segunda-feira, 10 de abril de 2017

Kleber Albuquerque + Rubi | Contraveneno



LÁ PELAS BANDAS DO CONTENTAMENTO

A primeira vez que os vi em um mesmo palco foi em 2003, no show do lançamento do disco O Centro Está Em Todas As Partes, de Kleber Albuquerque. Rubi entrou em cena para cantar uma das canções do disco. Até então, eu não conhecia aquela voz.

Conhecia o Kleber, mas não nos falávamos há tantos anos, desde a gravação do disco da banda O Palhaço, lá em Santo André, nossa cidade. Eu estava feliz com o reencontro, porque na conta dele estava a estima que sentia pelas canções dos discos anteriores de Kleber: 17.777.700 e Para a inveja dos tristes.

Meu apreço pela música do Kleber não é segredo. Eu gosto mesmo, faço propaganda, apresento aos amigos. A sua poesia é de uma lindeza que me toca profundamente, e que me inspirou a escrever um livro de poemas. Meu apreço por ele, idem. É um amigo pra lá de querido, um artista que me inspira, uma pessoa admirável.

Daquele show para cá, frequentei outros shows do Kleber e do Rubi. Com eles juntos, um do grupo Canto de Cozinha. Na pilha dos discos pelo qual me apaixonei, está o Infinito Portátil, que Rubi lançou em 2006.

Sábado passado, dia 8 de abril, fui ao show de lançamento do disco Contraveneno, projeto que colocou no mesmo palco, e no mesmo disco, Kleber Albuquerque e Rubi. Para quem os conhece, sabe que daí só sairia coisa boa mesmo. Não é pretensão, papo de fã, mas fato. Eles são talentosos e, em sintonia, criam mágica. Quem estava lá, no show de sábado, pode endossar o que digo.

Rubi e Kleber Albuquerque
Contraveneno é uma declaração de amor à parceria deles. Kleber e Rubi resgataram canções que gostavam de tocar e cantar juntos, incluíram outras canções no repertório e fizeram um trabalho delicado, daquele tipo de delicadeza que nos silencia e nos leva a escutar canções como se elas ecoassem dentro de nós.

O show foi uma experiência para os sentidos. Emocionar-se foi ingrediente básico da experiência. A música vinha dos violões de Kleber e Rubi, do violão e guitarra de Rovilson Pascoal e do violoncelo de Mario Manga. Aliás, o violoncelo que me agradou deveras. Eu que tenho por ele uma paixão platônica, já que sei que não aprenderei a tocá-lo, mas sempre vou tratá-lo com a intimidade de um quem sabe?, um dia, na próxima vida. Para o qual criei um personagem em um livro, só para colocar um músico famoso a tocar violoncelo em uma sala de paredes descascadas para uma pessoa que precisava, urgentemente, de um contato mais íntimo consigo mesma. Concertos particulares de violoncelo para quebrar silêncios insistentes.

Rovilson Pascoal eu já vi em outros palcos. Gostei muito da forma sutil, porém marcante como ele apresentou sua guitarra nas canções do show. Eram como comentários pontuais. Complementavam e, ao se sobrepor, era com sutileza.

Ao pensar em Mario Manga, impossível não pensar no Premê. Uma das músicas da banda foi incluída no disco e fez parte do repertório do show. Porém, Manga já fazia parte da história desses artistas, desde muito antes desse projeto. Ele produziu o primeiro disco de Kleber. Após escutar esse disco, Rubi procurou Manga para que ele produzisse o seu primeiro disco.

Contraveneno é reencontro, mas também continuidade. Lançado pela Sete Sóis, tem como responsável Flávvio Alves, quem também tem assinado parcerias musicais com Kleber, como a faixa-título do disco.

Projeto que vai além de se colocar mais um disco no mundo. É entregar ao mundo um contentamento, apesar das tristezas que carregamos vida afora. O show mostrou isso. A música que também serve para despertar esperanças, relembrar afetos, dispersar angústias.
  
Portanto, caso eles apareçam por aí, por perto de vocês, não deixem passar a oportunidade de ver no palco o que, tão lindamente quanto, foi registrado em disco. Vale a viagem, vale o mergulho interior, vale o contentamento de observar artistas a amarrarem os cabelos da música com os laços da poesia.

CONTRAVENENO
Canções do disco: Castelo de Amor (Nenzico/Creone/Barrerito), Procura no Google (Kleber Albuquerque), Geração (Kleber Albuquerque), Sem Tempo (Juliano Holanda), Eta Nóis (Luhli/Lucina), Ai (Kleber Albuquerque/Tata Fernandes), Cerol (Kleber Albuquerque/Flávvio Alves), Papai Noel Tomou Gardenal (Kleber Albuquerque), Como La Cigarra (Maria Elena Walsh), Milonga da Noite Preta (Kleber Albuquerque), Contraveneno (Kleber Albuquerque/Flávvio Alves) e Lava Rápido (Wandi Doratiotto). 

Informações: setesois.com.br




ROQUE SANTEIRO | o musical

Foto: João Caldas | Divulgação
A fictícia cidade de Asa Branca é cenário para uma trama na qual o bem-estar do cidadão serve como fachada para interesses próprios. Políticos e religiosos seguem se estranhando, mas nem tanto. Na hora do agrado, todos chegam a um acordo.

Não se trata de uma adaptação da novela que foi ao ar nos anos oitenta. O musical é baseado na peça de teatro O Berço do Herói, escrita por Dias Gomes nos anos sessenta, que foi censurada. A novela também é baseada nessa peça, mas o musical segue a trama da peça, e se diferencia em muito da adaptação feita para a novela.  

