segunda-feira, 1 de julho de 2019

NELSON GONÇALVES - O AMOR E O TEMPO

© Divulgação
Eu tenho muito apreço pelo Teatro Gazeta. Meu gosto pelo teatro começou, de fato, ali, quando assisti, há mais de uma década, o espetáculo Querido Mundo [leia sobre]. Assisti a outros tantos espetáculos naquele palco. Alguns deles, marcaram-me para a vida. Pode parecer exagero, mas não é. Sou das pessoas que se permitem ser marcadas por um espetáculo de teatro, um filme, uma música, um livro, uma frase de um desconhecido que impulsiona aquela mudança que passei muito tempo postergando, e por aí afora.

Então, que aquele palco tem o poder de fazer minha imaginação, que já é inquieta por natureza, esbaldar-se em devaneios. 

Ontem, eu fui ao Teatro Gazeta. Entrei, sentei-me na poltrona A-25, assim, na fila do gargarejo. Enquanto o espetáculo não começava, eu imaginava cenas improvisadas naquele lugar onde palavras ganham tons, por conta de pessoas que, dedicadas à lida da interpretação, abrem alas para as emoções dos espectadores. 

O espetáculo: Nelson Gonçalves – O Amor e O Tempo.

Nelson Gonçalves completaria 100 anos em 21 de junho. O espetáculo, com três temporadas de sucesso no Rio de Janeiro, desembarcou no palco do Gazeta, em maio deste ano. Antes de continuar a falar sobre, um arrependimento: ter assistido à última apresentação da temporada.

Antes do início do espetáculo, uma excitação geral. É lindo de se ver quando as pessoas concordam sobre o que as tocou profundamente de maneira a despertar algo bom, um reconhecimento justo. Ali, as pessoas reverenciavam um significativo nome da música brasileira que era, também, um cronista do sentimento arrebatador, fosse para o contentamento ou para a tristeza. Cada canção, da qual ele se apropriava, voz e interpretação, traduzia um estado de espírito, um momento significativo, de Nelson Gonçalves ou dos apreciadores da música que ele compartilhava.

Antes de as cortinas se levantarem, eu pensava sobre como seria, se o elenco trafegaria pelo palco ou o tomaria para si. Posso dizer que o tomaram para si, que do início ao fim, sorriso e engasgos me tomaram... e não somente a mim. Outra coisa linda de se ver: um público fascinado pelo espetáculo. 

Primeiro, deixe-me falar sobre a banda, porque o meu lado musical se deslumbrou por ela. Primorosos arranjos para canções tão conhecidas, sendo executadas por músicos fantásticos. A música vestiu com delicadeza, até mesmo as canções de poesia arredia. 

No palco, dois Nelsons, um homem e uma mulher. Nelson Homem defendia a emoção. Nelson Mulher, a razão. Nesse encontro de reflexões, o espectador era levado ao universo de Nelson Gonçalves, a todos os “não” que ele recebeu, aos percalços, aos apaixonamentos e também aos desvarios. Eram duas pessoas no palco, mas eu só conseguia pensar em uma, porque os questionamentos me pareciam justos para qualquer pessoa. O quanto nos entregamos ao amor, o como lidamos com o tempo, e tudo aquilo que acontece durante eles.

Nelson Homem, interpretado por Guilherme Logullo, era excitação e deslumbramento em carne viva. Tudo nele chegava forte, abrasador. Nelson Mulher, interpretado por Jullie, era a dúvida e o medo do próximo sofrimento. A dança à qual os personagens se lançam é a de combinar esses universos, ambos tão presentes na vida de Nelson Gonçalves.

© Divulgação
Eu caí de amores por eles, assim, de cara. Quando começaram a cantar... que vozes! Que interpretações! O palco foi tomado pela música e pelas histórias das canções, elas sendo trançadas com a do próprio rei do rádio. Guilherme e Jullie me ganharam de vez. Mais do que isso, tomaram o palco, daquele jeito que sempre me deixa feliz: completamente, deixando nele um pouco de si. 

No final, entre os agradecimentos, Guilherme falou sobre a gentileza do pessoal do Teatro Gazeta. Trata-se de um lugar conduzido por pessoas que sabem que o fazer arte requer trabalho árduo, talento revigorante e revigorado. É sim um lugar onde os artistas são recebidos com respeito, assim como ao público. Um lugar onde eu conheci tantos artistas capazes de dominarem o palco, como se tivessem nascido nele e a ele pertencessem.

Nelson Gonçalves – O Amor e O Tempo é uma homenagem muito bem tecida pelo autor. Gabriel Chalita soube entremear as dores e os amores; as esperas e a solicitude do que nos acontece, sem que estejamos preparados para lidar com o acontecimento. Um espetáculo fantástico, que espero que, depois de suas voltas por outros cantos do Brasil – se passar pelo seu, não perca a oportunidade! -, possa voltar ao palco do Gazeta. Seria muito bom poder assisti-lo novamente.

© Divulgação
Na saída, comprei o livro sobre o espetáculo. Os atores anunciaram que logo sairiam para atender ao público. Eu não tive coragem de ficar. O que dizer a eles que justificasse minha gratidão por aquele espetáculo? Mas essa sou eu... quem engole palavras, para então despejá-las em um texto que diga o “quase” do sentimento que me arrebatou. E aqui estou, quase no final da minha declaração de imenso agradecimento por um tempo que fará parte da minha coleção de memórias.  

