalho, literatura, injustiças, fotografia, violência, artes plásticas, telejornal, celebrações, memes, superações, perdas e por aí vai.

Desde seu lançamento, eu vinha evitando me encontrar com esse filme. Não é raro acontecer de eu me demorar em um desejo. Na verdade, sempre que me demoro em um desejo, é porque algo me diz que esse tempo é uma espera que tem seu valor. Raramente eu me engano nesse aspecto. 

O quarto de Jack (Room) é um daqueles filmes em que a tristeza profunda é de beleza insana. Quando uma ação horrível é encarada da melhor forma possível e essa forma é dura, porém poética, o que me faz lembrar de um amigo que me confessou não gostar de poesia. 

Eu conheço muitas pessoas que não gostam de poesia. Não tenho problema algum com quem não gosta de poesia, apesar de ela ser uma constante na minha vida e na minha história. Porém, sempre me pergunto como essas pessoas reconhecem a poesia da vida, a que não está registrada em livros, que não sai da boca de criadores, durante um sarau. A poesia que é de autoria da vida e se constrói com o tempo e as escolhas de cada um.


Dirigido por Lincoln Abrahamson, com roteiro baseado no livro de Emma Donoghue e escrito pela própria autora, o filme conta a história de Jack, um menino que nasceu e viveu cinco anos em um quarto, tendo como única visão do exterior o céu enquadrado em uma claraboia. A mãe, sequestrada aos dezessete anos de idade, vivendo à mercê do desejo do seu sequestrador há sete, cria um universo para o filho naquele pequeno espaço, enquanto lida com o desespero de ter como sina uma vida restrita a um quarto, à violência que ela sofre a cada dia e a uma criança que ela não sabe se verá o mundo real.

A cadência do filme leva o espectador a mergulhar na narrativa de Jack sobre o mundo em que ele vive. Neste momento, a poesia se apodera das cenas por meio das palavras. A visão de mundo do menino, idealizada a partir dos relatos da mãe sobre ele, é revelada durante cenas sobre a rotina deles. Não há como o espectador passar incólume a esses relatos. Não há como o espectador que, diferente de Jack, conhece o mundo e suas mazelas, não se encantar com a maneira que o menino enxerga a vida, o mundo, a própria existência.

Cena do filme O quarto de Jack

Jacob Tremblay me fez acreditar em Jack e embarcar em seu imaginário. O ator tem outro filme complexo na sua filmografia, Extraordinário (Wonder/2017), no qual interpreta Auggie, personagem com a difícil missão de encarar um novo universo, o da escola, sendo uma criança com uma deformidade facial. Brie Larson é uma atriz com uma filmografia variada, protagonista do filme Capitã Marvel (Captain Marvel/2019). Dos filmes que mais gosto, lembro-me de sua participação em O maravilhoso agora (The Spectacular Now/2013). Em O quarto de Jack, Larson interpreta Ma, a mãe de Jack. Ela dá força a uma personagem fragilizada pela violência que sofre, pelo cativeiro, pela responsabilidade de cuidar de seu filho que vive à mercê do algoz dela, pai de seu filho. Ela torna a dor e a solidão que sente em algo quase palpável. Tremblay e Larson tornam este um filme memorável.

Este filme pode servir de metáfora para prisões particulares, violência velada, privação do direito de estar no mundo, de existir nele. Antes disso, ele é um filme sobre uma mulher mantida em cativeiro, que sobrevive a quem a mantém em cativeiro, que tem um filho em cativeiro, que sobrevive ao cativeiro e supera seu algoz a ponto de alcançar a liberdade. Quando ela chega, a liberdade, essa mulher tem uma imensa dificuldade de se ajustar à realidade para a qual volta. O filho dela tem de conhecer o mundo no qual nunca esteve. Ele tem de aceitar que aquele mundo que ele conheceu, resumido ao quarto onde nasceu e cresceu, é mais, é diferente, é outro.

O quarto de Jack é a poesia melancólica e reveladora, porque leva o espectador a confrontar a certeza de que tem controle sobre tudo que lhe cabe. Porque, para sobrevivermos aos riscos que viver impõe, temos de acreditar que aquilo nunca acontecerá conosco. 