Em cartaz no teatro FAAP, em São Paulo, Roque Santeiro | o musical conta a história do Cabo Roque, que foi declarado morto durante uma batalha. A partir desse ocorrido, um herói é forjado, criando-se uma lenda e um mercado em torno dela. Durante anos, Asa Branca vive do turismo gerado pela história de Roque Santeiro e sobrevive aos interesses de figuras da política e da igreja.

Sustentar uma mentira, com seu protagonista morto, é uma coisa. Porém, quando Roque volta à cidade, sem qualquer problema em enfatizar sua covardia ao encarar o campo de batalha, os que criaram essa fonte de renda voluptuosa se veem de cara com a possibilidade da ruína, e começam a pensar em uma forma de se livrarem do problema.

Os personagens de Roque Santeiro são sedutores. Das moçoilas sob a batuta da atinada Matilde (Luciana Carnieli), dona do bordel, passando pela nada discreta viúva Porcina (Livia Camargo) e seu comparsa Sinhozinho Malta (Jarbas Homem de Mello), chegando ao problema em si, Roque (Flávio Tolezani), o cômico se mistura ao trágico, e enquanto o espectador gargalha, também compreende o quão inocente o culpado pode parecer ao contar a mentira como se fosse verdade absoluta. O quanto o inocente, ás vezes, prefere mergulhar na mentira a ter o trabalho de lidar com a verdade.

Zeca Baleiro é responsável pela direção musical. Ele musicou letras existentes, de autoria de Dias Gomes, e compôs outras. Alguns atores e dois músicos - André Bedurê (baixo e violão), que conheço de outros palcos, e Érico Theobaldo (guitarra, percussão e eletrônicos) - interpretam as canções ao vivo. Da trilha sonora original, somente duas: Dona e ABC do Santeiro, ambas de Sá e Guarabyra.

Roque Santeiro | o musical me agradou muito. Gostei das interpretações, da música, dos diálogos. Os atores estão ótimos, e não há como negar que os momentos entre Sinhozinho Malta e viúva Porcina, assim como as intervenções de Toninho Jiló (Marco França), enriquecem a trama. A direção é de Débora Dubois.

Aos que ainda não assistiram ao espetáculo, não deixem passar a oportunidade. Roque Santeiro | o musical ficará em cartaz até dia 14 de maio.

ROQUE SANTEIRO | o musical

Até 14/05/17

Texto: Dias Gomes.
Direção: Débora Dubois.
Direção musical: Zeca Baleiro.

ELENCO: Jarbas Homem de Mello, Livia Camargo, Flavio Tolezani, Mel Lisboa, Luciana Carnieli, Edson Montenegro, Dagoberto Feliz, Nábia Villela, Yael Pecarovich, Giselle Lima, Marco França, Samuel de Assis, Cristiano Tomiossi.

LOCAL
Teatro FAAP
Rua Alagoas, 903
Higienópolis | São Paulo | SP

DIAS E HORÁRIOS
Sextas e sábados | 21h
Domingos | 18h

INGRESSOS
Bilheteria: quarta a sábado | das 14h às 20h * Domingo | das 14h às 17h.
Televendas: 11 3662 7233 | 3662 7234
Pela internet: clique aqui.

Indicação: 14 anos
Duração: 120 minutos

https://www.facebook.com/roquesanteiroomusical

segunda-feira, 13 de março de 2017

Mariachi Gringo


Mariachi Gringo (El Mariachi Gringo/2012) é um desses filmes no qual esbarramos muito sem querer, do qual nada mais esperamos, além de entretenimento, e que nos surpreende de uma forma agradável. É como quando encontramos dinheiro nos bolsos de um casaco que não usamos há tempos.

A qualificação dos filmes me deixa incomodada. Certamente, a pessoa que o qualificou não assistiu ao filme, leu o título e achou que havia entendido tudo. Dirigido por Tom Gustafson e escrito por Cory Krueckeberg, Mariachi Gringo não é comédia. Ao contrário, conta história de um homem de quase trinta anos, que vive em uma cidade do interior, leva uma vida, assim mesmo, levando. Alguém que não sabe quem é ou quem poderia se tornar.

Shawn Ashmore, que interpreta o personagem em questão, é conhecido por suas participações em séries e filmes. Particularmente, gosto muito do trabalho dele na série The Following, e a mais recente é Conviction. A maioria, porém, deve conhecê-lo como Iceman, o Homem de Gelo dos filmes X-Men e Esquadrão de Heróis.

Em meio a uma crise existencial, guiada por remédios para depressão, Robert conhece um mexicano, dono de um bar que frequenta, que desperta novamente nele o desejo de voltar à música. Quando mais jovem, antes da crise atual, Robert tinha o sonho de sair por aí com sua banda. A música não é algo visto com bons olhos pela família, principalmente pela mãe. Na verdade, eles a consideram completamente sem importância.

A paixão de Alberto (Fernando Becerril) por Guadalajara (México) e pela música Mariachi, encanta Robert de tal forma, que ele pede para que o dono do bar El Mariachi o ensine a tocá-la. A amizade deles se estreita, conforme Robert aprende mais sobre o México, sua música e os Mariachis, os intérpretes dessa música.


Com o aprendizado, Robert vai se fortalecendo, sentindo-se mais vivo. Quando Alberto fica doente, ele se sente tão desalentado, que decide encarar uma nova jornada: tornar-se um Mariachi em Guadalajara.

A princípio, a história nos leva a imaginar diversos desfechos. Porém, durante o desenrolar da trama, percebemos que tudo o que tínhamos por certo vai caindo por terra, como acontece ao próprio personagem principal. 