Antes de finalizar, quero compartilhar algo que uma pessoa, que estava sentada na fileira atrás de mim, disse, assim que as luzes acenderam: depois disso, só procurando um amor.

Espero que ela o tenha encontrado.

NELSON GONÇALVES – O AMOR E O TEMPO

Informações sobre o espetáculo: musicalnelsongoncalves.com.br


FICHA TÉCNICA

Um musical idealizado por Guilherme Logullo e Gabriel Chalita.
Direção e coreografia: Tânia Nardini.
Roteiro: Gabriel Chalita.
Elenco: Guilherme Logullo e Jullie.
Coordenação Artística: Guilherme Logullo.
Cenografia: Doris Rollemberg.
Figurinos: Fause Haten.
Direção Musical e arranjos: Tony Lucchesi.
Direção de Produção: Lu Castro e Bruno Mendonça.
Assistência de direção e movimento: Nadia Nardini.
Visagista: Diego Nardes.
Design de Som: Gabriel D’Angelo.
Design de Luz: Renato Machado.
Redes Sociais: Gabriella Costa.



segunda-feira, 1 de abril de 2019

A poesia melancólica e reveladora de "O quarto de Jack"

Cena do filme O quarto de Jack | Foto © George Kraychyk

Eu sei que a maioria de vocês já assistiu ao filme e foi há um bom tempo. Ele foi lançado em 2015. Talvez, muitos de vocês não se lembrem claramente do filme, o que é justificável, já que há muita coisa acontecendo e estamos todos ligados a elas: cinema, questões pessoais, música, trabalho, literatura, injustiças, fotografia, violência, artes plásticas, telejornal, celebrações, memes, superações, perdas e por aí vai.

Desde seu lançamento, eu vinha evitando me encontrar com esse filme. Não é raro acontecer de eu me demorar em um desejo. Na verdade, sempre que me demoro em um desejo, é porque algo me diz que esse tempo é uma espera que tem seu valor. Raramente eu me engano nesse aspecto. 

O quarto de Jack (Room) é um daqueles filmes em que a tristeza profunda é de beleza insana. Quando uma ação horrível é encarada da melhor forma possível e essa forma é dura, porém poética, o que me faz lembrar de um amigo que me confessou não gostar de poesia. 

Eu conheço muitas pessoas que não gostam de poesia. Não tenho problema algum com quem não gosta de poesia, apesar de ela ser uma constante na minha vida e na minha história. Porém, sempre me pergunto como essas pessoas reconhecem a poesia da vida, a que não está registrada em livros, que não sai da boca de criadores, durante um sarau. A poesia que é de autoria da vida e se constrói com o tempo e as escolhas de cada um.


Dirigido por Lincoln Abrahamson, com roteiro baseado no livro de Emma Donoghue e escrito pela própria autora, o filme conta a história de Jack, um menino que nasceu e viveu cinco anos em um quarto, tendo como única visão do exterior o céu enquadrado em uma claraboia. A mãe, sequestrada aos dezessete anos de idade, vivendo à mercê do desejo do seu sequestrador há sete, cria um universo para o filho naquele pequeno espaço, enquanto lida com o desespero de ter como sina uma vida restrita a um quarto, à violência que ela sofre a cada dia e a uma criança que ela não sabe se verá o mundo real.

A cadência do filme leva o espectador a mergulhar na narrativa de Jack sobre o mundo em que ele vive. Neste momento, a poesia se apodera das cenas por meio das palavras. A visão de mundo do menino, idealizada a partir dos relatos da mãe sobre ele, é revelada durante cenas sobre a rotina deles. Não há como o espectador passar incólume a esses relatos. Não há como o espectador que, diferente de Jack, conhece o mundo e suas mazelas, não se encantar com a maneira que o menino enxerga a vida, o mundo, a própria existência.

Cena do filme O quarto de Jack

Jacob Tremblay me fez acreditar em Jack e embarcar em seu imaginário. O ator tem outro filme complexo na sua filmografia, Extraordinário (Wonder/2017), no qual interpreta Auggie, personagem com a difícil missão de encarar um novo universo, o da escola, sendo uma criança com uma deformidade facial. Brie Larson é uma atriz com uma filmografia variada, protagonista do filme Capitã Marvel (Captain Marvel/2019). Dos filmes que mais gosto, lembro-me de sua participação em O maravilhoso agora (The Spectacular Now/2013). Em O quarto de Jack, Larson interpreta Ma, a mãe de Jack. Ela dá força a uma personagem fragilizada pela violência que sofre, pelo cativeiro, pela responsabilidade de cuidar de seu filho que vive à mercê do algoz dela, pai de seu filho. Ela torna a dor e a solidão que sente em algo quase palpável. Tremblay e Larson tornam este um filme memorável.

Este filme pode servir de metáfora para prisões particulares, violência velada, privação do direito de estar no mundo, de existir nele. Antes disso, ele é um filme sobre uma mulher mantida em cativeiro, que sobrevive a quem a mantém em cativeiro, que tem um filho em cativeiro, que sobrevive ao cativeiro e supera seu algoz a ponto de alcançar a liberdade. Quando ela chega, a liberdade, essa mulher tem uma imensa dificuldade de se ajustar à realidade para a qual volta. O filho dela tem de conhecer o mundo no qual nunca esteve. Ele tem de aceitar que aquele mundo que ele conheceu, resumido ao quarto onde nasceu e cresceu, é mais, é diferente, é outro.

