segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Aos que nos ensinam a aprender


Conheço alguns professores. Há algo neles que me deixa admirada, não apenas pela dedicação em ensinar, mas também pela capacidade deles de reconhecer em seus alunos o caminho a seguir para que eles aprendam o ensinado.

Sei que isso é bem complicado com as salas de aula cheias... prestar atenção em cada aluno e entender que há diferença na forma como eles aprendem. Encontrar opções mais abrangentes, que vão além do ensino padronizado, porém, atendendo ao programa de ensino. Mas é isso... às vezes, precisamos que aquele que nos guia entenda que somos diferentes da maioria. Que é preciso trabalho extra para que alcancemos aquele entendimento.

Ensinar é de uma lindeza sem fim. Tive a sorte de ter professores admiráveis, mas nem sempre na sala de aula. Professores que a vida me apresentou. Na sala de aula, posso citar duas professoras que conseguiram entender como eu funcionava, e me ajudaram a aprender, em um momento em que olhar para os lados era um problema para mim. Dona Beatriz e Dona Amelinha, professoras de Português e de História. As aulas delas eram uma verdadeira viagem, porque é muito, mas muito bom quando somos capazes de nos conectarmos com o que é ensinado, por conta da paixão de quem ensina. Serei eternamente grata a elas.

Eu gosto de aprender e esse gosto me aconteceu logo na infância. Sempre fui curiosa sobre como isso serve para aquilo; como essa pessoa funciona assim e aquela outra funciona de outro jeito. A curiosidade é o princípio de um conhecimento que vamos adquirindo com as nossas experiências. Também é algo que muitos professores têm de trabalhar arduamente para despertar em seus alunos. Está lá, nem todos acessam com facilidade.

Tenho amigos professores. Já escutei muitas histórias ligadas ao cotidiano deles. Algumas são de encher o espírito de contentamento, porque é muito bom ver alguém aprendendo, conquistando seu espaço, e então, ensinando também. Outras são de entristecer profundamente. É a desqualificação da profissão enfrentando a desqualificação do aluno como ser humano. Pessoas que não enxergam no aprendizado uma saída para a vida caótica que levam. É a violência, física e emocional, ganhando terreno.

Hoje, agradeço a todos os professores que passaram pela minha vida. Há tanto valor na arte de passar adiante um conhecimento, que temos de celebrá-los. Hoje, celebro a todos os professores, ainda que eu não saiba seus nomes, nunca os tenha encontrado, frequentado suas aulas ou até mesmo conversado com eles. Não há distância no que acredito: quem ensina proporciona a quem aprende a possibilidade de enfrentar os desafios que a vida oferece, assim como valorizar conquistas, as próprias e as das outras pessoas.

Hoje, agradeço a todos que me ensinaram e aos que continuam a me ensinar, seja na hora da aula ou durante um café. Que possamos compreender, de maneira a aproveitarmos essa compreensão, que somos todos capazes de aprender a dignidade, a justiça, a gentileza, a ciência, o português, a biologia, a música, mais um idioma, a culinária, a engenharia, a matemática, a medicina, o respeito, a moda...

Toda a minha admiração e gratidão aos professores.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O dia em que Kleber Albuquerque leu o que estava escrito no muro


Lembro-me de quando li o título daquele disco, pela primeira vez. Minha cachola, toda enredada nos tantos pensamentos pulsantes que abriga, aquietou-se por um instante, dedicando-se ao lido: Para a Inveja dos Tristes.

Uns segundos depois, ela, a minha cachola, descarrilou punhados de pensamentos diversos novamente e me peguei imaginando que aquele daria um ótimo título para um livro. Que história contaria? Como seriam seus personagens? Em quais paragens eles estariam? O que, de fato, causaria inveja nos tristes? Uma tristeza menor, que provocasse nos tristes o desejo de senti-la? Uma alegria retumbante, das de deixar qualquer triste morrendo de vontade de ser feliz?

O disco era um apanhado de histórias que me agradou escutar. Daria um livro, mas era disco, dos que moram na minha preferência. Para mim, quem consegue silenciar meus pensamentos, ainda que por segundos, e com tão poucas palavras, e em seguida me inspirar tantas possibilidades, não apenas chama a minha atenção, mas acaba se tornando destinatário dela.

Sábado passado, fui ao show de Kleber Albuquerque nesse espaço muito interessante e acolhedor, o Casa Teatro de Utopias. O espaço cultural fica na Lapa, São Paulo, e vale conferir a agenda e conhecer o lugar: casateatrodeutopias.com.br.

O evento marcou o lançamento do single Os Antidepressivos Vão Parar de Funcionar, que fará parte do próximo disco do cantor e compositor. As canções que compõem o disco serão disponibilizadas homeopaticamente (sic) nas principais plataformas digitais. O disco físico será lançado em 2019.

Kleber Albuquerque
Ele leu a frase pichada em muro da cidade de São Paulo. Transportar o impacto que ela lhe causou para uma canção, deu início à criação de uma coleção de canções com letras poeticamente melancólicas, embrulhadas em diversidade musical e esperança dramaticamente descarada.