O espectador acompanha as nuances da história e há momentos para gargalhadas, porque assim funciona a vida. Porém, Mariachi Gringo é um drama, relacionado ao estado de espírito de quem decide, depois de encarar a depressão e a impossibilidade de sair do lugar, a aventura de mergulhar em uma cultura completamente diferente da sua, e lá encontrar sentido para existir.

O próprio espectador se sentirá atraído por Guadalajara. Compreenderá um pouco melhor os Mariachis, perceberá que é muito fácil cair nas tramas alheias e não conseguir se desvencilhar delas. E também o valor da cultura de um povo, assim como dos laços que criamos com aqueles que encontramos durante a jornada da nossa vida.

E ainda tem Lila Downs... 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Voando para Casa | Uma boa história


Eu gosto de boas histórias. Às vezes, elas não me chegam por meio de livros ou filmes, que são as principais fontes das histórias que aprecio. Às vezes, eu esbarro com elas, como quando uma senhora passava mal, em frente onde trabalho, e em vez de entrar, ela preferiu seguir, porque no quarteirão seguinte estava o dentista com quem tinha hora marcada, alguém que a conhecia e poderia levá-la para casa. Então, eu a levei até lá. Demoramos um pouco para completar esse quarteirão. Ela se sentia um pouco melhor, mas tinha artrite, suas pernas doíam. Durante o caminho, ela me contou sobre sua paixão pela música e pelos gatos. Ela desejou ser pianista, quando menina, mas o pai não permitiu. Tornou-se ouvinte assídua de respeitáveis mestres da música clássica e popular. Após os filhos se casarem, vendo-se sozinha em casa, optou pela companhia dos gatos, e não poderia ter feito escolha melhor. Sentia-se feliz com eles.

Naquele dia, além de uma boa história, ganhei um longo abraço e a gratidão de Norma por eu tê-la levado a um lugar seguro, quando se sentia fragilizada. Essa é apenas uma das histórias que tenho para contar, porque alguém quis me contar a sua.

Jan Decleir interpreta Jos Pauwels, o dono do pombo cobiçado pelo sheik.
Sobre uma das minhas histórias, quem me conhece sabe que tenho sérios problemas com lagartixas e pombos. Ao contrário de mim, esses seres adoram intervir na minha vida. Elas caindo na minha cabeça. Eles voando contra a minha pessoa e me dando sustos. Isso significa que eu jamais escolheria um filme com lagartixas ou pombos, ou ambos no elenco. Mas o fiz hoje, para o bem desse eu que adora uma boa história.

Decidi assistir Voando para Casa (Flying Home/2014), por causa do ator. Quando gosto de um ator ou atriz, assisto aos filmes dos quais eles participam. Neste, o irlandês Jamie Dornan é o protagonista. Eu o aprecio como ator, mas não por conta do - para o meu gosto - inexpressivo 50 Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey/2015). Antes deste filme, eu o assisti na ótima série The Fall, que maximizou a boa impressão que tive dele, por conta de sua participação no filme Maria Antonieta (2006) e da série Once Upon a Time.

Escrito e dirigido por Dominique Deruddere, Voando para Casa conta a história de Colin Montgomery (Jamie Dornan), um empresário ambicioso de Nova York, que se vê diante de um desafio: convencer um sheik árabe a se tornar cliente de sua empresa. Ao visitar o sheik, que já decidira fechar negócio com outra empresa, ele se vê diante de uma oportunidade de conquistá-lo como cliente. O sheik cria e treina pombos e tem o desejo de conseguir um que esteja apto a participar de uma das mais importantes corridas do gênero. Ele acredita que seria possível ganhar a prestigiosa corrida de Barcelona, se conseguisse comprar o pombo de um homem que vive na Bélgica, mas que se nega a vendê-lo. Conseguir o tal pombo para o sheik se torna a missão de Montgomery. Assim, ele parte para Flandres com nome e história inventada, a não ser um único aspecto.


O filme é simples. Simples como escutar sua avó ou sua mãe lhe contar uma história de família sobre pessoas que você nunca conheceu. Há romance, mas, honestamente, esse é apenas um aspecto do filme. Não toma conta dele. Outros relacionamentos pesam mais, como o de pais com filhos, dos próprios criadores de pombos com essas criaturas, dos cidadãos com sua região, do homem com o poder que se mostra menos importante do que as relações humanas. Você sabe aonde o filme o levará, porém, a sutileza com a qual o espectador é levado ao desfecho é o que faz a diferença em Voando para Casa. Trata-se de uma história bem contada, que remete ao fato de que, às vezes, por conta da série de conquistas que almejamos alcançar, esquecemos de que somos pessoas, e de que nem sempre precisamos do que desejamos intensamente.

VOANDO PARA CASA | TRAILER

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Hugh Laurie | Chance

Chance | Foto: Reprodução
Eu estava apegada ao Kenneth Branagh. Assisti Voltar a Morrer (Dead Again/1991) e queria mais. Até hoje ele é dos meus atores e diretores preferidos. Na época, quando internet era realidade que não a minha, descobri outro filme no qual, assim como em Voltar a morrer, ele atuou e dirigiu.

Para o resto das nossas vidas | Foto © Samuel Goldwyn

Para o resto de nossas vidas (Peter’s Friends/1992) conta a história de Peter Morton (Stephen Fry), que herdou de seu pai o título de lorde e uma mansão. Para celebrar, ele reúne um grupo de amigos da época da faculdade para um final de semana na tal mansão. É um filme singelo e muito interessante, que os amigos trazem seus dramas para a vida de Peter, quem tem um segredo para revelar que se sobrepõe as questões de seus amigos.


Foi assim que eu conferi, pela primeira vez, um trabalho de Hugh Laurie.