O quarto de Jack é a poesia melancólica e reveladora, porque leva o espectador a confrontar a certeza de que tem controle sobre tudo que lhe cabe. Porque, para sobrevivermos aos riscos que viver impõe, temos de acreditar que aquilo nunca acontecerá conosco. 


O quarto de Jack | Trailer

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

NO MUNDO DE RODRIGO DE CASTRO


A arte me ensinou mais do que apreciá-la. Ela me ensinou canções que me lembram pessoas queridas, estejam por aqui ou já tenham partido. Ela me ensinou que o olhar faz toda a diferença, durante uma apreciação. Ela me ensinou que refletir sobre o que nos constrange e limita é uma forma de nos recompor e transpor barreiras. 

A arte me ensinou a pensar. Ensinou-me a ser. Continuo a aprender com ela.

A arte importa. 

Por conta do meu envolvimento com a música e a literatura, tive a sorte de fazer amigos que me inspiram, humana e artisticamente, o tempo todo. Às vezes, uma conversa sobre banalidades se torna uma descoberta, um início de criação, uma cumplicidade no pensamento. Nesse patamar dos criadores, está um amigo muito querido, Rodrigo de Castro, que lançou seu primeiro livro, sábado passado. 

Músico, acostumado à criação de letras para canções. Artista, de quem as obras me encantam profundamente. O olhar é destaque da obra, mas o compositor assumiu o poeta e lançou No Mundo dos Sonhos, com ilustrações e textos que descortinam esse lugar no qual o imaginário se destaca, misturando-se aos desejos e criando fantasias.

A personagem foi criada há alguns anos, em uma única ilustração. Em No Mundo dos Sonhos, ela se torna protagonista e ganha muitos cenários, um mais interessante que o outro. 


Com o amigo e autor do livro No Mundo dos Sonhos, Rodrigo de Castro.

O livro não é somente para o olhar e a percepção das crianças. É daqueles para se apreciar, não importa em qual estação da vida. As ilustrações são belíssimas, são um passeio pelo imaginário de Soni, a personagem do livro. Os textos, sua poesia serve ao entendimento das crianças de forma tão mais interessante e profunda.

Durante o lançamento

No Mundo dos Sonhos, de Rodrigo de Castro, é uma obra que oferece o prazer de se exercitar o olhar a enxergar além, não somente em momentos em que arte seja a protagonista. A arte de quem cria colabora com a arte de quem a aprecia. A arte de compreender que o mundo é mais e, muitas vezes, bem diferente do que imaginamos. Às vezes, nosso mundo se torna mesmo o mundo dos sonhos, para que o mundo real possa se recuperar das suas mazelas e abraçar algumas levezas. Para que possamos nos recuperar das nossas mazelas e abraçarmos algumas levezas.

Para mim, este livro é muito especial, por ser de um amigo, de um artista que admiro há muito tempo e por ter chegado com tanta delicadeza, abordando o belo com mais amplidão. Oferecendo aos pensamentos rotas de fuga que os conduzem a esse lugar onde a vida segue mais inspirada e inspiradora.

No Mundo dos Sonhos
Rodrigo de Castro (ilustrações e textos)

Para adquirir o livro: rodrigodecastro.me
Curta a página e conheça outras obras do artista: facebook.com/rodrigosco.arte

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Aos que nos ensinam a aprender


Conheço alguns professores. Há algo neles que me deixa admirada, não apenas pela dedicação em ensinar, mas também pela capacidade deles de reconhecer em seus alunos o caminho a seguir para que eles aprendam o ensinado.

Sei que isso é bem complicado com as salas de aula cheias... prestar atenção em cada aluno e entender que há diferença na forma como eles aprendem. Encontrar opções mais abrangentes, que vão além do ensino padronizado, porém, atendendo ao programa de ensino. Mas é isso... às vezes, precisamos que aquele que nos guia entenda que somos diferentes da maioria. Que é preciso trabalho extra para que alcancemos aquele entendimento.

Ensinar é de uma lindeza sem fim. Tive a sorte de ter professores admiráveis, mas nem sempre na sala de aula. Professores que a vida me apresentou. Na sala de aula, posso citar duas professoras que conseguiram entender como eu funcionava, e me ajudaram a aprender, em um momento em que olhar para os lados era um problema para mim. Dona Beatriz e Dona Amelinha, professoras de Português e de História. As aulas delas eram uma verdadeira viagem, porque é muito, mas muito bom quando somos capazes de nos conectarmos com o que é ensinado, por conta da paixão de quem ensina. Serei eternamente grata a elas.

Eu gosto de aprender e esse gosto me aconteceu logo na infância. Sempre fui curiosa sobre como isso serve para aquilo; como essa pessoa funciona assim e aquela outra funciona de outro jeito. A curiosidade é o princípio de um conhecimento que vamos adquirindo com as nossas experiências. Também é algo que muitos professores têm de trabalhar arduamente para despertar em seus alunos. Está lá, nem todos acessam com facilidade.

Tenho amigos professores. Já escutei muitas histórias ligadas ao cotidiano deles. Algumas são de encher o espírito de contentamento, porque é muito bom ver alguém aprendendo, conquistando seu espaço, e então, ensinando também. Outras são de entristecer profundamente. É a desqualificação da profissão enfrentando a desqualificação do aluno como ser humano. Pessoas que não enxergam no aprendizado uma saída para a vida caótica que levam. É a violência, física e emocional, ganhando terreno.