O quarto de Jack | Trailer

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

NO MUNDO DE RODRIGO DE CASTRO


A arte me ensinou mais do que apreciá-la. Ela me ensinou canções que me lembram pessoas queridas, estejam por aqui ou já tenham partido. Ela me ensinou que o olhar faz toda a diferença, durante uma apreciação. Ela me ensinou que refletir sobre o que nos constrange e limita é uma forma de nos recompor e transpor barreiras. 

A arte me ensinou a pensar. Ensinou-me a ser. Continuo a aprender com ela.

A arte importa. 

Por conta do meu envolvimento com a música e a literatura, tive a sorte de fazer amigos que me inspiram, humana e artisticamente, o tempo todo. Às vezes, uma conversa sobre banalidades se torna uma descoberta, um início de criação, uma cumplicidade no pensamento. Nesse patamar dos criadores, está um amigo muito querido, Rodrigo de Castro, que lançou seu primeiro livro, sábado passado. 

Músico, acostumado à criação de letras para canções. Artista, de quem as obras me encantam profundamente. O olhar é destaque da obra, mas o compositor assumiu o poeta e lançou No Mundo dos Sonhos, com ilustrações e textos que descortinam esse lugar no qual o imaginário se destaca, misturando-se aos desejos e criando fantasias.

A personagem foi criada há alguns anos, em uma única ilustração. Em No Mundo dos Sonhos, ela se torna protagonista e ganha muitos cenários, um mais interessante que o outro. 


Com o amigo e autor do livro No Mundo dos Sonhos, Rodrigo de Castro.

O livro não é somente para o olhar e a percepção das crianças. É daqueles para se apreciar, não importa em qual estação da vida. As ilustrações são belíssimas, são um passeio pelo imaginário de Soni, a personagem do livro. Os textos, sua poesia serve ao entendimento das crianças de forma tão mais interessante e profunda.

Durante o lançamento

No Mundo dos Sonhos, de Rodrigo de Castro, é uma obra que oferece o prazer de se exercitar o olhar a enxergar além, não somente em momentos em que arte seja a protagonista. A arte de quem cria colabora com a arte de quem a aprecia. A arte de compreender que o mundo é mais e, muitas vezes, bem diferente do que imaginamos. Às vezes, nosso mundo se torna mesmo o mundo dos sonhos, para que o mundo real possa se recuperar das suas mazelas e abraçar algumas levezas. Para que possamos nos recuperar das nossas mazelas e abraçarmos algumas levezas.

Para mim, este livro é muito especial, por ser de um amigo, de um artista que admiro há muito tempo e por ter chegado com tanta delicadeza, abordando o belo com mais amplidão. Oferecendo aos pensamentos rotas de fuga que os conduzem a esse lugar onde a vida segue mais inspirada e inspiradora.

No Mundo dos Sonhos
Rodrigo de Castro (ilustrações e textos)

Para adquirir o livro: rodrigodecastro.me
Curta a página e conheça outras obras do artista: facebook.com/rodrigosco.arte

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Aos que nos ensinam a aprender


Conheço alguns professores. Há algo neles que me deixa admirada, não apenas pela dedicação em ensinar, mas também pela capacidade deles de reconhecer em seus alunos o caminho a seguir para que eles aprendam o ensinado.

Sei que isso é bem complicado com as salas de aula cheias... prestar atenção em cada aluno e entender que há diferença na forma como eles aprendem. Encontrar opções mais abrangentes, que vão além do ensino padronizado, porém, atendendo ao programa de ensino. Mas é isso... às vezes, precisamos que aquele que nos guia entenda que somos diferentes da maioria. Que é preciso trabalho extra para que alcancemos aquele entendimento.

Ensinar é de uma lindeza sem fim. Tive a sorte de ter professores admiráveis, mas nem sempre na sala de aula. Professores que a vida me apresentou. Na sala de aula, posso citar duas professoras que conseguiram entender como eu funcionava, e me ajudaram a aprender, em um momento em que olhar para os lados era um problema para mim. Dona Beatriz e Dona Amelinha, professoras de Português e de História. As aulas delas eram uma verdadeira viagem, porque é muito, mas muito bom quando somos capazes de nos conectarmos com o que é ensinado, por conta da paixão de quem ensina. Serei eternamente grata a elas.