Alguns anos e algumas participações em filmes depois, fiquei sabendo que Dave Matthews (Dave Matthews Band) participara de um episódio de uma série que eu, que adoro séries, tinha escolhido não assistir, porque já havia três na lista de favoritas que tinham a ver com médicos. Como não sou de começar pela metade, decidi assistir a série do primeiro episódio ao 15º da terceira temporada, o tal com a participação do músico. Foi assim que Hugh Laurie entrou de vez para a lista das minhas benquerenças.

House, M.D. | Foto: Reprodução
House, M.D. foi uma série de sucesso, com oito temporadas. Laurie construiu um personagem que jamais será esquecido. E por mais talentoso que ele fosse, ele apropriara-se de tal forma de House que eu tinha a impressão de que o médico acabaria arranjando um cantinho no puxadinho de seus próximos personagens.

Mr. Pip | Foto: Reprodução
O primeiro trabalho de Laurie que conferi, após o fim de House, apagou essa possibilidade dos meus sentidos. Mr. Pip (2012) é um filme delicado, uma adaptação do livro do neozelandês Lloyd Jones, com roteiro e direção de Andrew Adamson, uma parceria entre Austrália, Papua Nova Guiné e Nova Zelândia.

Mr. Pip é conduzido por Matilda Naimo (Yzannjah Matsi), uma das habitantes de  Bougainville, Papua Nova Guiné, que passa por uma guerra. Por esse motivo, apenas um homem branco permaneceu na ilha, Tom Watts (Laurie). Em meio à guerra e ao abandono, Watts começa a ler Grandes Esperanças, de Charles Dickens, na escola da ilha. Matilda fica maravilhada com o livro, e passa a lidar com a guerra e as perdas, apoiando-se na sua imaginação.

Mr. Pip é um belíssimo filme sobre como uma pessoa pode fazer diferença na vida de outra, de maneira valiosa. É uma história repleta de nuances, que nos leva do aqui ao ali em um misto de desolação e esperança. Um filme agridoce, com um Laurie quase sempre silente e sendo fantástico.

Chance | Foto: Reprodução
Em outubro, estreou a série Chance, com Hugh Laurie como protagonista. Senti novamente aquele questionamento: será que House vai tomar conta? Isso porque a série coloca Laurie novamente em contato com a medicina.

Chance conta a história do neuropsiquiatra Dr. Eldon Chance, que passa por um divórcio e percebe que sua mente anda acessando lugares obscuros, principalmente quando se vê enredado em uma trama de manipulação e abuso ao se envolver com uma de suas pacientes que sofre de múltiplas personalidades.

Hugh Laurie é um ator daqueles que marcam o espectador, mas não na conta de apenas um personagem. Chance é uma ótima série, mas é outra.

Foto: Reprodução
Desde Para o resto de nossas vidas, tem sido prazeroso acompanhar a carreira de Hugh Laurie. Não importa a categoria: drama, comédia, suspense. Até mesmo as linguagens se misturam: cinema, televisão, música, literatura. O que sei é que ele é um daqueles artistas que nos fazem mergulhar em seus feitos, e isso é muito agradável.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O Relutante Fundamentalista


Há filmes que são preciosidades. Muitos deles, tornam-se atemporais, pois abordam o ser humano em sua inegável capacidade de ser benevolente, assim como cruel. Há também aqueles que são brilhantes em sua abordagem, que nos levam a olhar para grandes tragédias como que observando cada criminoso, cada vítima. Há uma proximidade que nos leva a observar com mais intimidade nosso próprio comportamento.

O Relutante Fundamentalista (The Reluctant Fundamentalist) é um desses filmes que nos inquieta e nos leva a uma jornada interior. Parte de um ato terrorista, com milhares de vítimas, e aporta na vida de um único personagem, alguém que sofre as consequências de tal ato, o que se mostra revelador, apontando um comportamento que tendemos a trazer para a vida de cidadão comum.


O filme é pontuado pelo momento em que o professor paquistanês Changez (Riz Ahmed) aceita conceder uma entrevista ao jornalista americano radicado no Paquistão, Bobby Lincoln (Liev Schreiber), sobre a época em que estudou nos Estados Unidos e se tornou um ilustre analista financeiro em Wall Street, sua volta a Lahore e o momento atual, quando sua família sofre ameaças constantes.


Trata-se de um “antes e depois” do paquistanês. A ideia de focar em um personagem para ilustrar a situação dos muçulmanos que viviam nos Estados Unidos, após o 11 de setembro, oferece intimidade que permite ao espectador se colocar no lugar dele. Porém, O Relutante Fundamentalista não trata somente de um lado das partes envolvidas em tal episódio. O filme demonstra que, em tempos de terrorismo, a verdade nem sempre tem espaço, o que é triste e se reflete no nosso cotidiano.

O sonho de Changez era ser quem se tornou. Apesar de a família insistir pela sua volta ao Paquistão, ele escolheu seguir seu próprio caminho. Então, ser quem se tornou já não importava mais. Vieram os rótulos, as deduções, as detenções. A transformação de Changez, até o momento em que decide voltar para Lahore, acontece pela pressão por ele ser um paquistanês, um muçulmano vivendo em Nova York.

De volta a Lahore, tornou-se um professor querido pelos alunos, e por isso, visto como um líder. Então, um professor americano é sequestrado no Paquistão, e as suspeitas caem sobre Changez.


A entrevista, o que Lincoln traz para esse encontro, a série de armadilhas para a compreensão de um a respeito do outro, mostram O Relutante Fundamentalista como um filme sobre a fragilidade humana diante das tragédias. Sobre como o ódio entre os de díspares culturas pode engolir até mesmo aqueles que ainda querem, precisam e acreditam na verdade.