Kleber Albuquerque tem o dom de sintetizar em canções emoções arrebatadoras. E ele o faz com uma linguagem travestida de singeleza, porque há um refinamento no seu fazer poético que poucos conseguem alcançar, principalmente quando se trata de trançar poesia e música.   

Em tempos em que as palavras ecoam soltas, nem sempre combinadas de forma a celebrar o melhor do ser humano, a música de Kleber Albuquerque chega para desarrumar certezas e abrandar auguras. Há um significado ali, bradado pela voz, refletidos na melodia, ritmado nas cordas do violão, na sua postura no palco. Aliás, o palco cai muito bem ao artista, e a forma como o público corresponde ao oferecido por ele é a prova de que a música desse poeta tem muito a dizer e a inspirar. 

O show contou com uma série de momentos especiais.

Foi muito bom conhecer novas canções e recordar tantas outras. A participação de Rovilson Pascoal (violão/guitarra/ukulele) é sempre apreciável, visto que se trata de um ótimo músico para se travar parcerias. Eu o acho um grande instrumentista. 

Foi maravilhosa a participação de Rubi, que junto com Kleber lançou Contraveneno, um disco que é uma lindeza, que resultou em um dos shows mais bacanas que já assisti [clique AQUI para ler sobre o Contraveneno]. Foi emocionante quando eles tocaram Eta Nóis, canção de Luhli e Lucina, que faz parte do Contraveneno. Luhli faleceu semana passada e deixou muitos admiradores de sua música. 

Kleber Albuquerque e Rubi foram indicados para o 29º Prêmio de Música Brasileira, na categoria dupla, por conta do Contraveneno.

Também foi muito especial assistir ao show de um amigo tão querido, na companhia de outros amigos. 

A discografia de Kleber Albuquerque faz parte da trilha sonora da minha biografia, há seis discos – quase sete, se contarmos este que está em fase de criação – e tantos shows, tantos bate-papos, as criações dele inspiram as minhas, além de me ajudarem a compreender o mundo das contradições. São crônicas musicais, misturadas a relatos comoventes e a mergulhos interiores capazes de tocar até o coração escolado em evitar se entregar aos rompantes emocionais. 

Kleber Albuquerque é um artista plural. Assistir a um show dele é sempre uma experiência inspiradora. Conhecer suas canções - que fique o alerta! -, é correr o risco de se embrenhar em autoconhecimento. Não há como passar despercebido pela música dele. Sendo assim, aos que acompanham a carreira dele e aos que desejam conhecer uma obra que vale a pena ser conhecida, acompanhem a jornada do Os Antidepressivos Vão Parar de Funcionar. Acompanhe a trajetória desse artista que, para a inveja dos que sabem apenas ser tristes, sabe transformar tristeza em possibilidade para se abraçar felicidade.

Os Antidepressivos Vão Parar de Funcionar
Confira algumas canções: 
kleberalbuquerque.com.br/antidepressivos

Conheça e acompanhe:
Site oficial: kleberalbuquerque.com.br
Facebook: facebook.com/kleber.albuquerque
Instagram: instagram.com/kleberalbuquerqueoficial
Twitter: twitter.com/kleberalbuquer
YouTube: youtube.com/kfa17


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Meu afeto pelos filmes e Alan Parker

Eu sempre gostei de filmes. Menina, costumava assistir a qualquer um que passasse na tevê, mas não os de terror. Esses sempre me deixavam meio agoniada, então os evitava. Eu os evito até hoje, apesar de abrir exceções para certos atrevimentos.

Não era apenas entretenimento. Eu queria mais daqueles filmes. Eu queria entender como eles funcionavam. Minha curiosidade se apegava aos detalhes: de onde veio a ideia para aquele determinado diálogo? Por que a câmera olha para os atores daquele jeito? Qual o motivo para aquela coreografia de gestos dos atores? Que cores são aquelas? De onde ele tirou aquele olhar? De onde veio o suspiro dela? E aquelas lágrimas? Aqueles sorrisos? Aquela violência? Aquela sala apinhada de sabe-se lá o quê? Aquele silêncio prefaciando um grito?

Há duas coisas que eu estudaria, se a minha vida já não se atrapalhasse durante as 24 horas do dia: cinema e violoncelo.

Apesar de achar muito interessante alguns filmes em que o foco são os efeitos especiais, o que realmente me pega é o olhar mais íntimo: uma boa história, fotografia que se desenvolve – e se envolve bem - com o texto, diálogos bem construídos, direção competente, atuações inspiradas, trilha sonora que se mistura lindamente a tudo isso.

Assisti a um programa sobre um dos diretores que mais admiro: Alan Parker. O bom do especial era que o próprio diretor contava sua trajetória, abordava curiosidades do por trás das câmeras e citava complicações, histórias que são sempre muito bem-vindas e podem atuar perfeitamente como aprendizado.

Alan Parker
Não descarto um filme de Alan Parker. Cada um deles tem a sua peculiaridade e a sua riqueza. De O Expresso da Meia-Noite (Midnight Express/1978), passando pela aula que é assistir Mickey Rourke e Robert De Niro contracenando em Coração Satânico (Angel Heart/1987) e  Gene Hackman e Willem Dafoe em Mississipi em Chamas (Mississipi Burning/1988), chegando à complexidade de As Cinzas de Ângela (Angela’s Ashes/1999) e A Vida de David Gale (The Life of David Gale/2003).