Eu gosto de aprender e esse gosto me aconteceu logo na infância. Sempre fui curiosa sobre como isso serve para aquilo; como essa pessoa funciona assim e aquela outra funciona de outro jeito. A curiosidade é o princípio de um conhecimento que vamos adquirindo com as nossas experiências. Também é algo que muitos professores têm de trabalhar arduamente para despertar em seus alunos. Está lá, nem todos acessam com facilidade.

Tenho amigos professores. Já escutei muitas histórias ligadas ao cotidiano deles. Algumas são de encher o espírito de contentamento, porque é muito bom ver alguém aprendendo, conquistando seu espaço, e então, ensinando também. Outras são de entristecer profundamente. É a desqualificação da profissão enfrentando a desqualificação do aluno como ser humano. Pessoas que não enxergam no aprendizado uma saída para a vida caótica que levam. É a violência, física e emocional, ganhando terreno.

Hoje, agradeço a todos os professores que passaram pela minha vida. Há tanto valor na arte de passar adiante um conhecimento, que temos de celebrá-los. Hoje, celebro a todos os professores, ainda que eu não saiba seus nomes, nunca os tenha encontrado, frequentado suas aulas ou até mesmo conversado com eles. Não há distância no que acredito: quem ensina proporciona a quem aprende a possibilidade de enfrentar os desafios que a vida oferece, assim como valorizar conquistas, as próprias e as das outras pessoas.

Hoje, agradeço a todos que me ensinaram e aos que continuam a me ensinar, seja na hora da aula ou durante um café. Que possamos compreender, de maneira a aproveitarmos essa compreensão, que somos todos capazes de aprender a dignidade, a justiça, a gentileza, a ciência, o português, a biologia, a música, mais um idioma, a culinária, a engenharia, a matemática, a medicina, o respeito, a moda...

Toda a minha admiração e gratidão aos professores.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O dia em que Kleber Albuquerque leu o que estava escrito no muro


Lembro-me de quando li o título daquele disco, pela primeira vez. Minha cachola, toda enredada nos tantos pensamentos pulsantes que abriga, aquietou-se por um instante, dedicando-se ao lido: Para a Inveja dos Tristes.

Uns segundos depois, ela, a minha cachola, descarrilou punhados de pensamentos diversos novamente e me peguei imaginando que aquele daria um ótimo título para um livro. Que história contaria? Como seriam seus personagens? Em quais paragens eles estariam? O que, de fato, causaria inveja nos tristes? Uma tristeza menor, que provocasse nos tristes o desejo de senti-la? Uma alegria retumbante, das de deixar qualquer triste morrendo de vontade de ser feliz?

O disco era um apanhado de histórias que me agradou escutar. Daria um livro, mas era disco, dos que moram na minha preferência. Para mim, quem consegue silenciar meus pensamentos, ainda que por segundos, e com tão poucas palavras, e em seguida me inspirar tantas possibilidades, não apenas chama a minha atenção, mas acaba se tornando destinatário dela.

Sábado passado, fui ao show de Kleber Albuquerque nesse espaço muito interessante e acolhedor, o Casa Teatro de Utopias. O espaço cultural fica na Lapa, São Paulo, e vale conferir a agenda e conhecer o lugar: casateatrodeutopias.com.br.

O evento marcou o lançamento do single Os Antidepressivos Vão Parar de Funcionar, que fará parte do próximo disco do cantor e compositor. As canções que compõem o disco serão disponibilizadas homeopaticamente (sic) nas principais plataformas digitais. O disco físico será lançado em 2019.

Kleber Albuquerque
Ele leu a frase pichada em muro da cidade de São Paulo. Transportar o impacto que ela lhe causou para uma canção, deu início à criação de uma coleção de canções com letras poeticamente melancólicas, embrulhadas em diversidade musical e esperança dramaticamente descarada.