O Relutante Fundamentalista  é uma coprodução entre EUA, Inglaterra e Qatar. Baseado no livro do paquistanês Mohsin Hamid, dirigido pela indiana, radicada nos Estados Unidos, Mira Nair, foi lançado em 2012. Também conta com as participações de Kiefer Sutherland e Kate Hudson no elenco.

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NOTA
Encontrei pela internet sites, artigos e imagens promocionais que trazem o título em português do filme como O FUNDAMENTALISTA RELUTANTE. Este é o título do livro de Hamid. O título do filme é O RELUTANTE FUNDAMENTALISTA, como consta no site da distribuidora [clique aqui e confira] e você pode tirar a dúvida conferindo ambos, filme e livro, clicando aqui.



segunda-feira, 13 de junho de 2016

Elas e as importâncias


O conteúdo é dolente, mas tem humor desprovido do sensacionalismo que impera nos telejornais. É justamente na crueza do ocorrido que se debruça o espetáculo. O humor conduz o espectador à contemplação do que a maioria tende a não observar com a devida atenção, mas que acontece às mulheres do mundo, não somente àquela que você não conhece. Acontece também àquela do pequeno mundo que é a casa ao lado, ou a sua própria.

Fui assistir ao espetáculo Os Monólogos da Vagina pela quarta vez, no Teatro Gazeta, em São Paulo. Penso que seria muito interessante se você, que não sabe do que se trata, assistisse também. Homens são muito bem-vindos. Não pensem que é só para mulheres, por conta do título. Alguns que conheço já tiveram essa dúvida, mas fiquem tranquilos que é espetáculo para todos.

[Se quiser ler sobre a apresentação de comemoração de quinze anos de espetáculo, clique AQUI.] 

Acredito que, se você assistir ao espetáculo uma única vez, já fará uma grande diferença, que ao contrário do que tentam provar por aí, arte é um veículo fantástico, não somente para alimentar o espírito das pessoas, para inspirá-las aos devaneios e reflexões (o que já maravilhoso!), mas também para registrar e contar histórias relevantes, como neste caso. 

Eve Ensler, autora de Os Monólogos da Vagina, colheu depoimento de mais de duzentas mulheres, de várias partes do mundo, sobre sexo, relacionamentos e violência doméstica. Alguns relatos incluídos no espetáculo são contundentes e provocam o espectador a se perguntar como é possível alguém passar por aquilo em tempos modernos. Pelo jeito, a nossa capacidade de lutar contra abusos não anda se modernizando com a urgência desse espanto. Ao contrário, tendemos a fazer de conta que não temos nada a ver com isso, assim não precisamos lidar com tais questões, que apesar de parecerem pessoais, são globais. 

No palco, as atrizes interpretam situações que algumas das mulheres entrevistadas viveram. Torna-se impossível aceitar o fato de que mulheres ainda passem por aquelas situações. Os depoimentos muitas vezes levam os espectadores às gargalhadas, até chegarem ao ponto de escancarar o problema. A reação do público é imediata, como deveria ser no diariamente, diante da privação de direitos das mulheres, do desrespeito aplicado a muitas delas... Muitas de nós.

A mulher vem se posicionando com mais energia e coletivamente, apontando os abusos sofridos, mas muitas delas ainda escondem sua condição da família, dos amigos, como se fossem culpadas por serem vítimas. Esse pensamento é que precisa ser mudado. Pode levar tempo, mas creio que o processo foi iniciado. 

Além do mais, cai por terra qualquer esforço dessas mulheres em se apresentar quando a política, as leis, as pessoas que têm como função orientar e atender às necessidades dessas mulheres se tornam seus algozes.

Os Monólogos da Vagina é um resumo do que a mulher ainda tem de enfrentar, apesar de toda modernidade de hoje em dia. Trata de um cenário que, em vez de melhorar, agarra-se a um retrocesso que deveríamos – e nós todos, como seres humanos e cidadãos – encarar como inadmissível, e nos unirmos para soluções, não para gerar mais rótulos e aumentar estatísticas, endossar violência.

Adriana Lessa, Cacau Melo e Maximiliana Reis interpretam lindamente, e com o devido respeito, a experiência de mulheres que, em alguns casos, nem mesmo compreendem a violência que sofrem. São reféns em suas casas, aprisionadas pela cultura de seu país, pela religião herdada.

Eu poderia relatar o que me encantou na forma como as atrizes conduzem o espetáculo. Mas, na verdade, creio que será muito mais interessante se você aparecer por lá para vê-las no palco. É feito um balé de interpretações ora graciosas, ora calcadas no humor, para então abraçarem a dramaticidade que as histórias carregam. 



Acredito que muito do que julgamos ser clichê são verdades gritantes. Porque, sim, é difícil imaginar uma mulher sofrer violência física e emocional pelo simples fato de ser mulher, o que a faz ter de lutar para defender o que lhe é de direito. Talvez a questão seja essa, e não somente para as mulheres. Tratar-nos como seres humanos, em primeiro lugar, pode nos libertar da ideia – completamente equivocada – de que somos melhores ou mais importantes do que o outro; que temos o direito de escravizar, corpo e alma, de outro ser humano.


Paulo Renato Pirozzi, Maximiliana Reis, Raquel Pirozzi, Adriana Lessa e Carla Dias.

Clique AQUI e leia comentário de Miguel Falabella.
Clique AQUI para informações sobre o espetáculo.


OS MONÓLOGOS DA VAGINA
Com Adriana Lessa, Cacau Melo e Maximiliana Reis

Temporada | Até 7 de agosto

Teatro Gazeta
Avenida Paulista, 900 | São Paulo, capital
Informações | 11.3253 4102 – teatro.gazeta@terra.com.br

Horário | Sexta às 21h | Sábado às 21h | Domingo às 20h

Compre online clicando AQUI.