Coração Satânico/Angel Hart | Robert de Niro e Mickey Rourke
É impossível pensar em Alan Parker e não se voltar à conexão dele com a música: Fama (Fame/1980), Pink Floyd – The Wall (1982), The Commitments – Loucos Pela Fama (The Commitments/1991) e Evita (1996).

Pink Floyd - The Wall
Assistir a um filme pode ser apenas entretenimento. Também pode ser mais, ir além. Alguns filmes merecem a época deles e conquistam as que chegam. Nem sempre remake é necessário, aliás, acontece de serem pra lá de dispensáveis.

É bom pensar em filmes como um calendário da nossa própria história. Alan Parker é um dos diretores que fez parte da minha predileção por filmes considerados mais simples tecnologicamente, mas requintados na sua construção. Às vezes, a simplicidade é complexa e conta com muitas camadas.
The Commitments
Enfim, eu sempre gostei de filmes, e os de Alan Parker fisgaram a minha curiosidade. Sempre aprendi com os filmes, e muito desse aprendizado acaba nos livros que escrevo. Uma das minhas alegrias foi quando Eduardo Loureiro Jr., ao escrever o prefácio do meu romance, Jardim de Agnes, disse: “Este livro não merecia um prefácio, mas um trailer. Este livro não é feito de capítulos, mas de cenas. Você tem vontade de ler de uma só vez. E, quando acaba, você aperta os olhos e tenta se acostumar com a luz acesa da realidade.”

Não sou escritora apegada à descrição de ambientes e características físicas. Meu foco está sempre no personagem e seus enfrentamentos. Ainda assim, é muito comum alguém dizer que, ao ler minhas histórias, sente-se como se assistisse a um filme. Essa ideia pode até não forjar uma roteirista de cinema em mim – acreditem, eu tentei e me diverti, mas foi só isso –, mas mostra o quanto o cinema é importante para a minha escrita.

O mais próximo que cheguei da linguagem do cinema, foi quando um conto do meu livro O observador foi adaptado para um curta. Na verdade, o conto está lá, sendo narrado, e o francês Émilien Berenfeld é responsável pelo filme. Fiquei muito feliz com esse projeto, que acabou reunindo pessoas muito interessantes, incluindo alguns queridos amigos. O conto Lembretes ganhou uma versão em inglês, Reminders, e o filme conta com legendas em português e francês. Segue no final, para quem quiser assisti-lo.

Documentários são importantes. Ultimamente, tenho assistido a muitos e de todas as áreas. Conhecer mais a respeito daqueles que influenciam o nosso mundo, saber que muito do que temos e fazemos hoje se deve à visão que eles tiveram, não é apenas reconhecimento do mérito dessas pessoas na História, mas também enriquecimento da nossa própria linguagem. É aprendizado e, como todo aprendizado que visa a construção, vale a pena.

Então, vamos a ele... ao aprendizado.


terça-feira, 4 de julho de 2017

QUINTAL, MÚSICA E PINTURAS

Foto © Rodrigo Scó

Assim como muitos, estou meio borocoxô com as ciladas nas quais andamos caindo. É a política que corta, a incivilidade que joga sal na ferida. Fica tudo meio dormente e enlouquecido, de jeito que inspira um desolamento ruminado à exaustão.

Daí que fica tudo meio sonso, dá preguiça existencial. A gente se encosta nessa melancolia de quem não sabe para onde correr, por onde começar a desfiar esse novelo.

Nessas horas, a arte se prova cada vez mais merecedora de atenção e cuidado. Para os que duvidam do seu valor, saibam que ela tem papel fundamental na nossa formação humana. Pois em dias como esses, em que nos sentimos desalentados e atormentados que só, meio que largados à beira do caminho, vem a arte e faz arte com a gente.

Sexta passada, fui a um evento do qual um amigo participou, no bairro onde moro. Não sabia nada a respeito, apenas que gostaria de estar lá por ele e pelo quentão. Era Festa Junina e eu estava louca por um quentão. A festa aconteceu no quintal de uma casa, e além das bebidas e comidas temáticas, durante o show os artistas transformariam a tela em branco em uma de suas obras.


Vanessa Moreno e Fi Maróstica © Dani Gurgel

Eu sempre gostei desse ponto onde diferentes linguagens artísticas se encontram. Aconteceu de o show ser de uma dupla que anda no meu play ultimamente: Vanessa Moreno e Fi Maróstica. Voz e baixo, uma lindeza de colorido rítmico. Os músicos tocaram dentro da piscina vazia, o que eu achei o maior barato. Ao lado, quatro artistas trabalhavam em suas telas, enquanto a música era espalhada pelo recinto: Pamela Munhoz, Jeng Ho, Rodrigo Scó e JotaVe. 