Kleber Albuquerque tem o dom de sintetizar em canções emoções arrebatadoras. E ele o faz com uma linguagem travestida de singeleza, porque há um refinamento no seu fazer poético que poucos conseguem alcançar, principalmente quando se trata de trançar poesia e música.   

Em tempos em que as palavras ecoam soltas, nem sempre combinadas de forma a celebrar o melhor do ser humano, a música de Kleber Albuquerque chega para desarrumar certezas e abrandar auguras. Há um significado ali, bradado pela voz, refletidos na melodia, ritmado nas cordas do violão, na sua postura no palco. Aliás, o palco cai muito bem ao artista, e a forma como o público corresponde ao oferecido por ele é a prova de que a música desse poeta tem muito a dizer e a inspirar. 

O show contou com uma série de momentos especiais.

Foi muito bom conhecer novas canções e recordar tantas outras. A participação de Rovilson Pascoal (violão/guitarra/ukulele) é sempre apreciável, visto que se trata de um ótimo músico para se travar parcerias. Eu o acho um grande instrumentista. 

Foi maravilhosa a participação de Rubi, que junto com Kleber lançou Contraveneno, um disco que é uma lindeza, que resultou em um dos shows mais bacanas que já assisti [clique AQUI para ler sobre o Contraveneno]. Foi emocionante quando eles tocaram Eta Nóis, canção de Luhli e Lucina, que faz parte do Contraveneno. Luhli faleceu semana passada e deixou muitos admiradores de sua música. 

Kleber Albuquerque e Rubi foram indicados para o 29º Prêmio de Música Brasileira, na categoria dupla, por conta do Contraveneno.

Também foi muito especial assistir ao show de um amigo tão querido, na companhia de outros amigos. 

A discografia de Kleber Albuquerque faz parte da trilha sonora da minha biografia, há seis discos – quase sete, se contarmos este que está em fase de criação – e tantos shows, tantos bate-papos, as criações dele inspiram as minhas, além de me ajudarem a compreender o mundo das contradições. São crônicas musicais, misturadas a relatos comoventes e a mergulhos interiores capazes de tocar até o coração escolado em evitar se entregar aos rompantes emocionais. 

Kleber Albuquerque é um artista plural. Assistir a um show dele é sempre uma experiência inspiradora. Conhecer suas canções - que fique o alerta! -, é correr o risco de se embrenhar em autoconhecimento. Não há como passar despercebido pela música dele. Sendo assim, aos que acompanham a carreira dele e aos que desejam conhecer uma obra que vale a pena ser conhecida, acompanhem a jornada do Os Antidepressivos Vão Parar de Funcionar. Acompanhe a trajetória desse artista que, para a inveja dos que sabem apenas ser tristes, sabe transformar tristeza em possibilidade para se abraçar felicidade.

Os Antidepressivos Vão Parar de Funcionar
Confira algumas canções: 
kleberalbuquerque.com.br/antidepressivos

Conheça e acompanhe:
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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Meu afeto pelos filmes e Alan Parker

Eu sempre gostei de filmes. Menina, costumava assistir a qualquer um que passasse na tevê, mas não os de terror. Esses sempre me deixavam meio agoniada, então os evitava. Eu os evito até hoje, apesar de abrir exceções para certos atrevimentos.

Não era apenas entretenimento. Eu queria mais daqueles filmes. Eu queria entender como eles funcionavam. Minha curiosidade se apegava aos detalhes: de onde veio a ideia para aquele determinado diálogo? Por que a câmera olha para os atores daquele jeito? Qual o motivo para aquela coreografia de gestos dos atores? Que cores são aquelas? De onde ele tirou aquele olhar? De onde veio o suspiro dela? E aquelas lágrimas? Aqueles sorrisos? Aquela violência? Aquela sala apinhada de sabe-se lá o quê? Aquele silêncio prefaciando um grito?

Há duas coisas que eu estudaria, se a minha vida já não se atrapalhasse durante as 24 horas do dia: cinema e violoncelo.

Apesar de achar muito interessante alguns filmes em que o foco são os efeitos especiais, o que realmente me pega é o olhar mais íntimo: uma boa história, fotografia que se desenvolve – e se envolve bem - com o texto, diálogos bem construídos, direção competente, atuações inspiradas, trilha sonora que se mistura lindamente a tudo isso.