Texto | Eve Ensler
Adaptação e Concepção Original | Miguel Falabella
Elenco | Adriana Lessa, Cacau Melo e Maximiliana Reis - Sônia Ferreira (standing)
Visagismo | Anderson Bueno
Trilha composta | Ricardo Severo
Operação de Som | Mattheus Chaves
Operação de Luz | Lucas Nascimento
Figurinos | Anderson Bueno e Milton Fucci Júnior
Cenário 2012 | Cássio L. Reis
Montagem de vídeo | Fábio Lima
Produção 2016 | R&M Brasil Produções Artísticas


domingo, 17 de abril de 2016

A Paixão Segundo Nelson


Acabei de chegar em casa. Acabei de chegar em casa, vinda do teatro. Não é de meu feitio escrever a respeito das minhas aventuras como espectadora de feitos artísticos, assim, no mesmo dia. Gosto de ruminar. Sou ruminadora por natureza. Mas não hoje. Acabei de chegar do teatro e sinto uma vontade imensa de falar sobre o que vi.

Falarei, então. Melhor... Escreverei.

Você pode pensar: ah, mas é só um espetáculo! Uma pena mesmo será se você não puder ver o que vi, pouco antes de chegar em casa, vinda do teatro. Então, dizer a si: “ah, que espetáculo! ”

Assisti ao A Paixão Segundo Nelson [uma farsa musical brasileira], no Teatro Bradesco, aqui em São Paulo. Com adaptação dos textos de Nelson Rodrigues feita por Zeca Baleiro, quem também assina as canções originais. Eu que ando nesse apaixonamento pelo teatro sendo amplificado a cada vez que assisto a um bom espetáculo, ganhei hoje a oportunidade não só de ver personagens de Nelson Rodrigues desfilarem pelo palco, mas tais personagens serem interpretados de uma forma que me fez acreditar completamente neles. Houve esse momento em que me senti espectadora dentro da história. Uma vizinha bisbilhotando a vida alheia e com sucesso.

Não ter intimidade com as obras de Nelson Rodrigues não é impedimento para quem deseja assistir a um espetáculo que é uma lindeza. Há delicadeza na brutalidade das histórias daqueles personagens, e um humor refinado, que inspira não somente a gargalhada, mas a gargalhada acompanhada de uma fisgada de inquietação. Daquelas fisgadas que doem na alma.

A direção de Débora Dubois deu ao espetáculo ritmo e profundidade. A música de Zeca Baleiro não dá tom de musical ao espetáculo, mas o envolve de tal forma que se apresenta como aquele personagem outro, que sem ele todo o resto poderia desmoronar. A liga. O laço. A benção. O abraço.

Mais uma vez, Jarbas Homem de Mello fez um trabalho impecável. Eu disse e repito: ele é capaz de fazer os personagens se deslumbrarem por ele, porque ao se apossar deles, Jarbas faz com que se rendam a sua capacidade de trazê-los, de forma crível e rica, à vida.

Roberto Cordovani faz um belo trabalho incorporando/interpretando Myrna, um dos pseudônimos femininos de Nelson Rodrigues. Fez-me voltar no tempo, de quando o vi pela primeira vez e fiquei fascinada por sua figura. Na época, ele estava em cartaz com o espetáculo “O Retrato de Dorian Gray”. Na época, eu não fazia ideia do que poderia acontecer em um palco, ou quem era Dorian Gray. Eu estava somente começando minha jornada no mundo das artes. Foi emocionante, finalmente, vê-lo nesse palco que aprendi a respeitar.

Os atores em A Paixão Segundo Nelson fizeram um trabalho de uma beleza daquelas de comover. Bom também ver no palco Rui Rezende, Vanessa Gerbelli e Helena Ranaldi. Cada ator que participa do espetáculo construiu parte dessa jornada iniciada por Zeca Baleiro e Débora Dubois. Aliás, somente um apreciador da obra de Nelson Rodrigues poderia ter adaptado seus textos para tal espetáculo com tamanha coerência e fluidez.

Cheguei em casa ontem... Sim, já é ontem. Cheguei feliz que só, por ter assistido a um ótimo espetáculo sobre uma figura importante do repertório artístico brasileiro, que reuniu muita gente boa. Não é preciso conhecer a obra de Nelson Rodrigues para se deleitar com A Paixão Segundo Nelson [uma farsa musical brasileira]. É preciso não perder o último dia do espetáculo em São Paulo.

Aproveite para fascinar-se.

A Paixão Segundo Nelson [uma farsa musical brasileira]
17 de abril | Último dia!
Teatro Bradesco
Rua Palestra Itália, 500 | 3 piso do Bourbon Shopping
Perdizes | São Paulo


INGRESSOS
> Na bilheteria do Teatro Bradesco
> Pela internet: teatrobradesco.com.br