Obra © Pamela Munhoz | Foto © Rodrigo Scó

Assistir a essa feitura – música sendo tocada e telas ganhando vida – foi uma experiência muito especial. Na música, impressionou-me o ritmo e a leveza de Vanessa e Fi. Já era fã, agora, adquiri a carteirinha. Nas telas, as imagens pareciam acontecer, porque, para quem nem consegue desenhar uma casinha decente, observar aquelas lindezas surgindo era meio que assistir à construção de um afeto; a um milagre pessoal alheio que, sem querer, também nos abençoa.


Obra © Jeng Ho | Foto © Rodrigo Scó

Daí que meu espírito ficou atiçado, a fim de se encantar até mais que os desapontamentos, que assim ele terá forças para não se desiludir de jeito sem volta. A cada vez que eu mesma questiono o motivo de a arte existir, de eu me enveredar por esse caminho como quem cria e aprecia as criações, vem um evento desses e coloca meu espírito no lugar. Essa lufada de arte pode não dar jeito no problema, mas pode aprimorar o espírito daqueles que podem resolvê-los. Nossos espíritos.


Obra © Rodrigo Scó | Foto © Rodrigo Scó

O evento faz parte do projeto Impulso, da cantora e compositora Barbara Rodrix e da artista plástica Pamela Munhoz. Eu já havia conferido algo parecido com o projeto de Kleber Albuquerque e o seu Teatro Imaginário da Fábrica de Caleidoscópios.


Obra © JotaVe | Foto © Rodrigo Scó

Quando eu era menina, o quintal de casa era um mundo inteiro cabendo ali. Minha imaginação trabalhava muito para montar cenários imaginários. Quem participa de eventos como os promovidos por esses artistas, acaba em quintais ainda mais deslumbrantes e fantásticos, nos quais a arte é um presente a ser compartilhado. 

Por mais quintais repletos de pessoas fazendo e apreciando arte. 


Vanessa Moreno e Fi Maróstica  | Extra | Do disco Cores Vivas, com canções de Gilberto Gil


** Meu amigo é o Rodrigo Scó. Ao longo dos anos, ele tem me emprestado várias obras para ilustrar os meus textos. Ano passado, uma delas se tornou capa do meu livro de contos, O Observador. Por isso, além da beleza de suas obras, agradeço a gentileza de ele me permitir trazê-las para meu universo.

** Minha companhia da noite foi a amiga para tudo quanto é evento, a Rubia Elias. Assim, só posso desejar a todos o que acontece comigo: que seus amigos sejam bem bacanas. Tenho certeza de que, dessa forma, você também o será.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Kleber Albuquerque + Rubi | Contraveneno



LÁ PELAS BANDAS DO CONTENTAMENTO

A primeira vez que os vi em um mesmo palco foi em 2003, no show do lançamento do disco O Centro Está Em Todas As Partes, de Kleber Albuquerque. Rubi entrou em cena para cantar uma das canções do disco. Até então, eu não conhecia aquela voz.

Conhecia o Kleber, mas não nos falávamos há tantos anos, desde a gravação do disco da banda O Palhaço, lá em Santo André, nossa cidade. Eu estava feliz com o reencontro, porque na conta dele estava a estima que sentia pelas canções dos discos anteriores de Kleber: 17.777.700 e Para a inveja dos tristes.

Meu apreço pela música do Kleber não é segredo. Eu gosto mesmo, faço propaganda, apresento aos amigos. A sua poesia é de uma lindeza que me toca profundamente, e que me inspirou a escrever um livro de poemas. Meu apreço por ele, idem. É um amigo pra lá de querido, um artista que me inspira, uma pessoa admirável.

Daquele show para cá, frequentei outros shows do Kleber e do Rubi. Com eles juntos, um do grupo Canto de Cozinha. Na pilha dos discos pelo qual me apaixonei, está o Infinito Portátil, que Rubi lançou em 2006.

Sábado passado, dia 8 de abril, fui ao show de lançamento do disco Contraveneno, projeto que colocou no mesmo palco, e no mesmo disco, Kleber Albuquerque e Rubi. Para quem os conhece, sabe que daí só sairia coisa boa mesmo. Não é pretensão, papo de fã, mas fato. Eles são talentosos e, em sintonia, criam mágica. Quem estava lá, no show de sábado, pode endossar o que digo.

Rubi e Kleber Albuquerque
Contraveneno é uma declaração de amor à parceria deles. Kleber e Rubi resgataram canções que gostavam de tocar e cantar juntos, incluíram outras canções no repertório e fizeram um trabalho delicado, daquele tipo de delicadeza que nos silencia e nos leva a escutar canções como se elas ecoassem dentro de nós.

O show foi uma experiência para os sentidos. Emocionar-se foi ingrediente básico da experiência. A música vinha dos violões de Kleber e Rubi, do violão e guitarra de Rovilson Pascoal e do violoncelo de Mario Manga. Aliás, o violoncelo que me agradou deveras. Eu que tenho por ele uma paixão platônica, já que sei que não aprenderei a tocá-lo, mas sempre vou tratá-lo com a intimidade de um quem sabe?, um dia, na próxima vida. Para o qual criei um personagem em um livro, só para colocar um músico famoso a tocar violoncelo em uma sala de paredes descascadas para uma pessoa que precisava, urgentemente, de um contato mais íntimo consigo mesma. Concertos particulares de violoncelo para quebrar silêncios insistentes.