Assisti a um programa sobre um dos diretores que mais admiro: Alan Parker. O bom do especial era que o próprio diretor contava sua trajetória, abordava curiosidades do por trás das câmeras e citava complicações, histórias que são sempre muito bem-vindas e podem atuar perfeitamente como aprendizado.

Alan Parker
Não descarto um filme de Alan Parker. Cada um deles tem a sua peculiaridade e a sua riqueza. De O Expresso da Meia-Noite (Midnight Express/1978), passando pela aula que é assistir Mickey Rourke e Robert De Niro contracenando em Coração Satânico (Angel Heart/1987) e  Gene Hackman e Willem Dafoe em Mississipi em Chamas (Mississipi Burning/1988), chegando à complexidade de As Cinzas de Ângela (Angela’s Ashes/1999) e A Vida de David Gale (The Life of David Gale/2003).

Coração Satânico/Angel Hart | Robert de Niro e Mickey Rourke
É impossível pensar em Alan Parker e não se voltar à conexão dele com a música: Fama (Fame/1980), Pink Floyd – The Wall (1982), The Commitments – Loucos Pela Fama (The Commitments/1991) e Evita (1996).

Pink Floyd - The Wall
Assistir a um filme pode ser apenas entretenimento. Também pode ser mais, ir além. Alguns filmes merecem a época deles e conquistam as que chegam. Nem sempre remake é necessário, aliás, acontece de serem pra lá de dispensáveis.

É bom pensar em filmes como um calendário da nossa própria história. Alan Parker é um dos diretores que fez parte da minha predileção por filmes considerados mais simples tecnologicamente, mas requintados na sua construção. Às vezes, a simplicidade é complexa e conta com muitas camadas.
The Commitments
Enfim, eu sempre gostei de filmes, e os de Alan Parker fisgaram a minha curiosidade. Sempre aprendi com os filmes, e muito desse aprendizado acaba nos livros que escrevo. Uma das minhas alegrias foi quando Eduardo Loureiro Jr., ao escrever o prefácio do meu romance, Jardim de Agnes, disse: “Este livro não merecia um prefácio, mas um trailer. Este livro não é feito de capítulos, mas de cenas. Você tem vontade de ler de uma só vez. E, quando acaba, você aperta os olhos e tenta se acostumar com a luz acesa da realidade.”

Não sou escritora apegada à descrição de ambientes e características físicas. Meu foco está sempre no personagem e seus enfrentamentos. Ainda assim, é muito comum alguém dizer que, ao ler minhas histórias, sente-se como se assistisse a um filme. Essa ideia pode até não forjar uma roteirista de cinema em mim – acreditem, eu tentei e me diverti, mas foi só isso –, mas mostra o quanto o cinema é importante para a minha escrita.

O mais próximo que cheguei da linguagem do cinema, foi quando um conto do meu livro O observador foi adaptado para um curta. Na verdade, o conto está lá, sendo narrado, e o francês Émilien Berenfeld é responsável pelo filme. Fiquei muito feliz com esse projeto, que acabou reunindo pessoas muito interessantes, incluindo alguns queridos amigos. O conto Lembretes ganhou uma versão em inglês, Reminders, e o filme conta com legendas em português e francês. Segue no final, para quem quiser assisti-lo.

Documentários são importantes. Ultimamente, tenho assistido a muitos e de todas as áreas. Conhecer mais a respeito daqueles que influenciam o nosso mundo, saber que muito do que temos e fazemos hoje se deve à visão que eles tiveram, não é apenas reconhecimento do mérito dessas pessoas na História, mas também enriquecimento da nossa própria linguagem. É aprendizado e, como todo aprendizado que visa a construção, vale a pena.

Então, vamos a ele... ao aprendizado.


terça-feira, 4 de julho de 2017

QUINTAL, MÚSICA E PINTURAS

Foto © Rodrigo Scó

Assim como muitos, estou meio borocoxô com as ciladas nas quais andamos caindo. É a política que corta, a incivilidade que joga sal na ferida. Fica tudo meio dormente e enlouquecido, de jeito que inspira um desolamento ruminado à exaustão.