Hoje, agradeço a todos os professores que passaram pela minha vida. Há tanto valor na arte de passar adiante um conhecimento, que temos de celebrá-los. Hoje, celebro a todos os professores, ainda que eu não saiba seus nomes, nunca os tenha encontrado, frequentado suas aulas ou até mesmo conversado com eles. Não há distância no que acredito: quem ensina proporciona a quem aprende a possibilidade de enfrentar os desafios que a vida oferece, assim como valorizar conquistas, as próprias e as das outras pessoas.

Hoje, agradeço a todos que me ensinaram e aos que continuam a me ensinar, seja na hora da aula ou durante um café. Que possamos compreender, de maneira a aproveitarmos essa compreensão, que somos todos capazes de aprender a dignidade, a justiça, a gentileza, a ciência, o português, a biologia, a música, mais um idioma, a culinária, a engenharia, a matemática, a medicina, o respeito, a moda...

Toda a minha admiração e gratidão aos professores.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O dia em que Kleber Albuquerque leu o que estava escrito no muro


Lembro-me de quando li o título daquele disco, pela primeira vez. Minha cachola, toda enredada nos tantos pensamentos pulsantes que abriga, aquietou-se por um instante, dedicando-se ao lido: Para a Inveja dos Tristes.

Uns segundos depois, ela, a minha cachola, descarrilou punhados de pensamentos diversos novamente e me peguei imaginando que aquele daria um ótimo título para um livro. Que história contaria? Como seriam seus personagens? Em quais paragens eles estariam? O que, de fato, causaria inveja nos tristes? Uma tristeza menor, que provocasse nos tristes o desejo de senti-la? Uma alegria retumbante, das de deixar qualquer triste morrendo de vontade de ser feliz?

O disco era um apanhado de histórias que me agradou escutar. Daria um livro, mas era disco, dos que moram na minha preferência. Para mim, quem consegue silenciar meus pensamentos, ainda que por segundos, e com tão poucas palavras, e em seguida me inspirar tantas possibilidades, não apenas chama a minha atenção, mas acaba se tornando destinatário dela.

Sábado passado, fui ao show de Kleber Albuquerque nesse espaço muito interessante e acolhedor, o Casa Teatro de Utopias. O espaço cultural fica na Lapa, São Paulo, e vale conferir a agenda e conhecer o lugar: casateatrodeutopias.com.br.

O evento marcou o lançamento do single Os Antidepressivos Vão Parar de Funcionar, que fará parte do próximo disco do cantor e compositor. As canções que compõem o disco serão disponibilizadas homeopaticamente (sic) nas principais plataformas digitais. O disco físico será lançado em 2019.

Kleber Albuquerque
Ele leu a frase pichada em muro da cidade de São Paulo. Transportar o impacto que ela lhe causou para uma canção, deu início à criação de uma coleção de canções com letras poeticamente melancólicas, embrulhadas em diversidade musical e esperança dramaticamente descarada.

Kleber Albuquerque tem o dom de sintetizar em canções emoções arrebatadoras. E ele o faz com uma linguagem travestida de singeleza, porque há um refinamento no seu fazer poético que poucos conseguem alcançar, principalmente quando se trata de trançar poesia e música.   

Em tempos em que as palavras ecoam soltas, nem sempre combinadas de forma a celebrar o melhor do ser humano, a música de Kleber Albuquerque chega para desarrumar certezas e abrandar auguras. Há um significado ali, bradado pela voz, refletidos na melodia, ritmado nas cordas do violão, na sua postura no palco. Aliás, o palco cai muito bem ao artista, e a forma como o público corresponde ao oferecido por ele é a prova de que a música desse poeta tem muito a dizer e a inspirar. 

O show contou com uma série de momentos especiais.

Foi muito bom conhecer novas canções e recordar tantas outras. A participação de Rovilson Pascoal (violão/guitarra/ukulele) é sempre apreciável, visto que se trata de um ótimo músico para se travar parcerias. Eu o acho um grande instrumentista. 

Foi maravilhosa a participação de Rubi, que junto com Kleber lançou Contraveneno, um disco que é uma lindeza, que resultou em um dos shows mais bacanas que já assisti [clique AQUI para ler sobre o Contraveneno]. Foi emocionante quando eles tocaram Eta Nóis, canção de Luhli e Lucina, que faz parte do Contraveneno. Luhli faleceu semana passada e deixou muitos admiradores de sua música. 

Kleber Albuquerque e Rubi foram indicados para o 29º Prêmio de Música Brasileira, na categoria dupla, por conta do Contraveneno.

Também foi muito especial assistir ao show de um amigo tão querido, na companhia de outros amigos. 

A discografia de Kleber Albuquerque faz parte da trilha sonora da minha biografia, há seis discos – quase sete, se contarmos este que está em fase de criação – e tantos shows, tantos bate-papos, as criações dele inspiram as minhas, além de me ajudarem a compreender o mundo das contradições. São crônicas musicais, misturadas a relatos comoventes e a mergulhos interiores capazes de tocar até o coração escolado em evitar se entregar aos rompantes emocionais. 

Kleber Albuquerque é um artista plural. Assistir a um show dele é sempre uma experiência inspiradora. Conhecer suas canções - que fique o alerta! -, é correr o risco de se embrenhar em autoconhecimento. Não há como passar despercebido pela música dele. Sendo assim, aos que acompanham a carreira dele e aos que desejam conhecer uma obra que vale a pena ser conhecida, acompanhem a jornada do Os Antidepressivos Vão Parar de Funcionar. Acompanhe a trajetória desse artista que, para a inveja dos que sabem apenas ser tristes, sabe transformar tristeza em possibilidade para se abraçar felicidade.