Rovilson Pascoal eu já vi em outros palcos. Gostei muito da forma sutil, porém marcante como ele apresentou sua guitarra nas canções do show. Eram como comentários pontuais. Complementavam e, ao se sobrepor, era com sutileza.

Ao pensar em Mario Manga, impossível não pensar no Premê. Uma das músicas da banda foi incluída no disco e fez parte do repertório do show. Porém, Manga já fazia parte da história desses artistas, desde muito antes desse projeto. Ele produziu o primeiro disco de Kleber. Após escutar esse disco, Rubi procurou Manga para que ele produzisse o seu primeiro disco.

Contraveneno é reencontro, mas também continuidade. Lançado pela Sete Sóis, tem como responsável Flávvio Alves, quem também tem assinado parcerias musicais com Kleber, como a faixa-título do disco.

Projeto que vai além de se colocar mais um disco no mundo. É entregar ao mundo um contentamento, apesar das tristezas que carregamos vida afora. O show mostrou isso. A música que também serve para despertar esperanças, relembrar afetos, dispersar angústias.
  
Portanto, caso eles apareçam por aí, por perto de vocês, não deixem passar a oportunidade de ver no palco o que, tão lindamente quanto, foi registrado em disco. Vale a viagem, vale o mergulho interior, vale o contentamento de observar artistas a amarrarem os cabelos da música com os laços da poesia.

CONTRAVENENO
Canções do disco: Castelo de Amor (Nenzico/Creone/Barrerito), Procura no Google (Kleber Albuquerque), Geração (Kleber Albuquerque), Sem Tempo (Juliano Holanda), Eta Nóis (Luhli/Lucina), Ai (Kleber Albuquerque/Tata Fernandes), Cerol (Kleber Albuquerque/Flávvio Alves), Papai Noel Tomou Gardenal (Kleber Albuquerque), Como La Cigarra (Maria Elena Walsh), Milonga da Noite Preta (Kleber Albuquerque), Contraveneno (Kleber Albuquerque/Flávvio Alves) e Lava Rápido (Wandi Doratiotto). 

Informações: setesois.com.br




ROQUE SANTEIRO | o musical

Foto: João Caldas | Divulgação
A fictícia cidade de Asa Branca é cenário para uma trama na qual o bem-estar do cidadão serve como fachada para interesses próprios. Políticos e religiosos seguem se estranhando, mas nem tanto. Na hora do agrado, todos chegam a um acordo.

Não se trata de uma adaptação da novela que foi ao ar nos anos oitenta. O musical é baseado na peça de teatro O Berço do Herói, escrita por Dias Gomes nos anos sessenta, que foi censurada. A novela também é baseada nessa peça, mas o musical segue a trama da peça, e se diferencia em muito da adaptação feita para a novela.  

Em cartaz no teatro FAAP, em São Paulo, Roque Santeiro | o musical conta a história do Cabo Roque, que foi declarado morto durante uma batalha. A partir desse ocorrido, um herói é forjado, criando-se uma lenda e um mercado em torno dela. Durante anos, Asa Branca vive do turismo gerado pela história de Roque Santeiro e sobrevive aos interesses de figuras da política e da igreja.

Sustentar uma mentira, com seu protagonista morto, é uma coisa. Porém, quando Roque volta à cidade, sem qualquer problema em enfatizar sua covardia ao encarar o campo de batalha, os que criaram essa fonte de renda voluptuosa se veem de cara com a possibilidade da ruína, e começam a pensar em uma forma de se livrarem do problema.

Os personagens de Roque Santeiro são sedutores. Das moçoilas sob a batuta da atinada Matilde (Luciana Carnieli), dona do bordel, passando pela nada discreta viúva Porcina (Livia Camargo) e seu comparsa Sinhozinho Malta (Jarbas Homem de Mello), chegando ao problema em si, Roque (Flávio Tolezani), o cômico se mistura ao trágico, e enquanto o espectador gargalha, também compreende o quão inocente o culpado pode parecer ao contar a mentira como se fosse verdade absoluta. O quanto o inocente, ás vezes, prefere mergulhar na mentira a ter o trabalho de lidar com a verdade.

Zeca Baleiro é responsável pela direção musical. Ele musicou letras existentes, de autoria de Dias Gomes, e compôs outras. Alguns atores e dois músicos - André Bedurê (baixo e violão), que conheço de outros palcos, e Érico Theobaldo (guitarra, percussão e eletrônicos) - interpretam as canções ao vivo. Da trilha sonora original, somente duas: Dona e ABC do Santeiro, ambas de Sá e Guarabyra.

Roque Santeiro | o musical me agradou muito. Gostei das interpretações, da música, dos diálogos. Os atores estão ótimos, e não há como negar que os momentos entre Sinhozinho Malta e viúva Porcina, assim como as intervenções de Toninho Jiló (Marco França), enriquecem a trama. A direção é de Débora Dubois.

Aos que ainda não assistiram ao espetáculo, não deixem passar a oportunidade. Roque Santeiro | o musical ficará em cartaz até dia 14 de maio.

ROQUE SANTEIRO | o musical

Até 14/05/17

Texto: Dias Gomes.
Direção: Débora Dubois.
Direção musical: Zeca Baleiro.