FICHA TÉCNICA
DIREÇÃO E CONCEPÇÃO | Débora Dubois.
ADAPTAÇÃO DE TEXTOS E CANÇÕES ORIGINAIS | Zeca Baleiro.
ELENCO | Giselle Lima, Helena Ranaldi, Jarbas Homem de Mello, Lula Lira, Marcos Lanza, Roberto Cordovani, Rui Rezende e Vanessa Gerbelli.
MÚSICOS | Adriano Magoo e Billy Magno.
PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS (em off) | Cauby Peixoto, Jards Macalé, José Mayer, Juca de Oliveira e Mel Lisboa.
ASSISTENTE DE DIREÇÃO E PARTICIPAÇÃO ESPECIAL | Luis Felipe Correa.
DIREÇÃO DE ATORES | Fernando Neves.
DIREÇÃO DE MOVIMENTO | Fernando Neves e Jarbas Homem de Mello.
ASSISTENTE DE DIREÇÃO DE MOVIMENTO | Cris Rocha e Erica Monteiro.
PREPARADORA VOCAL | Ana Luiza.
DIREÇÃO MUSICAL E TRILHA INCIDENTAL | Adriano Magoo e Zeca Baleiro.
DESENHO DE LUZ E OPERAÇÃO | Wagner Pinto.
DESENHO DE SOM E OPERAÇÃO | Guilherme Ramos.
SONOPLASTIA | Sergio Fouad.
GRAVAÇÃO OFF | Adriana Maciel, Leonardo Nakabayashi, Sergio Fouad e Walter Costa.
CENOGRAFIA | Duda Arruk.
ASSISTENTE DE CENOGRAFIA | Fernando Passetti.
CENOTÉCNICO | Ezequiel Tiburcio Jr..
PRODUÇÃO CENOTÉCNICA | Mara Cesar.
ASSISTENTE CENOTÉCNICO | Alex Farias.
EQUIPE CENOTÉCNICA | Edmir Filgueiras, Carmos Tiburcio e Thiago Taveira.
PRODUÇÃO DE OBJETOS | Márcio Vinicius.
FIGURINOS | Marichilene Artisevskis e Leopoldo Pacheco.
CRIAÇÃO DE MAQUIAGEM E CARACTERIZAÇÃO | Leopoldo Pacheco.
PERUCAS | Emi Sato.
MAQUIAGEM | Claudinho Hidalgo.
COSTURA | Judite Gerônimo de Lima.
ALFAIATE | Miguel Ange Arua.
TURBANTES E MAIÔS | Desolina Martinati.
ADEREÇO DE FIGURINO | Luís Rossi (FCR Produções).
DESIGNER GRÁFICO | Pietro Leal.
FOTOS DIVULGAÇÃO | Gal Oppido.
FOTOS MAKING OFF | Larissa Cardoso.
FOTOS DE CENA | Daniela Albuquerque.
REGISTRO VIDEOGRÁFICO | Jhonny Luz.
DIRETORA TÉCNICA | Vanessa Campanari.
MICROFONISTA | Pollyana Oliveira.
TÉCNICOS DE PALCO | Alexandre Peixoto da Silva e Umberto Alves.
CAMAREIROS | André Rocha, Luciano de Freitas, Sandra Matos e Renata Reis.
PERUCARIA | Kerolaine Amorim.
ASSESSORIA DE IMPRENSA | Casé Assessoria.
FINANCEIRO E LEI | Sonia Odila.
ASSESSORIA JURÍDICA | Dra. Raquel Lemos.
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO | Beto Muller.
CAPTAÇÃO DE RECURSOS | Bia Wetzel.
CAPTAÇÃO DE PARCERIAS | Amalia Tarallo.
EQUIPE DE PRODUÇÃO | Fabrício Sindice, Vanessa Campanari e Thiago Marchine.
PRODUÇÃO EXECUTIVA E ADMINISTRAÇÃO | Marisa Medeiros.
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO | Deco Gedeon e Edinho Rodrigues.
REALIZAÇÃO | Brancalyone Produções, Fidellio Produções e Opus.



terça-feira, 12 de abril de 2016

Estúpido Cupido | O Musical

Foto: Reprodução
A cada vez que vou ao teatro, aumenta consideravelmente meu afeto por essa vertente artística. Admiro mais e mais aqueles que têm o talento de levar acontecimentos a um palco, chegando ao ponto de contar uma história. Falando em afeto, desta passagem pelo teatro vou guardar o assanhamento considerável da minha memória afetiva por conta da música.

Domingo passado, foi a última apresentação da temporada do espetáculo Estúpido Cupido no Teatro Gazeta, em São Paulo. O musical marca a comemoração de 50 anos de carreira da protagonista, Françoise Forton, o que também inclui a exposição A Incansável Guerreira da Arte.

O repertório do espetáculo é formado por canções que tocavam em todas as festas da minha infância... Desculpem, mas eu avisei: memória afetiva. E parece que a memória não era somente minha. Os presentes vibraram e cantaram junto com os hits dos anos 60 e 70 e de festas da infância e adolescência de muitos deles.

Estúpido Cupido conta a história de Maria Tereza, a Tetê (Françoise Forton), ex-miss que se tornou uma atriz de sucesso e apresentadora de programa de tevê, que é convencida por sua amiga Ana Maria (Clarisse Derzié Luz) a ir a um baile de reencontro dos amigos do colégio. Esse baile traz trilha sonora e figurino da época do colégio, quando as paixões eram urgentes e o futuro cabia no final de semana.



Foto: Reprodução

A leveza de Estúpido Cupido é ingrediente necessário para visitar o passado. O que me ganhou foi o “antes e depois” da biografia dos personagens acontecendo ali mesmo, no palco. Enquanto a versão atual dos personagens - ainda que esbarrando em levezas - desfiavam questões que ganham importância e urgência somente com o passar do tempo, com a experiência adquirida, como alegrias e tristezas da carreira e do casamento, por exemplo, a versão da época do colégio, muito mais apaixonada e apaixonante, apesar de tão escolada em desfiar uma e outra crueldade, circula pelo mesmo palco, promovendo um flashback ao vivo e conversas entre as versões de um mesmo personagem.

Colocar no mesmo palco as versões da época do colégio e atuais dos personagens foi uma ótima forma de se ligar o passado ao presente, de se desnudar aquela percepção melhorada que a nostalgia, às vezes, nos leva a abraçar. Nem tudo que vem de lá, do passado, chega ao presente na versão original. Não somos apenas nós que mudamos... A forma como nos lembramos de algumas passagens de nossa vida também sofre transformação. É isso que Tetê entende ao reencontrar sua paixão da época de colégio.