Os Antidepressivos Vão Parar de Funcionar
Confira algumas canções: 
kleberalbuquerque.com.br/antidepressivos

Conheça e acompanhe:
Site oficial: kleberalbuquerque.com.br
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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Meu afeto pelos filmes e Alan Parker

Eu sempre gostei de filmes. Menina, costumava assistir a qualquer um que passasse na tevê, mas não os de terror. Esses sempre me deixavam meio agoniada, então os evitava. Eu os evito até hoje, apesar de abrir exceções para certos atrevimentos.

Não era apenas entretenimento. Eu queria mais daqueles filmes. Eu queria entender como eles funcionavam. Minha curiosidade se apegava aos detalhes: de onde veio a ideia para aquele determinado diálogo? Por que a câmera olha para os atores daquele jeito? Qual o motivo para aquela coreografia de gestos dos atores? Que cores são aquelas? De onde ele tirou aquele olhar? De onde veio o suspiro dela? E aquelas lágrimas? Aqueles sorrisos? Aquela violência? Aquela sala apinhada de sabe-se lá o quê? Aquele silêncio prefaciando um grito?

Há duas coisas que eu estudaria, se a minha vida já não se atrapalhasse durante as 24 horas do dia: cinema e violoncelo.

Apesar de achar muito interessante alguns filmes em que o foco são os efeitos especiais, o que realmente me pega é o olhar mais íntimo: uma boa história, fotografia que se desenvolve – e se envolve bem - com o texto, diálogos bem construídos, direção competente, atuações inspiradas, trilha sonora que se mistura lindamente a tudo isso.

Assisti a um programa sobre um dos diretores que mais admiro: Alan Parker. O bom do especial era que o próprio diretor contava sua trajetória, abordava curiosidades do por trás das câmeras e citava complicações, histórias que são sempre muito bem-vindas e podem atuar perfeitamente como aprendizado.

Alan Parker
Não descarto um filme de Alan Parker. Cada um deles tem a sua peculiaridade e a sua riqueza. De O Expresso da Meia-Noite (Midnight Express/1978), passando pela aula que é assistir Mickey Rourke e Robert De Niro contracenando em Coração Satânico (Angel Heart/1987) e  Gene Hackman e Willem Dafoe em Mississipi em Chamas (Mississipi Burning/1988), chegando à complexidade de As Cinzas de Ângela (Angela’s Ashes/1999) e A Vida de David Gale (The Life of David Gale/2003).

Coração Satânico/Angel Hart | Robert de Niro e Mickey Rourke
É impossível pensar em Alan Parker e não se voltar à conexão dele com a música: Fama (Fame/1980), Pink Floyd – The Wall (1982), The Commitments – Loucos Pela Fama (The Commitments/1991) e Evita (1996).

Pink Floyd - The Wall
Assistir a um filme pode ser apenas entretenimento. Também pode ser mais, ir além. Alguns filmes merecem a época deles e conquistam as que chegam. Nem sempre remake é necessário, aliás, acontece de serem pra lá de dispensáveis.

É bom pensar em filmes como um calendário da nossa própria história. Alan Parker é um dos diretores que fez parte da minha predileção por filmes considerados mais simples tecnologicamente, mas requintados na sua construção. Às vezes, a simplicidade é complexa e conta com muitas camadas.
The Commitments
Enfim, eu sempre gostei de filmes, e os de Alan Parker fisgaram a minha curiosidade. Sempre aprendi com os filmes, e muito desse aprendizado acaba nos livros que escrevo. Uma das minhas alegrias foi quando Eduardo Loureiro Jr., ao escrever o prefácio do meu romance, Jardim de Agnes, disse: “Este livro não merecia um prefácio, mas um trailer. Este livro não é feito de capítulos, mas de cenas. Você tem vontade de ler de uma só vez. E, quando acaba, você aperta os olhos e tenta se acostumar com a luz acesa da realidade.”

Não sou escritora apegada à descrição de ambientes e características físicas. Meu foco está sempre no personagem e seus enfrentamentos. Ainda assim, é muito comum alguém dizer que, ao ler minhas histórias, sente-se como se assistisse a um filme. Essa ideia pode até não forjar uma roteirista de cinema em mim – acreditem, eu tentei e me diverti, mas foi só isso –, mas mostra o quanto o cinema é importante para a minha escrita.

O mais próximo que cheguei da linguagem do cinema, foi quando um conto do meu livro O observador foi adaptado para um curta. Na verdade, o conto está lá, sendo narrado, e o francês Émilien Berenfeld é responsável pelo filme. Fiquei muito feliz com esse projeto, que acabou reunindo pessoas muito interessantes, incluindo alguns queridos amigos. O conto Lembretes ganhou uma versão em inglês, Reminders, e o filme conta com legendas em português e francês. Segue no final, para quem quiser assisti-lo.

Documentários são importantes. Ultimamente, tenho assistido a muitos e de todas as áreas. Conhecer mais a respeito daqueles que influenciam o nosso mundo, saber que muito do que temos e fazemos hoje se deve à visão que eles tiveram, não é apenas reconhecimento do mérito dessas pessoas na História, mas também enriquecimento da nossa própria linguagem. É aprendizado e, como todo aprendizado que visa a construção, vale a pena.