ELENCO: Jarbas Homem de Mello, Livia Camargo, Flavio Tolezani, Mel Lisboa, Luciana Carnieli, Edson Montenegro, Dagoberto Feliz, Nábia Villela, Yael Pecarovich, Giselle Lima, Marco França, Samuel de Assis, Cristiano Tomiossi.

LOCAL
Teatro FAAP
Rua Alagoas, 903
Higienópolis | São Paulo | SP

DIAS E HORÁRIOS
Sextas e sábados | 21h
Domingos | 18h

INGRESSOS
Bilheteria: quarta a sábado | das 14h às 20h * Domingo | das 14h às 17h.
Televendas: 11 3662 7233 | 3662 7234
Pela internet: clique aqui.

Indicação: 14 anos
Duração: 120 minutos

https://www.facebook.com/roquesanteiroomusical

segunda-feira, 13 de março de 2017

Mariachi Gringo


Mariachi Gringo (El Mariachi Gringo/2012) é um desses filmes no qual esbarramos muito sem querer, do qual nada mais esperamos, além de entretenimento, e que nos surpreende de uma forma agradável. É como quando encontramos dinheiro nos bolsos de um casaco que não usamos há tempos.

A qualificação dos filmes me deixa incomodada. Certamente, a pessoa que o qualificou não assistiu ao filme, leu o título e achou que havia entendido tudo. Dirigido por Tom Gustafson e escrito por Cory Krueckeberg, Mariachi Gringo não é comédia. Ao contrário, conta história de um homem de quase trinta anos, que vive em uma cidade do interior, leva uma vida, assim mesmo, levando. Alguém que não sabe quem é ou quem poderia se tornar.

Shawn Ashmore, que interpreta o personagem em questão, é conhecido por suas participações em séries e filmes. Particularmente, gosto muito do trabalho dele na série The Following, e a mais recente é Conviction. A maioria, porém, deve conhecê-lo como Iceman, o Homem de Gelo dos filmes X-Men e Esquadrão de Heróis.

Em meio a uma crise existencial, guiada por remédios para depressão, Robert conhece um mexicano, dono de um bar que frequenta, que desperta novamente nele o desejo de voltar à música. Quando mais jovem, antes da crise atual, Robert tinha o sonho de sair por aí com sua banda. A música não é algo visto com bons olhos pela família, principalmente pela mãe. Na verdade, eles a consideram completamente sem importância.

A paixão de Alberto (Fernando Becerril) por Guadalajara (México) e pela música Mariachi, encanta Robert de tal forma, que ele pede para que o dono do bar El Mariachi o ensine a tocá-la. A amizade deles se estreita, conforme Robert aprende mais sobre o México, sua música e os Mariachis, os intérpretes dessa música.


Com o aprendizado, Robert vai se fortalecendo, sentindo-se mais vivo. Quando Alberto fica doente, ele se sente tão desalentado, que decide encarar uma nova jornada: tornar-se um Mariachi em Guadalajara.

A princípio, a história nos leva a imaginar diversos desfechos. Porém, durante o desenrolar da trama, percebemos que tudo o que tínhamos por certo vai caindo por terra, como acontece ao próprio personagem principal. 

O espectador acompanha as nuances da história e há momentos para gargalhadas, porque assim funciona a vida. Porém, Mariachi Gringo é um drama, relacionado ao estado de espírito de quem decide, depois de encarar a depressão e a impossibilidade de sair do lugar, a aventura de mergulhar em uma cultura completamente diferente da sua, e lá encontrar sentido para existir.

O próprio espectador se sentirá atraído por Guadalajara. Compreenderá um pouco melhor os Mariachis, perceberá que é muito fácil cair nas tramas alheias e não conseguir se desvencilhar delas. E também o valor da cultura de um povo, assim como dos laços que criamos com aqueles que encontramos durante a jornada da nossa vida.

E ainda tem Lila Downs... 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Voando para Casa | Uma boa história


Eu gosto de boas histórias. Às vezes, elas não me chegam por meio de livros ou filmes, que são as principais fontes das histórias que aprecio. Às vezes, eu esbarro com elas, como quando uma senhora passava mal, em frente onde trabalho, e em vez de entrar, ela preferiu seguir, porque no quarteirão seguinte estava o dentista com quem tinha hora marcada, alguém que a conhecia e poderia levá-la para casa. Então, eu a levei até lá. Demoramos um pouco para completar esse quarteirão. Ela se sentia um pouco melhor, mas tinha artrite, suas pernas doíam. Durante o caminho, ela me contou sobre sua paixão pela música e pelos gatos. Ela desejou ser pianista, quando menina, mas o pai não permitiu. Tornou-se ouvinte assídua de respeitáveis mestres da música clássica e popular. Após os filhos se casarem, vendo-se sozinha em casa, optou pela companhia dos gatos, e não poderia ter feito escolha melhor. Sentia-se feliz com eles.

Naquele dia, além de uma boa história, ganhei um longo abraço e a gratidão de Norma por eu tê-la levado a um lugar seguro, quando se sentia fragilizada. Essa é apenas uma das histórias que tenho para contar, porque alguém quis me contar a sua.