Interessante também foi mencionar, de forma realmente espirituosa, ingredientes do universo tecnológico – que quem não curte e compartilha não tem festa de arromba -, que assim como as pessoas, e principalmente por conta delas, o mundo também muda.

Quando nesse cenário, pincelado com músicas tão agradáveis, às vezes até pueris, inclui-se uma jovem fã de Annita, Daniele (Carla Diaz), observa-se, então, as diferenças entre o que era popular nos anos 60 e 70 e o que é popular em 2016. Obviamente, trata-se de um filão cultural, tanto de uma época quanto da outra. Uma citação de uma variedade de estilos. Mais do que isso, travou-se uma comparação comportamental inevitável, que levou o público a desfrutar com mais gosto do humor que o espetáculo oferecia.

Estúpido Cupido é um musical de celebração da carreira de Françoise Forton, mas também uma revisitação. Maria Teresa, a Tetê do espetáculo, foi o personagem que a atriz interpretou na novela homônima de Mário Prata, sucesso nos anos 70. Porém, a referência ao folhetim para por aí. A Tetê do musical tem história própria.

Essa passagem pelo teatro foi agradável, com direito ao assanhamento de boas memórias. Se a ideia de Françoise Forton era levar ao palco o encontro entre a ingenuidade de uma época e as intempéries de outra, podemos dizer que Estúpido Cupido cumpriu seu papel.

Celebrar uma carreira de personagens marcantes, como Tetê, rendeu ao público um ótimo espetáculo.Sendo assim, caso o espetáculo aporte na sua região, aproveite e embarque, que Estúpido Cupido é um agrado dos bons.  

FICHA TÉCNICA
Ficha Técnica
Texto: Flávio Marinho
Direção: Gilberto Garwronski
Elenco: Françoise Forton, Luciano Szafir, Clarisse Derzié Luz, Renato Rabelo, Sheila Matos, Carla Diaz, Luísa Viotti, Júlia Guerra, Ryene Chermont, Ricardo Knupp e Mateus Penna Firme
Direção Musical: Liliane Secco
Coreografia: Mabel Tude
Cenários e Figurinos: Clívia Cohen

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

SEM RETORNO | Quantas pessoas você quer ser para viver para sempre?




Ele não passou pelas salas de cinema do Brasil, o que podemos lamentar. No começo de dezembro, foi incluído no catálogo do Netflix. 

Entre tantos filmes dispensáveis que estreiam todo ano, Sem Retorno (Self/less - 2015) merecia as salas de cinema. Melhor... Aqueles que ainda vivem sem o Netflix poderiam conhecê-lo.

O filme conta com uma boa trama, cenas de ação, o mocinho e o bandido que acredita que é mocinho. Ainda assim, nada disso seria suficiente sem a competência dos atores, da direção e um bom roteiro para contar uma história que muitos já contaram, mas de outra forma.

Sem Retorno | Ben Kingsley (Damian)

Ben Kingsley é dos meus atores preferidos. Ele participa apenas de uma parte do filme, ainda assim, sua presença é marcante. Ryan Reynolds já provou que é talentoso e competente, não importa o estilo de filme. O britânico Matthew Goode vem participando de algumas séries que das quais eu gosto muito, interpretando Stanley Mitchell em Dancing on the Edge, Finn Polmar em The Good Wife e Henry Talbot em Downton Abbey.

Sem Retorno | Matthew Goode (Dr. Albright)


Damian (Ben Kingsley) sofre de câncer terminal. Homem poderoso, que passou a vida ignorando as realizações da filha, sempre centrado nas conquistas e no poder. Ao encarar a morte, decide optar por um tratamento médico que lhe tiraria o direito à identidade, mas lhe daria muitos anos de vida, como outra pessoa... Em outro corpo. O Dr. Albright (Matthew Goode) é o cientista que lhe oferece o milagre. Ele garante que os corpos para os quais os pacientes são transferidos foram cultivados em laboratório. Após a “migração” de Damian para seu novo corpo, ele descobre que, na verdade, seu novo e saudável corpo pertencia a um militar, pai de família, que o vendeu para pagar o tratamento da filha.


Sem Retorno | Ryan Reynolds (Damian)

Ryan Reynolds está ótimo como o jovem Damian habitando o corpo do militar.

A grande questão do filme é que não sabemos até onde uma pessoa pode chegar para provar que está certa ou para ganhar dinheiro e conquistar um poder inacessível à maioria de nós. No caso do cientista, seu corpo já não correspondia mais a sua mente. O corpo estava doente e então ele colocou suas pesquisas para funcionarem. Dr. Albright foi um corpo e uma identidade que ele roubou por acreditar que mentes como a dele, geniais, mereciam viver o máximo. Esse descarte do outro é o que pesa no filme. É possível compreender que, a partir do momento que nossas escolhas ultrapassam a lógica, é preciso pensar em quem  mais estamos levando junto.

A direção de Sem Retorno me ganhou. Até então, não sabia quem era o diretor, tampouco que ele havia dirigido dois dos filmes que mais me encantaram nesse quesito e no de fotografia: Dublê de Anjo (The Fall/2006) – e vou sempre mencionar que não gosto nada desse título em português – e A Cela (The Cell/2000). Mais um de Tarsem Singh para o hall dos meus preferidos.

O roteiro de Sem Retorno é assinado pelos irmãos espanhóis David e Àlex Pastor.

Sem Retorno é um bom filme, com interpretações competentes e uma trama que fisga o espectador. Vale a pena assistir ao filme, o que certamente o levará a refletir sobre como somos frágeis diante do que gênios e poderosos podem fazer quando desfalcados de qualquer consideração a outro ser humano. Essa não é uma combinação que traz bons frutos.