Então, vamos a ele... ao aprendizado.


terça-feira, 4 de julho de 2017

QUINTAL, MÚSICA E PINTURAS

Foto © Rodrigo Scó

Assim como muitos, estou meio borocoxô com as ciladas nas quais andamos caindo. É a política que corta, a incivilidade que joga sal na ferida. Fica tudo meio dormente e enlouquecido, de jeito que inspira um desolamento ruminado à exaustão.

Daí que fica tudo meio sonso, dá preguiça existencial. A gente se encosta nessa melancolia de quem não sabe para onde correr, por onde começar a desfiar esse novelo.

Nessas horas, a arte se prova cada vez mais merecedora de atenção e cuidado. Para os que duvidam do seu valor, saibam que ela tem papel fundamental na nossa formação humana. Pois em dias como esses, em que nos sentimos desalentados e atormentados que só, meio que largados à beira do caminho, vem a arte e faz arte com a gente.

Sexta passada, fui a um evento do qual um amigo participou, no bairro onde moro. Não sabia nada a respeito, apenas que gostaria de estar lá por ele e pelo quentão. Era Festa Junina e eu estava louca por um quentão. A festa aconteceu no quintal de uma casa, e além das bebidas e comidas temáticas, durante o show os artistas transformariam a tela em branco em uma de suas obras.


Vanessa Moreno e Fi Maróstica © Dani Gurgel

Eu sempre gostei desse ponto onde diferentes linguagens artísticas se encontram. Aconteceu de o show ser de uma dupla que anda no meu play ultimamente: Vanessa Moreno e Fi Maróstica. Voz e baixo, uma lindeza de colorido rítmico. Os músicos tocaram dentro da piscina vazia, o que eu achei o maior barato. Ao lado, quatro artistas trabalhavam em suas telas, enquanto a música era espalhada pelo recinto: Pamela Munhoz, Jeng Ho, Rodrigo Scó e JotaVe. 

Obra © Pamela Munhoz | Foto © Rodrigo Scó

Assistir a essa feitura – música sendo tocada e telas ganhando vida – foi uma experiência muito especial. Na música, impressionou-me o ritmo e a leveza de Vanessa e Fi. Já era fã, agora, adquiri a carteirinha. Nas telas, as imagens pareciam acontecer, porque, para quem nem consegue desenhar uma casinha decente, observar aquelas lindezas surgindo era meio que assistir à construção de um afeto; a um milagre pessoal alheio que, sem querer, também nos abençoa.


Obra © Jeng Ho | Foto © Rodrigo Scó

Daí que meu espírito ficou atiçado, a fim de se encantar até mais que os desapontamentos, que assim ele terá forças para não se desiludir de jeito sem volta. A cada vez que eu mesma questiono o motivo de a arte existir, de eu me enveredar por esse caminho como quem cria e aprecia as criações, vem um evento desses e coloca meu espírito no lugar. Essa lufada de arte pode não dar jeito no problema, mas pode aprimorar o espírito daqueles que podem resolvê-los. Nossos espíritos.


Obra © Rodrigo Scó | Foto © Rodrigo Scó

O evento faz parte do projeto Impulso, da cantora e compositora Barbara Rodrix e da artista plástica Pamela Munhoz. Eu já havia conferido algo parecido com o projeto de Kleber Albuquerque e o seu Teatro Imaginário da Fábrica de Caleidoscópios.


Obra © JotaVe | Foto © Rodrigo Scó

Quando eu era menina, o quintal de casa era um mundo inteiro cabendo ali. Minha imaginação trabalhava muito para montar cenários imaginários. Quem participa de eventos como os promovidos por esses artistas, acaba em quintais ainda mais deslumbrantes e fantásticos, nos quais a arte é um presente a ser compartilhado. 

Por mais quintais repletos de pessoas fazendo e apreciando arte. 


Vanessa Moreno e Fi Maróstica  | Extra | Do disco Cores Vivas, com canções de Gilberto Gil


** Meu amigo é o Rodrigo Scó. Ao longo dos anos, ele tem me emprestado várias obras para ilustrar os meus textos. Ano passado, uma delas se tornou capa do meu livro de contos, O Observador. Por isso, além da beleza de suas obras, agradeço a gentileza de ele me permitir trazê-las para meu universo.

** Minha companhia da noite foi a amiga para tudo quanto é evento, a Rubia Elias. Assim, só posso desejar a todos o que acontece comigo: que seus amigos sejam bem bacanas. Tenho certeza de que, dessa forma, você também o será.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Kleber Albuquerque + Rubi | Contraveneno



LÁ PELAS BANDAS DO CONTENTAMENTO

A primeira vez que os vi em um mesmo palco foi em 2003, no show do lançamento do disco O Centro Está Em Todas As Partes, de Kleber Albuquerque. Rubi entrou em cena para cantar uma das canções do disco. Até então, eu não conhecia aquela voz.

Conhecia o Kleber, mas não nos falávamos há tantos anos, desde a gravação do disco da banda O Palhaço, lá em Santo André, nossa cidade. Eu estava feliz com o reencontro, porque na conta dele estava a estima que sentia pelas canções dos discos anteriores de Kleber: 17.777.700 e Para a inveja dos tristes.

Meu apreço pela música do Kleber não é segredo. Eu gosto mesmo, faço propaganda, apresento aos amigos. A sua poesia é de uma lindeza que me toca profundamente, e que me inspirou a escrever um livro de poemas. Meu apreço por ele, idem. É um amigo pra lá de querido, um artista que me inspira, uma pessoa admirável.