Jan Decleir interpreta Jos Pauwels, o dono do pombo cobiçado pelo sheik.
Sobre uma das minhas histórias, quem me conhece sabe que tenho sérios problemas com lagartixas e pombos. Ao contrário de mim, esses seres adoram intervir na minha vida. Elas caindo na minha cabeça. Eles voando contra a minha pessoa e me dando sustos. Isso significa que eu jamais escolheria um filme com lagartixas ou pombos, ou ambos no elenco. Mas o fiz hoje, para o bem desse eu que adora uma boa história.

Decidi assistir Voando para Casa (Flying Home/2014), por causa do ator. Quando gosto de um ator ou atriz, assisto aos filmes dos quais eles participam. Neste, o irlandês Jamie Dornan é o protagonista. Eu o aprecio como ator, mas não por conta do - para o meu gosto - inexpressivo 50 Tons de Cinza (Fifty Shades of Grey/2015). Antes deste filme, eu o assisti na ótima série The Fall, que maximizou a boa impressão que tive dele, por conta de sua participação no filme Maria Antonieta (2006) e da série Once Upon a Time.

Escrito e dirigido por Dominique Deruddere, Voando para Casa conta a história de Colin Montgomery (Jamie Dornan), um empresário ambicioso de Nova York, que se vê diante de um desafio: convencer um sheik árabe a se tornar cliente de sua empresa. Ao visitar o sheik, que já decidira fechar negócio com outra empresa, ele se vê diante de uma oportunidade de conquistá-lo como cliente. O sheik cria e treina pombos e tem o desejo de conseguir um que esteja apto a participar de uma das mais importantes corridas do gênero. Ele acredita que seria possível ganhar a prestigiosa corrida de Barcelona, se conseguisse comprar o pombo de um homem que vive na Bélgica, mas que se nega a vendê-lo. Conseguir o tal pombo para o sheik se torna a missão de Montgomery. Assim, ele parte para Flandres com nome e história inventada, a não ser um único aspecto.


O filme é simples. Simples como escutar sua avó ou sua mãe lhe contar uma história de família sobre pessoas que você nunca conheceu. Há romance, mas, honestamente, esse é apenas um aspecto do filme. Não toma conta dele. Outros relacionamentos pesam mais, como o de pais com filhos, dos próprios criadores de pombos com essas criaturas, dos cidadãos com sua região, do homem com o poder que se mostra menos importante do que as relações humanas. Você sabe aonde o filme o levará, porém, a sutileza com a qual o espectador é levado ao desfecho é o que faz a diferença em Voando para Casa. Trata-se de uma história bem contada, que remete ao fato de que, às vezes, por conta da série de conquistas que almejamos alcançar, esquecemos de que somos pessoas, e de que nem sempre precisamos do que desejamos intensamente.

VOANDO PARA CASA | TRAILER

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Hugh Laurie | Chance

Chance | Foto: Reprodução
Eu estava apegada ao Kenneth Branagh. Assisti Voltar a Morrer (Dead Again/1991) e queria mais. Até hoje ele é dos meus atores e diretores preferidos. Na época, quando internet era realidade que não a minha, descobri outro filme no qual, assim como em Voltar a morrer, ele atuou e dirigiu.

Para o resto das nossas vidas | Foto © Samuel Goldwyn

Para o resto de nossas vidas (Peter’s Friends/1992) conta a história de Peter Morton (Stephen Fry), que herdou de seu pai o título de lorde e uma mansão. Para celebrar, ele reúne um grupo de amigos da época da faculdade para um final de semana na tal mansão. É um filme singelo e muito interessante, que os amigos trazem seus dramas para a vida de Peter, quem tem um segredo para revelar que se sobrepõe as questões de seus amigos.


Foi assim que eu conferi, pela primeira vez, um trabalho de Hugh Laurie.

Alguns anos e algumas participações em filmes depois, fiquei sabendo que Dave Matthews (Dave Matthews Band) participara de um episódio de uma série que eu, que adoro séries, tinha escolhido não assistir, porque já havia três na lista de favoritas que tinham a ver com médicos. Como não sou de começar pela metade, decidi assistir a série do primeiro episódio ao 15º da terceira temporada, o tal com a participação do músico. Foi assim que Hugh Laurie entrou de vez para a lista das minhas benquerenças.

House, M.D. | Foto: Reprodução
House, M.D. foi uma série de sucesso, com oito temporadas. Laurie construiu um personagem que jamais será esquecido. E por mais talentoso que ele fosse, ele apropriara-se de tal forma de House que eu tinha a impressão de que o médico acabaria arranjando um cantinho no puxadinho de seus próximos personagens.

Mr. Pip | Foto: Reprodução
O primeiro trabalho de Laurie que conferi, após o fim de House, apagou essa possibilidade dos meus sentidos. Mr. Pip (2012) é um filme delicado, uma adaptação do livro do neozelandês Lloyd Jones, com roteiro e direção de Andrew Adamson, uma parceria entre Austrália, Papua Nova Guiné e Nova Zelândia.