Daí que fica tudo meio sonso, dá preguiça existencial. A gente se encosta nessa melancolia de quem não sabe para onde correr, por onde começar a desfiar esse novelo.

Nessas horas, a arte se prova cada vez mais merecedora de atenção e cuidado. Para os que duvidam do seu valor, saibam que ela tem papel fundamental na nossa formação humana. Pois em dias como esses, em que nos sentimos desalentados e atormentados que só, meio que largados à beira do caminho, vem a arte e faz arte com a gente.

Sexta passada, fui a um evento do qual um amigo participou, no bairro onde moro. Não sabia nada a respeito, apenas que gostaria de estar lá por ele e pelo quentão. Era Festa Junina e eu estava louca por um quentão. A festa aconteceu no quintal de uma casa, e além das bebidas e comidas temáticas, durante o show os artistas transformariam a tela em branco em uma de suas obras.


Vanessa Moreno e Fi Maróstica © Dani Gurgel

Eu sempre gostei desse ponto onde diferentes linguagens artísticas se encontram. Aconteceu de o show ser de uma dupla que anda no meu play ultimamente: Vanessa Moreno e Fi Maróstica. Voz e baixo, uma lindeza de colorido rítmico. Os músicos tocaram dentro da piscina vazia, o que eu achei o maior barato. Ao lado, quatro artistas trabalhavam em suas telas, enquanto a música era espalhada pelo recinto: Pamela Munhoz, Jeng Ho, Rodrigo Scó e JotaVe. 

Obra © Pamela Munhoz | Foto © Rodrigo Scó

Assistir a essa feitura – música sendo tocada e telas ganhando vida – foi uma experiência muito especial. Na música, impressionou-me o ritmo e a leveza de Vanessa e Fi. Já era fã, agora, adquiri a carteirinha. Nas telas, as imagens pareciam acontecer, porque, para quem nem consegue desenhar uma casinha decente, observar aquelas lindezas surgindo era meio que assistir à construção de um afeto; a um milagre pessoal alheio que, sem querer, também nos abençoa.


Obra © Jeng Ho | Foto © Rodrigo Scó

Daí que meu espírito ficou atiçado, a fim de se encantar até mais que os desapontamentos, que assim ele terá forças para não se desiludir de jeito sem volta. A cada vez que eu mesma questiono o motivo de a arte existir, de eu me enveredar por esse caminho como quem cria e aprecia as criações, vem um evento desses e coloca meu espírito no lugar. Essa lufada de arte pode não dar jeito no problema, mas pode aprimorar o espírito daqueles que podem resolvê-los. Nossos espíritos.


Obra © Rodrigo Scó | Foto © Rodrigo Scó

O evento faz parte do projeto Impulso, da cantora e compositora Barbara Rodrix e da artista plástica Pamela Munhoz. Eu já havia conferido algo parecido com o projeto de Kleber Albuquerque e o seu Teatro Imaginário da Fábrica de Caleidoscópios.


Obra © JotaVe | Foto © Rodrigo Scó

Quando eu era menina, o quintal de casa era um mundo inteiro cabendo ali. Minha imaginação trabalhava muito para montar cenários imaginários. Quem participa de eventos como os promovidos por esses artistas, acaba em quintais ainda mais deslumbrantes e fantásticos, nos quais a arte é um presente a ser compartilhado. 

Por mais quintais repletos de pessoas fazendo e apreciando arte. 


Vanessa Moreno e Fi Maróstica  | Extra | Do disco Cores Vivas, com canções de Gilberto Gil


** Meu amigo é o Rodrigo Scó. Ao longo dos anos, ele tem me emprestado várias obras para ilustrar os meus textos. Ano passado, uma delas se tornou capa do meu livro de contos, O Observador. Por isso, além da beleza de suas obras, agradeço a gentileza de ele me permitir trazê-las para meu universo.

** Minha companhia da noite foi a amiga para tudo quanto é evento, a Rubia Elias. Assim, só posso desejar a todos o que acontece comigo: que seus amigos sejam bem bacanas. Tenho certeza de que, dessa forma, você também o será.