Daquele show para cá, frequentei outros shows do Kleber e do Rubi. Com eles juntos, um do grupo Canto de Cozinha. Na pilha dos discos pelo qual me apaixonei, está o Infinito Portátil, que Rubi lançou em 2006.

Sábado passado, dia 8 de abril, fui ao show de lançamento do disco Contraveneno, projeto que colocou no mesmo palco, e no mesmo disco, Kleber Albuquerque e Rubi. Para quem os conhece, sabe que daí só sairia coisa boa mesmo. Não é pretensão, papo de fã, mas fato. Eles são talentosos e, em sintonia, criam mágica. Quem estava lá, no show de sábado, pode endossar o que digo.

Rubi e Kleber Albuquerque
Contraveneno é uma declaração de amor à parceria deles. Kleber e Rubi resgataram canções que gostavam de tocar e cantar juntos, incluíram outras canções no repertório e fizeram um trabalho delicado, daquele tipo de delicadeza que nos silencia e nos leva a escutar canções como se elas ecoassem dentro de nós.

O show foi uma experiência para os sentidos. Emocionar-se foi ingrediente básico da experiência. A música vinha dos violões de Kleber e Rubi, do violão e guitarra de Rovilson Pascoal e do violoncelo de Mario Manga. Aliás, o violoncelo que me agradou deveras. Eu que tenho por ele uma paixão platônica, já que sei que não aprenderei a tocá-lo, mas sempre vou tratá-lo com a intimidade de um quem sabe?, um dia, na próxima vida. Para o qual criei um personagem em um livro, só para colocar um músico famoso a tocar violoncelo em uma sala de paredes descascadas para uma pessoa que precisava, urgentemente, de um contato mais íntimo consigo mesma. Concertos particulares de violoncelo para quebrar silêncios insistentes.

Rovilson Pascoal eu já vi em outros palcos. Gostei muito da forma sutil, porém marcante como ele apresentou sua guitarra nas canções do show. Eram como comentários pontuais. Complementavam e, ao se sobrepor, era com sutileza.

Ao pensar em Mario Manga, impossível não pensar no Premê. Uma das músicas da banda foi incluída no disco e fez parte do repertório do show. Porém, Manga já fazia parte da história desses artistas, desde muito antes desse projeto. Ele produziu o primeiro disco de Kleber. Após escutar esse disco, Rubi procurou Manga para que ele produzisse o seu primeiro disco.

Contraveneno é reencontro, mas também continuidade. Lançado pela Sete Sóis, tem como responsável Flávvio Alves, quem também tem assinado parcerias musicais com Kleber, como a faixa-título do disco.

Projeto que vai além de se colocar mais um disco no mundo. É entregar ao mundo um contentamento, apesar das tristezas que carregamos vida afora. O show mostrou isso. A música que também serve para despertar esperanças, relembrar afetos, dispersar angústias.
  
Portanto, caso eles apareçam por aí, por perto de vocês, não deixem passar a oportunidade de ver no palco o que, tão lindamente quanto, foi registrado em disco. Vale a viagem, vale o mergulho interior, vale o contentamento de observar artistas a amarrarem os cabelos da música com os laços da poesia.

CONTRAVENENO
Canções do disco: Castelo de Amor (Nenzico/Creone/Barrerito), Procura no Google (Kleber Albuquerque), Geração (Kleber Albuquerque), Sem Tempo (Juliano Holanda), Eta Nóis (Luhli/Lucina), Ai (Kleber Albuquerque/Tata Fernandes), Cerol (Kleber Albuquerque/Flávvio Alves), Papai Noel Tomou Gardenal (Kleber Albuquerque), Como La Cigarra (Maria Elena Walsh), Milonga da Noite Preta (Kleber Albuquerque), Contraveneno (Kleber Albuquerque/Flávvio Alves) e Lava Rápido (Wandi Doratiotto). 

Informações: setesois.com.br




ROQUE SANTEIRO | o musical

Foto: João Caldas | Divulgação
A fictícia cidade de Asa Branca é cenário para uma trama na qual o bem-estar do cidadão serve como fachada para interesses próprios. Políticos e religiosos seguem se estranhando, mas nem tanto. Na hora do agrado, todos chegam a um acordo.

Não se trata de uma adaptação da novela que foi ao ar nos anos oitenta. O musical é baseado na peça de teatro O Berço do Herói, escrita por Dias Gomes nos anos sessenta, que foi censurada. A novela também é baseada nessa peça, mas o musical segue a trama da peça, e se diferencia em muito da adaptação feita para a novela.  

Em cartaz no teatro FAAP, em São Paulo, Roque Santeiro | o musical conta a história do Cabo Roque, que foi declarado morto durante uma batalha. A partir desse ocorrido, um herói é forjado, criando-se uma lenda e um mercado em torno dela. Durante anos, Asa Branca vive do turismo gerado pela história de Roque Santeiro e sobrevive aos interesses de figuras da política e da igreja.

Sustentar uma mentira, com seu protagonista morto, é uma coisa. Porém, quando Roque volta à cidade, sem qualquer problema em enfatizar sua covardia ao encarar o campo de batalha, os que criaram essa fonte de renda voluptuosa se veem de cara com a possibilidade da ruína, e começam a pensar em uma forma de se livrarem do problema.