Mr. Pip é conduzido por Matilda Naimo (Yzannjah Matsi), uma das habitantes de  Bougainville, Papua Nova Guiné, que passa por uma guerra. Por esse motivo, apenas um homem branco permaneceu na ilha, Tom Watts (Laurie). Em meio à guerra e ao abandono, Watts começa a ler Grandes Esperanças, de Charles Dickens, na escola da ilha. Matilda fica maravilhada com o livro, e passa a lidar com a guerra e as perdas, apoiando-se na sua imaginação.

Mr. Pip é um belíssimo filme sobre como uma pessoa pode fazer diferença na vida de outra, de maneira valiosa. É uma história repleta de nuances, que nos leva do aqui ao ali em um misto de desolação e esperança. Um filme agridoce, com um Laurie quase sempre silente e sendo fantástico.

Chance | Foto: Reprodução
Em outubro, estreou a série Chance, com Hugh Laurie como protagonista. Senti novamente aquele questionamento: será que House vai tomar conta? Isso porque a série coloca Laurie novamente em contato com a medicina.

Chance conta a história do neuropsiquiatra Dr. Eldon Chance, que passa por um divórcio e percebe que sua mente anda acessando lugares obscuros, principalmente quando se vê enredado em uma trama de manipulação e abuso ao se envolver com uma de suas pacientes que sofre de múltiplas personalidades.

Hugh Laurie é um ator daqueles que marcam o espectador, mas não na conta de apenas um personagem. Chance é uma ótima série, mas é outra.

Foto: Reprodução
Desde Para o resto de nossas vidas, tem sido prazeroso acompanhar a carreira de Hugh Laurie. Não importa a categoria: drama, comédia, suspense. Até mesmo as linguagens se misturam: cinema, televisão, música, literatura. O que sei é que ele é um daqueles artistas que nos fazem mergulhar em seus feitos, e isso é muito agradável.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O Relutante Fundamentalista


Há filmes que são preciosidades. Muitos deles, tornam-se atemporais, pois abordam o ser humano em sua inegável capacidade de ser benevolente, assim como cruel. Há também aqueles que são brilhantes em sua abordagem, que nos levam a olhar para grandes tragédias como que observando cada criminoso, cada vítima. Há uma proximidade que nos leva a observar com mais intimidade nosso próprio comportamento.

O Relutante Fundamentalista (The Reluctant Fundamentalist) é um desses filmes que nos inquieta e nos leva a uma jornada interior. Parte de um ato terrorista, com milhares de vítimas, e aporta na vida de um único personagem, alguém que sofre as consequências de tal ato, o que se mostra revelador, apontando um comportamento que tendemos a trazer para a vida de cidadão comum.


O filme é pontuado pelo momento em que o professor paquistanês Changez (Riz Ahmed) aceita conceder uma entrevista ao jornalista americano radicado no Paquistão, Bobby Lincoln (Liev Schreiber), sobre a época em que estudou nos Estados Unidos e se tornou um ilustre analista financeiro em Wall Street, sua volta a Lahore e o momento atual, quando sua família sofre ameaças constantes.


Trata-se de um “antes e depois” do paquistanês. A ideia de focar em um personagem para ilustrar a situação dos muçulmanos que viviam nos Estados Unidos, após o 11 de setembro, oferece intimidade que permite ao espectador se colocar no lugar dele. Porém, O Relutante Fundamentalista não trata somente de um lado das partes envolvidas em tal episódio. O filme demonstra que, em tempos de terrorismo, a verdade nem sempre tem espaço, o que é triste e se reflete no nosso cotidiano.

O sonho de Changez era ser quem se tornou. Apesar de a família insistir pela sua volta ao Paquistão, ele escolheu seguir seu próprio caminho. Então, ser quem se tornou já não importava mais. Vieram os rótulos, as deduções, as detenções. A transformação de Changez, até o momento em que decide voltar para Lahore, acontece pela pressão por ele ser um paquistanês, um muçulmano vivendo em Nova York.

De volta a Lahore, tornou-se um professor querido pelos alunos, e por isso, visto como um líder. Então, um professor americano é sequestrado no Paquistão, e as suspeitas caem sobre Changez.


A entrevista, o que Lincoln traz para esse encontro, a série de armadilhas para a compreensão de um a respeito do outro, mostram O Relutante Fundamentalista como um filme sobre a fragilidade humana diante das tragédias. Sobre como o ódio entre os de díspares culturas pode engolir até mesmo aqueles que ainda querem, precisam e acreditam na verdade.

O Relutante Fundamentalista  é uma coprodução entre EUA, Inglaterra e Qatar. Baseado no livro do paquistanês Mohsin Hamid, dirigido pela indiana, radicada nos Estados Unidos, Mira Nair, foi lançado em 2012. Também conta com as participações de Kiefer Sutherland e Kate Hudson no elenco.

--

NOTA
Encontrei pela internet sites, artigos e imagens promocionais que trazem o título em português do filme como O FUNDAMENTALISTA RELUTANTE. Este é o título do livro de Hamid. O título do filme é O RELUTANTE FUNDAMENTALISTA, como consta no site da distribuidora [clique aqui e confira] e você pode tirar a dúvida conferindo ambos, filme e livro, clicando aqui.