Os personagens de Roque Santeiro são sedutores. Das moçoilas sob a batuta da atinada Matilde (Luciana Carnieli), dona do bordel, passando pela nada discreta viúva Porcina (Livia Camargo) e seu comparsa Sinhozinho Malta (Jarbas Homem de Mello), chegando ao problema em si, Roque (Flávio Tolezani), o cômico se mistura ao trágico, e enquanto o espectador gargalha, também compreende o quão inocente o culpado pode parecer ao contar a mentira como se fosse verdade absoluta. O quanto o inocente, ás vezes, prefere mergulhar na mentira a ter o trabalho de lidar com a verdade.

Zeca Baleiro é responsável pela direção musical. Ele musicou letras existentes, de autoria de Dias Gomes, e compôs outras. Alguns atores e dois músicos - André Bedurê (baixo e violão), que conheço de outros palcos, e Érico Theobaldo (guitarra, percussão e eletrônicos) - interpretam as canções ao vivo. Da trilha sonora original, somente duas: Dona e ABC do Santeiro, ambas de Sá e Guarabyra.

Roque Santeiro | o musical me agradou muito. Gostei das interpretações, da música, dos diálogos. Os atores estão ótimos, e não há como negar que os momentos entre Sinhozinho Malta e viúva Porcina, assim como as intervenções de Toninho Jiló (Marco França), enriquecem a trama. A direção é de Débora Dubois.

Aos que ainda não assistiram ao espetáculo, não deixem passar a oportunidade. Roque Santeiro | o musical ficará em cartaz até dia 14 de maio.

ROQUE SANTEIRO | o musical

Até 14/05/17

Texto: Dias Gomes.
Direção: Débora Dubois.
Direção musical: Zeca Baleiro.

ELENCO: Jarbas Homem de Mello, Livia Camargo, Flavio Tolezani, Mel Lisboa, Luciana Carnieli, Edson Montenegro, Dagoberto Feliz, Nábia Villela, Yael Pecarovich, Giselle Lima, Marco França, Samuel de Assis, Cristiano Tomiossi.

LOCAL
Teatro FAAP
Rua Alagoas, 903
Higienópolis | São Paulo | SP

DIAS E HORÁRIOS
Sextas e sábados | 21h
Domingos | 18h

INGRESSOS
Bilheteria: quarta a sábado | das 14h às 20h * Domingo | das 14h às 17h.
Televendas: 11 3662 7233 | 3662 7234
Pela internet: clique aqui.

Indicação: 14 anos
Duração: 120 minutos

https://www.facebook.com/roquesanteiroomusical

segunda-feira, 13 de março de 2017

Mariachi Gringo


Mariachi Gringo (El Mariachi Gringo/2012) é um desses filmes no qual esbarramos muito sem querer, do qual nada mais esperamos, além de entretenimento, e que nos surpreende de uma forma agradável. É como quando encontramos dinheiro nos bolsos de um casaco que não usamos há tempos.

A qualificação dos filmes me deixa incomodada. Certamente, a pessoa que o qualificou não assistiu ao filme, leu o título e achou que havia entendido tudo. Dirigido por Tom Gustafson e escrito por Cory Krueckeberg, Mariachi Gringo não é comédia. Ao contrário, conta história de um homem de quase trinta anos, que vive em uma cidade do interior, leva uma vida, assim mesmo, levando. Alguém que não sabe quem é ou quem poderia se tornar.

Shawn Ashmore, que interpreta o personagem em questão, é conhecido por suas participações em séries e filmes. Particularmente, gosto muito do trabalho dele na série The Following, e a mais recente é Conviction. A maioria, porém, deve conhecê-lo como Iceman, o Homem de Gelo dos filmes X-Men e Esquadrão de Heróis.

Em meio a uma crise existencial, guiada por remédios para depressão, Robert conhece um mexicano, dono de um bar que frequenta, que desperta novamente nele o desejo de voltar à música. Quando mais jovem, antes da crise atual, Robert tinha o sonho de sair por aí com sua banda. A música não é algo visto com bons olhos pela família, principalmente pela mãe. Na verdade, eles a consideram completamente sem importância.

A paixão de Alberto (Fernando Becerril) por Guadalajara (México) e pela música Mariachi, encanta Robert de tal forma, que ele pede para que o dono do bar El Mariachi o ensine a tocá-la. A amizade deles se estreita, conforme Robert aprende mais sobre o México, sua música e os Mariachis, os intérpretes dessa música.


Com o aprendizado, Robert vai se fortalecendo, sentindo-se mais vivo. Quando Alberto fica doente, ele se sente tão desalentado, que decide encarar uma nova jornada: tornar-se um Mariachi em Guadalajara.

A princípio, a história nos leva a imaginar diversos desfechos. Porém, durante o desenrolar da trama, percebemos que tudo o que tínhamos por certo vai caindo por terra, como acontece ao próprio personagem principal. 

O espectador acompanha as nuances da história e há momentos para gargalhadas, porque assim funciona a vida. Porém, Mariachi Gringo é um drama, relacionado ao estado de espírito de quem decide, depois de encarar a depressão e a impossibilidade de sair do lugar, a aventura de mergulhar em uma cultura completamente diferente da sua, e lá encontrar sentido para existir.

O próprio espectador se sentirá atraído por Guadalajara. Compreenderá um pouco melhor os Mariachis, perceberá que é muito fácil cair nas tramas alheias e não conseguir se desvencilhar delas. E também o valor da cultura de um povo, assim como dos laços que criamos com aqueles que encontramos durante a jornada da nossa vida.

E ainda tem Lila Downs...